Obs: texto adaptado de um outro publicado num antigo blog de Bosquímano.
A série D tem me feito mal. Apresentando graves sintomas de desespero, voltei-me a Freud, aquele do charuto ambíguo. Li tanto o cabra que, agora, faço interpretações a torto e a direito. Tá na minha frente?! Interpreto na hora. E digo logo: o problema é tua mãe! Onde estiver, com o dedo em riste, aponto o problema para qualquer um e gero, invariavelmente, pulsões matricidas. Tudo bem que as pessoas não me compreendam, afinal, isso não é mesmo lá muito importante. O fato fundamental foi que encontrei algumas anotações na casa de Ducaldo — um colecionador da obra de Freud (há boatos de que jamais superou o Complexo de Édipo) — desconhecidas do público, que modificam a nossa visão tradicional do método freudiano.
Não sei bem qual será a opinião dos leitores e espero, sinceramente, que as informações, por mim fornecidas, não lhes causem nenhum constrangimento. Bem, o bolero é o seguinte: as anotações encontradas modificam a nossa opinião usual da obra Totem e Tabu, cuja exegese tradicional, aliás, sempre me pareceu insuficiente. Ora, aparentemente, tal livro seria uma pálida ficção da gênese social, quando comparado com Hobbes e outros jusnaturalistas — a violência fundando a cultura é um tema repetido há muito pelos filósofos. Inclusive, Freud não deixa de ser, no fundo, um repetidor das hipóteses do jusnaturalismo, embora seja original em imaginar uma cena primitiva e fundadora tão mórbida como um parricídio. Não acredito que Sigmund tenha tido apenas a intenção de nos demonstrar uma hipotética fundação social, mas sim ir além disso; isto é, existe outra hipótese bem mais poderosa e importante, recalcada na história parricida. Na verdade, seria menos uma hipótese do que uma estória, justamente aquela que Freud escreveu e que quero lhes contar:
“Desde o início fora assim, como se fosse uma coisa imutável, um direito eterno e inquestionável. Samid— segundo Freud, nome absurdamente primitivo, talvez o fonema essencial tão procurado pelos lingüistas —, pai da horda primitiva, logo de todos, tinha o poder monopolista, quase divino, de possuir todas as fêmeas do bando. Nunca que isso tivesse realmente chateado os filhos machos, principalmente no começo, quando todos eram ainda crianças. Além disso, o pai era bem grande e tinha uma carranca de meter medo — sem dúvida, parecia que a força, a agressividade e a violência detinham uma natural superioridade nessa cripto-sociedade. Mesmo assim, o grande divisor proto-moral da horda que dissuadia os filhos machos, diminuindo as suas vontades, era o Caralho de Samid, ereto e onisciente, cuja incomensurabilidade afastava qualquer possibilidade de competição — na verdade, pelos padrões modernos, o troço não era tão grande assim e precisaria de uma pinça para a sua manipulação; mas, estamos na pré-história, época dos tamanhos liliputianos.
Com o tempo, a testosterona foi fazendo os seus efeitos, moldando a forma do mundo, dando vigor e atiçando o desejo dos filhos. O hormônio fez com que a representação da coisa se tornasse a do nome, permitindo que a semântica fosse inscrita na necessidade fisiológica e pudesse, aos poucos, insinuar-se como uma palavra, ainda arcaica, é verdade, embora a sua significação já contivesse todo o seu sentido civilizador supremo: putaria! Assim, os filhos passaram a interpretar a cena primitiva via princípio da realidade, ultrapassando o princípio do prazer, o que acarretou um desagrado geral na horda. Ora, o desgosto era compreensível, já que, segundo Freud, a cena primitiva era o pai arcaico possuindo a mãe ancestral, cujos urros de prazer ainda reverberam na evolução humana, constituindo aquele nojo ontológico que sentimos, quando criança, ao flagrar nosso pai com* nossa mamãezinha querida. Talvez o problema fosse a insistência de Samid em demonstrar a sua potência sexual na frente de todos, visto que os rapazes estavam, por um processo desconhecido, desenvolvendo os primeiros rudimentos da privacidade e do pudor público.
