O mistério da banalidade

Meditando sobre o diminutivo, foi impossível não pensar, de forma geral, no futebol brasileiro. Sim, penso sobre o diminutivo. Sei que é meio besta, mas o cabra virou um carma para qualquer tricolor, além de um baita pesadelo, é claro. Talvez, por isso, sinta-me ultimamente tão descerebrado. É difícil pensar. Dói a cabeça e dá azia. Tomo, inclusive, antiácido para aplacar a úlcera de raiva que acomete meu estômago. Aliás, tomei uma dose, agora, para escrever essa crônica. Bem, do que falava mesmo? Ah, sim, do diminutivo… Vejam, generalizando o problema diminutívico, creio que o pano de fundo de todo essa confusão relaciona-se a essa pergunta: por que o futebol brasileiro é tão bagunçado? Sei, sei, é a pergunta óbvia que todo torcedor faz todo dia, mas é, reparem bem, a pergunta que possui todas as respostas possíveis, continuando por isso mesmo, mais do que nunca, uma… pergunta. Assim, embora a questão seja óbvia, não se consegue, apesar disso, esclarecer o que justamente salta à vista. E, quando o óbvio continua irrespondível, seria porque já não se está diante de um fato evidente por si mesmo, e sim diante de um… mistério – o que é óbvio! Sim, a bagunça de nosso futebol é um mistério. Seria aquela esfinge sacana, nascida das entranhas de Macunaíma e não das de Zeus, que não propõe enigma algum, apenas imediatamente devora os incautos. Um dos tipos de incauto mais devorado pela esfinge de nosso futebol – por isso, de gosto vulgar e um tanto insosso – é aquele que tenta reduzir o problema da bagunça a uma questão de competência. Assim, os dirigentes teriam um problema de qualificação ou mesmo de… burrice. Sim, sim, muitas vezes é isso mesmo; de fato, fica-se pasmo diante da infinita burrice de nossos dirigentes, embora não se saiba, muitas vezes, se realmente estamos diante de “uma obtusidade córnea ou de uma má-fé cínica”, como dizia Eça de Queiroz. E burrice, convenhamos, é um fator importante que deve ser levado em conta; afinal, como dizia Nélson Rodrigues, “Já fizeram o elogio da loucura e ninguém se lembrou ainda de fazer o elogio, muito mais procedente, da burrice. Ninguém observou o óbvio: a burrice influi muito mais no comportamento humano do que o fator sexual, ou econômico ou outro qualquer”. E, sem dúvida, muitos dirigentes poderiam ser mais competentes do ponto de vista administrativo. Mas, se o problema...

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A Miséria da Conciliação

Os tricolores somos uns conciliadores. É só aparecer um tricolor na frente, e o coração derrete, e aquele intenso sentimento de pertença a uma comunidade toma conta da alma. Um encontro de tricolores é um encontro saudoso, parecendo um encontro de exilados, no qual o passado toma o lugar do país distante. É um jorro de boas lembranças e de reminiscências — quando em grupo, o encontro torna-se uma terapia, uma espécie de reconstituição da auto-estima. Muitos choram, é verdade, lembrando de Ramon. Sim, adoramos a comunhão. Detestamos conflitos, adoramos a afetividade. Por isso, desconfiamos tanto da política. Pra que brigar? A gente dá um jeitinho e evita o confronto, ora essa. Diante dos percalços e, principalmente, das lambanças de alguma gestão, usamos e abusamos da palavra mágica: união! Não é apenas uma palavra, é um ritual, uma prática de reconciliação entre posições aparentemente antagônicas, entre irreconciliáveis do discurso. A política vai começar, e pumba!, entra em cena o apelo à união e todos se congraçam em torno do Santinha. O curioso é que a dita união sempre favorece o grupo que está na direção — a conciliação é a forma de se eternizar no poder. Sim, amamos o abraço dos afogados, no qual quem se afoga é o Santinha e sua torcida. Os tricolores somos curiosos. Podemos encontrar até um canalha, mas, se é um tricolor, tudo bem, deve ser um bom canalha, no mínimo! E, quando o canalha bate nos nossos ombros e diz “sou um abnegado do Santa!”, ah, nossos olhos brilham, afinal, abnegado é uma palavra encantada, parecida com benemérito e cardeal. Abnegado pode acabar com o Santinha à vontade, pois faz isso com abnegação. É um canalha, o abnegado, mas os canalhas também amam o Santinha. Aliás, pelo jeito, todos amam intensamente esse clube! Nélson Rodrigues dizia o seguinte a respeito dos canalhas: “O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: – ‘Senhoras e senhores, eu sou um canalha” Ele estava errado. No Santinha, um canalha diz e bate no peito: _Senhoras e senhores, eu sou um canalha, e com muito orgulho! E o fantástico é que muitos cardeais aplaudem e apreciam a bela...

