O que importa

O que importa

(texto originalmente publicado aqui) Conheci Sócrates, um dia, em 2002. Era a comemoração do aniversário de 6 anos do Futiba, um site de futebol. Foi famoso, o futiba, fundado por dois corintianos malucos, meu amigo Gil e Manolo. Tinha correspondente em tudo que é canto do mundo (de Tóquio a Recife). Escrevi para o Futiba durante cinco anos. Foi um período muito divertido. O Futiba era lido por Juca Kfouri e, claro, por Sócrates. Inclusive, Juca nos apadrinhou, digamos assim. Até pagou minha passagem e, assim, pude ir a São Paulo. A comemoração foi no escritório de Zé Roberto, o contador de causos do site, um grande palmeirense. Naquela época, Sócrates era o anticandidato à presidência da CBF. O Doutor tinha muitas ideias, pra dedéu até, mas nenhum plano – o termo “factível” não existia no seu jargão. Chegava a ser engraçado o seu jeito de defender as propostas. Muitas vezes, sofria de esquerdismo, a doença infantil da canhota. Mas sua retórica revelava uma inteligência rara. E, de fato, o cabra era inteligentíssimo. Confesso que não estava muito interessado na sua anticandidatura. E tinha razão, pois não deu muito certo. Na verdade, queria era escutá-lo sobre futebol, incluindo a relação entre futebol e política. Aliás, o último ponto me interessava bastante – o que foi, afinal, a Democracia Corintiana? E queria – ah, como queria – que falasse sobre a seleção de 82, a última verdadeiramente popular, aquela que bateu junto com o coração do povo brasileiro. Estava, também, muito curioso em conhecer pessoalmente Juca Kfouri – além de ser um baita jornalista esportivo, é o mais democrata de todos, um bem raro no ambiente ultrarreacionário do futebol brasileiro. Seus maiores títulos são os processos ajuizados por Ricardo Teixeira. Convenhamos, ser processado por tal figura revela idoneidade e retidão de caráter. Quer um atestado de honestidade? Seja processado pela CBF. Para um jornalista esportivo, tal situação implica também coragem, pois significa ir de encontro aos diversos intere$$es que giram em torno desse condomínio da rua Victor Civita. Enfim, o cara sabe se defender. Sócrates já era esquisito na televisão e nos retratos; ali, ao vivo, era mais ainda. Pensei comigo: _putz, que cabra feio da porra! Mas, na hora, notei um paradoxo: o dotô é uma figura imponente. Olhava sua altura. Já não era, naquela época, propriamente magro. Donde vinha sua imponência? De seus gestos, de seus movimentos, de...

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Capitalismo de máfia

Capitalismo de máfia

Escreverei um texto sério. Sei, sei, não sou muito indicado, mas sou pago em merreca e está no contrato de colunista do TC: “de vez em quando, escreve um texto sério, rapaz”. Bem, vamos lá, então… (tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec) Isso sou eu, no teclado, procurando um assunto muito sério. Tá difícil… Ah, enfim, encontrei o tema, mas não consigo escrever, porque não consigo organizar o troço na cabeça. O jeito é apelar para o esquema. Texto sério é assim, todo enquadrado. Bora lá. Atualmente, a lógica esportiva é definida pela lógica econômica. O que isso significa? Simplesmente, quer dizer que o clube mais rico tem uma larga vantagem na competição esportiva, principalmente nos pontos corridos, uma modalidade de competição que, nas atuais condições do mercado futebolístico brasileiro, favorece os mais ricos.O futebol brasileiro, dada a sua riqueza, ainda não é o insosso campeonato espanhol, aquele de dois clubes, mas tem a tendência a excluir todo clube fora do eixo (o eixo: SP, RJ, MG e RS).  Faço a comparação com outrora. O fator econômico, claro, sempre pesou, mas não dominava, de forma escancarada, como atualmente, o fator esportivo. Ofereço como exemplo o Santos que, por causa de circunstancias esportivas, competiu de igual para igual com os clubes paulistanos. Vejam o Bahia e a Barbie da década de 60; o próprio Santinha na década de 70 – era possível formar grandes equipes sem que o poder econômico norteasse a qualificação esportiva da equipe. Enfim, lembrem-se da fauna e da flora exuberante que tinha o futebol brasileiro, numa época em que a competição esportiva teve uma autonomia relativa em relação à determinação econômica – até porque não havia mercado, nem capitalismo no futebol brasileiro. Não quero demonizar o mercado. Se os petistas e os socialistas idolatram banqueiros, quem sou eu para negar as virtudes da “mão invisível”?! Minha crítica tem como alvo nosso modelo de mercado futebolístico, excludente e patrimonialista, por definição. Aliás, não sei se, realmente, temos mercado, logo, competição econômica, igualdade de oportunidades, mérito, aquilo tudo que está escrito no brasão esportivo “que vença o melhor”. Na verdade, parece que temos é a traffic (eita!) ou o tráfico, em que dominam monopólios e cartéis, como o antigo Clube dos 13 e a CBF. Meu modelo de mercado futebolístico é outro: competição esportiva qualificada...

