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Home » Resenha » O mito e as meias

O mito e as meias

Autor: Dimas Lins | 1 de abril de 2007 | 22:10h | Resenha | 8 comentários

Fotos: Dimas Lins

chilo-pe-quente.jpg

Vai-se o mito, ficam as meias

Dimas Lins
 
Relato fantástico protagonizado por seres que encarnam, sob forma simbólica, as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana; fábula; lenda; mitologia. Segundo o dicionário Houaiss, essa é a definição de mito.
 
Segundo relatos que surgiam por todos os lados da torcida tricolor, havia a lenda de que o sanfoneiro Chiló trazia consigo um estigma que produzia um malogro ao Santa Cruz, quando ele ia assistir a um jogo. Chiló, sanfoneiro da Sanfona Coral e tricolor arretado, já estava invocado com a pecha a ele atribuída. Era hora de mudar. Mas para entender o fim do estigma de pé-frio, necessário se faz retroceder um pouco antes do início do jogo contra o Vera Cruz.
 
O jogo começou no bar do Tonhão, nas proximidades da Praça da Cerveja. Encontramos-nos lá Eu, Gerrá, Ivan, o Patriota, Edward, Felipe e seu filhinho Gabriel. Por entre cervejas e petiscos, para variar, discutíamos o Santa Cruz. Víamos problemas, vislumbrávamos soluções e entornávamos o precioso líquido. Faltando trinta minutos para o início da partida, seguimos para o estádio. Não havia trânsito, não havia gente, não havia nada. Compramos os ingressos e entramos no Arruda mais vazio que já vi na vida em dia de jogo. Apenas nas sociais encontrávamos companhia diante de tanta solidão. Até filmei as arquibancadas do estádio para botar aqui no blog, mas depois desisti de postar o filme. Preferi ater-me às coisas boas.
 
Dirijo-me ao ponto habitual de todos os jogos e encontro a galera. Raul aproveitava para dizer que no casamento dele tinha mais gente do que no jogo de hoje. O estádio estava mesmo vazio. Tanto assim que nem a gasoseira, que fica sempre naquela área, apareceu para ganhar um trocado com a já tradicional cerveja Frevo. Nem a torcida organizada que prometeu fazer do Arruda o inferno de Dante compareceu ao jogo. Melhor assim.
 

gabriel.jpg

Replay da vibração do pequeno coral

Apita o juiz, início de jogo e o Santa joga melhor. Ivan, o Patriota, se posiciona em condições de gritar com Charles Muniz a qualquer momento, como prometera nos comentários do Blog do Santinha. Enquanto a bola dança, o tempo avança e Marquinhos Catarina chuta de fora da área para balançar as redes. Gol do Santa! O pequeno Gabriel vibra nas sociais. E Eu, que sou megalomaníaco, já começo a pensar em Tóquio.  Para minha frustração, depois disso o jogo fica equilibrado.

 
Intervalo. Na ausência da galega, a gasoseira, me dirijo à parte interna do estádio para comprar cerveja. No balcão, um cara ao meu lado pede uma Frevo desesperadamente. Não sendo atendido, ele diz que só foi ao jogo por causa da Frevo, já que ninguém encontra aquela cerveja em outro lugar. "Outro primeiro de abril", pensei. Será que ele também viu isso no Blog do Santinha? Volto ao meu lugar e reencontro Gerrá dizendo que Chiló, o sanfoneiro pé-frio, estava em algum lugar das sociais. A espinha gelou e temi pelo segundo tempo. Mesmo assim, fui em direção ao sanfoneiro para registrar em fotografia a sua presença. "Se acontecer alguma coisa ao Santa, tenho como provar quem foi", pensei. Antes do apito do juiz, Gerrá decidiu ficar perto de Chiló na tentativa de neutralizar a ziguizira.
 
