Time ruim da bubônica

Time ruim da bubônica

Tentarei ser absolutamente racional. Nada de esperança, nada de milagre ou de superstição. Usarei apenas a razão, essa faculdade tão pouco empregada nesse mundo velho e enfadado. Quero ser realista; sim, realismo vulgar, daquele bem comezinho. O óbvio; sim, repetirei o óbvio. A obviedade, quando assumida, é o primeiro passo da ponderação. Bem, vamos lá. Respiro fundo e digo: o time é muito ruim. Tornarei a dizer, novamente, já que a repetição é a forma mais didática de aprendizado: o time é ruim pra dedéu! Vai ser ruim assim lá nos quintos dos infernos. Pronto, eis um primeiro passo racional para a discussão: assumir a ruindade do time. Claro, na série D, todos os times são ruins,  por definição; logo, a ruindade ganha jogo e pode classificar nosso clube. Mas será que podemos ser mais ruins do que a ruindade? Em se tratando do Santinha, tudo é impossível. E, se formos, de fato, realistas e racionais, assim desse jeito, assim como está, mesmo se passarmos dessa fase, não tenho muita expectativa com esse time. Aliás, aqui, já coloquei um pouco de emoção no meio da discussão, pois falei de expectativa. Se tirarmos esse papo, essa esperança fundada em probabilidades, não sobra nada — nós estamos ferrados. Quero dizer que, quando utilizo a razão, estou sendo absolutamente neutro, praticamente técnico. Dizer que o time não presta é um fato, tão prosaico quanto dizer que o sol nascerá amanhã. Não faço julgamentos — só constato. Não discuto, dessa forma, as causas da ruindade. Pode ser qualquer motivo: dirigentes imbecis, ex-jogadores em atividade, maldição, o diabo a quatro — não importa, não quero discutir sobre isso, visto que não tenho a mínima ideia do que acontece no clube. Poderia lamentar, mas esqueceria rapidamente a razão. Nenhuma queixa é racional, dizia minha avó. Poderia me surpreender com a  liderança do CSA, time da segundona de Alagoas e formado in extremis. Não discuto, por exemplo, sobre o time do Confiança, porque não sou adepto do surrealismo. Teria de utilizar argumentos obscurantistas para explicar por que diabos não conseguimos ganhar daquela porcaria. É uma tentação achar alguma desculpa e jogar a culpa nalgum lugar. Não, quero ser racional. O time é muito ruim. Tão ruim quanto o CSA — aliás, por enquanto, bem pior — ou quanto o Confiança; talvez, um pouco melhor do que o Potiguar, quando este esquadrão joga com apenas nove jogadores,...

