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Nosso espelho

Autor: Artur Perrusi | 20 de julho de 2007 | 19:40h | Artigos | 8 comentários

 espelho-1.jpg

Artur Perrusi

O
futebol brasileiro parece refletir ou condensar o que acontece na sociedade brasileira. Virou até um clichê: o fut nacional assemelha-se a um espelho da vida nacional. Muitas vezes, é certo, um espelho invertido; outras, um reflexo direto, ultra-realista. É um viaduto hipermoderno que passa por cima de uma favela. Não parece, contudo, que tenha sido o tempo todo dessa forma. Certo, ele sempre formatou diversas representações caras à nossa identidade, mas nunca de forma tão direta assim. Jamais o fut representou tanto uma metáfora do que nós somos, do nosso "caráter" nacional, do nosso jeitinho de ser.

Nesse mundo americanalhado, talvez o futebol seja nosso último "projeto nacional"; o último produto cultural no qual podemos ainda nos reconhecer. Não sei se tal reconhecimento é bom ou ruim — a única vantagem seria termos a certeza de que aquele reflexo enviesado no espelho, para o bem ou para o mal, possui uma relação com nossa identidade. Falo do povo e de setores da classe média, claro, pois já temos uma determinada elite que sobrevoa as grandes capitais do país de helicóptero e não tem mais essa necessidade de identificação…

O que acontece na vida tupiniquim aparece de forma metafórica no futebol, como uma encenação caricatural ou extremada da vida social brasileira. Sem dúvida, o futebol encarna o que tem de bom e de ruim no país; representa ao seu modo essa espécie de dualidade que faz rodopiar a nossa identidade entre pólos opostos: potencialidade/ beco sem saída, esperança/ desilusão, cordialidade/ violência, riqueza/ miséria… Em suma, assim como o Brasil, o futebol brasileiro é uma bosta/ maravilha. Porém, assim como o tecido social brasileiro, o futebol vem se degradando e assumindo apenas a "banda podre" da nossa dualidade.

Vejam o Congresso… Qual seria sua caricatura no futebol? Ora, o Clube dos 13… Confuso, incapaz de formular um projeto decente, atrasado politicamente… E o governo? Ah, a CBF, é claro. Sempre correndo atrás do bonde da História; nunca presente nos momentos vitais; não deseja nem mais organizar o campeonato brasileiro; incapaz de formular uma política esportiva… Os clubes parecem grandes latifúndios improdutivos e endividados; os dirigentes, aqueles latifundiários que impõem trabalho escravo e sonham com o etanol — falta uma "reforma agrária" nos clubes, e daquelas bem sangrentas (ops! exagerei).

O individualismo grassa na sociedade brasileira? Ora, o individualismo é personificado pela elite dos jogadores brasileiros, essa facção absolutamente egoísta e jamais solidária, possuidores de apartamentos em forma de Rolex (lembram de Roberto Carlos?). Dizem que os jogadores são despolitizados e nunca se organizam para combater as sacanagens do futebol. Ora, a elite dos jogadores não precisa de organização e faz parte do "sistema" – o mesmo sistema dos cartolas e dos clubes.

Somos dominados pelos tecnocratas? E quem são os técnicos, esses tecnocratas do futebol?

E o "apartheid social"? O que significa metaforicamente essa separação absoluta entre clubes pequenos e clubes grandes?

E o preconceito social? Ora, por que essa ojeriza ao rebaixamento, esse financiamento escandaloso do Clube dos 13, o truste do futebol nacional, essas arbitragens horríveis que sempre beneficiam os clubes ditos grandes?

Ah, futebol brasileiro… Parece que virasse o lugar onde a sacanagem típica da sociedade brasileira acumula-se e se condensa. Virasse a "sujeira-debaixo-do-tapete". Seria um desses pontos privilegiados em que podemos "vivenciar" o sentido trágico da enrascada na qual nos metemos – nós, os brasileiros. Tal "experiência" cria, certamente, um sentimento de impotência e perplexidade diante das sacanagens da CBF ou do Clube dos 13. Toda essa vivência podia até ser didática, se houvesse no futebol brasileiro uma oposição decente e modernizadora — já repararam? Jamais existiu uma oposição no futebol brasileiro, reino do pensamento único – houve votação na CBF. Ricardo Teixeira foi eleito por mais eternos sete anos!

