Notas sobre o jogo e um fato cabuloso

Marília pediu e não se arrependeu! Artur Perrusi Joãozinho, decano da família Lins, estava calmo e calado. Interpretei tal fato como um sinal dos deuses. Todo mundo sabe que Joãozinho é uma matraca atômica, mais ainda num jogo do Mais Querido. E ele estava lá tomando seu uísque paraguaio numa boa, olhando placidamente o jogo. Isso só significava uma coisa: sentia firmeza no Santinha e gostava do jogo. Nem mesmo o fato de Dimas ter trocado o Santinha pela bela João Pessoa e estar, naquela hora, assistindo  a "Orfeu", uma peça musical, abalava Joãozinho. –Dimas está tocando lira lá em Jampa — provoquei. — Depois daquele balé russo, Dimas não é mais o mesmo…  Falou  Joãozinho de uma forma serena . Ele estava calmo, e eu estava uma pilha. Logo, no início, percebi que estávamos diante do melhor time da série B (pelo menos, até agora). O jogo estava completamente aberto, com ataques constantes de cada lado. Era a melhor partida da série B. Mas os ataques do Marília deixavam-me nervoso e apreensivo. Tinha um buraco no nosso meio-campo, ali mais ou menos próximo da grande área. E tinha uma avenida Max na lateral — nitidamente, o manto sagrado causava coceiras terríveis no garoto. Na minha opinião, era um problema de posicionamento: os nossos três volantes não jogavam de forma compacta. Quando o adversário tinha a bola, Romeu assumia sua posição de terceiro zagueiro, distanciando-se dos nossos volantes, que jogavam em linha e afastados da zaga — inclusive, com isso, a cobertura das laterais  ficou comprometida. O efeito desse posicionamento era o buraco na marcação, deixando os meias e os atacantes do Marília mano a mano  com a nossa zaga. O problema acontecia também quando tínhamos a bola: Romeu continuava como terceiro zagueiro, não avançava, e Paraíba e Amaral, jogando em linha, batiam cabeça na armação das jogadas. Tal situação perdurou até os 30 minutos quando melhoraram consideravelmente nossa marcação e a articulação das jogadas . O Santinha voltou, depois do intervalo, na mesma pegada do final do primeiro tempo. A conversa no vestuário, tudo indica, foi boa — no mínimo, manteve o bom posicionamento. Aqui, "cometerei" uma justiça… Farei um elogio a… Bem… er… não tenho críticas contra… Carai, tá difícil de escrever o nome!   (Pausa: faço uma série de massagens nos dedos, até mesmo uns gargarejos,  e volto à crônica). Retomando: pela primeira vez, não faço críticas a… Engasgo — uma série de engasgos. O...

