Raiva desgraçada

Raiva desgraçada

Era briluz. As lesmolivas touvas roldavam e relviam nos gramilvos. Estavam mimsicais as pintalouvas, e os momirratos davam grilvos. Foge do Jaguadarte, o que não morre! Garra que agarra, bocarra que urra! Foge da ave Felfel, meu filho, e corre do frumioso Babassurra!

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Desesperar, jamais.

Desesperar, jamais.

Mereceu perder. O time foi anulado pelo adversário. Ponto. Sempre será difícil assumir isso. Eu mesmo só o fiz agora, pois, logo depois do jogo, estava tão puto que… bem, deixa pra lá. Quando o adversário domina a partida, gera a sensação de desorganização e de passividade. Parece que o time está entregue e sem raça. E, inconformados, começamos a produzir justificação. Os zerumanos somos máquinas de justificações. E produzimos as piores possíveis; geralmente, culpando o Outro, esse Grande Culpado. Mas acho que a explicação mais prosaica, para a nossa derrota, foi que recebemos um nó tático. Lisca engabelou Martelotte, simples assim. E, com isso, o adversário foi melhor — acontece, como cantava Cartola. “Esquece o Santinha, vê se esquece. Porque tudo no mundo acontece”. E acontece de jogar mal, caros leitores, e acontece de o adversário jogar melhor, mesmo sendo um time nivelado ao nosso. Difícil de engolir? Sem dúvida. Porque dá vontade danada de xingar e culpar jogador, técnico, dirigente, o escambau. (Tá difícil? Ofereço um minuto de xingamento… Podem ficar à vontade. Vamos lá, pessoal. Aqui está o Muro das Lamentações do TC. Isso, isso, a mãe do cara, não se esqueçam da mãe do cara. As mães são bons bodes expiatórios. Freud utilizava tal recurso: xingava a mãe e ficava leve, leve. Ele mesmo desejou a mãe, sentiu-se rejeitado, quis matar o pai, enfim — cabra doido da moléstia, Freud, convenhamos. Pronto, podemos voltar ao assunto, depois dessa ablução — não funcionou? Mande Malafaia procurar o pio-pio dos ímpios) Não creio, assim, que tenha sido algo mais ou menos proposital, do tipo uma reação contra o atraso de salários. No jogo anterior, os salários estavam atrasados, logo, o argumento não é bom. Inicialmente, achei estranho, realmente; depois, achei perfeitamente prosaico o fato de termos perdido um clássico. Jogando mal? Sim, jogando mal, porque o adversário jogou melhor. Achei até que João Paulo tinha forçado o cartão amarelo e construí, na minha titica cerebral, uma série de teorias conspirativas (uma forma de protesto pelo atraso de salários, por exemplo). Culpei a Coisa, inclusive. Em qualquer teoria conspiratória, a Coisa deve aparecer como protagonista, cá entre nós. Agora, suponho que tenha sido apenas burrice. Sim, acho ela, a burrice, argumento fundamental para explicar a vida, o mundo, Dilma e o cartão amarelo de João Paulo. Discordando de Freud, acho até que influencia mais o comportamento humano do que a depravação...

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Conversa no zapzap

Conversa no zapzap

Era uma vez uma conversa. Tudo começou assim… _Assiste ao jogo aonde? _Estou em casa. Artur pensava que Dimas estivesse por aí, nalgum desvario, mas não, estava em casa. _É melancólico. Dois velhos em casa. De fato, era triste. Cada um na sua casa, e o mundo pegando fogo lá fora. _Tá com medo do fascismo? _Quero sair de vermelho. _Tu num tá doido não, rapaz! _Ou de Satanás. _Aí lascou geral. Artur pensou num mundo melhor, cheio de transexuais, com coxinhas podendo sair do armário, sem culpa e sem timidez. _Tá louco?! Cunha te mata. Mas Artur não tinha falado nada; só pensado. Pensar é pecado? Claro, Deus sabe de tudo. Mesmo no banheiro, Ele te vê. Silêncio. Como narrador, forço minha criação, justamente esta narrativa, caros leitores, ao silêncio. Pois tenho medo de pronunciar seu Nome em vão. O medo terrível de que, uma vez pronunciado, as contingências sem limites do jogo linguístico (metáforas, retóricas, etc. e tal) destruam niilisticamente o mistério da transcendência. _Será que Deus dá a opção de não acreditar Nele? Quem disse isso? Eu sou o narrador. Quem disse isso? Silêncio. Tudo bem, esqueçamos a querela agnóstica; mas, como Dimas tinha adivinhado o pensamento de Artur? O cabra pensa em transexuais, coxinhas, Felicianos, Malafaias (vai procurar!), e Dimas sabe de tudo. Como? Um mutante? Um X-Men? Como telepata, será que o Editor-Mor teria um caso com Jean Grey, a espetacular Fênix? Deve ser incrível! Uma paixão que incinera literalmente o coração. Mas… e Wolverine, e Ciclope? Dimas era páreo para esses dois? Sei não, pensou Artur. _Você acha que a cura gay melhoraria o Santa? Impossível, disse o narrador dessa crônica. _Oxe, se sou o narrador, quem narrou agora? Havia, de fato, confusão na autoria da narrativa. Tempos sombrios, pensou o teclado. Retomemos a conversa. _Botei umas cervejas pra gelar, mas ainda não tive coragem de abrir. _Isso é grave. Pior, sou eu, pois nem cerveja comprei. _Só abro uma, se o time me animar. Gastar cerveja à toa não dá… Assistir a time ruim, só bêbado ou drogado, suspirou Dimas. Artur imaginou-se logo no Uruguai, terra do bom e do melhor. Ou em Amsterdam! Sim, na Holanda! No Quartier Rouge! _Ao invés de uma dona da Tailândia, onze pernas de pau! Como Dimas adivinhava o pensamento de Artur? Talvez, porque Artur fosse sumamente previsível. E Dimas tem esse defeito: só diz a verdade....

