Torcedor-TV, estádio lotado e organizadas

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Cotidiano: confronto entre torcida organizada e polícia

Artur Perrusi

Um dia, era inevitável acontecer. O que acontecia em São Paulo agora acontece no Recife. Não temos mais encontros pacíficos entre torcidas organizadas. Ah, saudade de um tempo em que as brigas aconteciam, mas geralmente eram brigas de bêbados. A paz no futebol parece um crepúsculo, definhando lá no horizonte; ao fundo, toca-se um réquiem. Uma vez, vindo de um clássico, presenciei um encontro, digo, uma batalha, entre membros da Fanáutico e membros da Inferno Coral; talvez, menos violenta do que o habitué paulistano, mas perfeitamente comparável. Estava na Encruzilhada, de tantas estórias etílicas e pacíficas… Senti-me em Kosovo! Em suma, o vírus da violência já chegou, estando pronto para virar uma epidemia. Só falta uma morte…

 

O fut brasileiro está se transformando numa enorme televisão. Quem tem coragem de ir ao estádio? Não é preferível sentar defronte uma TV e assistir ao jogo na telinha? Não é muito mais seguro? Sem dúvida. Inclusive, podemos presenciar, atualmente, o surgimento do torcedor-tv e, até mesmo, a defesa da telinha como o melhor palco para assistir a uma partida de futebol. O torcedor-tv está para o fut, assim como o espectador-DVD está para o cinema…

 

(são chatos os espectadores-DVDs; são os que mais falam nas salas de cinema)

 

Nada contra; afinal, cada macaco no seu galho, embora seja muito melhor, na minha opinião, o cinema ou o estádio do que o DVD ou a televisão… Na verdade, o torcedor-tv é um produto atávico da violência. Seria um personagem pobre e sem alma. Causa uma certa pena. Naquela relação privada entre o torcedor e a telinha há um deserto de sentido. Falta graça. Não há estética. Falta comunhão. Não há catarse.

 

Futebol é estádio de futebol. O estádio é a ágora das emoções esportivas (carai, blog é inspiração). Faz parte da natureza humana berrar um grito de gol num estádio lotado. A necessidade de ir ao estádio de futebol é a necessidade de beleza que todo torcedor tem na sua alma. Uma necessidade que liberta. Como já se perguntou Carlos Drummond de Andrade: como pode ser bárbaro um povo que tem como maior abstração de triunfo o grito de gol?

 

Sou torcedor-tv apenas por necessidade. Uma necessidade que constrange. Quem pode ainda presenciar um Arruda lotado num clássico entre Santa Cruz e Esporte sabe do que estou falando. E estádio lotado é estádio colorido, repleto de bandeiras e de torcedores uniformizados. Sim, torcedores uniformizados. Não consigo visualizar uma festa de futebol num estádio de futebol lotado sem torcida organizada. Mas, e a violência das organizadas? Bem, a violência…

 

Aqui, tentarei abordar a relação entre as organizadas e a violência por um ângulo um pouco diferente. Não discutirei especificamente a Inferno Coral, por exemplo, mas sim o problema geral das organizadas. Utilizá-la-ei apenas como modelo e ilustração. Inclusive, o grande Ducaldo já fez uma crítica política impiedosa às posturas e às contradições de nossa maior organizada em relação ao clube.

 

Digo logo que já assisti a várias partidas do Santinha junto da Inferno Coral… Sinceramente, não consigo ter o raciocínio de PM e ver naquela multidão de adolescentes pulando e cantando um ajuntamento de marginais. Não nego que, na torcida organizada, há vários rituais ou comportamentos que estimulam as relações de agressividade; não nego também que tais relações podem se transformar rapidamente em violência, dependendo do contexto. Contudo, não consigo perceber a torcida organizada como uma entidade essencialmente violenta, nem entender o raciocínio correlato de que, acabando com as organizadas, acabaremos com a violência nos estádios.

 

De mil torcedores, se há 50 realmente violentos e arruaceiros, a confusão está formada e, caso haja violência, esta pode se tornar incontrolável. O pavio curto é formado por esse núcleo de torcedores, geralmente pequeno, que funciona invariavelmente como o estopim da violência. E, na maioria das vezes, a violência das organizadas nunca se concretiza, realizando-se num complexo aparato de mise-en-scène, no qual o teatro e a simulação de violência — a “exibição” da torcida — parecem ser mais importantes do que propriamente o confronto físico entre as torcidas.

