A perda do Carisma

Artur Perrusi A seleção brasileira está jogando a Copa América. Olhei alguns jogos como se assistisse ao Faustão, em suma, sem nenhum tesão. Olhava as partidas de uma forma impessoal, sem açucar e sem afeto.  Por que isso? O que aconteceu? Tenho algumas considerações e várias hipóteses. Bem, um dos maiores sintomas da sempiterna crise que passa o nosso futebol é a perda do prestígio da canarinha. Não falo apenas do seu prestígio futebolístico, isto é, do fato de a seleção não assustar mais nenhum adversário – isso é normal e pode acontecer, fazendo parte da vida no futebol; na verdade, refiro-me a uma situação bem pior: a perda do prestígio da canarinha entre os torcedores. Toda aquela liturgia em torno de nossa seleção parece que está perdendo a razão de ser. Algo se quebrou, algo está se quebrando. E tenho a nítida impressão de que isso, a perda de carisma da canarinha, é um fato muito mais grave do que o de nossa seleção estar jogando, atualmente, um futebol pra lá de medíocre. Por que diabos está acontecendo essa falta de interesse do torcedor? O que significa essa perda de carisma? Será que é duradoura? Falarei por mim. Acredito que meu apego à seleção, entre outros motivos, é baseado no seu carisma. A história espetacular das derrotas e vitórias da canarinha tem uma qualidade extraordinária e indefinível que lhe conferiu algo de misterioso e de mágico. Tal aura, reconhecida no mundo todo, legitima a devoção que o torcedor tem pela seleção e a crença de que seus jogadores possuem qualidades esportivas acima dos meros mortais de chuteira. A canarinha possui um poder de atração que não tem uma base racional. Torço pela seleção por paixão e não por causa de um raciocínio baseado na seguinte premissa: "torço, porque é a melhor seleção". Não me importa o conteúdo concreto de suas realizações, tipo quantas vitórias, quantas derrotas, mas sim a maneira pela qual joga a seleção. Torço por causa de seu estilo, formatado durante suas conquistas e tragédias – um caráter construído no tempo de sua história. Acredito que a seleção sempre teve uma missão civilizadora no mundo: mostrar aos ingleses, italianos e alemães, os franceses, os espanhóis, os africanos e os asiáticos que o fundamental no futebol não é a disciplina tática, a força, a correria, o resultado, e sim a beleza – a estética de um estilo que transformou o...

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O terceiro sinal

  Artur Perrusi Um filósofo, que não conhecia o ludopédio, já falava da existência de "dois excessos: excluir a razão e admitir apenas a razão". Pois bem, não podemos admitir apenas a razão para explicar o que está acontecendo ao Santinha. Digo logo: os blogueiros estão sendo excessivamente racionais nas suas explicações. São pertinentes e usam uma lógica profana para explicar as causas dos fenômenos que estão-se sucedendo na campanha de nosso time na série B. Acho insuficiente as explicações. Parece que a maioria dos torcedores não acredita em explicações transcendentais. Ora, somos torcedores de um time com um nome cristão e escatológico: Santa Cruz! Como podemos ser racionais e torcer, ao mesmo tempo, por um Clube do Santo Nome?! Ofereço meu próprio exemplo: um ateu descarado, um materialista vulgar, acreditando piamente que o pensamento é uma excreção do cérebro, assim como a bile é uma secreção do fígado, e que a espiritualidade é apenas uma adaptação evolutiva, cuja função já perdeu o sentido desde os tempos das cavernas. Pois é, apesar disso tudo, torço pelo Santinha de uma forma absolutamente mística, beirando o fundamentalismo religioso. Ora, o que está ocorrendo ao Clube do Santo Nome é uma coisa de nunca mais se ver, mesmo com o tanto de coisa passíveis de nunca mais serem vistas que têm lugar comumente no Arruda. A explicação só pode surgir do emprego da razão mística, de uma revelação, de uma catarse sublime. Eu pensava nisso, enquanto escutava a coprologia de Joãozinho, irmão de Dimas, quando do pênalti de Piauí a favor da Portuguesa. Há algo cabalístico acontecendo com o Santinha. Algo absolutamente fora dos padrões e além da racionalidade. ― Será que é o nome do clube?!  – virei-me e perguntei a Joãozinho. E ele não me deu atenção, continuando a vociferar bostas, merdas e todas as alcunhas de fezes que  conhecia. ― Será que mudando o nome do clube para Via-Crúcis essa fase não passa? – perguntei ao vizinho, que estava mudo e continuou calado, principalmente depois do segundo gol da Portuguesa. Desisti do diálogo, mas continuei a pensar. Quando se admite apenas a razão e não se explica nada, deve-se apelar; afinal, o que está acontecendo, porra? Que azar do caralho é esse? Indaguei de forma erudita, quase um parnaso. Até o maldito tempo conspira contra a gente. Não teve um jogo que não tivesse chuva e campo pesado. Como a gente pode...