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Do nada para o nada, dando tudo em nada

Do nada para o nada, dando tudo em nada

Antigamente, perguntava-me se o futebol brasileiro tinha jeito. A resposta era imediatamente negativa. Era quase um reflexo incondicionado dizer “não”. Seria mais fácil o Cão da Menália parar de correr atrás da Lebre do que o futebol brasileiro tornar-se decente. Naquela época, tinha uma mania danada em perguntar. E, meio sem querer, aproveitei e perguntei do nada para o nada: e a prefeitura do Recife tem jeito? Acho que exagerei, pois até a Lebre parou e se arretou: _Carai, aí demais, né?! (traduzido do grego antigo). Sei que exagerei. Perguntaria até sobre a FIFA e o futebol mundial, mas tive pena do Cão e da Lebre. Afinal, sou politicamente correto e muito sensível a animais. Não consigo mais, por exemplo, comer galinha à cabidela. Penso naquele pescoço a sangrar e uma mão humana batendo o sangue numa tigela. Penso na ave a sofrer, esgotada, sem sangue e… tenho fome! Caramba, foi mal aí. Desculpe, ô Greenpeace, pelos meus apetites bárbaros. Voltemos à crônica esportiva e esqueçamos o sangue, o sofrimento das galinhas, a cabidela, aquele prato delicioso… (tlec, tlec,tlec, isso sou eu, teclando no teclado à procura de fantasias vegans. Procuro, na geladeira, um sorvete de manjericão. Huuum, é bom manjericão, não tem gosto de sangue, de galinha, de cabidela…) Bem… er… como dizia, o ideal, assim, é perguntar nada ou sobre nada. Pelo menos, não repetiria a mesma ladainha de sempre. No fundo, a repetição é a função da crítica esportiva no Brasil e no mundo: repetir, feito um moto-contínuo, as denúncias eternamente iguais contra a sempiterna corja de dirigentes. A culpa, na verdade, não é dos cronistas, e sim da realidade de nosso futebol. Se tudo se repete, a crítica necessariamente acompanha a repetição. A pobreza da crítica é a pobreza da realidade. Como escrever alguma coisa que preste sobre o futebol brasileiro, se o mesmo está passando por uma entressafra pobre e preocupante, se sua organização apodreceu de vez nas mãos dos nossos dirigentes malucos? O cronista coerente é o niilista inveterado que desconfia de todo otimismo e de qualquer crença positiva a respeito de qualquer ação decente dos atuais dirigentes do fut nacional. Ou seja: a coerência determina a rejeição de qualquer esperança de mudança positiva no futebol brasileiro. E o fim da Máfia dos 13, pergunta um cândido? É mais fácil o Cão da Menália, etc e tal, a Lebre, e por aí vai....

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O Blog do Santinha morreu?! Viva o Blog do Santinha!

O Blog do Santinha morreu?! Viva o Blog do Santinha!