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A miséria de torcer

  Artur Perrusi   Temos time para evitar o rebaixamento! Digo isso dando gargalhadas de autocomiseração. Sim, foi o máximo que o departamento de futebol conseguiu com sua incrível capacidade organizativa: montar um time que consiga evitar a terceirona. Dessa forma, nosso sofrimento até o final do campeonato será o seguinte: lutar para ganhar dentro de casa e tentar, pelo menos, empatar fora dela. O Mundão será vital, como sempre foi… Não será fonte de comemorações, mas sim de desespero e, espero, de alívio.   É uma posição realista, confesso, por isso amarga. Não queria isso e tenho a certeza absoluta de que poderia ser melhor. Claro, nunca pensei que pudessem montar um timaço; na verdade, minhas expectativas eram até modestas: queria apenas um time que lutasse para ficar entre os quatro — enfatizo a palavra: lutasse… Como o CRB, por exemplo. Não acho que seja pedir muito. Era uma meta perfeitamente factível. Diria até obrigatória, dado o nosso discurso de "grandeza" — a potência da série B, esses papos todos. Sei, sei, seria uma luta muito difícil e, considerando as nossas circunstâncias, provavelmente não conseguiríamos a classificação. Mas que esse campeonato representasse a formação de uma boa base para o próximo ano. Tal era, na minha opinião, o grande objetivo.   O fato é que não temos uma base; aliás, temos sim, temos uma base para lutar contra o rebaixamento no próximo ano. E, como a maioria absoluta de nossos jogadores irá se aposentar amanhã, por causa das alterações degenerativas que acompanham o envelhecimento celular, começaremos provavelmente tudo de novo, utilizando os nossos respeitáveis (pela idade) métodos: um caminhão de jogadores e técnicos malucos. Espero que, pelo menos, mudem a faixa etária, senão teremos um gasto excessivo com sarcófagos, dada a quantidade de múmias no nosso elenco.   Em tese, se começássemos agora a reestruturação e a profissionalização do futebol, eu estaria mais otimista. Contudo, não vejo sinalização alguma de uma mudança radical no nosso departamento de futebol. Edinho e os dirigentes de nosso futebol são honestos (e aqui vai minha homenagem, considerando a raridade dessa especiaria no mundo do ludopédio nacional: a honestidade), porém não são gestores, parecendo mais típicos cartolas.   O cartola brasileiro possui uma resistência visceral contra a impessoalidade da gestão esportiva e a profissionalização do esporte — dedicam um tempo enorme ao imediatismo e à improvisação. Estão acostumados ao empreendimento pessoal e familiar,...

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O Balé e o Santinha

Artur Perrusi Pois abandono papagaio, cachorro, ornitorrinco, criança com asma, Scarlett Johansson (sim, até mesmo!), o escambau, para assistir aos jogos do Santinha; por isso, cobro assiduidade a todos os ditos tricolores. Lugar de tricolor é no Arruda, já diziam cantos imemoriais. Chego cansado de Jampa e telefono imediatamente ao Editor-Mor. — E aí?! A gente se encontra no jogo? — Artur, não vou ao jogo… A voz de Dimas estava baixa, quase sussurrando. — Como?! — Não vou ao jogo… Ainda continuava baixa. Estava estranha, meio distante. — Não vai ao jogo?! — É, não vou. — Como não vai?! Fiquei preocupado. Somente uma desgraça impediria Dimas de ir ao jogo. Pensei numa lista infindável de catástrofes. — Outro avião da TAM caiu? — Não, não é isso, não. — Você entrou para o Cansei? Não existe maior tristeza do que um tricolor cansado… — Não, nada disso, Artur. — Então, o que é, carai!? — E-u-v-o-u-a-u-m-b-a-l-é… — O quê?! Bati o celular na mão. Não escutava direito; além do mais, sou meio surdo. — Vai o quê?! — A um balé… — A um o quê?! — Porra, Artur, eu vou a um balé!!! — Balé? O que é balé? Sim, caros tricolores, o que era um balé diante do espetáculo cósmico entre o Santinha e o Criciúma? A pergunta misturava metafísica com perplexidade. — Balé é uma representação dramática em que se combinam a dança, a música e a pantomima, e que comporta um enredo suscetível de ser expressado claramente através dos gestos e movimentos da dança – disse Dimas de uma forma extremamente blasé. — Balé!!! — É, Artur, balé. Um balé russo… Cai no chão de tanto rir. Contorcia-me de dor. A barriga parecia a sanfona de Chiló. Fazia tempo que não escutava algo tão engraçado. Dimas tem uma veia cômica nunca dantes suspeitada. A maioria pensa que o cabra é um tanto sentimental e melancólico, afeito a escrever crônicas intimistas e poesias com versos alexandrinos — que nada! Ali estava a prova de que era hilário. — Rapaz, essa foi boa. Caí feito um patinho. Quase pensei que você fosse trocar o Santinha por um balé russo… — É verdade, Artur. — O quê?! — Eu vou a um balé russo. Ao escutar isso, ao tentar acreditar nisso, tive o que os psicólogos chamam de dissociação cognitiva. Era demais para minha alma frágil e perturbada. Comecei...