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A mente de Charles

Artur Perrusi — Você vai fazer um texto decifrando a mente de Charles — disse o Editor-Mor, logo após o jogo contra o São Caetano.  — Eu?!… — Sim, você! — Mas… — Como “mas”? Você não é o maior defensor de Charles? — Fui o maior defensor de Charles… — Não importa. Você vai fazer mesmo assim, senão corto pela metade teu salário. — Você já cortou… — Então, corto a outra metade! Não tinha opção. O leite das crianças é sagrado. Meus três rebentos, Rivaldinho, Fumanchu e Nunes não podiam ficar sem o seu sustento. Assim, concentrei-me, repeti um mantra — volúpia, volúpia, volúpia — e tentei entrar na mente de Charles XVI. E… PUMBA! Isso foi o barulho da minha queda. Ao entrar na mente de Charles, bati num muro e caí da cadeira. Passei um tempo desacordado. Acordei, lentamente, e com uma baita dor de cabeça. Fui ao banheiro e notei, ao olhar para o espelho, um fio de sangue escorrendo do meu nariz. Credo, vai ser difícil entrar na mente de Charles. Como fazer tal coisa? Como ultrapassar aquele muro mental? Enquanto pensava sobre tais problemas, veio-me uma idéia fabulosa: preciso delirar! Sim, delirando, talvez possa entrar na mente do nosso técnico. O cabra não está nos deixando loucos?! Assim, quem sabe, a loucura revele os desígnios misteriosos de Charles. Mas, para tal, precisava de um potente alucinógeno. Ora, pensei, por que não tomar doses cavalares de Frevo? Afinal, além de vermicida, a Frevo alucina o cérebro. Na partida contra o São Caetano, por exemplo, tomei várias e, tenho certeza, tive uma espécie de surto psicótico: olhava o time e não via volantes. Teve uma hora que estava tão doido que vi Thiago Almeida jogando como volante!? Virei-me para Dimas e disse: — Carai, tô doido demais, tô vendo coisas: Thiago de volante! Foi então que notei a cara transtornada de Dimas. Seus olhos estavam rútilos de doidice. Nas suas mãos trêmulas, estava uma latinha de Frevo. Ele babava e repetia, baixinho: — não há volantes, não há volantes… Sim, era o efeito da Frevo. Peyote é fichinha na frente de nosso patrocinador. Era sem dúvida a solução. Tomando Frevo, poderia entrar na mente de Charles. Portanto, comecei a tomar. Depois da décima, o delírio tomou conta de mim. O Escudo do Santinha apareceu, sentou-se na mesa e disse, meio cochichando: — porra, não agüento mais...

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Um dia de Telão

Caricatura: Baptistão Charles XVI Artur Perrusi Eu defendi Charles XVI. Digo logo, assim, dessa forma e sem expiação. Gosto de chocar. Provocação é meu nome. Fui o defensor do nosso técnico, a ponto de ser condenado ao ostracismo pelos tricolores; passei horas no bar da piscina e fui ignorado por todos — falava: – Charles é o técnico! E todos mudavam de assunto, olhando para o lado, evitando meu olhar, constrangidos. Inclusive, defendi tanto o cabra, forcei tanto a barra, que vi meu salário ser diminuído pela metade pelo Editor-Mor do blog.   Confesso que é difícil defender essa estranha criatura. Talvez, pelo fato de ser psiquiatra, goste tanto de seres esquisitos. Charles XVI é um cabra moderado, calmo e prudente, mas não tem carisma algum. Parece aquele padre de confessionário que, ao aconselhar o penitente, faz o coitado dormir, roncar, sonhar, tudo, menos se arrepender. Quando fala, é impossível não bocejar. Possui uma voz monocórdica e monótona. Podia ganhar fortunas combatendo insônia, mas, não, preferiu ajudar o Santinha.   Minha hipótese é que Charles falou demais com o time, e isso deu sono. Assim, o time entrou sonolento, sem gana, quase parando. No intervalo, mais falação, e tome bocejo, gente dormindo em pé, usando a chuteira como travesseiro. Charles possui um poder mutante e não sabe. Devia falar com o outro time. Temos que dar um jeito de acontecer essa situação — leva-se Charles, sorrateiramente, para o vestiário do adversário, e tome falação, e será a pasmaceira geral.   Mas eu gosto de Charles XVI. Ainda acho que nos levará ao Céu. Certo, atualmente, a diferença entre o Céu e o Inferno é sutil. É uma questão de ponto de vista; afinal, tudo é relativo, embora o irmão bad de Charles, o Bento Alemão, tenha tentado demarcar novamente as fronteiras entre o Bem e o Mal. Não conseguiu, é verdade. E, em se tratando do Santinha, muito tempo ainda rolará até que saibamos a diferença, também porque, convenhamos, Charles capricha na confusão.   E até que caprichou na escalação inicial contra o MAC. Eu venho tão desesperado que pedia pouco, muito pouco: só queria que não escalasse Adauto. Pedido de pobre, evidentemente. E, quando soube que Charles XVI tinha escalado Cláudio, virei um pinto na merda, feliz da silva e dava gargalhadas sem motivo – borbulhava um riso louco. Meu raciocínio era simples e lógico: jogamos bem contra o...

