O Homem Invisível e a partícula de Deus

O Homem Invisível e a partícula de Deus

Breck Eisner procurava o ator certo para atuar no filme “O Homem Invisível”. Não encontrava ninguém e estava ansioso. Tinha prazo para terminar o filme. Passando da data, perderia o financiamento. Foi assim que, num belo dia, apareceu Wesley. Na época, era um jovem ator à procura de emprego. Estava ali para testes. Eisner pirou. A atuação foi perfeita. Wesley ficara completamente invisível. Ninguém o via. Cadê Wesley, perguntava feliz da vida, Eisner. Só que… er… o fato é que Wesley atuava bem demais. Tão bem que, realmente, tornava-se invisível. Cadê Wesley, perguntava já infeliz, Eisner. O coitado, assim, foi demitido por um motivo inédito no cinema: atuação perfeita e completamente adequada ao papel. Wesley jamais recuperou-se do fracasso. Não entendia o que lhe tinha acontecido; afinal, não atuara bem? Desistiu de ser ator e foi tentar a sorte no futebol. Inicialmente, não deu certo. Desaparecia no campo. Cadê Wesley, perguntava a torcida. O papel de invisível fora tão bem representado que grudara na alma de Wesley. Repetiria a invisibilidade em qualquer lugar e contexto. Até que encontrou Zé Teodoro no Santinha. Ora, o técnico adorava o tema da invisibilidade. Lera várias vezes o livro de H.G. Wells. Vira o clássico do cinema não sei quantas vezes e tinha o DVD do remake, justamente o filme de Breck Eisner (a única cópia onde aparecia Wesley… quero dizer, onde não aparecia o cara). Assim,  virou seu titular no time. Cadê Wesley, perguntava feliz da vida, Zé Teodoro. E, de fato, a invisibilidade do jogador no meio-campo do Santinha era perfeita. Uma multidão olhava o jogo e ninguém via Wesley. Sua capacidade de jogar no vazio, de procurar o nada e de se esconder na sombra era inigualável. ZT ficou radiante. Conseguira realizar o sonho de formar um meio-campo que não correspondia a uma realidade sensível. Wesley impregnava de invisibilidade meias e volantes. Era fantástico! Ontem, apostei que conseguiria encontrar Wesley; afinal, era muito bom no jogo “cadê Wally?”. Perdi, claro. Só mesmo um mutante, um X-Men, encontraria o cara – e olhe lá! Enquanto pagava a cerveja da aposta, especulava sobre o poder de invisibilidade de Wesley. Estava junto de Ducaldo, a enciclopédia do futebol, do rock, do violão, do caldinho de bacalhau, o escambau. Aproveitei o ensejo e perguntei: _Como Wesley consegue ser invisível? Ducaldo ficou calado. Era uma pergunta difícil. Tomou dois caldinhos de feijão e disse: _Acho que...