 

De todo modo, acontecendo a violência, o desafio seria tentar individualizar cada torcedor violento da organizada, ou seja, uma atitude diametralmente oposta àquela comumente realizada pela polícia brasileira: a percepção de que todo torcedor organizado é necessariamente violento. A polícia inglesa produziu tal “individualização” com resultados interessantes; a polícia brasileira possui condições técnicas de fazer o mesmo.

 

Não percebendo a organizada como essencialmente violenta, pode-se não só resgatá-la como expressão legítima dos torcedores, como também pensar numa repressão inteligente, sem ser “marginalizadora”, às suas manifestações violentas — do tipo: é negro, é pobre, logo delinqüente. Pode-se pensar, assim, numa repressão inteligente, mas principalmente propor uma ação pedagógica entre os torcedores organizados.

 

Mas qual é, atualmente, a “pedagogia” empregada? Ora, é a “pedagogia” da afronta. Acho horrível aquela fila indiana de adolescentes, cercada de cavalos e PMs, que a gente vê comumente no caminho para o estádio. É uma fila de humilhados, e o objetivo explícito da polícia é a humilhação. Repressão é confundida com rebaixamento moral. Não é política pública de segurança, pensada e planejada, é preconceito e burrice. Tal conduta só gera mais violência e muito, mas muito mesmo, ressentimento. E ressentimento é o alimento dos violentos.

 

Uma ação educadora necessitaria de uma ação conjunta do Estado e dos clubes, interpelando as organizadas e imputando-lhes uma função sócio-esportiva. Seria literalmente um resgate. Responsabilização dos clubes, cadastramento dos torcedores, assistência social, reorientação pedagógica dos “organizados”, e por aí vai — as organizadas podem ser uma boa mediação entre uma política social e os jovens pobres da periferia. Tudo isso é factível. Só falta vontade política.

O Brasil possui o toque de Midas do monstruoso. Transformou meninos e meninas de rua em perigosas criaturas; transformou boa parte da alegria de um estádio de futebol num pesadelo. Gostaria de ver as medonhas criaturas transformadas novamente em crianças; gostaria de apreciar o espetáculo estético das torcidas… em paz. Repito: tudo isso é factível, só depende de vontade política. Sei, sei, vamos esperar sentados…

Enfim…
… saindo de um clássico, perguntei uma vez a um membro da Inferno:

_Vocês sabem quem faz as arruaças?
_Sabemos, sim…

(aposto que todo mundo sabe…)

_Então, por que não denunciam os cabras pra polícia?
_Tá louco, meu chapa? Pra quê? Pra levar porrada da PM?

Eis a questão, tricolores.

12 Comentários

  1. Um dos melhores comentario que ja li aqui.

  2. Claudemir Pereira - Mameluco Tricolor
    2

    Cidadãos Tricolores!

    Realmente esse texto de Artur está muito bom, ele sai do lugar comum, ou seja, faz uma análise e propõe um caminho com a permanência das torcidas organizadas, ao contrário de muitos textos, simplistas na minha opinião, que falam apenas na extinção dessas torcidas para por fim violência em dias de jogos.
    Essa idéia de fazer um trabalho sócio-educativo ou sócio-esportivo junto às torcidas organizadas é algo que considero inovador, e que vai muito mais além do futebol formaria cidadãos.
    Sou cientista social e trabalho em uma ONG que atua na área da criança e do adolescente, tenho visto muitas experiências bem sucedidas na socialização de jovens, e acredito que as torcidas organizadas têm um forte trunfo para a realização de um trabalho desse porte, que é a identificação entre o próprio grupo.

    Parabéns Artur pela sensatez do texto.

    Saudações Tricolores

  3. José Carlos
    3

    Parabéns pelo texto. É sempre bom ver uma opinião que sai do lugar comum. Acho que o assunto é polêmico, como é polêmico tudo o que envolve a segurança pública no nosso país (ressalte-se aqui o estado de Pernambuco). Acho que está mais do que óbvio que o tratamento dado à violência, pelos resultados obtidos, está equivocado.