Entendo o motivo de seu fim. Blog de massa dá um trabalho imenso, principalmente quando é feito de forma voluntária — um dia, enche. Mas não foi apenas o saco que encheu. Blog cansa, mas vai-se levando, de alguma forma. Imagino outros motivos. Fico pensando, se escrevesse no BDS, o que me faria parar de escrever. Assim, ofereço minha opinião. Não é a do TC, nem do pessoal do BDS – não falei com ninguém do blog. Seria apenas minha avaliação da experiência do BDS. Faço-a porque, no fundo, as aventuras e as desventuras do blog foram também as de todo tricolor partidário de mudanças estruturais no clube. Inicialmente, era um blog de crônica. Sempre achei que isso fazia a sua força. As crônicas deram o tom inicial e permitiram seu sucesso. Colocar Samarone e Inácio juntos era, sem dúvida, garantia de qualidade. E o blog conseguiu de cara uma primeira geração de comentaristas de alta qualidade. Discutia-se o texto publicado, imaginem! Gente que entendia do clube, de futebol e que detestava o LEF. Na diferença, havia muita identidade entre o blog e seu público. O BDS conseguiu um fato raro no futebol: uma unidade na diversidade. Escrever crônica não é fácil. Precisa de transpiração e de inspiração. A inspiração precisa de um sopro divino. O Santinha é uma musa? Bem… er… é, sim. Seu passado, com certeza. Atualmente, o seu presente leva-nos aos caminhos tortuosos da tragédia. Em 2005, data da fundação do blog, era fácil escrever crônicas. O presente facilitava a inspiração. Foi aí que se abriu a grande janela da Utopia: de repente, parecia possível mudar o Santinha, democratizá-lo, profissionalizá-lo e outros babados. O blog entrou de sola e acreditou nessa Grande Possibilidade. A possibilidade, lembro a todos, não é a realidade, mas não deixa de ser uma, estando lá nas fronteiras da probabilidade, como esperança… Só precisa ser atualizada. Assim, a esperança passou a ser a nova musa da inspiração. A utopia foi virando distopia, e deu no que deu. O blog… na verdade, todos nós, fomos fragorosamente derrotados. Não paramos de dar murros em ponta de faca. Perdemos anéis e dedos. Não sobrou nada, apenas nossa dignidade. E dignidade não muda clube, nem mesmo sensibiliza torcedor. Depois da última e vergonhosa eleição, com a volta do LEF e de todos os tolinhos inimagináveis, o desalento tomou conta de vez do BDS. Mas o desalento...

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Retrospectiva 2010

Retrospectiva 2010

Final de ano é sempre momento de reflexões. E, pelo segundo ano consecutivo o Torcedor Coral faz uma retrospectiva do que foi o Santa Cruz no ano 2010. Antes porém, tendo por base a retrospectiva 2009, podemos observar que nossas esperanças não viraram realidade. Ccontinuamos na série D, Raimundo Queiroz foi uma decepção, Natan continua sendo uma promessa, a atualização do salário dos funcionários prometida pelo ex-presidente nunca ocorreu, continuamos perdendo jogador por falta de pagamento, dentre outras. Enfim, embora se saiba que a esperança seja a última que morre, parece que, para nós tricolores, ela não morre nunca. Que em 2011 nossas esperanças se renovem. E, porque não, tornem-se realidade. Mas, sempre, com a certeza de que nós continuaremos amando o nosso Santa Cruz Futebol Clube que, assim como a esperança, nasceu para viver eternamente. Feliz 2011! ————————————————————————————————————————————————————- Melhor de 2010: Torcida do Santa Cruz (pelo segundo ano consecutivo) Pior de 2010: Fernando Bezerra Coelho Maior emoção (Futebol): Jogo contra o Bofafogo-RJ, no Engenhão Maior tristeza (Futebol): Jogo contra o Guarany de Sobral-CE, que desclassificou o Santa na Série D Melhor jogo: Botafogo-RJ x Santa Cruz, no Engenhão Jogo marcante: Santa Cruz x Guarany-CE, mais de 50 mil torcedores corais Jogo “engana torcida”: Santa Cruz 4 x 2 Náutico Jogador “engana torcida”: Brasão (atacante) Melhor jogador: Tutti (goleiro) Pior jogador: Kleyr, Jadílson, Alex Oliveira, Val Barreto,  Renan Grampola, Robinho, André Paulino, Leandro Cardoso e mais 20 Maior promessa (Jogador): Natan, (pelo segundo ano consecutivo) Maior decepção (Jogador): Jackson (meio-de-campo) Maior acerto da Administração (Futebol): Demitir Lori Sandri antes de terminar o Campeonato Pernambucano Maior erro da Administração (Futebol): Contratação de Lori Sandri Maior acerto da Administração (Clube): Ter antecipado o término do mandato do Presidente do Clube Maior erro da Administração (Clube): A volta do LEF e a escolha do candidato à Presidente do Clube Maior esperança (Futebol): Acreditar que existe algo além da esperança Maior Orgulho: Jogo contra o Botafogo-RJ Dirigente decepção: Raimundo Queiroz Dirigente revelação: Não tem Maior Perua: “Carlinhos Bala está 90% acercado com o Santa Cruz”. Anunciado oficialmente no site do Clube Maior alegria alheia: Permanência da coisa na série B Maior esperança (Administrativo) para 2010: Salários dos jogadores e funcionários pagos em dia Frase enigmática: 1. “Mas, por felicidade nossa, Romerito (ex-presidente) é que é o representante de Bala”.  Antônio Luis Neto respondendo sobre o interesse do Santa Cruz em Carlinhos Bala. 2. A...

