A miséria dos técnicos

A miséria dos técnicos

Texto para distração. Não gosto de técnico. Tenho a mesma opinião em relação aos árbitros: um mal necessário. Nos primórdios, alguém acreditou num cartola, enrolado como uma jiboia numa árvore,  e comeu a maçã. E pumba!, como sinal do pecado original, apareceram o técnico e o juiz de futebol. No comunismo, escrevia Marx, num manuscrito perdido, encontrado num baú dos Perrusi, o futebol não teria técnico, nem juízes e, principalmente, cartolas — em suma, seria autorregulado. Uma volta ao futebol das origens? Talvez… Um futebol sem divisão de trabalho: os jogadores seriam, ao mesmo tempo, técnicos, juízes e dirigentes. O clube seria a torcida. Mas o mundo é, habitualmente, o reverso de uma boa utopia. Assim, os técnicos são indispensáveis. E discordo de quem diz que não ganham jogo. Ganham, sim… quando não atrapalham. Aqui, estamos diante do mysterium tremendum: por que os técnicos atrapalham tanto? Talvez, porque queiram controlar o jogo. E o futebol está aquém e além de uma autoridade. E querem racionalizá-lo, outra forma de dominação. Porém, a razão do futebol é comandada pelo imponderável. Mesmo assim, os técnicos pensam que são demiurgos. Só que não é possível controlar o acaso. Ao tentar controlá-lo, vira necessidade e se torna uma tragédia. O bom técnico, nessa minha visão romanceada, é aquele que facilita o jogo, ao realizar as potencialidades de seus jogadores. Escala, assim, os melhores e os posiciona na tática que aproveita mais suas características. Depois, entrega as camisas, passa a responsabilidade e espera pra ver. No futebol brasileiro, técnico deveria ser um esteta, cuidando da beleza do espetáculo. Certo, não quero exagerar. Assim, acrescento outra tarefa fundamental: o técnico deveria ser um pedagogo. Seria responsável pela formação do jogador – formação técnica e moral. Ele faria e ensinaria a filosofia do futebol tupiniquim: “joga assim, meu filho, porque assim é bonito”. Esse é o mote pedagógico que alia beleza à eficiência. É jogo bonito, logo, brasileiro, e não colombiano, isto é, decorativo. Os técnicos pensam que são cientistas do futebol — mas não são. Quem faz ciência é o preparador físico, o nutricionista, o médico, o psicólogo, e por aí vai. Os técnicos utilizam e conhecem “técnicas”. Querem adequar meios e fins, mas o futebol, muitas vezes, tem um fim em si mesmo. Querem administrar o jogo e, assim, detestam o risco, a alma do esporte. Qual a melhor forma de gerenciar o risco? A...

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Entre a tragédia e a redenção