O pai arcaico, aparentemente, desconhecia isso ou, simplesmente, era mal acostumado. Ele tinha o costume de deixar a mãe ancestral, as tias primordiais, as irmãs primícias e as primas primitivas de jejum forçado, distribuindo-lhes penitências que iam de três dúzias de ave-arruda (uma espécie de ave-maria dos inícios ) até pisas de tabica no lombo e rezas sem fim. Terminava o ritual exatamente ao meio-dia, quando liberava todas dos entreveiros e se punha a possuí-las uma a uma, meticulosamente, no primeiro banco de palha da antropologia humana. A última a ser possuída era geralmente a mais nova (cobiçada por todos da horda) que encenava o Arruda e era depois malhada até sangrar. Samid lambia o sangue com a sua língua de boi, possuí-a novamente, agora por trás, colocando o seu membro desonesto no vaso traseiro da infante, fazendo-a imitar uma cabra e balir de forma estridente. No final, todos, inclusive os filhos, iam se banhar no rio sagrado Ebirabipac, onde o Fornicador Alfa continuava a se amostrar, deixando o resto dos machos abufelados e avexados.
A situação explodiu quando um dia, sem motivo aparente, na hora do ritual do Arruda, Samid proferiu, enquanto penetrava violentamente na mais jovem das fêmeas, as primeiras palavras chulas da história:
Arreda, Santinha! Catraia! Vou fazer tu te mijar todinha. Ah! minha Santa Agonia, hoje eu arrebento essas pregas. Toma Caifás, filha da puta. Puta! Fica de quatro. Tu vai penar que nem Santa Terezinha, diaba dos quintos!
(Completamente misteriosa essa alusão a Santa Terezinha. Bosquímano, estudioso profundo da psicanálise, insinua que Freud, aqui, projeta do fundo do seu inconsciente o nome da sua professora do primário, Terezinha Milchkuh — Ver Bosco, Inveja do Pênis, aprenda agora! Jampa, Manufatura, 2004).
A raiva e a indignação alastraram-se como fogo na Califórnia. O mais forte dos filhos lançou-se, feito um alucinado, contra Samid e, logo imediatamente, foi seguido por todos. As fêmeas da horda foram as mais cruéis e suas pantomimas não se diferenciaram muito daquelas feitas durante a fornicação sagrada. Elas, num só gesto, fizeram os extremos se tocarem: Eros e Thanatos, num rodopio ardente, que seria repetido milhares de anos depois pelas bacantes. O pai da horda primitiva foi literalmente massacrado e seus restos ficaram boiando numa pocilga que, com tanto sangue, parecia uma pequena corredeira, indo desaguar no rio Ebirabipac, tornando-o completamente rubro. Inebriados, os machos comeram os restos de Samid para adquirir a sua força e virilidade; no entanto, deixaram o seu Caralho intacto, transformando-o no primeiro totem miniatura existente e, depois, tomaram uma cachaça para esquecerem o festim e o menu.
Na aurora do primeiro dia sem pai e, do ponto de vista conceitual, do primeiro da civilização, os filhos refestelados, ainda preguiçosos da barbaria passada, olharam-se uns aos outros, cada qual com a sua mancha de sangue, cada qual com fiapos da carne do Pai entre os dentes, e tiveram um medo pavoroso: e se fizessem aquilo tudo novamente entre si? Afinal, as fêmeas estavam lá, e todas com aquele jeito meio zonzo, sem função. Havia o perigo da disputa e do monopólio. Havia o perigo da guerra eterna. Os olhares, então, tornaram-se acordo e surgiu o pacto dos pactos: todos deviam renunciar aos frutos da vitória, evitando com isso uma auto-carnificina. Surgira, assim, a primeira conquista cultural baseada no consenso: o contrato social do incesto. Todos interiorizaram rapidamente a proibição, através de uma instância nova que estava surgindo, o superego, e deixaram em paz as mulheres do grupo.
