Praga de mulher

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Marina não agüentava mais aquela rotina dos finais de semana. Enquanto os outros casais – os normais, como ela chamava – aproveitavam para pegar uma praia, fazer uma viagenzinha, um programinha divertido com os amigos, Ronaldo a deixava em casa e ia ao Arruda religiosamente. Aliás, mais que religiosamente, já que Ronaldo não pisava em igreja há muitos anos. Nem isso fazia.

A insatisfação era ainda maior porque Marina não ousava ficar chateando o marido com essa queixa. Tinha receio, não admitido conscientemente, de ser colocada no escanteio caso caísse na esparrela de desafiar o amor do marido pelo Santa, colocando-o na marca do pênalti. Sabia que essa partida já estava perdida antes mesmo do adversário sair do vestiário. E de goleada. “Se o amor dele fosse por outra mulher, eu ainda tinha uma chance de resolver”, analisava com razão.

Ela nunca gostou de futebol, nunca torceu por time algum. Pra ser bem sincera, tudo o que sabia sobre futebol era de ouvir o marido conversando com os amigos, todos torcedores do Santa Cruz. Quando se interessou por Ronaldo, até que tentou se informar sobre o esporte e suas regas básicas, sobre a história do Santa Cruz, nome de jogadores, dirigentes. Desistiu de entender as regras por causa do impedimento. Nunca conseguiu entender a razão pela qual se marca impedimento. “Se o jogador faz gol, é gol. Que papo é esse de gol impedido? Isso é roubalheira de juiz”, indignou-se, fingindo propriedade sobre o tema, na primeira vez que assistiu a um jogo com o então namorado. O detalhe é que a marcação beneficiou o Santinha. Este foi o motivo da primeira briga do casal.

Os amigos de Ronaldo foram se afastando do casal aos poucos. Não suportavam a namorada do Ronaldo. Isso aconteceu depois de uma farrinha, quando os amigos levaram suas namoradas para que elas acabassem com aquela cisma semanal com os jogos. Marina quis mostrar-se entrosada e questionou a autoridade do bandeirinha que havia feito com que um gol do Santa fosse anulado, na partida anterior ao encontro. “Se nem o juiz viu nada, porque é que deu ouvidos àquele cara que segura a bandeira e que na verdade só está ali para apanhar a bola quando sai do campo?”. Com muito abuso, Leonardo explicou que ela estava confundindo bandeirinha com gandula. Ela morreu de vergonha e decidiu não falar mais nada.

Apesar da visível incompatibilidade de amores, Ronaldo e Marina se casaram. Os amigos dele torceram o nariz, mas depois tentaram se adaptar à situação. Chegaram a assistir a alguns jogos do brasileirão na casa de Ronaldo, mas isso acabou no dia em que Júlio quase agrediu Marina. O Santa jogava contra o São Paulo. Para agradar ao marido, Marina gritou exageradamente quando o tricolor fez um gol humilhante no adversário. O problema é que o gol foi do tricolor paulista… “E eu ia saber lá que esse time de São Paulo imitava as cores do Santa?”, tentou justificar-se.

Depois dessa, Marina desistiu. Não assistia, e muito menos comentava as partidas. Amava Ronaldo, mas não se conformava com essa história de ela ser a segunda na vida dele. O terceiro aniversário de casamento quase era o último. Isso porque caiu num domingo, dia de jogo. Marina implicou: “escuta, você casou comigo ou com essa cobra venenosa de uma figa?”. Ronaldo nem se deu ao trabalho de responder. Pegou a bandeira, vestiu a camisa e saiu, como todos os domingos.

E ali estava ela agora, novamente sozinha em casa num domingo à tarde. Quatro anos, já. Chorava ao pensar no seu destino, quando ouviu gritos enlouquecidos do vizinho: o Santinha fez um gol na partida. “Chega. É isso que eu tenho que fazer: vou-me embora”. E foi. Arrumou suas roupas, escreveu um bilhete, e saiu para nunca mais voltar àquela casa. Ronaldo chegou bêbado em casa e só percebeu a carta e a ausência da mulher no dia seguinte, em meio à ressaca. Abriu a carta e ficou lívido:

“Ronaldo, fui. Não agüentei mais. E como prova de que minha decisão é irreversível, de que não guardo nenhuma boa lembrança desses quatro anos de sofrimento, te abandono junto a uma praga. Teu time será presidido por um ladrão, um incompetente que não dá a mínima para o torcedor. Um vendido. Teu time vai para a terceira divisão do Brasileirão. Se brincar, vai chegar na segunda do Pernambucano. Você vai ver. A desgraça vai ser tão grande que um dia até os torcedores mais fiéis – você incluído – serão barrados no Arruda por decisão da diretoria. Por fim, para terminar a praga, fique atento: essa merda toda vai acontecer sob as vistas e com o silêncio da maior torcida organizada do time. Amém!”.

Ronaldo leu tudo aquilo admirado com a insanidade da mulher. “Louca. Isso nunca vai acontecer. Louca! Ainda bem que foi embora. Louca!”. Tomou café e foi trabalhar normalmente.