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Nosso futuro

Digo logo: este é um texto utópico. Fora do lugar, embora o público seja concreto. Escrevo para uma instituição absolutamente abstrata, que só existe no nosso coração, e não para aquelas ruínas da avenida Beberibe – não escrevo de forma alguma para os destruidores do meu clube. Como escrever um texto, que discute o departamento de futebol e que faz algumas propostas, para os atuais dirigentes do Santinha? A Revolução do Arruda pariu um rato, um bem pequeno, um ratinho, um diminutivo. Geralmente, as revoluções devoram seus filhos. São gloriosas e trágicas, ávidas de heróis e mártires. Nunca dão certo, apenas anunciam o futuro, através de um presente ensangüentado. Nossa revolução não teve sangue – cadê a auditoria? Nem anuncia futuro algum, apenas o velho, enfadado e eterno presente dos mesmos, dos mesmos, dos mesmos… E os filhos da Revolução do Arruda? Bem, não são nem dignos de serem devorados, exceto por uma Esfinge banguela. São, na verdade, filhos de Cândido e conseguiram fazer a proeza de desarrumar um grupo que se anunciava interessante: a Confraria Coral. Amigos, os cabras foram seduzidos pelo diminutivo?! É preciso ser muito carente para cair numa tal sedução – nem tomando Pitu! Bem, destilei meu ressentimento (é bom e só faz bem) e passo, agora, a discutir algumas propostas para um departamento de futebol, com o enfoque dirigido às divisões de base. Inspiro-me de alguns artigos do Lorde Leo, principalmente daquele no qual ele fala sobre o Sevilha. Serei apenas esquemático, formulando pontos para a discussão e o aprofundamento da questão: – sou contra a figura do técnico-manager, isto é, de um profissional que assuma, ao mesmo tempo, a direção do time e do departamento de futebol. Não temos um Alex Ferguson do Manchester United no Brasil, que junta as duas funções, muito menos no Nordeste. O técnico seria apenas um funcionário do departamento de futebol, que tem autonomia na gestão do time, é verdade, mas que segue as determinações do DF, inclusive na formação da equipe; – o gestor do DF é o coordenador de uma equipe de profissionais, com um projeto definido de gestão esportiva. É um gestor que entende de futebol, e não um intermediário de jogadores como Ricardo Rocha. – a prioridade do DF é a divisão de bases. Por diversos motivos, alguns óbvios – ofereço dois: os pratas da casa são o principal recurso financeiro, enquanto o Santinha,...

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Renúncia já!

Artur Perrusi No dia 04 de novembro, num artigo intitulado “A vida não continua…“, defendi a renúncia do diminutivo do nosso presidente. Era ainda uma defesa baseada no calor da hora. Ali, entregava os pontos, com muita raiva e desalento. Já no dia 03 de outubro, afirmava que o único pequeno clarão de esperança era a luta contra o rebaixamento (“A luta continua… para não ser rebaixado” ). Era o jogo contra o Santa André, quando o Santinha mostrou toda sua incapacidade e anunciou o futuro desastre. No dia 20 de agosto, escrevia um texto (“A miséria de torcer” ) metendo o cacete no nosso departamento de futebol, novamente anunciando a maluquice, para um clube da tradição de um Santinha, da afirmação “temos time para evitar o rebaixamento”. Hoje, vejo que errava feio, pois tínhamos, sim, um time que não evitaria o rebaixamento. Enfim, no agora longínquo 28 de julho, escrevia um artigo, “Chutando o pau da barraca“, no qual criticava o diminutivo do nosso presidente. Tentava me distanciar politicamente da diretoria do clube: “antes, tudo era branco, o apoio à nova diretoria era incondicional; agora, tudo é vermelho, e o apoio tornou-se crítico. Claro, tudo (ainda) não é preto, pois continuo apoiando a diretoria, mas algo se quebrou, algo vem se quebrando. Não há mais entusiasmo e esperança; não, agora, o que existe é circunspeção e senso crítico”. Olhando os artigos de Dimas, Leo e Maneca, vejo que cumprimos nosso papel: avisamos, como pudemos, sobre a situação do time e sobre a desgraça vindoura. No geral, nossas crônicas resumem uma crônica maior, que poderíamos tê-la escrito de forma coletiva: “crônica de um rebaixamento anunciado”. Bem, quero agora defender a renúncia imediata do diminutivo. Argumentarei, pois. Antes, porém, re-escrevo um parágrafo do artigo de 28 de julho, porque esclarece minhas posições iniciais em relação ao nosso atual presidente: “Antes, uma recapitulação, para que a minha posição fique mais nuançada. Assim, volto ao tempo. Durante as articulações para a formação de chapas, houve aquele momento em que Edinho e Romerito tentaram uma recomposição. Fui totalmente contra pelo seguinte motivo: já se estava fazendo uma composição com a situação. Edinho e quejandos tinham sido da direção passada e representavam uma filosofia de gestão que não rompia, em termos de idéias e mentalidade, com o passado do clube (daí, quem sabe, toda a ambigüidade de Edinho em relação a Romerito – o segundo...