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Adivinhem quem escreverá essa crônica miserável…

Adivinhem quem escreverá essa crônica miserável…

Sentava-me no sofá quando aconteceu o primeiro gol. Achei estranho, até culpei o sofá. Foi então que calhou o segundo gol. Pedi desculpa ao sofá, nitidamente inocente na história, e fui à cozinha comer alguma coisa. Santana, a psicóloga de todos os tricolores, comentara comigo que banana combate a frustração. _ A banana, Artur, a banana, Freud comia banana, dissera Santana. Precisava de potássio, pois era o responsável para escrever a crônica do jogo e publicá-la no TC. Só potássio na veia podia me inspirar. Maldade de Dimas, claro; maldição do cabra, provavelmente. Ele é mau feito um pica-pau. Certamente, imaginara que o jogo fosse uma desgraça e deu a tarefa ingrata ao pobre coitado aqui . E foi, justamente, quando comia a banana, que aconteceu o terceiro gol. Foi inevitável, nesse momento, filosofar sobre o sentido da vida. Talvez, sacrificando tudo à volúpia, o pobre escriba, justamente aquele que vos escreve, jogado a contragosto neste triste universo, conseguirá semear algumas rosas sobre os espinhos da vida. Pensei em Scarlett, toda viúva negra nos Vingadores, e a volúpia se alumiou. Aproveitei e comi uma bolacha cream craker, aquela da Marilan, especial e bem tostada. Crunch, crunch, crunch… (para quem não sabe, esse sou eu comendo bolacha cream craker) E bebi um copo d’água e me senti empachado. _Cuidado com a mistura entre cream craker e água. É pior do que manga com leite. _Santana? Maldição, só faltava isso, escutava vozes, com nítido sotaque de clorofila. Sofria os efeitos delirantes de uma goleada no Santinha. Mas, de fato, estava empachado. Soltei um pum. Ri comigo mesmo. Para um time merda, nada como soltar um peido. E ainda é uma terapia eficiente contra o empachamento. E nem precisei tomar luftal. Aí que ia peidar mesmo. Voltei à filosofia e pensei em quanto os seres humanos são nojentos, com suas secreções e seus gases. Especulando os recônditos da metafísica, comecei a voltar ao Real e me aproximei, bem devagarinho, da TV. Passo a passo, para evitar um novo gol. Vai ver que dava azar. Se antes delirava, agora estava místico, uma condição logicamente posterior ao delírio. Não houve gol. Abri um sorriso de esperança. Porra, sou tricolor, torcida do carai, bradei aos quatro ventos e soltei outro pum. Recitei um mantra: “talvez, muito pior seria se pior fosse”. Gosto dele. Mistura poliana com rivotril. Olhei enfim o jogo. Era uma coisa de nunca mais se ver,...