Entre a tragédia e a redenção

Falarei do sofrimento… Sei, sei, essa alegria toda e quero falar de sofrimento. É de lascar, mas tenho motivos. E começarei pelo começo. E todo início começa numa mesa de bar, lugar de todos os princípios. Foi, justamente, numa mesa cheia de cerveja, logo depois da saída da morada do Diabo, a série D, para a mansão dos anjos decaídos, a série C, que o filósofo Murilo Lins repetiu a indagação derradeira, esse misterium tremendum: — Como explicar a paixão e a fidelidade dessa torcida? Ficamos calados, enchemos o copo e, enfim, começamos a conversar. Disse minha opinião. Defendo-a, aqui. Eu disse: — A explicação está no sofrimento! Dimas discordou. O Editor-Mor discorda de tudo. Tem essa mania, o rapaz. Além do mais, é um hedonista, sacerdote do prazer, amante das carnes, principalmente de petiscos… Claro que um cabra assim seria contra o sofrimento. E ele não deixa ninguém falar, sobe na mesa, dança o ula-ula e acaba a discussão. E conseguiu, pois a controvérsia, depois disso tudo, perdeu-se nos caminhos etílicos da comemoração. Mas a polêmica ficou no ar. Tentarei retomá-la. Vejam o nome do clube… Caros amigos, não há Santa Cruz sem Via Crúcis! O sofrimento é intrínseco ao Clube do Santo Nome. É sua força e sua fraqueza. E, não adianta negá-lo, pois será sempre assim. Lembrem-se de sua gloriosa história. Não é de ver para crer, está na cara! E o sofrimento não é incompatível com a alegria, como deseja o hedonismo vulgar. Muitas vezes, o sofrimento é a base da alegria. Como conhecê-la de verdade, sem nunca ter passado pelo seu contrário, a tristeza? Nóis sofre, mas nóis goza! Mas não causa surpresa essa resistência em admitir o papel do sofrimento. Vivemos numa sociedade hedonista, onde impera a tirania do prazer. Somos filhos da analgesia e temos uma intolerância visceral à dor. Curiosamente, denegamos o sofrimento, mas nunca sofremos tanto. Eis o paradoxo: sofrer tornou-se uma ojeriza; no entanto, democratizou-se e todo mundo sofre, fala de seu sofrimento e tem direito, inclusive, ao seu reconhecimento. E tome um remedinho! É a medicalização do sofrimento, rivotril com pepsi, o avatar desse paradoxo. Pensem bem, caros triolores. Antigamente, havia a Ars Moriendi (Arte de morrer); hoje, ninguém sabe morrer – todos morrem como sacos de batatas numa UTI. O sofrimento fazia parte da vida. Era fonte de sabedoria. Sabia-se que a vida não é um caminho...

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Especulações

Especulações

Queria discutir alguns fatos. Certo, fatos cansam, muitas vezes, a verdade. Mas, no caso do Santinha, servem como antídoto contra as ilusões. Nós fomos campeões pernambucanos. Sim, não devemos esquecer e não custa repetir. E jogamos, convenhamos, num campeonato melhor do que o da série D. E disputamos e ganhamos de adversários que estão bem na série B. Porém, o melhor de tudo foi, justamente, a manutenção da base, um milagre em se tratando do planejamento no nosso clube. O que significa uma base? Um time entrosado, logo, preparado para entrar numa competição como a série D. Uma competição, diga-se de passagem, que não precisa de tanta preparação assim para ganhar, vide os campeões anteriores. E uma base significa economia, pois as contratações, em tese, não têm como objetivo a montagem de um time, e sim sua melhoria. O objetivo é suprir as carências, pode-se dizer. São poucas contratações. A estratégia fica mais fácil. E base, além do mais, é união, grupo e todo mundo antenado no objetivo. Continuamos com a base? Sim, mas algo estranho aconteceu. Houve a contratação de muitos jogadores, alguns absolutamente desnecessários. E, no campo, perdemos a pegada, a raça e a organização tática. Sinceramente, acho isso tudo estranho. Há algo errado no grupo? Acabou a união? Não sei… O fato é que não se escala mais os melhores jogadores. O que está acontecendo? Inicialmente, pensei que o problema fosse tático e arrumei uma desculpa razoável: o time só sabe jogar fechado e no contra-ataque. Na série D, precisa ter a iniciativa, pois os adversários jogam retrancados. Sendo assim, Zé Teodoro não teria a competência em armar o time com características ofensivas. Foi aí que pensei o óbvio: nada impede de o time jogar, na série D, como jogou no pernambucano. É só jogar compacto, marcando no meio-campo, chamando o adversário e saindo no contra-ataque. E, cá entre nós, os times não jogaram assim tão retrancados contra nós – alguns foram até bem afoitos. É um problema de grupo? Pode ser… Boleiro é boleiro, etc e tal. Não é tão fácil unificar um grupo. E, no fut brasileiro, há essa frescura: os jogadores precisam de união para jogar de forma decente. Precisam de “família”. Na verdade, um profissional só precisa fazer jus ao seu salário. Pra que “laços afetivos”? Há união no grupo? Ótimo! Mas, na sua ausência, por que não fazer o que o...