Dois anos depois, já conhecia todos os terreiros de macumba de Recife e Olinda. Já tinha ido até a Salvador. Mas não teve oferenda a santo capaz de remover a força daquela praga impossível. E para completar sua tristeza, não podia comentar nada disso com ninguém. Carregava aquela culpa sozinho, e já pensava em suicídio. “A culpa é minha. O santinha tá nessa situação por minha causa. Mas eu mato aquela mulher!”.

12 Comentários

  1. Fábio Belmino
    1

    Bravo, Bravo, Bravissimo texto. ahuahuahuhaha

    minha mulher é semelhante, porém ao menos aparenta ser mais copreensiva.

  2. Fábio Belmino
    2

    2 ANOS-basta de humilhação

    Quem leu a página de esportes hoje da Folha de Pernambuco, onde tem uma página inteira falando das maiores humilhações do clube desde 9 de abril de 2006, quando nos penlatis perdemos o estadual daquele ano, pôde constatar a tragica situação que se perpetua.
    A partir de então sucessivas humilhações no campo, no lado político e administrativo. Nesse período o Santa Cruz além de encolher em seu patrimonio jogou a auto-estima da sua numerosa torcida na sargeta. Foram 137 jogadores e 8 treinadores, o que mostra que planejamento é uma palavra extinta nas bandas do Arruda.
    Durante esse período nefasto da história do clube tivemos , acumulando todas as competições, um aprveitamento pífio de 35,04% com um saldo negativo de gols de -58 e 54 derrotas.

    Lembrando que os dois ultimos presidentes, o atual edinho também conhecido como judas diminutivo e Romerito também conhecido como *** os dois juntos foram responsáveis por esta tragédia, lógico que não podemos descontar as catastróficas administrações dos últimos 20 anos que tem como marco o abominável homem das “neves” também conhecido como Zé neves principal responsável pela ausencia do Santa Cruz no clube dos 13.

    Para a torcida relembrar e continuar vigilante, edinho foi vice-presidente de Romerito e se afastou do cargo de vice, hoje ele chama de covarde quem se afasta, e para piorar tudo pelos lados do Arruda, o grupo ligado a Romerito esta se unindo a edinho com propósitos de se perpetuarem no clube.

    Será que o Santa Cruz resiste a esses dois vermes?

  3. Fábio Montarroyos.
    3

    Eu sabia! Esta interminável péssima fase, só podia ser resultado de uma praga. E da pior que existe: praga de mulher. Marina, pelo amor de Deus, retira esta praga! Não conheço o Ronaldo, mas, sou capaz de rodar o mundo para conhece-lo. Quando me deparar com o mesmo, implorarei:
    _ Ronaldo, em nome da libertação do mais querido, pela felicidade de um mundo tricolor e pela recuperação do título de terror do Nordeste. Volta para Marina e serás eternizado como: ” Ronaldo, o homem que acabou com a praga Edinho. “

  4. Concordo com a colocação de Flavio Belmino, só gostaria de saber por que o Santa não entrou no clube dos 13? Qual foi a culpa do abominavel homen das Neves? Talvez a minha pouca idade seja o motivo da minha ignorancia, por isso estou curioso, de saber e ter mais um motivo para não gosta do ditucujo.

  5. Perfeito Ana! Tenho que conhecer essa tal Marina e apresentá-la a um amigo rubro-negro que anda solteiro… Quem sabe?

  6. Manequinha
    6

    kakakakakaka

    Dimas,

    Apresenta essa Marina para algum burro-negro!!!

  7. Essa Ana ai acho que é a propria Marina hahaha…

  8. Há uma Marina na minha rua que bem pode ser a mesma que lançou uma praga. Se for, teremos sorte, pois ela casou com um burro-negro.

    E antevendo a deixa de Maneca, fui eu quem apresentou. hehehe

    Saudações corais,

    Dimas Lins

  9. Hehe! Genial, Ana. Hilária, a crônica! Bem, ainda bem que na praga não tem descenso para a série D! Por favor, vamos manter segredo para Marina não saber desse detalhe. Ronaldo, rapaz, reconcilie-se com sua amada e a leve ao jogo. Com o tempo, ela passa a amar o Santinha. Fácil, fácil…

  10. Muito bem sacada. Até minha coluna melhorou um pouco depois de ler essa crônica.

  11. Dani_tricolor
    11

    Belo texto Ana!

    Se eu tivesse a certeza q praga pega de jeito, juro q casava com um rubro-negro! Pensando melhor, namorava, casar tb é demais…

  12. ZeAugusto
    12

    Mas mulher, eu não acrditava em praga, achava que isso era coisa de ignorante, iletrado. Mas diante de toda essa esculhambação que se encontra o grande tricolor pernambucano, tenho que me dobrar a essa crendice, que não é crendice, mas a mais clara explicação para toda essa esculhambação do tricolor. Ana você é demais, conseguiu desvendar um mistério que assombra a nação tricolor. Parabéns pelo texto, ótimo e de um humor contagiante.

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