Da série recordar é viver

Arte: Rubem Junior, Santa Desde 1914
santa tri super

Amigos, enquanto os bons momentos não voltam, aproveito a deixa de Dimas, que já pegou o rebote de uma jogada de Paulinho, da sexta passada, faço a linha saudosista e sigo a série recordar é viver. O texto foi baseado numa história que eu já havia contado num blog que eu criei em 2005, chamado “Monumentais Histórias Tricolores”. Como ninguém, absolutamente ninguém, leu aquele blog, o texto, apesar de não ser totalmente novo, pode ser considerado inédito.

Aproveito a deixa também para homenagear um dos personagens que aparecem no texto, no fim do texto, pra não haver confusão de tios. É um tio meu que está bem doente, internado há mais de três meses num hospital da cidade. Ontem ele foi novamente transferido para a UTI. Assim, utilizo o texto como uma forma de lhe mandar um grande abraço.

Era 18 de dezembro de 1983. Um domingo de muito sol no Recife. Era também aniversário de um primo meu, acho que ele completaria 4 ou 5 anos. Estávamos em Tamandaré de férias. Na sexta-feira anterior, meu pai tinha ido a Barreiros fazer a feira e voltou com três camisetas tricolores. Tinha, então, 9 anos e me lembro muito bem daquele dia. Estava deitado com meu irmão mais velho na rede quando meu pai chegou, jogou as camisas em cima de gente e disse:

– Vamos ao jogo domingo, o Santinha será Tri-super-campeão.

Quase não acreditei. Seria a primeira final de campeonato que eu iria ver no Arruda. Meu pai passou a nos contar como foram os outros dois títulos e nos explicou o que significava um Super-campeonato. Sabe como é que é, né? É preciso sedimentar bem determinadas escolhas.

No sábado acordamos cedo e fomos para Recife. Passamos o dia visitando alguns parentes. Mais que um programa de índio, aquelas visitas eram um verdadeiro projeto FUNAI, como diria Henfil. Eu queria mesmo era ir pro jogo.

Enfim chegou o domingo, dia do jogo. Porém, ainda tivemos que ir visitar um tio que estava muito doente. Não sei se ele era tricolor, penso que sim. Aquela visita durou umas 10 horas, o tempo não passava de jeito nenhum. Lembro apenas de entrar todo orgulhoso no hospital Português, com o peito estufado em três cores. Quando ainda caminhávamos pelo corredor, um velhinho – acho que algum paciente da ala de psiquiatria – disse que o Santinha iria perder. Olhei para o sujeito e tive vontade de mandar aquele condenado para a PQP, mas pensei que o cara era apenas um doido varrido e não disse nada. Apenas sorri.

Finalmente chegamos ao Arruda. Impressionou-me a multidão. Eu nunca tinha visto tanta gente como naquele dia. Subimos umas rampas até as cadeiras. Da cadeira em que eu estava, tinha uma visão perfeita do campo, ou melhor, de todo o estádio. Enquanto o jogo não começava, comecei a observar as figuras que nos cercavam. Uma fileira abaixo, havia uma “coroa” de uns 25 anos muito bonita. Um detalhe logo me chamou a atenção: ela tinha apenas três dedos em uma das mãos. Justamente a que segurava uma pequena bandeira do Tricolor que, diga-se de passagem, nem na hora das cobranças dos pênaltis ela parou de agitar. Tinha outro cidadão que dizia ser torcedor da coisa e que estava tranqüilo. Talvez o único tranqüilo ali, apenas apreciando o espetáculo.

O mais interessante de todos, porém, era um sujeito forte, sentado ao meu lado que dizia ter sido atleta barbiano, zagueiro, mais precisamente. Bem, sentado é modo de dizer, o cabra estava completamente tresloucado. Dizia que o time dele ganharia, que era muito mais time e que se não ganhasse, ele, ao voltar pra casa, mataria a mulher, os filhos e depois se mataria. Pensei que só um maluco daqueles poderia ser torcedor da Barbie.

A verdade é que o esquadrão rosa era um verdadeiro timaço. Faziam parte dele Baiano, Mirandinha, Cantareli, Porto entre tantos outros que não me lembro. Já o Santa era conhecido como o timinho do Arruda, formado por jogadores da região e alguns pratas da casa que depois ganhariam o mundo. Havia, por exemplo, um certo lateral direito chamado Ricardo, que depois virou zagueiro e acrescentou o sobrenome Rocha. Tinha também Zé do Carmo e Gabriel, um galego de Campina Grande que jogava com uma vontade imensa. Henágio também era desse time. O crioulo jogava muito, mas era completamente irresponsável. Dizem que só Carlos Alberto Silva, o treinador dessa equipe, conseguiu fazer o desgraçado jogar bola. Além desses, tínhamos um goleiro de verdade. Aliás, dois, porque o reserva era tão genial quanto o titular. Luis Neto foi o titular naquele dia e Birigui ficou no banco.