  4. insatisfeito
    4

    Claudemir, procure Lulinha. Você vai ser muito útil para o Santa Cruz.

  5. Claudemir Pereira - Mameluco Tricolor
    5

    Valeu insatisfeito, farei contato com ele ainda esta semana.

    Saudações Tricolores

  6. Milton Santos Jr.
    6

    Do carái, como costuma dizer Inácio. No fim, todos querem se sentir ‘alguém’ na sociedade. Vencer a indiferença do outro. No fundo acho que é isso que essa juventude está buscando. A camada mais pobre sofre com a falta de perspectivas. Querem dizer: “Eu existo” “Não olhem para mim com desprezo ou pena” “Olhem para mim com temor(pavor), sinto-me bem melhor assim, e se a bala vier, estou preparado, que a vida tá uma bosta mesmo”. Já fiz projetos imaginários, unindo redenção social ( e de vida) dessa geração e Santa Cruz, quem sabe um dia…

  7. Artur,

    Como foi bem observado por você, meu comentário lá no blog do Santinha foi bem específico. A “nossa organizada” vem se comportando muito mal em relação ao clube que ela diz amar, e essa, acima de que qualquer outra, é a sua faceta mais desagradável, pelo menos para mim. Esse “amor” negociado, essa relação promíscua com quem está no poder, seja quem for, lhes tira o caráter de torcedores, tornando-os uma espécie de vendilhões da “nossa maior abstração de triunfo”.

    O grande problema das organizadas é que, como tudo Brasil, elas viraram um bom negócio e reproduzem em pequena escala, sem nenhum controle, as mazelas da nossa sociedade como um todo.

    Então, não é de causar espanto a presença de indivíduos violentos, marginais e dirigentes politiqueiros, misturados a gente decente, fazendo parte dos seus quadros.

    As tentativas de solucionar o “problema” esbarram na visão maniqueista ou, pura e simplesmente, na ignorância a respeito das muitas variáveis dessa equação. Sempre se ataca o resultado, violência, e nunca as suas possíveis causas.

    É pouco provável que simples ausência das uniformizadas nos estádios acabe com a violência, até por que, basta mudar a indumentária e fazer baderna do mesmo jeito. Mas, mesmo não sendo contra a presença delas nos estádios, se tudo continuar funcionando no formato atual, não vai demorar para acontecer coisa mais grave do que a troca de pedradas.

    Sinceramente, não acredito em grandes mudanças e, embora ache bonito e concorde com muito do que você e Claudemir escreveram, por razões várias, vou esperar sentado.

    Saudações tricolores!

  8. Ducaldo, em relação às mudanças, todos vamos esperar sentados – já comprei, há muito, um banquinho alcochoado, com uma almofadinha tricolor. Dependemos de abnegados da sociedade civil para realizar um trabalho que, em tese, deveria ser do poder público.

    Não vejo iniciativa política alguma para uma nova prática de segurança social, nem mesmo a formulação de políticas públicas de segurança. No governo federal, reinam a pasmaceira e uma certa indiferença em relação ao problema da violência em geral; no estado e no município, acontece (quase) a mesma coisa.

    Mas, repito, no quesito futebol, há toda uma discussão e uma experiência perfeitamente adaptável à nossa realidade. Aqui, estamos no reino do factível. “Repressão inteligente” (junto com “ação educativa”, pois são indissociáveis) é completamente acessível do ponto de vista técnico, contudo, infelizmente um tanto utópico do ponto de vista político e em relação à mentalidade que domina nossas polícias.

    O problema é que sem mudança o barril pode explodir, caso já não tenha explodido.

    Quanto a Inferno, concordo com tudo que Ducaldo já disse aqui e no blog do Santinha. Complementando sua análise, vejo vários problemas na Inferno, cuja solução não é fácil, podendo degenerar de vez em pouco tempo: a) o problema político que se mistura com o econômico: as organizadas, como bem disse um representante da Inferno, são dependentes financeiramente do clube. Elas, normalmente, trocam apoio político por ajuda econômica; b) as organizadas estão tornando-se meio de vida para vários torcedores (o núcleo dirigente), o que cria, no médio prazo, deturpações na sua vocação e nos seus antigos objetivos: a sua autonomia financeira passa pelo clientelismo com o clube e pelo seu “empresariamento”; c) o problema da violência: caso a violência aumente, a organizada pode ser tomada por um processo de “banditização”, tornando-se (quase) uma máfia (a Gaviões, a Mancha Verde e a Independente estão virando ou já viraram máfias perigosas).

