De profecias e humilhação

De profecias e humilhação

Nas minhas crenças, todo tricolor é profeta. Somos videntes, adivinhadores do futuro. Pregamos no deserto. Há aqueles que comem gafanhotos, repetindo tradições imemoriais. Gafanhotos, principalmente na manteiga, dão esperança, dizem os haríolos. Já Dimas, sempre procurando a diferença, prefere cogumelos. E chega ao deserto de bicicleta, como é agora moda no Recife, com colante bem apertado no corpo e capacete psicodélico. _Tem cogumelo no deserto? Pergunto. _É cogumelo que nasce da bosta do boi. Responde, muito sério, nosso Editor-Mor _E tem boi no deserto? Sem boi, tem bosta? Dimas fica silencioso. Parece entrar em transe. Recita um mantra inaudível. _Quando não tem boi, logo, quando não tem bosta, como mandacaru. _Aaah… e dá barato? _Dá náuseas. _Aaah… Como sempre, a lógica dimástica é irreparável. – Sou profeta woodstock, diz com bravura. E passa a defender, com solilóquios, Mujica e Montevidéu. Infelizmente, entendo pouco ou quase nada de sua argumentação, mas admiro sua retórica, ainda mais empanturrada de cogumelos ou mandacarus místicos. Bem, confesso que inseto, cogumelo e mandacaru me dão azia, por isso levo ao deserto biscoitos Cream Cracker (integral, vale dizer) ou bolachas de Água & Sal da Marilan. Em matéria de profecia, sou da tradição asceta e, como tal, um chato de galocha, o que seria contradição suprema, pois não chove no deserto. Comendo biscoitos ou bolachas, sou profeta do Apocalipse. A dieta define a profecia, caros amigos. E os profetas mais pessimistas são aqueles que vivem de bolachas. Não causa surpresa que minhas profecias são abomináveis e, nesse sentido, extremamente chatas. Santana Moura, por exemplo, tem calafrios quando me escuta. Ela me respeita como profeta. _Tuas sobrancelhas são grossas. Diz a sábia do TC. _Qual é a relação disso com profecias? Indago. _Não sei… E elas estão ficando brancas. Santana Moura tergiversa. Sabe das minhas profecias. Tem medo. Previ (inclusive, coloquei aqui no blog) que seríamos desclassificados da Copa Nordeste. Antevi que perderíamos o tetra. Pressagiei que um réptil nos tirará da Copa do Brasil. E, enfim, vaticinei que voltaríamos à série C. Tive a última profecia depois de comer uma bolacha estragada. É de lascar, essa profecia. Verga a alma de qualquer tricolor. Na realidade, é insuportável. Para afugentá-la de meu espírito, como doces e tento engordar. Gordura e adivinhações não combinam. Não existem profetas gordos, já anunciara o Manuscrito Apócrifo de Samid — texto proibido pelo Cânone. É tabu. Está escrito que um primo...

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De canalhice em canalhice, a gente vai tomando na jaca