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A vida não continua…

  Artur Perrusi Fiquei encarregado de fazer a crônica pós-jogo, pois perdi na porrinha. Quem é doido de produzir um texto sobre esse time bosta? Só perdendo no jogo de azar ou ameaçado de morte pelo Editor-Mor. O que posso dizer sobre o jogo?! Nada. Uma crônica sobre o óbvio é inútil. Mas digo que o time está com a cara da terceirona. É uma cara medonha, um mondrongo, uma vergonha. Posso falar, pelo menos, dos amigos que encontrei: Coronel Peçonha, coitado, desesperado e suando frio, até pedindo um remedinho. _Tomei todos, coroné, tô dopado aqui. Só dopado para assistir a essa merda! — disse, para alegrar o ambiente. Surge o Mameluco, cabra bom, pensando em ongs tricolores para ajudar as bases do Santinha; depois, no intervalo, aparece Chiló, com aquele seu bom humor característico:  _ a gente ganha de 3×1, dois gols de Saci. Dou uma gargalhada. Só de imaginar  Saci, a assombração, fazendo gols, tenho uma crise convulsiva de risos. Por falar nisso, presenciei o ataque mais inoperante da história do Santinha: Kuki e Saci. Aliás, presenciei muito mais: vi, com esses olhos que a terra e os vermes ainda hão de comer, a pior dupla de zaga de nossa história: Josemar e Aldo. Olhei um louco na lateral direita, Russo, e uma inexistência na esquerda, Jorge Guerra. Vi Paraíba errando os passes mais fáceis, desde que o serumano inventou o futebol. Contemplei fatos e situações que precisam de muita maturidade para aguentar — como sou infantil, dopei-me na base do rivotril com coca-cola. Depois enxerguei outro amigo, lá embaixo da social. Ele estava completamente inconsolável. Não falei com o cabra. Tais momentos são de luto e vivenciam-se na solidão. Caindo na terceirona, o Arruda lotar-se-á de choradeira e de desespero, e será o Templo das Lágrimas. Quando isso acontecer, sairei rapidinho do estádio. No futebol, só choro de alegria, nunca de tristeza. É uma questão de princípio e de equilíbrio emocional. Ah, meu Santinha, não temos clube, não temos dirigentes de futebol, não temos jogadores, não temos técnico… só temos torcida! E nós não merecemos isso! Mas não consigo pensar direito no jogo. Só penso na terceirona. Penso no meu umbigo. O que farei, se o Santinha cair? Não, não quero pensar em mim. Eu faço o possível: sou sócio, paguei a anuidade, o boleto de todos os jogos, venho lá de João Pessoa, perdendo inclusive aulas para ver o Santinha....

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A luta continua… para não ser rebaixado.

Artur Perrusi Nos comentários, coloquei meu medo: os desfalques eram sérios, seríssimos. E não temos banco, já que a composição de elenco realizou-se de forma caótica e sem planejamento. Afora o azar das suspensões e das contusões, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Em suma, praticamente jogamos sem meio-campo e sem ataque. Sinceramente, isso tudo seria uma bela desculpa — ficaria até conformado –, caso tivéssemos diante de nós um time que estivesse na liderança, etc e tal; enfim, se estivéssemos diante de um bom time, minha alma ficaria relativamente apaziguada. Eu não estaria com esse mau humor espetacular, essa nódoa no espírito, essa sensação de que perdemos uma grande oportunidade. Com time desfalcado ou não, perder da baba do Santo André foi de lascar! E ainda mais no Arruda! Não creio que Mauro tenha inventado. Ele, simplesmente, não tinha muitas opções. Marco Antonio, na meia ou no ataque, é uma nulidade técnica e produtiva. Pelo menos, tem raça e sua a camisa. Mas me causa desespero sua correria. Parece comigo, quando corro na praia aqui de Intermares. Estou sempre pronto para desabar de cansaço. As pessoas, mesmo os velhinhos, olham-me com pena. _Pobre rapaz, tá se vendo que correr não é com ele, coitado! Pensam, certamente, as velhinhas mais cínicas. E Marco Antônio desaba, desaba e desaba… Dá agonia. Os jogadores do time adversário, tendo pena feito as velhinhas de Intermares, nem mais o tocam, nem mais o derrubam, pois sabem que o cabra está tão exausto, que cairá de podre.  Além do mais, ele fica tão cansado que desperdiça as chances — todas as chances. Eu fico constrangido com Marco Antônio. Como sou médico e fiz todos aqueles juramentos de Hipócrita (ops! foi mal, quero dizer, Hipócrates), diante de seu sofrimento, tenho vontade de entrar em campo com um balão de oxigênio para socorrê-lo e, quem sabe, salvá-lo. Um dia, faço isso. Espero que não seja tarde demais. Mas o que podia fazer Mauro? Escalar Thiago Almeida? Não seria arriscar demais?!  Não vejo o menino, pelo menos até agora, como esses balaios todo, não. Além do mais, Thiago jogaria ao lado de Saci, essa assombração, e ficaria assustado com a medonhice. Inclusive, o que assusta em Saci não é sua extrema ruindade e sim sua cara de menino. Demônios com cara de criança são assustadores, desde o "Exorcista", e isso é um fato. Marco Antônio corre, quando menos; já Saci não faz...

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