A mulher que trai

Imagem original: Infiel

Liana é das pessoas mais doces que conheço. É claro, sou suspeito para falar, porque ela é minha cunhada. Mas não é por isso que penso assim. Ela passa mesmo aquela impressão que toda pessoa boa de espírito passa para a gente.

Liana não torce por nenhum time de futebol, mas nutre uma imensa simpatia pelo Santa Cruz – ela costuma ler com frequência o Torcedor Coral – e, como boa amiga que é, se solidariza comigo, quando o Glorioso, que vive os dias mais inglórios de sua história – perde. Ultimamente ela tem sido mais solidária do que de costume, já que o Santa parece ter esquecido os tempos de vitórias.

Pensando em contribuir para fechar as minhas feridas futebolísticas, Liana me manda este texto delicado. Embora as minhas feridas só possam cicatrizar com o ressurgimento do meu clube de coração, o texto de Liana me serve bem de consolo.

A escolha da imagem fica por minha conta e é puro deboche. Ela quebra um pouco o ritmo do texto, é verdade. Mas alguém já ouviu falar de futebol sem deboche?

Dimas Lins

Maria Liana Macêdo

Nem bem abriu os olhos e à mente lhe veio a lembrança. Às vezes o nome também lhe vinha assim, de repente. Espreguiçou-se. Pediu proteção aos anjos e santos para aquele novo dia e levantou. Foi à cozinha com o pensamento na noite anterior. Estava ainda na sua cabeça a imagem. Na memória olfativa, o cheiro. Era tudo muito forte. Uma espécie de embriaguez. Pegou a jarra de água que fica na parte seca da pia e encheu o copo, como gosta. Teve dúvida se tomava ele todo. Nunca tinha sede a esta hora do dia. Era mesmo um hábito. Água natural para começar bem. Voltou ao quarto amplo e claro. Ela adorava aquele branco das paredes, móveis, lençóis, tudo enfim. Quando morrer quer que o céu seja assim: branco e limpinho. Uma espécie de continuidade das suas manhãs. Abriu o chuveiro, esperou o primeiro e segundo jatos e entrou. Assim é melhor. Quem sabe a ducha fria lhe tire do pensamento o proibido. Banho renova, revigora, mas ainda sente palpitação, certa ansiedade, medo infundado, ou será que ela sabe do quê? O pensamento continua lá, firme. Tenta em vão desvirtuá-lo. Escova os dentes e o aparelho móvel, que não é o celular. É sim uma peça ortodôntica que a faz lembrar (e fará sempre), que um dia teve protrusão e consertou tarde demais. Mas ainda é melhor que o fixo. Também fixo é seu pensamento. Noite passada demorou demais a dormir pensando quando chegaria o dia de assumir a verdade. Por isso havia marcado uma taróloga. Queria ouvir das cartas o que a sua mente perturbada já lhe dizia: dias difíceis virão. O marido, rubro-negro roxo e doente, nem sonha que toda noite ela dorme com um lencinho tricolor junto ao seu coração, agora partido.

8 Comentários

  1. insatisfeito
    1

    Lindo texto, Liana.
    Parabéns
    minhas condolências à família de Luiz Arnaldo Pessoa de Melo. Que ele seja bem recebido no plano maior.

  2. Arnildo Ananias de Oliveira
    2

    Dimas, a Dra. LIANA MACEDO, minha pneumologista, foi quem descobriu meu câncer de pulmão em 2006. Desconhecia esse perfil maravilhoso dela. Mas, podes ter certeza: é uma grande TRICOLOR.

    Ainda semana passada estivive lá. Me perguntou: “seu” Arnildo, como vai o seu time ? Sintir nela a vontade de dizer NOSSO time.

    Aliás, vou mais a ela q a meu oncologista Dr. Marcelo Padilha que, apesar de excelente pessoa, tem um grave defeito. Aliás, gravíssimo. Preciso dizer o q é ? por qual time torce ? (apesar de ser daquela fatia dos 5% NÃO IMBECILIZADOS).

    Dra. Liana, um beijão pra v. VOCÊ É UMA DAS PESSOAS QUE ENALTECEM A CARREIRA MÉDICA. QUE DEUS A ILUMINE.

    Saudações TRICOLORES.

    PS – A Dra. Liana disse que iria criar um 0300 pra mim. É q faço muitas consultas “gratuitas” por telefone. E ela está coberta de razão.