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O canto do cisne

O canto do cisne

Com a volta do LEF, a janela de oportunidade, que se abrira aos tricolores democratas, fechou-se definitivamente. Fomos defenestrados do clube, por assim dizer. A janela era pequena, mas promissora. Era uma oportunidade histórica; na verdade, única. Tínhamos, enfim, a chance de mudar o Santinha. Fracassamos de forma espetacular. Era uma crônica anunciada, o nosso fracasso? Talvez. Nunca conseguimos mudar de fato a correlação de forças. Sempre fomos minoria. É só recapitular a história e, com isso, entender o que se passou. Escrevia o seguinte, em 28/07/2007, no texto Chutando o pau da barraca: Antes, uma recapitulação, para que a minha posição fique mais nuançada. Assim, volto ao tempo. Durante as articulações para a formação de chapas, houve aquele momento em que Edinho e Romerito tentaram uma recomposição. Fui totalmente contra pelo seguinte motivo: já se estava fazendo uma composição com a situação. Edinho e quejandos tinham sido da direção passada e representavam uma filosofia de gestão que não rompia, em termos de ideias e mentalidade, com o passado do clube (daí, quem sabe, toda a ambiguidade de Edinho em relação a Romerito — o segundo acusa, o primeiro finge que não escuta. Há um silêncio da presidência em relação à gestão passada que, dadas as circunstâncias, não tem explicação. E, afinal, a auditoria não encontrou nada?!). Claro, há uma espetacular diferença aqui: estava-se compondo com a parte benigna da antiga diretoria. Dada a situação do Santinha, a honestidade tinha um valor estratégico fundamental. (Aos poucos, fui descobrindo que, infelizmente, honestidade é condição necessária, mas não suficiente para mudar o clube do Santo Nome) Assim, na minha cabeça, a próxima diretoria seria de transição, visando à formação de uma base de dirigentes e a práticas de gestão que pudessem implementar uma nova configuração no clube, mais democrática e profissional. Mas achava que necessitaria, para que tal objetivo fosse viável, de algumas pré-condições: a) Edinho e sua ala largassem o amadorismo e uma visão ainda um tanto centralizadora de gestão; b) a ala, representada por Fred Arruda, conseguisse força política e fosse se tornando hegemônica no clube; c) o Conselho Deliberativo fosse ativo e pendesse politicamente para a democratização e profissionalização do clube. Nada deu certo e, em 18/11/2007, pedia a renúncia do diminutivo no artigo Renúncia Já!. Não houve renúncia, tudo continuou errado, e escrevi, em 02/05/2008, um artigo (Nosso futuro) sobre o fim da “revolução do Arruda”: A...

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