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A fundação do mundo

A fundação do mundo

Obs: texto adaptado de um outro publicado num antigo blog de Bosquímano. A série D tem me feito mal. Apresentando graves sintomas de desespero, voltei-me a Freud, aquele do charuto ambíguo. Li tanto o cabra que, agora, faço interpretações a torto e a direito. Tá na minha frente?! Interpreto na hora. E digo logo: o problema é tua mãe! Onde estiver, com o dedo em riste, aponto o problema para qualquer um e gero, invariavelmente, pulsões matricidas. Tudo bem que as pessoas não me compreendam, afinal, isso não é mesmo lá muito importante. O fato fundamental foi que encontrei algumas anotações na casa de Ducaldo — um colecionador da obra de Freud  (há boatos de que jamais superou o Complexo de Édipo) — desconhecidas do público, que modificam a nossa visão tradicional do método freudiano. Não sei bem qual será a opinião dos leitores e espero, sinceramente, que as informações, por mim fornecidas, não lhes causem nenhum constrangimento. Bem, o bolero é o seguinte: as anotações encontradas modificam a nossa opinião usual da obra Totem e Tabu, cuja exegese tradicional, aliás, sempre me pareceu insuficiente. Ora, aparentemente, tal livro seria uma pálida ficção da gênese social, quando comparado com Hobbes e outros jusnaturalistas — a violência fundando a cultura é um tema repetido há muito pelos filósofos. Inclusive, Freud não deixa de ser, no fundo, um repetidor das hipóteses do jusnaturalismo, embora seja original em imaginar uma cena primitiva e fundadora tão mórbida como um parricídio. Não acredito que Sigmund tenha tido apenas a intenção de nos demonstrar uma hipotética fundação social, mas sim ir além disso; isto é, existe outra hipótese bem mais poderosa e importante, recalcada na história parricida. Na verdade, seria menos uma hipótese do que uma estória, justamente aquela que Freud escreveu e que quero lhes contar: “Desde o início fora assim, como se fosse uma coisa imutável, um direito eterno e inquestionável. Samid— segundo Freud, nome absurdamente primitivo, talvez o fonema essencial tão procurado pelos lingüistas —, pai da horda primitiva, logo de todos, tinha o poder monopolista, quase divino, de possuir todas as fêmeas do bando. Nunca que isso tivesse realmente chateado os filhos machos, principalmente no começo, quando todos eram ainda crianças. Além disso, o pai era bem grande e tinha uma carranca de meter medo — sem dúvida, parecia que a força, a agressividade e a violência detinham uma natural superioridade...

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Um dia de espionagem

Um dia de espionagem

Relatório n° 1 Missão: Avenida Beberibe Código: 666 Agente: TC Na verdade, a ideia toda foi de Dimas. No início, eu não tinha nada com o bolero. Mas o patrão queria porque queria, achando o plano perfeito. Bem, não era tão perfeito assim, porém sua simplicidade reluzia bastante: entrar no Arruda disfarçado de tolinho e descobrir seus segredos! O grande argumento para a minha escolha era que eu vivia na Paraíba. Não era um bom argumento, mas topei por causa da curiosidade e, também, porque tinha uma hipótese a ser averiguada. Queria saber que tipo de crise vivia o Santinha. Crise?! O que seria uma crise? Bem, após três cervas, concluí que é uma situação na qual um conjunto de circunstâncias, antes tolerável, torna-se subitamente, com o surgimento de um novo fator, insuportável. Em suma, sabia que nossa situação estava tornando-se intolerável, mas não sabia se tal sensação era apenas um sentimento pessoal ou, se a percepção da crise, poderia ser detectada no interior do próprio clube. No fundo, toda crise é igual, seja no futebol, na economia ou na política. Todavia, toda crise é única, feita de indivíduos e personalidades singulares. Como disse Ducaldo, a enciclopédia do futebol, após a quinta cerveja: uma crise é o somatório de intuição e pontos cegos, uma mistura de fatos notados e fatos ignorados (irk!, soluçou Ducaldo, bebendo a sexta e continuando) … mas, subjacente à unicidade de cada crise, há uma semelhança perturbadora. Uma característica de todas as crises é sua previsibilidade, em retrospecto. Elas parecem ter uma certa inevitabilidade, parecem predestinadas. Isso não é verdade para todas as crises, mas é verdade em um número suficiente delas para tornar cínico e misantropo o historiador mais empedernido Sempre me surpreenderei com Ducaldo após a quinta cerva, mas o fato era que eu não era historiador, querendo testar minha hipótese antes de o fato acontecer. Achava que o Santinha estava se extinguindo, como os dinossauros, depois da queda do meteoro. Queria comprovar tal hipótese no olho do furacão: dentro do Arruda. Não sabia ainda que não iria comprovar hipótese alguma, embora fosse descobrir coisas insólitas e inacreditáveis. Se soubesse o que iria acontecer, provavelmente recuaria; mas, era tarde demais! O que me resta agora é contar os fatos para a posteridade. Relatório n° 2 Missão: Avenida Beberibe Código: 666 Agente: TC Diretriz: 8/14 Cheguei no famoso Centro de Disfarces do Torcedor Coral...