Contudo, não deu uma semana e o onanismo, inventado pelo mais tarado dos machos do grupo, Oeg, floresceu ao ponto de causar calos nas mãos.
(Neste ponto, vale assinalar que Freud foi radicalmente contra as teses marxistas de que o calo na mão surgiu da praxis do trabalho. Assim, como o mesmo disse: “o onanismo, enquanto praxis, realiza a autonomia transcendental do homem vis-à-vis do arquétipo feminino”).
Nosso amigo, insatisfeito com a sua invenção — de fato, o cabra era mesmo um tarado —, ficou desconfiado de que, mais dia menos dia, os machos do grupo poderiam, sem sexo feminino, imitar aquele animal bizarro chamado de paca.
(Freud sempre se interessou pelo tema da paca, certamente influenciado pelos estudos naturalistas de Darwin que, em Galápagos, ficara intrigado com os hábitos alvirrosas deste animal).
Teve, assim, outra brilhante idéia: por que não atacar o acampamento do LEF— outro nome absurdamente primitivo de que nos fala Freud — e roubar as suas mulheres? Afinal, o Outro Bando tinha muitas mulheres — certo, todas cabeludas e androfóbicas, mas ainda assim seres femininos… Além do mais, o LEF já estava senil e balofo na sua vidinha sedentária e não ofereceria uma grande resistência. Dito e feito, aprovada a idéia, foram todos amolar as pedras de sílex, munirem-se de cordas, redes, lanças, etc, preparando-se para a grande empreitada. O caminho era longo, pois o lugar de moradia do Outro Bando era meio longe, lá pelos lados de Otiremorseven — região terrível, habitada por dragões, ganos e sapuris, onde era inevitável a corrosão do caráter.
O ataque pegou o Outro Bando completamente de surpresa. Muitos homens, paralisados de medo, morreram ali mesmo, não oferecendo qualquer resistência. Nesse ínterim, o mais bonito e o mais esperto da ex-horda, chamado de Per Usi, entretinha-se com algumas gatinhas, fornicando com enxerimento e, nesse rústico movimento, inventando novas posições sexuais que contagiaram de prazer e de alegria as intumescidas fêmeas.
(Há indícios de que Per Usi foi o inventor do Candelabro Italiano, do Minueto Alemão, da Clava Javanesa, da Mazurca Polonesa, do Torno Polinésio e, principalmente, da Mamadeira Búlgara. Freud escreveu no seu caderninho de notas: “Não existiu legado mais importante do que o de Per Usi”).
Nunca que tivessem visto um macho como ele, tão carinhoso e tão homem, tão doce e tão furioso! O malandro rapaz sabia instintivamente que era apenas uma questão de saber explorar a riqueza interior com que a natureza houvera por bem presentear a cada filho. A infelicidade consistia em não saber fazer esta exploração. Macho e fêmea se complementavam, e tanto mais seriam felizes quanto mais se explorassem e usassem mutuamente seus corpos e seus espíritos. O LEF ficou invocado e arretado com a cena, principalmente com os gritinhos de prazer das mulheres (ultraje dos ultrajes), partindo furioso na direção de Per Rusi, que não teve dúvida e meteu-lhe o sarrafo, arrancando a sua cabeça num só golpe. Durante um segundo, que pareceu uma eternidade, um silêncio de morte tombou no campo de batalha e os filhos de LEF constataram com estupor a morte do seu chefe/pai, ficando imóveis e petrificados diante do horror daquela cena dantesca: a cachola venerada rolando ensangüentada pelo chão.