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A Greia

A Greia

Um rubro-negro disfarçado de boi emo   Adoeci, um tempo depois da memorável conquista. Não tenho mais idade para beber todo dia, suponho, assim de forma ininterrupta. Nem no carnaval, consigo mais tal proeza. O tempo não poupa nem os belos, dizia minha avó. Tenho saudade de meus tempos de menino. Agora, estou fraco com o álcool e peguei uma estupenda e extraordinária gripe. Sempre ficarei maravilhado e, ao mesmo tempo, temeroso com essa entidade chamada vírus, cuja natureza, se viva ou não, até hoje causa polêmica. Tão temeroso que, quando me perco na arrogância, lembro-me dos vírus, do poder imenso dos invisíveis, e retomo o caminho das sandálias japonesas (que foram até mais humildes, é verdade; no fundo, o mercado corrompe tudo). Trabalhei todos os dias de ressaca. Mente turva, mente feliz – o problema é a dor de cabeça, mas nada que um bom analgésico não dê conta do recado. Notei que meus queridos alunos paraibanos olharam, com certa curiosidade, seu professor, que estava com aquela cara de quem, naquela semana, tinha tomado todas e mais algumas, porque ninguém é de ferro. Mas intuíram imediatamente o motivo: o feito do Santinha saiu de Pernambuco para o mundo, inclusive para a Paraíba. Pela primeira vez, percebi uma intensa simpatia pelo Clube do Santo Nome. Normalmente, isso não acontece, pois os jovens paraibanos adotam, muitas vezes, a soberba dos times do sul maravilha, ainda mais insuflados pela arrogância da Globo. Confesso, assim, a minha agradável surpresa pela simpatia e até pelo entusiasmo com a vitória do Santinha. Os tempos estão mudando? Quem sabe, estejam seguindo o lema de um grande escritor brasileiro, Nelson Rodrigues: “Envelheçam, rápida e urgentemente!”. Para o nosso Eurípedes, o jovem tinha, além de todos os defeitos do ser humano, mais outro: a imaturidade. (Certo, por respeito à narrativa, atropelei a lógica, pois não há uma relação necessária entre a maturidade e ser um tricolor. Mesmo assim, continuo pedindo aos jovens, a todos os jovens, na verdade, que deixem de frescura e… envelheçam!) Na universidade, procurei todos os meus colegas rubro-negros e fui, um por um, meticulosamente, grear com suas caras. Fulano está dando aula em Educação – vou lá e tome gozação. Ah, sicrano fugiu e se escondeu em Física – não tem problema, o gracejo tem paciência e tem a força do átomo. _Ali, ali, no gramado, aquele boi não é um rubro-negro? Rapaz,...