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De futebol e ópera

De futebol e ópera

Eu não sei… Se o Editor-Mor está sem inspiração, imaginem eu sem eira nem beira na formosa Cabedelo. Pelo menos, tenho o Bar do Surfista aqui bem juntinho de casa. É o lugar de proteção das tartarugas. Há quelônios e tem todo tipo de gente. É fauna e flora. Afora os cheiros, os mais variados. E todos fumam, o que é curioso. São cigarros naturais e diferentes. São ervas medicinais, corrige-me um vizinho de mesa. Eu digo: aaah… Por questão de princípio, apoio tudo que tem algum efeito terapêutico. Fumaça é terapia, vejam vocês. E, claro, sendo o bar um local de proteção ambiental, abundam ecologistas. Pairando no ar, está o futuro do planeta. Não tenho nada contra os ecologistas, contanto que tomem cerveja. Tomando uma, sou capaz de perdoar até fundamentalistas. Mas o que acho fascinante na ecologia é que não há mulheres ecologistas que não sejam gostosas. Parece existir um imperativo categórico: _defendo a Deusa Gaia, logo, sou gostosa! Tentando ser simpático, perguntei a um grupo ecológico na mesa vizinha: _E a série C? Parece que não entenderam a pergunta, pois fizeram um tratado sobre o aquecimento global. E, de fato, era um dia quente, aqui no Bar do Surfista. Pela resposta, deduzi que não gostavam de futebol. Não faço disso um princípio. Sei que existem pessoas que não gostam do ludopédio. Devemos, afinal de contas, respeitá-las. Mas acho estranho. No Paraíso, todos jogarão futebol; no comunismo também, segundo Marx. _Você não gosta de futebol? Perguntei a uma ecologista que usava um sensacional fio dental. _Não, não gosto. 22 homens correndo atrás de uma bola. Que graça tem isso? Era uma observação pertinente — falarei com Dimas sobre o assunto. Durante um momento, fiquei empulhado. Perguntaria à mocinha se gostava de homem, afinal, mas deixei pra lá. Preferi uma pergunta genérica. _Você gosta de quê, então? _Gosto de tartarugas e óperas. _Óperas? _Sim, óperas… Fiquei pensando… Também gosto de óperas. Quem não gosta acha todas iguais, mas não são – de jeito nenhum! Decidi aproveitar a brecha. _Futebol é que nem ópera. É arte. _De jeito nenhum! A mocinha parecia indignada. Era o momento para polemizar. _Rejeitar ópera é ignorância. Fazer o mesmo com o futebol é preconceito. _E dizer que futebol é que nem ópera é uma idiotice. Futebol não tem nada a ver com a verdadeira cultura, a verdadeira arte. Pronto, caíra na armadilha. Era...

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E borbulhava um riso louco

E borbulhava um riso louco

Não sei se vocês sabem, mas o deus supremo do panteão futebolístico é Crom, aquele de Conan, o bárbaro. Seria um deus cínico e sacana, segundo o guerreiro da Ciméria. Não é uma surpresa; afinal, o futebol é o mundo da greia, a ambrosia dos deuses. As divindades do futebol amam provocar, surpreender e sacanear os clubes e seus torcedores. Não nego, até por isso, que Crom é irritante, inclusive, adorando fazer-nos de alvo. É um Ser que se nutre de esperança e, assim, gosta de produzir desespero. Sou temente a Crom. Não o desafio, porque já tive péssimas lições. Diante de um deus gozador, fico sempre com medo de algum raio cair na minha cabeça. Os deuses são sacanas. É uma lei fundamental do futebol. Se você não admite, caro leitor, não assume esse vaticínio, até fica puto da vida, paciência, meu chapa, problema seu. Sugiro que mude e vá jogar sudoku — o jogo mais ateu da paróquia. Lembro que a sacanagem divina permite aos mortais exercerem a diversão maior do futebol, justamente a gozação do outro, do dileto adversário, a suprema zombaria. E falo de pilhéria, do dito espirituoso, que é intrinsecamente pacífico. Porque transformar a chacota em violência é tabu. Por isso, o fim do futebol está piscando ali no horizonte por causa das torcidas organizadas. A violência é um mundo sem deuses, sem riso, logo, sem humanidade. O objetivo do futebol é transmutar o inimigo em adversário e, depois, em amigo – além do mais, vale a pena fazer isso, até por prevenção, porque do outro lado está aquele que, um dia, vai zonar com sua cara. Fazer e receber troça gera um efeito pedagógico, constrói o caráter, podem crer. Pois bem, dizem que, nesse final de semana, Crom estava meio indócil, quase macambúzio. Tinha visto a final da Liga Europa quando o Atletic de Bilbao foi trucidado pelo Atlético de Madrid. Viu todos os jogadores bascos do Bilbao caírem no chão chorando por causa da derrota. E viu a torcida acompanhá-los nas lágrimas. Foi uma cena tocante. Mesmo o coração mais duro amoleceu. Ora, Crom não é mau, embora seus atos sejam, além de irracionais, um tanto cruéis. Além disso, não tem coração, apenas um gânglio nervoso no seu lugar. Também não gosta de arroubos de nacionalismo, feito o basco, mais ficou meio assim, sei lá. Deu pra sacar que estava meio condescendente quando permitiu...