De canalhice em canalhice, a gente vai tomando na jaca

Começaria a crônica anunciando maldições, o escambau. É muito azar, diria e levantaria as mãos aos céus — Eloi Eloi lama sabachthani? Mas estou com o medo terrível de que, uma vez pronunciado nomes em vão, as contingências sem limites do Destino destruam o mistério da transcendência tricolor. Portanto, nesse momento, prefiro alguns caminhos seculares para entender essa confusão na qual os sacanas do futebol colocaram o Clube do Santo Nome. Porque só pode ser sacanagem, vamos combinar. Uma dívida de 2008 tira seis pontos do Betim no meio de uma competição em 2013. É a FIFA, caros amigos, a gerontocracia mais safada do planeta. E imaginaríamos, aqui, um efeito dominó infernal no futebol brasileiro, tirando pontos de todos os clubes endividados e colocando o Flamengo na série Z. Não, isso não aconteceu, imaginem, era apenas uma pegadinha. Como o Betim perdeu pontos na fase de classificação do mata-mata, cujo adversário é o Santinha, pensaríamos que nosso clube estivesse automaticamente classificado — e na série B. Que nada, a CBF impôs o time de Rivaldo, o Mogi-Mirim. Qual foi a lógica dessa decisão? Aparentemente, nenhuma, segundo o Coronel Peçonha (leia aqui). Se a lógica jurídica não embasou a justiça, qual foi aquela que pôs o Mogi-Mirim na disputa? Desconfio que tenha sido a política, uma lógica que pode, segundo a modalidade, engabelar a justiça. Ora, alguém põe a mão no fogo pela CBF? Digamos que estamos diante de um consenso absoluto da cidadania brasileira: ninguém torrará a mão, porque a CBF não presta. Vejam que escrevi “cidadania brasileira”, pois queria decência no argumento. Evidentemente, existem pessoas com as mãos em chamas pela CBF, a começar pelo presidente de uma federação muito bem conhecida dos habitantes da terra dos altos coqueiros. Nesse caso, qual seria o interesse em impor o Mogi-Mirim? Confesso que não saberia responder. Interesse do vice paulista em proteger um clube conterrâneo? É uma possibilidade, pois a dita federação nacional de futebol sempre agiu segundo seus interesses, alguns bem explícitos, outros nem tanto — “agir segundo seus interesses” é uma maneira diferente de dizer “agir segundo suas relações de poder”. A CBF não está nem aí com os clubes brasileiros. Só agora, vejam só, discutirá um calendário decente. E tudo por causa de um movimento de jogadores. Pois seu foco é a seleção. Por meio dela, ganha milhões, explorando jogadores de clubes. A canarinha é uma mercadoria...

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Papo rápido, antes do jogo

Papo rápido, antes do jogo

Digo logo que simpatizei com Vica. Nada demais, só mesmo empatia, até porque acho a função de técnico um mal necessário para o futebol. Mas, cá entre nós, chegamos a um ponto no qual sentimos, na carne, a falta de um treinador no nosso time — o mal virou um bem necessário. Aliás, fiquei convencido da sua absoluta necessidade, vendo o Santinha sem um por várias rodadas no inferno da C. Nos últimos tempos, assistir a um time sem comando foi pedagógico. Divago, nesse momento, se não foi uma tentativa revolucionária, embora malograda, de nossos dirigentes, ao formar uma equipe sem técnico. ALN e Tininho são revolucionários, sem dúvida. Confesso que tenho uma tendência para perdoar adeptos radicais da inovação. Boa parte das mudanças, nesse mundo velho e enfadado, seria produto de mentes alucinadas, como as de nossos dirigentes. A loucura é o motor da existência, caros amigos. Queriam um futebol sem treinadores, imaginem. Não existe utopia mais bonita do que imaginar um futebol tendo como base a amizade. Nossos cartolas suspiraram por uma equipe boa-praça, cujos laços afetivos seriam constitutivos da eficiência e dos bons resultados. Posso imaginar que nossos dirigentes, ao acreditarem na Amizade, têm confiança, assim, na força do Amorrr. Bonito, hein?! Enfim, queriam um mundo melhor. Mas não deu certo, e mudo de assunto. Pois bem, simpatizo com Vica. Tem um jeitão sem frescura. Não sei ainda se é um bom técnico. Pelo menos, até agora, está se saindo razoavelmente bem. Deu um jeito, por exemplo, na epidemia de chinelinhos que grassava no Arruda. Conseguiu a proeza de fazer DM9 frequentar treinamentos. Certamente, aprendeu técnicas hipnóticas com a consagrada Santana Moura — de fato, só na base da hipnose para conseguir tal intento. E olhe que o time está correndo e jogando com raça, mesmo nessa situação de atrasos salariais — parabéns ALN pelo planejamento! Vejam vocês, Vica conseguiu, até agora, controlar a inclinação de alguns jogadores para se queixarem de lesões na parte posterior do bolso ou no adutor financeiro (expressão formidável, utilizada pelo melhor cronista esportivo de Pernambuco, Carlos Lopes). Vica sabe variar taticamente o time e, principalmente, parece entender a partida, organizando a equipe no intervalo de jogo — mesmo assim, ainda acho que gosta em demasia de volantes. Na última partida, perdeu praticamente todo o time dito titular (Renan, Tiago Costa, Ramires, Dedé, Luciano Sorriso, Renatinho e Natan — não é...