  3. Arnildo Ananias de Oliveira
    3

    Digo SENTI

  4. Sylvio Ferreira
    4

    De tão delicado que é, eu li o texto como se ele tivesse sido escrito com fibras de algodão egípcio.

    Da perspectiva psicanalítica, é exatamente na fímbria onde o desejo pulsa e junto com ele pulsa a sua negação que emerge a ética do sujeito; muitas vezes na forma de um doce murmúrio antes de dormir.

    E o que é o desejar senão a contínua impulsão de mudar? , como já indagava o poeta. A travessia já se realizou, acredite. Ou, quem sabe?, talvez nunca tenha sido necessária fazê-la.

    Resta tão-somente anunciá-la para o mundo. Não na forma de um murmúrio quase silente, mas em praça pública e ao som de trombetas.

    Saudações corais!

  5. André Tricolor Virtual
    5

    Fantástico seu texto “Liana”,

    Não se trata de uma ‘mini corrupção’ essa traição, é paixão pura, e às vezes se torna difícil mesmo de ser revelada! Quando se trata do SANTA CRUZ, tudo é muito mais difícil!

    Abraços e parabéns!

  6. Carlos Orlando
    6

    Bravo, belíssimo texto, Liana! De uma sutileza ímpar! Cheguei a me emocionar.

    Participei ontem (sábado), da campanha das cestas básicas para os funcionários do Santa Cruz, foi muito agradável rever amigos e fazer outros tantos, tudo embalado pelo amor ao Mais Querido time de PE, além é claro, do ato de solidariedade.
    Novos ventos estão soprando no Arruda, e sendo assim, desejo que o “Gigante Adormecido” volte a brilhar como outrora!

    Sds corais.

  7. Felipe Rego Barros
    7

    O ano era 1993, Carlos Eduardo meu sobrinho tinha 8 anos, filho de pai Rubro Negro, o que me obrigava a travar uma luta quase que diária para sustentá-lo torcedor do Santa Cruz.
    Eis que chega o dia do pulo do gato, dia de grande final, Santa x Náutico, era uma quarta á noite, arruda lotado; logo irei fazer o meu ataque mais letal nesta guerra.
    cheguei cedo, tinha marcado com um grande amigo e ex zagueiro do tricolor Ragner, e peço para que ele consiga que meu sobrinho entre no campo como mascote, pedido atendido, ele recomenda o menino ao atacante Marcelo Rocha, e o garoto vai com os olhos brilhando de excitação e felicidade, para adentrar ao palco daquele que seria um dos maiores jogos da minha vida.
    Das sociais vejo orgulhoso o menino entrar no gramado, tirar fotos com os jogadores, correr sem direção o campo todo, enfim, aproveitando no limite extremo aquele momento mágico para uma criança.
    Aquela final, foi inesquecível, certamente o mais dramático dos roteiristas de holywood, não criaria uma final tão emocionante, tão espetacular.
    Apito final, SANTA CRUZ CAMPEÃO PERNAMBUCANO de 1983, pouquíssimo torcedores sentiram aquela emoção de perto, pois muito haviam desistido de sofrer, e tinham ido embora.(Alguns dormiram com o santa perdendo e Acodaram campeão)
    Eu e meu sobrinho, choravamos abraçados , numa euforia incontida, com a sensação de sermos invencíveis, poderosos, estávamos em êxtase total. Confesso que sentia um misto de orgulho e vaidade, estava num estado de pura soberba, pois além do título havia ganho uma guerra particular, Carlos Eduardo era definitivamente torcedor do Santa Cruz. Estava eu ali, sapateando na alma do seu pai rubro negro.
    Os anos se passaram, entramos num processo degenerativo, ficamos em queda livre, iniciou-se uma era de derrotas e sofrimentos, é verdade ganhamos ainda mais um título, mais foi Ouro de Tolo, o que estava por vim seriam golpes duros demais para um garoto de 10 anos , tentado por todos em casa, e pelos amigos na escola.Cedeu ao sucesso fácil,e ao modismo do outro clube.
    Aprendi com isso tudo uma grande lição, que não se deve cantar vitória antes do tempo, nem subestimar adversários, eles sobrevivem e retornam como almas desencarnadas. enfim, fui traído , Carlos Eduardo é Rubro negro.

  8. Dra. Liana Macêdo, parabens.

    O texto é lindo e de profunda beleza.

    O amor cura todos os males.
    “Dormir com o lencinho tricolor… “, foi demais!
    Nós tricolores estamos jubilosos.
    E assim vamos nos recuperando.

    Um abraço.

    Santa, saudações.

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