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Uma paixão sem limites

Dimas Lins   Do ponto de vista lógico, torcer beira o irracional. Ser torcedor de futebol é algo paradoxal, pois é, ao mesmo tempo, mágico e patético. Mágico, porque a paixão que ele sente pelo seu clube é encantadora, extraordinária e maravilhosa. Patético, porque, analisando friamente, beira à tolice a volatilidade do comportamento do torcedor numa partida de futebol, cujo humor pode variar de zero a cem em frações de segundo, por causa do desempenho de onze jogadores em campo. O pateticismo é ainda maior se considerarmos que o objetivo desses jogadores é colocar uma bola, objeto esférico de couro cheio de ar comprimido, no fundo da baliza adversária, retângulo de 2,44 metros de altura por 7,32 metros de largura, em número de vezes maior que os jogadores do outro time. E, tudo isso, com exceção do goleiro, sem usar as mãos e braços. Esse esporte de regras simples é capaz de gerar rivalidades históricas e, em algumas situações mais extremadas, confronto entre torcidas.   Por definição, torcer é desejar a vitória de um grupo desportivo, gesticulando, gritando e incentivando. Qual é o sentido disso, afinal? Sejamos, por um momento, racionais. Olhando de fora, não parece uma coisa sem pé nem cabeça? Não seria uma tremenda falta do que fazer, passar um jogo inteiro correndo o risco de um enfarto, por causa de um time de futebol? Afinal, seja qual for o resultado do jogo, a sua vida não seguirá em frente do mesmo jeito? Não é estranho saber que por trás de toda essa coisa irracional existe uma indústria que movimenta bilhões de dólares por ano? Não é esquisito que todo o planeta pare, de quatro em quatro anos, para assistir um copa do mundo? Aliás, não é estranho perceber que nem mesmo as Nações Unidas conseguem agregar tantos países com culturas tão diversas em torno de algo em comum e com objetivos teoricamente mais nobres, quanto à FIFA?   A resposta a todas essas perguntas não se dá, obviamente pela razão. É a emoção, essa paixão sem limites, que dita a regra do jogo. É esse movimento impetuoso da alma, para o bem ou para o mal, que conduz o comportamento do torcedor, que o empurra a favor de um clube e o coloca em oposição a outros. Esse amor desenfreado estabelece uma relação entre o torcedor e seu clube mais estável do que muitos casamentos ou relações familiares. Esse vínculo é praticamente...

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Um dia de jogo no Arrudão

Foto do arquivo Encontro cívico dos editores do Torcedor Coral no Bar da Piscina (Artur Perrusi, Dimas Lins, Manequinha e Leonardo Jr.) Artur Perrusi Ah, o Bar da Piscina… Ali se respira os novos tempos. A gente se sente em casa. E isso é a pura verdade, pois já freqüentei a piscina no tempo da gestão de Alvarenga, e a sensação era diferente: sentia-me freqüentando o clube, mas não tinha a impressão de posse. Depois, nas últimas gestões, parecia que freqüentava a casa de um inimigo; afora que, naquela época, não tinha nada para freqüentar, pois só as moscas passeavam naquele cemitério. Repito: agora, a gente se sente em casa no Santinha. E digo mais: nunca tinha sentido isso. Vejam, ainda tem gente que subestima o que ocorreu na eleição. Não se ganhou apenas uma eleição e se evitou a perpetuação de um grupo no poder; não, o que aconteceu foi bem mais amplo e mais significativo: o clube voltou ao povo (quando falo de povo, refiro-me a pessoas concretas, os torcedores do Santinha). A minha sensação é a de que o clube é meu e de todos os tricolores. Nunca vivenciei algo parecido: possuir um espaço coletivo. E falo de uma impressão mais ampla, confissão de um tupiniquim: nunca senti no meu país esse sentimento de posse coletiva de algo que é de todos e para todos. Infelizmente, a democracia brasileira ainda não permite aos brasileiros assumir esse estado especial e raríssimo: de sermos todos iguais no nascimento, na vida e na morte. Pois é, no Bar da Piscina, sinto-me entre iguais. Vejo vida por todo lado. Vejo renascimento. É um resultado palpável e concreto da eleição. Seria como se a gente pudesse exercer uma espécie de cidadania ainda um tanto rarefeita no país. Por isso, o ambiente é tão convivial. Todo mundo recebe todo mundo, porque todo mundo parece ser dono do clube e do bar. O clube deixou de ser uma propriedade privada; agora, é o kibutz dos tricolores! Quando cheguei direto de João Pessoa, todos já estavam no Bar da Piscina, a começar pelos famosos irmãos tricolores: Dimas, Felipe e Joãozinho. A paixão é tão grande nesses nobres rapazes, que tomam cerveja Frevo sem pestanejar, sem nenhuma reclamação. E ainda fazem apologia: _Frevo é sensacional, Artur! Felipe parece o mais fervoroso fundamentalista da Frevo: _Eu não gostava, Artur, passei a amá-la! Na verdade, tomar a Frevo é uma...

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