Os nossos dirigentes são tão sacanas e intoleráveis que fica difícil alguém se animar e tomar a justa medida da bandalheira reinante, com paciência e determinação, e, claro, com muito Engoveã para não vomitar. Mas a crítica esportiva é um deserto, sem oásis e sem mandacarus, apenas com um outdoor lá longe e os seguintes dizeres: "deixai toda a esperança, vós que entrais"! O que existe é a Rede Globo. E não será a nossa mídia esportiva que trará alguma esperança, pois a tolerância e a simpatia, com que os nossos dirigentes contam na imprensa futebolística, são um sinal cabal de nossa indigência mental. A maioria não se atreve, não assume riscos, tem medo de perder alguns privilégios momentâneos — quando na verdade não arriscar-se é perder-se a si próprio para sempre.

Os cabras têm medo de usar as palavras, meu Deus!, de usá-las de forma selvagem, única maneira de dizer a verdade neste país. Por isso, talvez, escrevam e falem tão mal.

Pois é…

É preciso descer muito e chegar no fundo do poço para ter forças e subir novamente – Cântico Hassídico.

(O problema é que o futebol brasileiro não tem fundo…)

 

InscritosEmPedra

8 comentários

  1. Bosquimano
    20/07/2007 | 22:53h
    1

    É Perrusi, a coisa (ops…) que mais sinto falta, além das arquibancadas do Mundão, são os nossos papos. E essa imprensa, heim?

    Responder
  2. Anizio Carlos da Silva
    21/07/2007 | 14:05h
    2

    Mais um grande texto, Artur.

    Hoje não poderei ir ao Arrudão, devido à contenção emergencial de recursos para poder desfrutar alguns dias de vinho e chocolate quente em Garanhuns… mas não me condenem à execração pública, tal qual o governo Lula pós-TAM, amigos! vou recarregar as energias para poder pular nos estádios nesta nova fase que o santinha vai entrar – de muitas vitórias e rumo à série A!!!

    SAUDAÇÕES TRICOLORES!

    Responder
  3. Marco - de Natal/RN
    21/07/2007 | 18:02h
    3

    Olha só! Ainda empataram o jogo no final mas isso não apaga a vergonha e incompetência desse time vagabundo. Vergonha, vergonha, vergonha.

    O Santa Cruz segue a passos largos o exemplo do Bangu, já foi grande mas se apequenou a ponto de passar vergonha atrás de vergonha, humilhação atrás de humilhação.

    O Bangu praticamente desapareceu, o Santa Cruz vai pelo mesmo caminho.

    Estou realmente cansado disso. Cansado demais.

    Sem mais.

    Responder
  4. Artur
    21/07/2007 | 21:03h
    4

    Transcrevo o que escrevi no blog do santinha. E posso ser mais duro ainda, pois estou na minha casa:

    Não vaio, fico calado e me sento. Coço o cocuruto, ajeito o boné, digo um palavrão, desligo a merda do rádio, mas não vaio. Mas como vou negar o direito de o torcedor vaiar um time que está perdendo de 2×0 da porcaria do Remo, ainda mais este com 10 jogadores desde os 14 minutos do primeiro tempo? Esse primeiro tempo foi um desrespeito; não, na verdade, foi uma sacanagem! E a torcida é boa e santa, pois apoiou o time, mesmo com a maluquice do técnico em deixar Paraíba no banco e colocar Dudu (?!), gastando uma substituição. Apoiou mesmo quando o Remo, com 10 (!), deixava a defesa louca nos contra-ataques. Aí leva o terceiro e o quarto… do Remo!!! A torcida é santa, mas não é idiota de pensar que sofrimento leva à redenção.

    Ah, o técnico não conhece o elenco. Como não? Não temos departamento de futebol para informá-lo? Edinho não conhece os jogadores? Ele não era (quase) o técnico do time? O presidente que brinca de técnico de futebol… E aí chega um técnico que brinca de presidente, diminuindo ingressos, mudando premiação…

    Eis ao que chegamos: presidente que brinca de técnico – técnico que brinca de presidente. Frase lapidar de Dimas.

    Que departamento de futebol é esse que não informa ao novo técnico que César Baiano, Allan, Dudu, Caruaru e caterva são umas bostas?! Será preciso o novo técnico testar novamente todas essas maravilhas? Isso não existe. Isso é loucura.

    Sinceramente, não aguento mais essa situação. Esse amadorismo, essa confusão, esse caos justamente no departamento que mais importa: o futebol. Coincidência ou não é a velha guarda que comanda o futebol no clube. Cadê os profissionais, os que pensam o clube como gestão e planejamento, os que pensam adiante? Ora, estão na administração e na parte social. E, convenhamos, dão algum pitaco? Nenhum. A quem cabe a iniciativa do trabalho em equipe? Todo mundo sabe, e não preciso dizer o nome do dito-cujo.