Quando Per Usi se aproximou da cachimônia e ensaiou de pegá-la, a paralisia do Outro Bando, como por encanto, acabou e todos se lançaram para reaver a sede da razão do LEF. Se tinham perdido o Pai, dariam a vida para, pelo menos, manterem-se com o seu bestunto. Per Usi, acossado pelo instante e não tendo tempo para apanhar a cabeça com as mãos, resolveu de improviso sair chutando o quengo e levá-lo a um lugar seguro. Ele passou pelo primeiro, driblou o segundo, deu uma saia no terceiro, lançou Odlacud, que corria pela lateral do acampamento; este deu um traço num que se aproximava, deu um banho noutro e mandou de volta o crânio para Per Usi, que estava numa espécie de área retangular, onde tinha um tipo de guardião (um eunuco chamado de Abnegado) protegendo duas árvores paralelas, julgadas sagradas pelo Outro Bando e unidas por uma delicada rede de seda, e que fora feita pelas mulheres de LEF. Nesse exato momento, os irmãos de Per Usi já estavam esperando-o do Outro Lado, com as fêmeas sequestradas. Ele somente precisava passar a cabeça entre as árvores, sem que o guardião a apanhasse, e os seus parentes a pegariam, definitivamente. Houve um grande momento de suspense, o tempo gelou, os pássaros pararam de cantar, os papagaios de falar, os coelhos de trepar, os tucanos de enganar; então, Per Usi, quase em câmara lenta, encheu o pé, dando um chute de trivela no juízo de LEF que, feito um foguete, furou a rede de seda — o guardião, de tão atordoado, nem viu a cabeça passar. Nosso rapaz saiu correndo bêbado de alegria, dando pulos e socando o ar, enquanto os seus irmãos e, praticamente, o mundo inteiro, davam um grito ancestral, guardado há muito na noite dos tempos: gool!
(…)
Era noite e era festa no acampamento dos nossos antepassados, todos bebiam e fornicavam, inclusive as próprias mulheres da antiga horda, pois lhes tinham trazido alguns prisioneiros que não se incomodaram de participar da geléia geral. Per Usi tinha recebido como prêmio a língua e os miolos do coco de LEF. Estava satisfeito e saciado. Olhava a Lua, afastado de todos, meio pensativo e distraído, enquanto uma fêmea procurava piolhos e fazia cafuné nos seus longos cabelos encaracolados. Sabia de algum modo que o mundo tinha mudado, sendo impossível um retorno ao que era antes; a ponte que ligava o homem às suas origens estava irremediavelmente destruída; novas aventuras aguardavam a sua espécie, novas descobertas e também novos mistérios. Um horizonte praticamente infinito se descortinava na sua frente.
Contudo, uma leve inquietação, como uma brisa suave, insinuou-se no seu espírito: e se essa consciência de si, que o homem tinha conquistado, fosse um cataclismo, uma separação de nós mesmos na qual teríamos de suportar pesadas conseqüências? Será que sermos nós mesmos implica assumirmos nossa existência, esse alter fundamental, não coincidência de si, que é próprio do seres auto-realizados no tempo? Per Usi não sabia, mas o homem tinha, assim, inventado o tempo indicativo do presente e a… frescura. As ligações entre os pensamentos de Per Usi, bêbado e sonilundo, com o existencialismo sartreano são, convenhamos, mais do que evidentes. De repente, um grito de alegria despertou-o dos seus devaneios, era Oeg, completamente embriagado, que o chamava de volta ao acampamento. Ele deu um chute na fêmea, esqueceu-se dos seus sonhos, antecipações e medos, e retornou correndo para o seu povo”.
Aqui, terminam as anotações de Freud. Mais do que o parricídio ou a fundação da cultura, o homem feito humanidade tinha descoberto o Ludopédio. E, como vocês sabem muito bem, tal esporte não mudou muito desde aquela época, exceto por uma regra: hoje, não se come mais a bola.
Tenho dito.










Artur, ainda bem que Per Usi não tinha filha, já imaginou ele mostrando a
foto da filha e recebendo cartão amarelo por excesso na comemoração do proto-
gol da humanidade.
Saudações corais.
Doido, que viagem do carai.
De rachar o bico. Quase não consigoparar de rir.
E pensar que psicanalistas levaram a sério a crônica, exigindo explicações, principalmente sobre as anotações desconhecidas de Freud. Capaz de vc receber ameaças, já que elas, as anotações, estão na tua casa (hehe).