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O maior título da Terra

O maior título da Terra

Há momentos na vida que você suspende tudo e pensa: rapaz, não é que vale a pena viver?! Posso até admitir que seja melhor sonhar do que viver – mas… e quando a vida coincide com o sonho? Já tentei até ser racional, perguntando-me por que diabos torço pelo Santinha. Pergunta cartesiana, absolutamente sem graça, retilínea pra dedéu. Ora, os caminhos até o Arruda são tortuosos, exceto a Beberibe, é claro. Foi assim que, um dia, olhei-me no espelho e perguntei na bucha: _Qual é a resposta, carai? O espelho me encarou, deu um sorriso matreiro e respondeu: _Qual é a pergunta, porra? Claro, não se pergunta em vão a um espelho. Não são os melhores interlocutores. Tudo ali é reflexo. Parece mais psiquiatra de saco cheio. Além do mais, diante do indizível, é melhor ficar calado. E, cá entre nós, eu sei qual é a resposta. Sempre soube. Até já respondi: torço pelo Santinha porque é um desses momentos raros no qual o sonho torna-se vida, e a vida, sonho. Sei, sei, é raro, muito raro. Mas, com a idade, adquiri a paciência e sei que vale a pena esperar – oh, sim, como vale! É preciso disciplina para se lidar com o que é raro e precioso, pois a esperança, nessas horas, é sacana. Aparece bonita e bem sedutora. E, com a sua amiguinha, a decepção, elas podem transformar a vida de um pobre torcedor num pesadelo – a série D, por exemplo. Por isso, tomo cuidado com essa vadia. Não quero morrer nobremente por uma causa, e sim viver humildemente por uma. Todavia, se tenho que morrer de forma sublime, que seja no Arruda, lugar de todas as causas impossíveis e inimagináveis. Torcedor é estádio. Tricolor é multidão. Quem for capaz de se entediar no Mundão lotado é um imbecil – repito e acrescento: imbecil e desprezível. Ali, o movimento da massa sacode o pensamento e as fibras; faz tremer a caixa de ossos. O tricolor, antes entorpecido e descrente, quando entra no Arruda, sente-se tomado pelo riso e pela mania nervosa ou pelo tormento amoroso ou pela alucinação da forma (tal fato acontecia muito quando tomava cerveja Frevo). Nesse momento, ele toma consciência de que está molhado de suor e com lágrimas nos olhos – tricolor chora e se emociona fácil, caros amigos. É uma manteiga derretida. Seria aqui, nesse exato instante, que descobre que...

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A profecia

A profecia

Fiz uma profecia — faz tempo. Eu a disse. Inicialmente, só queria chatear Geo, já que o cabra estava apoplético, depois de alguma derrota tricolor. Depois, fui percebendo que algo estava errado — mas, só depois. Geo não se chateou, propriamente, apenas se calou e me olhou muito triste. Seus olhos marejavam. Geo é poeta, logo, sensível a vaticínios. Detesta previsão e destino, mas  os teme como o diabo. Acho que entendeu tudo, na hora. Tentou falar e não conseguiu. Parecia pedir ar. Como disse, estava apoplético e, agora, mudo feito um ornitorrinco – sim, é um bicho mudo, não posso fazer nada, vi na Discovery Channel. Dimas, ao lado, meneava a cabeça. Não tinha entendido, nem escutado a profecia, mas sabia que era séria. Imaginou logo o que fosse. Pela sua cara preocupada, compreendi que algumas revelações não devem vir à tona – deveriam ser, na verdade, esquecidas. Revelações improferíveis ou esquecidas moram no purgatório do tempo. Diante do indizível, que fiquemos calados, parecia implorar Dimas. Uma revelação dita vira profecia, destino e futuro. Digo logo que fazer uma profecia não é fácil. É preciso muito desespero ou ter comido gafanhotos no deserto ou  mascado um mandacaru no sertão. Não tinha comido gafanhoto, embora a comida do bar tivesse algum parentesco; não tinha mascado um mandacaru, embora a cerveja Frevo fosse absolutamente psicótica – estava, isto sim, era desesperado. O desespero é uma forma de clarividência. É a consciência absoluta da condição de lascado; a lucidez do fodido; a catarse da evasão impossível. Sei que não deveria ter proferido a profecia. Liguei, desse jeito, a máquina do destino, uma engrenagem que mói expectativas, esperanças e otimismos. Uma vez ligada, nada pode pará-la — tão ligados?! Não deveria, mas fiz. Sou culpado, mas não responsável. Um desesperado que faz uma profecia não é responsável pelo enunciado. O profeta do desespero apenas verbaliza Outro, um além que está lá, nalgum lugar, absolutamente inatingível. Sim, não sou eu o responsável pela profecia e sim a PQP, o espírito maligno do Santinha. A PQP falava por mim e dizia horrores. Minha boca exalava um futuro fedido e nojento. Parecia um cadáver. Minha enunciação tornava o impossível uma possibilidade, o possível uma probabilidade, o provável uma certeza. Dimas conseguiu balbuciar: _porra, Artur, por que dissesse isso? _Não fui eu. Foi a PQP… _PQP, um carai! – falou, enfim, Geo. _Não foi a PQP...

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