    Vêm aí as novas contratações. As novas múmias, uma delas toda empoeirada da Polônia. De caminhão em caminhão de jogadores… Salve Edinho, rebaixari te salutant!

    Encheu o saco.

    Responder
  5. ducaldo
    21/07/2007 | 22:54h
    5

    Quando estive reunido com o pessoal na quinta-feira relatei o que vi no treino e que não havia gostado do que tinha visto: O time que iniciou o treino como titular, modificado pelo técnico durante a atividade, e iniciou o jogo de hoje.

    Marquinhos Caruraru, César Baiano, Miro Bahia e Marquinhos catarina (consta que está de malas prontas para ir para o Atlético-MG, o que explica a sua “disposição em campo) jogaram no treino exatamente do jeito que jogaram hoje. Carlinhos Paraíba, Amaral e Piauí, pelo que eu vi no treinamento, justificaram suas escalações, tendo terminado o coletivo no time titular.

    Quase tudo que aconteceu hoje, aconteceu também no treino, inclusive o pênalti perdido por M. Ramos. Portanto M.F. Não pode alegar desconhecimento de causa e repetir exatamente a pior das escalações feita por Charles.

    Outra coisa que me chamou à atenção foi a total exclusão de Leandro, Hugo, Thiago e outros jovens, que se limitaram a bater bola na área atrás do gol. Talvez eles não seja a solução, mas seguramente não fariam pior do que fizeram hoje os veteranos.

    Estranhamente, M.F. relacionou para a partida um atacante dos juniores, Anderson, que nunca sequer treinou entre os profissionais. Dele eu apenas sei que foi trazido para o clube por Charles Muniz.

    Estamos pagando o preço da teimosia de Edinho. Sabemos das dificuldades do clube, mas isso não significa que se tenha que demorar dois meses e 12 rodadas para poder mudar alguma coisa. Charles deveria ter sido apeado do cargo bem antes do que foi e o elenco já deveria ter sido filtrado há muito tempo.

    Não há como justificar a presença no elenco de jogadores que já tiveram “n” oportunidades e nada mostraram e ter nesse mesmo grupo atletas que praticamente não tiveram chance, ficam fora até do banco de reservas e, como pude observar, nem sequer participam dos coletivos. Uns devem ser dispensados por que já se viu há muito tempo que servem e os outros devem ter sua chance ou, se são tão ruins que não servem nem pra reservas, que sejam dispensados também.

    Com meus parcos conhecimentos sobre o futebol, jamais poderia ser treinador, mas não escalaria César Baiano, Miro, Dudu, Allan, Caruaru e até mesmo M. Catarina, depois do que vi no coletivo. Aliás, os cinco primeiros e mais uns três ou quatro não estariam nem mesmo fazendo parte do elenco.

    Discordo da vaia, pois desnorteia mais ainda um time que está atarantado em campo e prefiro descarregar minha frustração de outra maneira. Aliás, eis o que ouvi de um senhor de 68 anos, veterano frequentador do Arrudão: “Nunca vaiei o time por pior que fosse, prefiro o silêncio. Lotar o estádio para vaiar o time não ajuda em nada.” Mas tenho que admitir que é praticamente impossível segurar a vontade de fazê-lo diante do triste espetáculo de hoje.

    Confesso que estava temeroso, mas o que eu vi ultrapassou minhas expectativas. Foi a pior apresentação do time(???) desde o início do campeonato. Que o elenco é fraco, todos nós sabemos, mas o que se viu hoje em campo foi mais do que baixa qualidade técnica. Parece até um processo de decomposição, pois o time vem se desmanchando partida após partida.

    Com exceção do Ituano, todos os times que derrotamos estão melhor colocados na tabela. Alguns mudaram, bem antes de nós, e seguiram em frente, enquanto marcávamos passo com Charles, César, Miro, Dudu, Allan & Cia.

    Não adianta limpar e organizar os vagões da parte administrativa se a locomotiva que os movimenta está pegando um desvio rumo ao inferno que é a terceirona. E pior, com a ameaça da volta “dos que não foram”, e ainda rondam o Santa Cruz como urubus à espera da morte de um animal ferido.

    Infelizmente, não sei se conseguiremos escapar dessa, como escapamos em 1998.