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Faça-me rir

Faça-me rir

O time é engraçado, sem dúvida. É ridículo. Conseguiram montar um time grotesco. Ri muito, confesso. Das cenas divertidas, elejo a furada de Brasão como a melhor. Dei gargalhadas. No estádio, notava-se a meninada rindo e se divertindo. Parecia que estávamos no circo. É preciso ser competente para montar um time cômico na série D. É preciso esmero. Treinar idotices, fazer experiências malucas, escalar jogadores sem preparo físico, como o comediante Jadílson, contratar ex-jogadores em atividade. O objetivo é tornar o time num bando, num amontoado de jogadores correndo atrás da bola. E fazer, claro, da bola uma inimiga mortal. Pegou na bola, entregue ao adversário logo no primeiro passe. E não faça gol — nunca. E perca de um time mais ridículo do que o seu — sempre. Mesmo assim, montar uma porcaria para jogar a série D não é pra qualquer um. Todas as equipes são ridículas, por definição. Logo, conseguir superá-las é preciso algo mais, um planejamento do caos, sei lá. Antigamente, pensava que nossa desgraça era um misterium tremendum. Não entendia por que tudo dava errado. Pensei que fosse tragédia, logo, destino. Não, não é tragédia, e sim comédia. O santa Cruz é intrinsecamente cômico. Há algo ridículo nas suas entranhas. Se o clube tivesse uma mãe, invocaria Freud, e diria que o problema era justamente sua genitora. Seria um baita Complexo de Édipo — mas aí seria tragédia, e estamos falando de comédia, não é?! Nosso clube tem a arte de procurar problemas, encontrá-los, diagnosticá-los equivocadamente e, então, aplicar os remédios errados (paródia de uma frase de Groucho Marx) . O Santinha é uma charada embrulhada num mistério dentro de um enigma (paródia de uma frase de Churchill sobre a URSS). Mas é engraçado… Nos idos, o tricolor original, com uma pedra, fez um desenho na areia ou no tronco de uma árvore (há controvérsias a respeito). O diabo olhou por cima dos seus ombros e comentou: “É bonito, mas… será arte?”. Não era arte, era comédia. Nosso time é fubeca. Estamos diante da fubequização de nosso futebol. Temos ainda chance?! Não tenho a mínima ideia. Sei apenas que o pessimista é aquele para o qual tudo está perdido, enquanto que o otimista tem fé que as coisas ainda podem piorar. Pois acho que vamos piorar. A comédia só começou. (imagino Dado à beira de um rio. Vê um peixe dentro d’água e diz:...