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De Epifania e Misticismo

De Epifania e Misticismo

Não sou religioso. Nunca tive uma revelação, jamais estive nalguma estrada de Damasco. No sentido mais prosaico da palavra, sou um ímpio. Acredito piamente que a alma é uma secreção verde que insiste em sair pelo meu nariz. Coloco-a debaixo da mesa ou da cadeira. Mostro às crianças, e elas têm nojo. Sinceramente, não percebo sentido no mundo, apenas os sentidos que projetamos no mundo. Mas, se existe um lugar ainda encantado, onde as assombrações e o sobrenatural reinam, ora, esse lugar é o futebol. Aqui, não sou propriamente religioso, mas profundamente místico. Tenho manias que se transformam em rituais sagrados. Vejo sinais em tudo que é canto e os interpreto segundo uma intuição transcendental que escapa completamente à minha razão. Podem ser desgraças, podem ser milagres. Cá entre nós, só me acalmo quando estou no templo sagrado, o Mundão. Ali, eu me sinto protegido, em comunhão. Porém, sou um ímpio absolutamente desmoralizado; afinal, torço por um clube chamado Santa Cruz. Aliás, torcer é eufemismo – tricolor não torce, pois isso é para os bicolores,  e sim vive num estado de fervor, de emoção religiosa intensa, pelo seu clube. Do ponto de vista das minhas crenças, não deixa de ser irônico, reconheço. E ainda por um clube que personifica, mais até do que o Botafogo, o Sobrenatural de Almeida. Convenhamos, os desígnios do Santinha são insondáveis. Só nos resta adivinhá-los, captá-los ali no copo de cerveja – diga-se, de passagem, a cerveja é muito melhor do que o polvo frito e o coração de boi para a presciência. A cevada, inclusive, faz parte dos rituais de adivinhação de todo oráculo de futebol que se preze. Digo isso, por causa de uma divergência mística com a família Lins, adoradora do ocultismo das frituras. Vejam Ducaldo: só depois da enésima garrafa de cerveja é que começa a adivinhar. Mas já está tão bêbado que é impossível compreendê-lo – sem dúvida, é um dos oráculos mais obscuros que conheço… No fundo, por meio do Clube do Santo Nome, tenho a necessidade de explicar e dar sentido ao mundo. Vejam, sinto que deve existir um princípio motor no interior do Ser (lembrem-se que a secreção verde sai de dentro de mim, isto é, do meu ser), e arrisco a dizer que é o Santinha. Só pode ser. Pois bem, vamos à mitologia grega e provar minha intuição. No começo, havia a Noite (Nyx)...