Começa o segundo tempo e fica claro que a estratégia do zabumbeiro fracassara. O mito do pé-frio ressurge com força. Logo aos dois minutos, num pênalti, o Vera Cruz empata. Depois disso, o adversário cresce no jogo. Começa a bater o medo. Ataque tricolor, Marquinhos Catarina é derrubado na área. Pênalti. Meio duvidoso, mas pênalti marcado é pênalti. Nosso herói e artilheiro Marcelo Ramos vai para bola e… perde! O goleiro fez uma grande defesa no canto. Aquela altura, eu já estava arrependido de ter batido a foto de Chiló. “Que bicho azarado da peste!”, pensei. Do medo, passei ao desespero. Qualquer falta a favor do Santa, seja onde fosse, eu já queria gritar pênalti. O goleiro do Vera Cruz passou a defender tudo. Muita bola cara a cara e o goleiro pegava. Não obstante, o Santa começa a aprontar. Hora era Michel, lateral que não sabe apoiar, hora eram as lambanças de Romeu (foram tão bisonhas que cheguei a lembrar de Fabrício Ceará, o homem-polvo) ou eram as falhas de Renan. Na beira do campo, um Charles Muniz impassível assistia a tudo. Ivan, a essa altura, já se deslocava para mais perto do banco tricolor para dizer umas verdades ao treinador. E ele não estava só. Um torcedor gritava “isso Muniz, muda não, deixa o time jogar ruim assim mesmo!”. Aos poucos surgiam os gritos de “ô, ô, ô, queremos treinador!”. E eu cá comigo pensava: "adeus, Tonha!".
 
Tudo ia mal até Marquinhos Catarina bater uma falta na lateral esquerda sem muita pretensão. A bola encobre todo mundo e o infalível goleiro do Vera Cruz, enfim, falha. Gol do Santa! Começo a pensar em Tóquio novamente e de nada adiantava alguém me dizer que um quinto lugar no segundo turno do campeonato pernambucano não levaria o Santa Cruz ao Japão. Detalhe, mero detalhe. As sociais foram, mais uma vez, à loucura. Digo sociais porque praticamente só havia torcedor ali. Mas o jogo continua e, com ele, vem a pressão do Vera Cruz. Quarenta e cinco do segundo tempo e a torcida já começa a pedir o fim da partida. A que ponto chegamos. Estávamos pedindo o fim do jogo contra o Vera Cruz.

 

chilo.jpg

o pé-quente Chiló: fim de um mito

Terminada a partida, chegamos à conclusão que o mito de Chiló havia sido derrubado. Mas, mito que é mito não se acaba assim. É preciso respeitar as formalidades para reconhecer o fim da lenda. Na ausência dos Caçadores de Mitos do Discovery Channel, a redenção do sanfoneiro foi reconhecida pelos tricolores ali presentes, num ato quase solene.

 
Mas ainda estávamos intrigados e tentávamos descobrir o que fizera um pé-frio renomado tornar-se pé-quente. A resposta estava literalmente nos pés. Algum torcedor mais atento apontou para os pés de Chiló. O manto coral aquecia as extremidades dos membros inferiores do sanfoneiro, que vão das articulações do tornozelo, passando pelos artelhos, e se assentam por completo no chão.
 
Descoberta a cura, resta à Chiló incorporar de vez a veste felpuda a sua indumentária nos dias de jogos. Os amigos tricolores pedem apenas para que o sanfoneiro lave as meias de vez em quando, para não dar chance ao azar. Afinal, ninguém quer que o sanfoneiro tenha uma recaída.
DimasLins

8 comentários

  1. ducaldo
    1/04/2007 | 23:41h
    1

    Alô Dimas! Mais um texto certeiro.
    Ver o Arrudão vazio é uma coisa triste. Espero que a situação mude para melhor, feito os pés do sanfoneiro coral, e a massa tricolor volte a lotar o mundão.

    Saudações tricolores!