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Ufa! Acabou a dungaria

Ufa! Acabou a dungaria

Transformaram você num urubu, hein?! Tinha que parar, né?! Já estava demais, um tanto artificial — um saco. O fervor patriótico pela seleção de Dunga só poderia causar mal à alma brasileira — uma patriotada movida à mídia e dinheiro. Transformaram, ainda, um paranoico conservador, como Dunga, num revolucionário bolchevique. E por que, pelo amor de Lênin? Porque foi contra a Rede Globo! É dose… Queremos ser patriotas? Ora, que torçamos por uma seleção decente, que encarne a tradição futebolística brasileira. A seleção de 82, por exemplo… Essa, sim, merece fervor nacional. Como torcer por um time que mistura o pior do futebol italiano com o pior do alemão? Que tem a defesa como ponto forte (aliás…)? Não somos italianos. Temos um estilo, temos uma tradição — se acabou, que morramos por ela! Dunga… por favor, caros tricolores, é demais, é excessivo — cansa. Escalou o pior meio-campo de toda a gloriosa história da canarinha nas copas. Escalou um ex-jogador em atividade, como Gilberto Silva; um doido, como Felipe Melo, e a esperança ficou nos pés de Elano… É muita vulgaridade! Cadê Ganso, Hernane, Ronaldinho e outros? Cometeu o erro desastroso e absolutamente estúpido de não levar um substituto para um Kaká meia-boca (o menino carola não combina com Copa). Seleção é a seleção dos melhores. Essa seleção não tinha os melhores jogadores brasileiros do momento. Os “guerreiros” perderam de uma Holanda mediana. Após o primeiro gol, numa falha de nossa defesa, tão decantada como a melhor do planeta (levou dois gols grotescos), o time desmoronou, parecendo gatinhas de madame. A seleção de Dunga não resistiu ao primeiro cachorro grande da Copa. Em 2006, a maior máfia do Brasil apostou na inanição moral do inventor do gol-detalhe: Parreira. O futebol da seleção virou uma zona. Em 2010, apostou na militarização da canarinha. O futebol virou uma volantomania. 2006 e 2010 são extremos que se tocam. O discurso patriótico de Dunga serviu apenas para enganar, dizendo que não repetiríamos a pantomima de Parreira, mas, no fundo, teve a função de justificar o espírito punitivo do técnico e de seu profundo ressentimento contra o futebol. Não se quis futebol, e sim guerra e soldados da Pátria. Pelo menos, ganhamos um novo Judas, um novo dunguinha: Felipe Melo, o jogador esforçado, aguerrido, humilde, sem “estrelismos”, mas sobretudo violento e destemperado — aquele que, no jogo contra os laranjas, começou como Gérson e...

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A McDonaldização do futebol

A McDonaldização do futebol

Parece gostoso, mas tem gosto de plástico. Gostava de Copa do Mundo. Venho desgostando. É apenas uma opinião pessoal. Como estamos num blog, posso fazer essa confissão sem oferecer muitas explicações. E falo de futebol: é difícil apreciar os jogos. Penso que venceu o clichê “não há mais time bobo”. O que significa? O nivelamento por baixo do nível do jogo. Ninguém é mais bobo porque todo mundo joga muito igual. E a igualdade, nesse caso, significa a padronização da mediocridade – a dominação da aurea mediocritas. O resultado é a chatice e o bocejo – a perda da emoção. Olho um gol e vou tomar um copo d’água, pois a indiferença dá sede. O que aconteceu? Faz tempo que não temos novidades. Mas, no fundo, não me refiro a esse assunto, a novidade; na verdade, o que me incomoda mesmo é a padronização planetária do futebol. Mesmice é o deserto da inovação. Meu medo é que isso tudo seja uma tendência um tanto inevitável. Olho a Copa e, sinceramente, só vejo futebol europeu. Sim, europeu. E pior: não é um domínio italiano, inglês ou alemão – é europeu: uma espécie de padronização, ditada pelo mercado de trabalho do futebol, monopolizado pela Europa. Antes, a Copa era divertida porque se via uma variedade imensa de estilos de jogar. Agora, é tudo o mesmo troço. Futebol é um negócio europeu. Parece uma imensa fábrica, que importa recursos naturais do planeta inteiro e que produz  de forma fordista o futebol: homogeneidade, padronização, nivelamento e… modas. Sim, modas, a única novidade no futebol. É um fenômeno banal que segue as tendências do consumo no mercado da bola. Como toda moda, a mudança mostra-se apenas passageira, superficial e sem consequência — era uma aparência que se desmanchou no ar. Bem, olho o que escrevi e amenizo minha crítica. Não sou contra o mercado. Acho até que a globalização poderia ter criado uma diversidade nunca vista, mas não é isso o que vem acontecendo. Repito o que penso: o futebol é um negócio europeu. Lá, acontece uma padronização, inclusive tática, do futebol mundial. Não é uma surpresa: todos os jogadores, inclusive os de nível médio, estão no fut europeu. Existe uma concentração monopolística na Europa. O oligopólio padroniza inclusive as táticas, verdadeiros formulários que os técnicos preenchem antes de qualquer partida. Como todo mercado exigente, ordena-se a maximização de resultados. Não apenas isso: sendo...

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