O primeiro tempo transcorria normalmente até que o falastrão Ernesto Guedes (técnico do Náutico) foi justamente expulso pelo árbitro Laerte Marquezine. Minutos depois, num bate-rebate dentro da área barbieana a bola sobra para Gabriel que, de carrinho, manda para o fundo das redes. O povão faz a festa!

Terminada a etapa inicial, aquele meu vizinho estava ainda mais alucinado…

O segundo tempo foi um sufoco. Eu não me lembro de ter visto uma pressão igual aquela até hoje, também não me lembro de ter visto uma atuação de um goleiro como a de Luis Neto naquele dia. O Santa não conseguia passar do meio campo e, minuto após outro, era uma chegada perigosa do Náutico e uma defesa milagrosa de Luis Neto. Lembro que o elástico do calção dele rasgou e o paredão tricolor tinha que, a todo o momento, ficar ajeitando a peça de roupa…

Lá pelos 20 minutos, acho, não me lembro o porquê, Gabriel foi injustamente expulso. Se com onze o negócio tava feio, imagina com dez! Aí foi que Luis Neto apareceu. Se ele jogasse em qualquer time do eixo, teria sido convocado para a seleção brasileira. O jogo segue. O time de avenida rosa em cima até que, aos 42, Mirandinha finalmente fura a parede tricolor, o jogo terminou empatado, meu vizinho, me perturbava e eu queria lhe dar um tiro.

A partida foi para a prorrogação. Carlos Alberto Silva colocou Django, um centro-avante que desembestou a fazer gols naquele ano. O jogo seguia igual, Luis Neto nos salvando de todas as formas possíveis e impossíveis. No único ataque tricolor, Django mete uma bola na trave. Mas a prorrogação não saiu do zero.

Pênaltis, ô diabo! Pensei.

Acho que Baiano abriu as cobranças. Náutico 1×0. Pelo Santa, o primeiro a cobrar foi Edson Furquim, zagueiro. Ele correu e chutou pra fora. A multidão ficou muda. Só se ouvia aquele medonho B-A-R-B-I-E. Naquele momento confesso que tremi. Achei que a vaca havia ido pro brejo. As lágrimas começavam a cair e meu vizinho cada vez mais a me perturbar. Queria matar o desgraçado. As cobranças continuaram até que Mirandinha, justo ele, bateu um tiro de meta. A bola quase saiu do estádio. Os gritos se inverteram, só se ouvia TRI-TRICOLOR, TRI-TRI-TRI-TRICOLOR! Terminada a primeira série e o empate persistiu. Nas cobranças alternadas, um a um os jogadores foram convertendo. Meu coração já tinha saído pela boca umas três vezes.

Porém, quando o alvirrubro Porto ajeitou a bola para a cobrança, senti uma inexplicável tranqüilidade. Minha cabeça guarda a memória deste lance em câmera lenta. Porto corre e bate colocado. Luis Neto defende parcialmente, a bola lhe escapa e vai entrando de mansinho, até que, como um gato, nosso herói segura a bola em cima da linha. Os jogadores do Náutico pedem o gol, os do Santa a defesa. O desespero toma conta dos timbus quando o juiz faz o gesto indicando que a bola não entrou. A torcida não agüenta e invade o campo. Faltava Gomes cobrar o derradeiro pênalti para o Tricolor. Foram necessários 52 minutos para retirar o povão. O detalhe é que ficaram, ao redor do gramado, torcedores, jogadores e comissão técnica de mãos dadas, fazendo aquela corrente.

Aquela cena foi absolutamente emocionante.

Gomes, que não seria o estraga prazer, sacramentou o Tri-supercampeonato. Ali, exatamente naquele momento, eu compreendi a exata dimensão que o Santinha teria na minha vida.

No fim das contas, não sei se meu vizinho matou a família e foi ao cinema. Acho que não. Se ele havia sido jogador, certamente daria nos noticiários. O que sei é que naquele dia, ganhei do meu tio, pai do meu primo aniversariante, uma camisa que foi de Givanildo e que guardo até hoje.

Divulgação:

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14 Comentários

  1. Hélio Mattos
    1

    Pois é, quem não tem cão caça com gatos..