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O mistério da banalidade

  Artur Perrusi Por que o futebol brasileiro é tão bagunçado? Sei, sei, é a pergunta óbvia que todo torcedor se faz todo dia, mas é, reparem bem, a pergunta que possui todas as respostas possíveis, continuando por isso mesmo, mais do que nunca, uma… pergunta. Assim, embora a questão seja óbvia, não se consegue, apesar disso, esclarecer o que justamente salta à vista. E, quando o óbvio continua irrespondível, seria porque já não se está diante de uma coisa evidente por si mesma, e sim diante de um… mistério — o que é óbvio! Sim, a bagunça de nosso futebol é um mistério. Seria aquela esfinge sacana, nascida das entranhas de Macunaíma e não das de Zeus, que não propõe enigma algum, apenas devora imediatamente os incautos. E um dos tipos de incauto mais devorado pela esfinge de nosso futebol é aquele que tenta reduzir o problema da bagunça a uma questão de competência. Assim, os dirigentes teriam um problema de qualificação ou mesmo de… burrice. Sim, sim, muitas vezes é isso mesmo; de fato, fica-se pasmo diante da infinita burrice de nossos dirigentes, embora não se saiba, muitas vezes, se realmente estamos diante, como dizia Eça de Queiroz, de "uma obtusidade córnea ou de uma má-fé cínica". E como bem lembrou Nélson Rodrigues: “ninguém observou o óbvio: a burrice influi muito mais no comportamento humano do que o fator sexual, ou econômico ou outro qualquer”. Imaginem, então, caros tricolores, o que a burrice já aprontou nesse país varonil. Mas, sem dúvida, muitos dirigentes poderiam ser mais competentes do ponto de vista administrativo. Contudo, se o problema é de competência administrativa, por que vê-se tanto dirigente competente na sua empresa, por exemplo, e completamente perdidos nos clubes? Não acho incompetentes um Ricardo Teixeira e quejandos. Sabem muito bem administrar, principalmente seus interesses. E não são burros, ao contrário! Podem ser safados, mas sabem o que fazem. E aí é que está o problema: sabendo o que fazem, por que suas ações são tão nocivas ao futebol nacional? Ora, mesmo um ditador gostaria que sua ditadura fosse um sucesso, e não um fracasso político que arriscasse seu poder. Não acho, sinceramente, que o caos interesse a ninguém, nem mesmo ao Clube dos 13. Um outro incauto, geralmente devorado pela esfinge, é aquele que reduz, como o escrevinhador que vos escreve, o problema da bagunça a uma questão de poder. Certo, tal...

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Chutando o pau da barraca

Arte: Dimas Lins Artur Perrusi Esperei muito para escrever esse texto. Nunca pensei que fosse tão paciente. É a fé e a esperança, camaradas! São dois grudes na alma que deixam a gente esperando, esperando… O trem passa, e a gente nem aí, dizendo a si mesmo: o trem não passou, não passou… Mas escrevo, agora. E sintetizo logo o meu estado de espírito: antes, tudo era branco, o apoio à nova diretoria era incondicional; agora, tudo é vermelho, e o apoio tornou-se crítico. Claro, tudo (ainda) não é preto, pois continuo apoiando a diretoria, mas algo se quebrou, algo vem se quebrando. Não há mais entusiasmo e esperança; não, agora, o que existe é circunspeção e senso crítico. Antes, uma recapitulação, para que a minha posição fique mais nuançada. Assim, volto ao tempo. Durante as articulações para a formação de chapas, houve aquele momento em que Edinho e Romerito tentaram uma recomposição. Fui totalmente contra pelo seguinte motivo: já se estava fazendo uma composição com a situação. Edinho e quejandos tinham sido da direção passada e representavam uma filosofia de gestão que não rompia, em termos de idéias e mentalidade, com o passado do clube (daí, quem sabe, toda a ambiguidade de Edinho em relação a Romerito — o segundo acusa, o primeiro finge que não escuta. Há um silêncio da presidência em relação à gestão passada que, dadas as circunstâncias, não tem explicação. E, afinal, a auditoria não encontrou nada?!). Claro, há uma espetacular diferença aqui: estava-se compondo com a parte benigna da antiga diretoria. Dada a situação do Santinha, a honestidade tinha um valor estratégico fundamental. (Aos poucos, fui descobrindo que, infelizmente, honestidade é condição necessária, mas não suficiente para mudar o clube do Santo Nome) Assim, na minha cabeça, a próxima diretoria seria de transição, visando à formação de uma base de dirigentes e a práticas de gestão que pudessem implementar uma nova configuração no clube, mais democrática e profissional. Mas achava que necessitaria, para que tal objetivo fosse viável, de algumas pré-condições: a) Edinho e sua ala largassem o amadorismo e uma visão ainda um tanto centralizadora de gestão; b) a ala, representada por Fred Arruda, conseguisse força política e fosse se tornando hegemônica no clube; c) o Conselho Deliberativo fosse ativo e pendesse politicamente para a democratização e profissionalização do clube Vamos analisá-las: a) Edinho não largou o amadorismo; justamente o contrário: aprofundou-o e, ainda,...