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Tarde demais?

Tarde demais?

Diria que é tarde demais, infelizmente. Dependemos de uma mudança radical no time. Como fazê-la? Qual é a probabilidade disso acontecer? Um milagre? Sei, sei, o Santinha gosta de feitos extraordinários, mas não acredito — se quiserem acreditar nas ocorrências sobrenaturais, caros tricolores, longe de mim criticá-los; afinal, existem duendes, gnomos e, principalmente, fadas gostosas, tipo Sininho. (Sininho era uma fadinha inocente que fez um filminho meio… bem…er… deixa pra lá) Imagino, nesse momento, a diretoria dizendo que somos “emocionais”. Claro, nossos dirigentes são os “racionais”. Seria uma racionalidade curiosa, bem misteriosa nos seus desígnios. Diante das ações de nossos cartolas, o adivinho de Zeus, Tirésias, ficaria estupefato: “carai, diria ele, numa linguagem erudita, não consigo adivinhar porra nenhuma!” E, de fato, o Santinha é uma caixa-preta randômica absoluta (C-PRA). Os processos decisórios são estranhos e nebulosos. Os adivinhos de todas as mitologias guardam distância do Arruda. Alegam que é impossível, por exemplo, adivinhar as razões das contratações de jogadores. É estranho demais, disse um pajé dos ianomâmis, falando baixinho para Tininho, nosso futuro presidente, não escutar. Mas confesso que esperava uma vitória. Achava que o time jogaria como naquela partida contra o Treze. Era o suficiente para alcançar um resultado positivo. Essa vitória era decisiva. Ganhando, mesmo jogando de forma atabalhoada, Vica teria mais tranquilidade para treinar a equipe. Confiança é importante. Não se compra, conquista-se. Empatar com o CRB dentro do Arruda só gera frustrações. Saí apático do jogo. Bebi dois copos de cerveja. Parecia Obelix comendo apenas dois javalis. Estava doente. Dimas estava pior: só queria frituras! Quando o Editor-Mor empanturra-se de batatas fritas, algo se quebrou, algo está se quebrando. Provavelmente, estamos antecipando o luto por mais um ano na C. Um “C”entenário (um sarcasmo de Paulinho Aguiar)… Rapaz, que vergonha! Comemorar o quê? O passado? Como garantir as glórias passadas com um presente calamitoso e um futuro cheio de premonições trágicas? Nessa pegada, no centenário, haverá uma epidemia de tricolores deprimidos. Penso num canto hassídico, buscando uma consolação: “seria preciso chegar muito fundo no poço para ter forças e subir novamente” (algo do gênero). Mas não chegamos já no fundo desse maldito poço?! Nosso martírio é uma condenação bíblica. Qual foi nosso pecado? Desconsolado, acuso a família Lins. É bode, cordeiro, linguíça, frango a passarinho, costelinha de porco, coração de boi, é o escambau — pecado alimentar, portanto. E Ducaldo, com aquela compulsão por caldinhos? Qual foi o teu...