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Recordação

Recordação

Momentos antes de uma decisão, quem sabe antessala de outra ainda mais importante, nada como oferecer… recordações. Meu pai, antes mesmo do meu nascimento, fez um juramento diante da Igreja do Bom Jesus da Via Sacra, embora fosse um ímpio, e ofereceu minha alma ao Santa Cruz. O Santinha salva, já dizia o meu avô, um crente convicto que, se não salvou meu pai do inferno, deu-lhe um passaporte tricolor. A ideia é interessante e, provavelmente, eficaz: ao mostrar a bandeira do Clube do Santo Nome a Belzebu, seria impossível não recusar sua entrada; assim, seria banido do Inferno e posto num vulcão – meu pai voltaria ao mundo numa irrupção de lavas ardentes, uma imagem apoteótica e que muito lhe agrada (defende, inclusive, que o vulcão seja o Vesúvio, por causa de sua descendência italiana). Cada um tem sua fantasia, claro, e eu tenho a minha e você, leitor ou leitora, cá entre nós, tem a sua, certamente bem perversa – o fato de ler o TC já é sinal de perversão, desculpe dizer. De todo modo, digo logo que sou um caso teológico único, pois, ao ter minha alma ofertada num momento anterior ao meu nascimento, tornei-me tricolor antes mesmo de existir. Por isso, posso dizer que ser tricolor está aquém e além da existência. Não me amostrarei e não darei aulas de teologia, mas houve, apenas para resumir e ilustrar, um exemplo concreto dessa história toda: não chorei ao nascer, somente cantei o hino do clube (juro, inclusive meu pai tem uma fita gravada). Na verdade, Nostradamus já tinha descrito essa situação. Fez até uma de suas profecias: quem for tricolor antes de nascer não carrega consigo o pecado original. Como consequência, pela lógica, estou a salvo do Inferno. Ao mesmo tempo, sem pecado original nas minhas veias espirituais, tenho alguns problemas – daí, talvez, o fato de eu ser aditivo e de escorpião, cometer pecados compulsivamente, não ter culpa alguma e ser, curiosamente, perdoado pelas vítimas, o que, nesse mundo velho e enfadado, é uma considerável vantagem — sim, confesso, cometi bullying, principalmente com criancinhas barbies e coisetes, e espero, por causa disso, não ferir sensibilidades politicamente corretas. Além do mais, metafisicamente falando, tenho a certeza filosófica de que, mesmo morrendo, continuarei tricolor – em suma, conquistei a eternidade e peço desculpa pelo meu privilégio aos tricolores simplesmente mortais. Depois de certo tempo, já menino e...

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Corpo dócil

Corpo dócil

Não nego minha antipatia por Zé Teodoro. Não é uma questão propriamente pessoal — não o conheço. Seria mais uma divergência “filosófica”: detesto retranca, mesmo quando ela é necessária. E a necessidade pode ser criada, pode ser sempre a ordem-do-dia, absolutamente… necessária. Ser contra a necessidade é de lascar e gera uma imagem de romântico — é a insubordinação em sua forma mais pura, diria um filósofo, cheio de mel na cabeça. A retranca, no fut nacional, virou a salvaguarda profissional dos técnicos. Entendo o raciocínio: o resultado é tudo e, também, o leitinho das crianças. Mas não tenho nada a ver com isso. Não é o meu problema, e sim o dos técnicos — entretanto, posso entender a ansiedade pelo leitinhos dos rebentos. Porém, reconheço que mnha filosofia é vetusta e ultrapassada. O fut brasileiro mudou… para a Catalunha. E não posso, convenhamos, fazer nada, a não ser lamentar. E é isso que farei; afinal, blog é que nem o Muro das Lamentações de Jerusalém. Nessa semana pós-páscoa, lamentarei por mim, por vocês e pelo mundo. Lá vai… Logo no começo do ano, li uma notícia inacreditável: Zé Teodoro estava se espelhando no Barcelona para treinar o Santinha. Na época, pensei que nosso técnico pegara uma febre tropical. Tomado pelo fogo interno, começara a delirar e a ter sonhos impossíveis. De todo modo, não sei se o cabra tentou virar catalão, só sei que desistiu da ideia. Ou, talvez, tentou e não deu absolutamente certo. As pardalices de ZT podem ter alguma relação com tais tentativas. E não teria dado certo, porque ZT não tem a mínima ideia de como treinar uma equipe para jogar bonito e de forma ofensiva – daí a maluquice de colocar Bala como volante, por exemplo. Claro, sua incapacidade pode ser fruto da burrice, mas não creio. O problema, talvez, seja outro. ZT está tão adestrado no futebol defensivo que não consegue escapar da doutrina da retranca. Não consegue agir ou pensar de outra maneira. E, de fato, da sua maneira, o time tornou-se bem mais eficaz. Ninguém, nem mesmo eu, com todo o meu sectarismo, pode negar que oito vitórias consecutivas merecem algum elogio. Mas meu objetivo, aqui, é lamentar — lembram-se? Continuemos… Nesse sentido, sua rixa com Leo é recheada de simbolismos. Inicialmente, ainda com a febre tropical, escalou o garoto; depois, já convalescente, assumiu de vez suas convicções ideológicas e desistiu...

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