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Pá de cal

Pá de cal

Confesso que reagi bem diante da suprema vergonha. Fiquei, na verdade, irritado e, ao mesmo tempo, profundamente surpreendido. Futebol é uma caixa-preta que se perdeu no oceano, pensei. Embora estivesse diante da maior catástrofe do futebol brasileiro, não a senti como trauma. Estou ficando velho, falei ao espelho. Ou é sabedoria? — ainda perguntei. Não, é outro papo. Trauma com seleção só tive um, e basta: a copa de 82. Como era amada aquela seleção; a última amada pelo povo. Ali, sim, fiquei traumatizado. Estava bebo de vodka e fiquei absolutamente sóbrio. Recife era velório, com gente esbugalhada e fantasmas andando na rua. Ninguém entendia; ninguém queria entender. Sim, sou um saudosista. Prefiro a saudade à viralatice. A partir de 82, a canarinha perdeu seu estilo. Não deixou de ser vitoriosa, evidentemente, mas nunca mais voltou a jogar bonito. 94 foi o símbolo da mudança, com um futebol absolutamente pragmático — mas tínhamos Romário. A copa de 2002 foi um pouco melhor, embora juntasse pragmatismo e força — mas tínhamos Rivaldo e Ronaldo. Em 98, fiquei meio ressabiado porque estava lá na França; mas, cá entre nós, sem trauma. A seleção de Zagallo era chata como seu técnico, com o grupo dividido em facções. Achei até surpreendente que tenha chegado à final. E hoje? Hoje, o futebol brasileiro enfim acabou. Não sobrou mais nada de seu estilo. Somos uma seleção que se desconectou do seu passado. O serviço está feito. Não há mais jogo, só ligação direta. Temos apenas um craque, ainda imberbe — parece mais Cristiano Ronaldo no meio da solidão portuguesa. A pá de cal foi quando um filhote da ditadura, alcoviteiro da tortura, inventou a parceria entre Parreira e Felipão, os dois coveiros do estilo brasileiro. Foi um gesto simbólico e sádico. Se existiam ruínas de nosso estilo, ali e acolá, como belos monumentos históricos, agora só há asfalto, num calor danado, sem nenhuma árvore. Nosso futebol, que parecia o bairro de São José, virou uma enorme Dantas Barreto. Como as estorinhas infantis, as derrotas sempre trazem lições. Qual é, dessa vez, a lição dessa derrota? Nenhuma. Não jogamos mais como no passado? Isso não é lição. O passado não move moinhos, ainda mais porque não temos moleiros. Não há possibilidade alguma de mudança no futebol brasileiro, enquanto existirem os nossos cartolas. E já ocorreu a sucessão no futebol brasileiro. São iguais, os herdeiros, apenas mais jovens e sofisticados...

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Teimosia não ganha jogo

Teimosia não ganha jogo

Não aguentaria assistir a uma copa sem comentar. A vida é uma corneta, disse Dimas, depois de arrotar bolinho de bacalhau. E a copa está boa demais, com jogos divertidos e empogantes. Só que a canarinha… Vou direto ao ponto: pra mim, Felipão acabou com o jogo contra o México. E é isso que me preocupa, pois estava confiante nas intuições de nosso técnico. Depois do jogo, voltaram minhas velhas irritações com o sargentão, embora não sejam maiores das que tenho com Parreira. Inclusive, a decisão de juntá-los, na época, deu-me alguns calafrios. Porém, a Copa das Confederações calou-me e fiquei na minha, torcendo. Por genética, por causa de um povo do futebol que gosta de jogo bem jogado, queria a seleção pra cima do adversário. Claro, o time pode melhorar, mas só está, até agora, gerando desconfianças. Enfim… Felipão escalou errado. Entrou de cara com Ramirez no lugar de Hulk. Ramirez joga de meia na Inglaterra porque o futebol inglês… Invencionice, pra brasileiro ver. Ramirez é volante. Assim, a seleção jogou com três volantes. Perdeu o meio-campo. Era defesa e ataque. E só. Felipão, querendo marcação e armação no meio-campo, poderia entrar com Hernanes, pois este sim joga como meia-armador e sabe marcar. Por que não Willian? Ah, porque Willian é substituto de Oscar, logo, não podem jogar juntos. Na partida, Felipão começou seu costumeiro surto de teimosices. Insistiu com Paulinho, mesmo com o jogador pedindo para sair por causa do desempenho medíocre. Felipão tem essa mania de técnico brasileiro de manter jogador a todo custo — conhecemos essa maldição, pois é típica dos treinadores do Santinha. Tudo pela família, tudo pelo grupo! Papo… Se queria manter volante que se infiltra na defesa adversária, tudo bem, escalava Fernandinho, que faz isso no City. Ou ainda Hernanes, para cadenciar o jogo e tocar a bola (aliás, cadê o toque de bola? Virou espécie em extinção no futebol brasileiro?). Ou até recuava Ramirez para segundo volante. O elenco canarinho oferece várias opções, mas Felipão manteve o novo ungido de sua teimosia. Depois, colocou um jogador de clube, Bernard. O time ficou esparramado pelo campo. O Brasil precisa jogar de forma compacta, marcando no campo adversário. Alguém precisa tocar a bola com Oscar — deixá-lo na ponta é outro erro. Oscar, apenas marcando, é desperdício ululante.  E, ao recuperar a bola no campo defensivo, a seleção necessita tocar a bola. Bernard...

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