    É realmente triste ficar vivendo de passado mas, olhando pelo lado positivo, só assim paramos para recordar detalhes e observarmos os acontecimentos pela visão de outras pessoas. Não deixa de ser um interessante exercício.

    Quanto ao “ineditismo” do texto Bosquímano, muito bem fez você em reeditá-lo como se inédito fosse pois, inédito como ele permaneceu, teria sim, de vir algum dia ao conhecimento da Nação Tricolor.

    E aí? Imponderável como só o futebol mesmo, será que veremos próximo ano alguma Monumental História Tricolor em, realmente, primeira mão?

    Como torcedores só nos resta mesmo é torcer.

  2. Hélio Mattos
    2

    É, o blog está com algum problema mesmo.

    (Teste final)

  3. Hélio Mattos
    3

    Porque que só não sai o comentário de verdade?

  4. Hélio,

    Perdoe a nossa falha. A questão é o anti-spam do blog que cismou com você. Olhei agora e liberei seu comentário. Vou acompanhando para ver se identifico o problema, mas acho que só será corrigido nas versões futuras do Askimet, o anti-spam tresloucado.

    Saudações corais,

    Dimas Lins

  5. “Toda novidade é esquecimento” – Jorge Luiz Borges. Então, Bosquímano, você está bem respaldado.

    Muito bom! Fiz uma verdadeira viagem no tempo com essa crônica.

  6. Jorge “Luis” Borges.

  7. Óia a Cobra
    7

    Tem muita gente reclamando nos blogs, nas radios e em que qualquer oportunidade para reclamar um tecnico ou jogador de qualidade. Na verdade todos nós queremos isso técnico e jogador de qualidade mas…muito se esquecem ou não querem se associar ou mesmo ir a campo para ajudar a ter verba pra que consigamos contratar. PRECISAMOS ESTAR NESSA COPA POR MAIS FRACA QUE SEJA. PRECISAMOS CONTRIBUIR ECONOMICA E MORALMENTE.

  8. Óia a cobra
    8

    Eu só quero ver se ano que vem a FPF e todos os clubes daqui de peranambuco vai se dobrar aos caprichos e arrogancia do sport. Todo mundo está vendo e sentindo a necessidade de mudança na fórmula do campeonato mas eles começam a blefar e urdir pra fazer medo, e o interessante é Carlos Alberto termina cedendo às vontades do sport. Creio que no próximo ano não será assim.
    Eles não consegurem enxergar a vantagem que eles podem tirar disso com renda, divulgação e tudo mais. Fazem questão de botar gosto de merda, só pra contrariar o desejo de TODOS OS CLUBES, CRONISTAS E ATÉ TORCEDORES PERNAMBUCANOS. A radio jornal diz que sport é Pernambuco, mais disso eu duvido muito, sport quando se posiciona dessa forma é contra Pernambuco.

  9. Cláudio Guimarães
    9

    Pua merda! Que SAUDADE DA PORRA!!!
    (DESCULPEM OSRAL) TERMOS, MAS FOI NATU

  10. Cláudio Guimarães
    10

    *DESCULPEM OS TERMOS, FOI NATURAL

  11. Esquecimento é memória! E o melhor prazer é lembrar… Sim, sim, estou ficando velho, mas o que importa é o prazer de re-lembrar. Se os mais novos não sabem disso, que envelheçam, como dizia Nelson Rodrigues.

    Grande crônica, seu Bosquímano, grande crônica, daquelas para guardar na… memória.

    Não tenho medo da saudade. Lembro o passado para construir o futuro.

  12. Walter Moura
    12

    De lá pra cá muita coisa mudou, dentro e fora do Santa Cruz. E muita coisa, certamente mais ainda, continuará mudando, quem viver verá. Temos que ajudar a fazer as mudanças que nos interessam.

  13. Vc acertou na mosca, Fabiano. Provavelmente, teremos um bom ano no futebol, mas, na política, houve derrotas visíveis. FBC e sua equipe não têm a mínima ideia da política interna do clube. Que curioso paradoxo: são políticos que foram engabelados pela reles política de clube. Há um cheiro profundo de prepotência nisso tudo. Paciência.

  14. Edson Furquim
    14

    Graças a Deus participei desta conquista, um clube só é grande pelas suas conquistas, por isso é bom ver o passado não para parar no tempo, mas para ver que o clube para o qual torcemos foi marcado por grandes vitórias. Neste ano estaremos comemorando 30 anos deste campeonato que foi inesquecível e tenho certeza que ficou para história do Santa Cruz.
    Abraços a todos:
    Edson Furquim

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