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The quenguers

The quenguers

Sou um “quenguer” ou, pelo menos, faço parte dessa gangue. Seria um termo anglo-saxão que significa: “o tricolor que está puto e não aguenta vexame e humilhação, e que jura que não vai mais ao jogo, nem a pau, não vai pra essa porra nem a porra, etc e tal, e finda indo ao… jogo”. Tecnicamente, sofre de ato falho, tem falha de caráter, uma dependência mórbida, uma fixação passional, e por aí vai. Sim, sou um quenguer. E somos legião, o que é muito doido, cá entre nós. Depois do segundo gol do esquadrão do Baraúnas, eu me mandei do estádio. Não quis nem saber. Não fui o único, podem ter a certeza. Foi a massa coral inteira. Aliás, um espetáculo fúnebre, ver aquela masssa silenciosa e cabisbaixa saindo do Arruda. Felipe mesmo, o irmão falante de Dimas, já no intervalo do primeiro tempo, estava enfurecido. Foi mijar naqueles banheiros nauseabundos, pegou o beco e findou foi mijando no banheiro de casa. Eu saí chutando lata e dizendo que não voltava ao Arruda, enquanto SB estivesse no cargo. No domingo, era um juramento sagrado. Peguei até uma faca e fiz um risco de sangue no pulso. E jurei com sangue: nem morto! Não vou, não vou, e priu! Na segunda, era uma promessa; terça, ainda resmungava e notava que o risco já cicatrizara, não dando nem pra notar — o sangue parecia ketchup; na quarta, estava meio apático, sem saber o que fazer. Não tinha vontade de ir ao jogo. Ou tinha?! Não sei… Só sei que estava sorumbático e alheado do mundo. Foi então que recebi um telefonema. Era Dimas. _Vai ao jogo? _Jogo? Você não disse que não ia mais? _Pois vou… Dimas é um “raipariguer”, uma facção radical dos quenguers. Diante do desafio, era-me impossível não aceitá-lo. Sim, vou ao jogo. Por motivos insondáveis, fiquei feliz feito pinto na merda. Já ficara com o baile que a Coisa tinha levado dos coelhos. Era só sorriso, embora nutrisse a esperança de que Dedé fosse escalado no time. Mas o fato, aquela alegria toda, chamou a atenção de minha mulher, uma anarquista da Barbie. _Vai ao jogo, amoreco? No equilíbrio conjugal, “amoreco” é uma expressão bem irônica, do tipo “ah, é?”. Não tente, caro amigo, pois só as mulheres têm a arte de dizer “amoreco” com ironia. _Vou, sim! E enchi o peito de orgulho. Aliás, não...

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Papo rápido

Papo rápido

Proponho um papo rápido. Temos tempo para singelas discussões até a partida contra o esquadrão do Marabá. Bora lá… Não digo que gostei do time no jogo contra o Fortaleza, mas sim que tive uma impressão razoável. Esperava pior, sinceramente. Arrisco-me a dizer que o time evoluiu, mas principalmente, assumo novamente o risco, que Sandro melhorou sua percepção do jogo. Não foi nada grandiosa a melhora, porém, o suficiente para ter alguma esperança de que o time possa render mais nessa série C. Render o óbvio, o feijão-com-arroz, com raça, com vontade de ganhar, isto é, com o mínimo necessário para subir de divisão. A série C é fraca, por isso não precisamos de muito para “render o óbvio”. Enfrentamos o líder do campeonato; talvez, com o Sampaio, seja o time a ser batido. Dominamos amplamente o jogo. Tudo bem, foi de forma um tanto atabalhoada, mas o Fortaleza não fez nada; aliás, não jogou bem. Fez um gol de bambo e alguma pressão depois do segundo gol — convenhamos, não seria surpreendente, para um time brasileiro, recuar após um gol, principalmente no final do segundo tempo. Parece uma reação automática, já inscrita nos reflexos ludopédicos tupiniquins: fez gol, recua. Não foi, propriamente, culpa de Sandro. Até agora, tecnicamente, não poso afirmar que Sandro é adepto do teodorismo, embora seu discurso tenha lá suas semelhanças. Joga com dois volantes que, em tese, sabem tocar a bola — aviso aos incautos que digo que ” sabem tocar a bola” numa… série C. Escala dois meias, um deles bastante ofensivo, que é o Xuxa. E Sandro ousou! Inovação não existe no dicionário do teodorismo (há invencionices, isto sim). Sandro colocou três meias atrás de DM e, ainda, colocou Renatinho como ala — queria ganhar o jogo, nitidamente. No teodorismo, o primado, quase exclusivo, é primeiro não perder, depois… é o culto do bumba meu boi, bola pro alto que a partida é de… de que mesmo?! Não nego que Sandro tenha um pouco esse lado, mas quem sabe, com o tempo, saia desse karma. E Sandro tem uma virtude, aparentemente fundamental para a série C. Seria um animador de vestiários. Dizem que, no intervalo da partida contra o Fortaleza, insuflou seus atletas, como o Duque de Wellington, antes de enfrentar Napoleão em Waterloo (vale frisar, uma pena essa derrota. Hoje, seríamos dominados por uma língua decente e não esse troço que...

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