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Nosso espelho

  Artur Perrusi O futebol brasileiro parece refletir ou condensar o que acontece na sociedade brasileira. Virou até um clichê: o fut nacional assemelha-se a um espelho da vida nacional. Muitas vezes, é certo, um espelho invertido; outras, um reflexo direto, ultra-realista. É um viaduto hipermoderno que passa por cima de uma favela. Não parece, contudo, que tenha sido o tempo todo dessa forma. Certo, ele sempre formatou diversas representações caras à nossa identidade, mas nunca de forma tão direta assim. Jamais o fut representou tanto uma metáfora do que nós somos, do nosso "caráter" nacional, do nosso jeitinho de ser. Nesse mundo americanalhado, talvez o futebol seja nosso último "projeto nacional"; o último produto cultural no qual podemos ainda nos reconhecer. Não sei se tal reconhecimento é bom ou ruim — a única vantagem seria termos a certeza de que aquele reflexo enviesado no espelho, para o bem ou para o mal, possui uma relação com nossa identidade. Falo do povo e de setores da classe média, claro, pois já temos uma determinada elite que sobrevoa as grandes capitais do país de helicóptero e não tem mais essa necessidade de identificação… O que acontece na vida tupiniquim aparece de forma metafórica no futebol, como uma encenação caricatural ou extremada da vida social brasileira. Sem dúvida, o futebol encarna o que tem de bom e de ruim no país; representa ao seu modo essa espécie de dualidade que faz rodopiar a nossa identidade entre pólos opostos: potencialidade/ beco sem saída, esperança/ desilusão, cordialidade/ violência, riqueza/ miséria… Em suma, assim como o Brasil, o futebol brasileiro é uma bosta/ maravilha. Porém, assim como o tecido social brasileiro, o futebol vem se degradando e assumindo apenas a "banda podre" da nossa dualidade. Vejam o Congresso… Qual seria sua caricatura no futebol? Ora, o Clube dos 13… Confuso, incapaz de formular um projeto decente, atrasado politicamente… E o governo? Ah, a CBF, é claro. Sempre correndo atrás do bonde da História; nunca presente nos momentos vitais; não deseja nem mais organizar o campeonato brasileiro; incapaz de formular uma política esportiva… Os clubes parecem grandes latifúndios improdutivos e endividados; os dirigentes, aqueles latifundiários que impõem trabalho escravo e sonham com o etanol — falta uma "reforma agrária" nos clubes, e daquelas bem sangrentas (ops! exagerei). O individualismo grassa na sociedade brasileira? Ora, o individualismo é personificado pela elite dos jogadores brasileiros, essa facção absolutamente egoísta e jamais...

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