    Responder
  2. Anizio Carlos da Silva
    1/04/2007 | 23:49h
    2

    Dimas, tremenda bola fora seu texto de hoje! Chiló é pé-frio sim, tanto que o time levou o gol de empate, e Marcelo Ramos perdeu um pênalti, tudo isso depois que você viu o sanfoneiro!

    Brincadeiras à parte, vamos contar os dias para nossa estréia na série B…

    Responder
  3. Artur Perrusi
    2/04/2007 | 9:12h
    3

    Temo pelas meias de Chiló. Além de pé-frio, tem um chulé de matar! As meias do clube do Santo Nome, com chulé, não podem dar certo. Chiló tira o chulé!

    Estava com Geó nas arquibancadas, e sentimos nitidamente a Presença de Chiló no estádio. Era uma sensação profunda de insegurança, de morte presente, de urubu na carniça. Havia também um cheiro estranho no Arruda. Uma fedentina peculiar. Perdemos gols, pênaltis, o escambau. Claro, tínhamos razão: de fato, Chiló estava no estádio… e com chulé!!!

    Mas mito se acaba na marra. Chiló tem que ir aos jogos. Já, já, os deuses da desgraça mudam de clube – não aguentarão o chulé de Chiló.

    Responder
  4. Edward Oliveira
    2/04/2007 | 11:27h
    4

    Ja no bar do tonhão perguntei a Gerrá “Chiló vai pro jogo?” “eu acho que não e nem liguei pra ele, pé frio da gota” já me animei mais, pensei! dessa vez ganha!! não é possivel!!

    foi com dois amigos para as cadeiras, depois de ulguns minutos localizo o pessoal nas sociais e fico de olho para ver se o malagorado do Chiló não aparece!! não é que o febrento apareceu!! e aindo veio rindo. pensei instantaneamente “FUDEU!!! CHILÓ APARECEU” e para acabar de lascar mais ainda, quando olho para os camarotes vejo o malasombrado do Romerito, pensei comigo “já que estamos na época da pascoa, então é hoje que agente leva um chocolate, não tem Cristo que salve” Romerito e Chiló Juntos numa tarde só não tem Santa Cruz que aguente!!!

    Mas graças a Deus deu tudo certo!! nem fui roubado nem o Santa perdeu

    Responder
  5. Torcedor Coral
    2/04/2007 | 14:18h
    5

    Edward,

    Corrigi a edição de seu nome no texto. E eu que não sabia que tinha um lorde inglês na torcida do Santa, sempre abrasileirava seu nome!

    Saudações tricolores,

    Dimas Lins

    Responder
  6. Coronel Peçonha
    2/04/2007 | 17:20h
    6

    Para mim foi a camisa da Sanfona Coral que afastou a quizila.

    Surgiu-me, no entanto, outra dúvida: teria sido a ausência de Samarone?

    Então, Dimas, três hipóteses que têm de ser elucidadas antes de você afirmar o que escreveu:

    1- As meias anti-azar
    2- A camisa da Sanfona Coral
    3- A ausência de Samarone, que anteriormente carregava a fama de pé-frio.

    O Santa Cruz é minha pátria.

    Responder
  7. Gerrá
    2/04/2007 | 20:13h
    7

    Dimas, vamos sugerir a chiló montar uma confecção de meias lá em santa cruz do capibaribe. Meias pé-quente.
    quero ver quando é que chiló vai voltar a tocar sanfona no arruda.
    quanto a essa questão de azar, samarone precisa ser investigado sim!
    valeu pela foto e pelo mote, dimas.

    Responder
  8. Marcos Vinicius - Natal
    3/04/2007 | 12:44h
    8

    Ótima crônica, parabéns. Estou aqui em Natal sofrendo pra KCT, mas tudo bem, ficarei no aguardo do nosso glorioso santinha tirar o Kbaço da coisa, ao menos isso né ?? Abraços a todos.

    Responder

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