    Por fim, creio que Milton Santos tenha colocado um comentário importante: a necessidade de visibilidade das organizadas. Essa necessidade, inclusive, é característica das novas “tribos”, das novas “gangues”, das novas “minorias”, etc e tal. Vemos isso em cima e embaixo da pirâmide social. Embaixo, as organizadas personificam, digamos assim, um “individualismo dos excluídos”. Em suma, uma busca de reconhecimento e de identidade.

    Pessoal, quando a formação da identidade e a socialização da criança e do adolescente passarem exclusivamente pela violência, saiam de baixo, procurem a praia de Intermares para se esconderem, pois a coisa vai ficar pesada – isso pode estar acontecendo nas favelas do Rio e do Recife, por exemplo.

    Estamos lascados.

    Bem, do jeito que vai, tenho medo que “arrastem” meu banquinho…

  9. Amigos,

    Acho que há, como bem colocados nos comentários anteriores, uma diferença entre a análise sobre as torcidas organizadas que, para mim, é reflexo de uma questão social e a relação da Inferno Coral com o Santa Cruz Futebol Clube.

    Em relação às torcidas organizadas, não acho que a decretação do fim delas, numa canetada, resolva os problemas de violência nos estádios. E se resolverem, aparecerão outras formas de sua manifestação. Os indivíduos violentos, se não foram identificados, continuarão indo aos campos e aprontando das suas. Outro fato, está na reeducação, não apenas de adolescentes, mas da própria polícia. Nada mais degradante do que a violência gratuita, venha de onde vier. Violência é violência, mesmo que seja pelas mãos do Estado.

    Com relação à Inferno Coral, estive na reunião do conselho e foi o próprio presidente quem informou que eles querem duzentos ingressos por jogo mais o pagamento do aluguel da sede da torcida. No estado de calamidade financeira em que vive o Santa Cruz, este pedido é diametralmente oposto ao rumo da maré. Enquanto muitos torcedores estão doando dinheiro ou horas de trabalho ao clube, uma parcela de sua torcida vai no caminho inverso. Cabe reflexão de seus integrantes. Afinal, o que mais importante, o clube ou uma parcela de sua torcida?

    No mais, o assunto das torcidas organizadas é complexo e, nesta ótica, nada mais oportuno do que a abordagem feita por Artur em seu texto.

    Saudações tricolores,

    Dimas Lins

  10. carlos da ciência
    10

    claudemir, você devia procurar lulinha diretor social do santa cruz. existe um projeto dele a respeito de responsabilidade social do santa cruz.
    essa questão da violência é um tanto quanto dispersa, quando se passa a discutir o foco interior de todo o problema. é polícia, é marginal, é diretoria e o próprio time de futebol. não há de se comentar a respeito sem passar pelo campo da sociologia, psicologia e psiquatria.
    por outro lado, o caminho para a solução não é tão simples. são escuros, são esburacados e tortuososs. de fato, a intenção é dar conforto a todos, jogadores, radialistas, torcedores, diretores e empresários. nesse contexto, guardada as devidas proporções, estão os fornecedores e os seus lucros. mas, nada que não se resolva, apesar das dificuldades.

  11. Marcelo Ramos vai receber aumento.

    Está no site da coralNET. Com os rumores da possibilidade de Marcelo ir para outro clube (a coisa e a barbie estavam de olho nele), Edinho tratou logo em melhorar a sua situação.

    Parece que a situação financeira no SANTINHA está melhorando, isso é bom. Tomara que melhore ainda mais.

    SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!
    EVAMOS QUE VAMOS!!! RUMO À SÉRIE A.

  12. Marco - de Natal/RN
    12

    Ou se acaba com isso ou isso acaba com o Santa Cruz… :-\