    Responder
  6. milton pereira
    22/07/2007 | 4:50h
    6

    O blogueiro RD, no blog do santinha desconfia que Edinho é burronegro e foi colocado alí pela Coisa. Eu também desconfio desde o dia que ele fez questão de afirmar de público que o Santa estava falido e que devia R$ 70 milhões ! Qual presidente diz isso de sua emprêsa ? E continuou dizendo várias vezes até nas emissors de Rádio. Não sei se disse isso na TV. Pensem no abalo que essas declarações podem pesar na imagem do Santa Brasil afora !E suas repercussões. Aí os inimigos do Santa aproveitaram a oportunidade para tentar ACABAR com o Santa, usando vários artifícios. Sofremos com tentativa de interdição do Estádio, proibição de vender ingressos na Sede, etc. O que acham ? Urgem providencias urgentes !

    Responder
  7. Enildo
    22/07/2007 | 11:46h
    7

    O que mais me preocupa é que TODA a torcida viu (e vê) que esse Alan na zaga é um buraco, Dudu é uma múmia, Cesar Baiano não existe na proteção ‘a zaga, Marco Antônio não quer ovo com porra nenhuma, Miro Bahia não vai passar disso: muita vontade e pouquíssima bola, Cláudio em toda a sua carreira só fez 5 gols (e foi na gente, daí a sua contratação), Amaral é muita correria pra pouca eficiência, enfim: estamos caminhando a passos largos para a 3ª divisão (e olhe que essa Diretoria foi alertada no pernambucano – e o que fez? contratou a defesa do Central e o meio-campo do Nacional de Patos , mesclando com os “craques” baianos da ULBRA de Rondõnia – muito pouco para “a maior potência da série B” frase dita pelo nosso presidente e confirmada no campo pela nossa torcida).
    E os reforços? Aldo é um cara gordo, que passou por uma cirurgia em abril e se envolveu em uma confusão num cabaré de Goiania; Amaral eu nem sabia que ainda estava vivo; esse Josemar do Bahia não conheço, mas segundo informações de amigos soteropolitanos, eles estão aliviados com a sua saída do Clube (por aí dá para imaginar o que nos espera…) e o Didão do Ceilândia deve ser o cara que comia a bunda do Mauro Fernandes na Ceilandia (só isso para justificar a sua contratação, pois se esse cara prestasse o lalau do Luiz Estevão o levaria para o Brasiliense).
    Que se efetive os juniores Hugo – se é que ele ainda nos pertence, pois dizem que o mesmo grupo que levou Jairo o comprou, Leandro e Thiago Almeida, testem Wendell na proteção a zaga (pq o trouxeram?), e tragam jogadores de raça e que queiram jogar pelo Glorioso – onde anda Juliano? Garanto que ele e Leandro resolveriam o nosso problema de proteção ‘a zaga, bem como de saida de bola da defesa para o ataque.
    No mais, até pelo apoio irrestrito que essa torcida está demonstrando no campo, é cobrar a reciprocidade da Diretoria exigindo, além de um time que tenha vergonha na cara, a tão propagada transparência prometida pelo Edinho cabeção, e invocar a Besta Fubana, para que nos livre do inferno da terceirona. Prá mim esse ano já acabou (só espero que o Santinha não acabe junto…)

    Responder
  8. Paulo Aguiar
    22/07/2007 | 19:01h
    8

    Tricolores,

    As vezes, procuro ¨andar¨ contra a maré para ver se existe alguma solução ou frase que possa acalmar os ânimos… mas está difícil. Quando a maioria elogia, eu fico contido… quando a maioria critica, eu procuro defender… mas, pelos comentários anteriores, vocês estão todos certos.

    Vou só postar algumas ¨opiniões¨:

    1. A reformulação será feita. Na quarta-feira, após o jogo contra o ceará, um caminhão de jogadores deixará o Arruda (ainda bem!!!). Pode ser benéfico.
    2. Sobre Mauro… Está longe de ser o ideal, mas não acho que o santa cruz atual é tão superior ao ponto de crucificá-lo. O problema maior dele é ter uma característica comum com a de Edinho: ser o ¨dono¨ da verdade.
    3. Sobre gestores que planejem o clube (enfocado por Artur), digo: Não tem.
    4. Sobre Edinho, não canso de dizer, ele é o homem para ser presidente. Não para ser diretor de futebol; logo, contrate-se um.
    5.Por fim, para quem não ouviu a declaração de Adriano na rádio: ¨… agora, com Mauro, espero voltar a jogar. Nunca tive uma boa relação com Charles, não gostava do jeito dele nem ele do meu….¨
    Serve para mostrar que o ¨grupo¨ não é fechado.
    6.Nós, para a série B, não fizemos contratação. Apenas aumentamos o número de jogadores do elenco. Os nossos melhores jogadores são os mesmos que nos colocaram no 7º lugar do PE. E, os que vieram, são piores.

    abraços!!!

    Responder

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