
Fui ao jogo. Estava inquieto. Assim, sem mais, nem menos, dei uma passada no vestiário — baita vestiário, aliás, digno de seleção brasileira. É verdade que senti um cheiro meio esquisito, mas deixei pra lá, uma vez que estava com a mente focada noutro assunto. Queria conversar com o nosso técnico. Oferecer um apoio, uma palavra amiga, essas coisas. Sim, eu simpatizo com China. Acho-o um cara bem intencionado e inteligente.
Procurei-o. Lá no canto, junto de umas espreguiçadeiras, estava China. Não parecia normal. Esbravejava com Marcos Mendes:
_Você é multifuncional, entendeu?! Multifuncional! — gritava o técnico tricolor. Seus olhos estavam rútilos. Parecia possesso. Achei até que saía fumaça de suas narinas. Marcos Mendes estava perplexo e meneava a cabeça o tempo todo. Olhou pra mim, desesperado, e perguntou, meio baixinho, quase num sussurro:
_O que é multifuncional?
_É feito uma impressora. Scanner, fotocópia, tudo junto. Eu tenho uma HP… – disse, tentando ajudar.
_Uma impressora?
_Feito um canivete suíço.
_O que é um canivete suíço?
_Deixa pra lá…
Ia até explicar melhor a relação entre a multifuncionalidade e o canivete suíço, mas Marcos Mendes, percebendo a aproximação de China, saiu de fininho. O técnico tricolor chegou junto de mim, pegou meus ombros e começou a me balançar. Gritava nos meus ouvidos:
_Eu adoro volantes!!!
_Ah, sim, dá pra notar…
_Volante é tudo! É meia, é atacante, é ponta, é lateral, até goleiro!
_Goleiro?!
_Volante é um valor universal!
_Mas China por que essa fixação por volantes? Você mesmo nem era volante…
_Eu não era volante?!
_Não, você era um meia e…
China começou a chorar. _Eu não era volante! – dizia aos prantos. Ele me empurrou e se afastou de mim. Foi até um canto do vestiário. Ficou lá um tempo. Batia agora a cabeça na parede, ainda choramingando, repetindo seu mantra:
_eu não era volante, eu não era volante…
Eu continuava sentindo um cheiro estranho no local, mas não tinha tempo para investigar esse fenômeno. Fui-me embora. Estava na hora do jogo. Achei, claro, tudo muito esquisito. Era um troço de nunca mais se ver, mesmo com o tanto de troços passíveis de nunca mais serem vistos num lugar tão doido quanto o Arruda. Como não sabia o que fazer, pensei que o único jeito era deixar como estava para ver como ia ficar.
Na partida, quando China tirou todos os laterais do time, tive a certeza de que enlouquecera. Pensei em entrar no campo, dizer que era psiquiatra, etc e tal, tentar ajudar, sei lá. Pensei em interná-lo, assim na bucha, mas a Reforma Psiquiátrica retirou os meus poderes mutantes de internação. Senti falta da minha máquina portátil de eletrochoque Mitsubishi – seria útil, aqui e agora, pensei. Dava um choque, China se tremeria todo, tiraria os volantes, uma beleza. Mas não podia fazer nada, até porque, diante de mim, estava outro doido de pedra. Ora, o gol do Central fora demais para a frágil mente de Josias de Paula, o poeta do TC. O cabra não parava de repetir:
_Eu avisei, porra! Olha o homem no meio, olha o homem no meio! Marca o homem do meio! E o homem do meio fez o gol!
_Rapai, você disse isso duzentas vezes. Não precisa mais repetir. E pare de gritar no meu ouvido, cacete! – disse, já meio abusado.
_O homem do meio, o homem do meio, o homem do meio, porra! Continuava a gritar Josias de Paula.
Só tem doido nesse mundo, pensei, e eu não posso mais internar ninguém. Confesso, eu sou um alienista. Por mim, o mundo inteiro estava num asilo. Subitamente, enquanto pensava na imagem idílica de um asilo planetário, lembrei-me do cheiro no vestiário. Será?! Liguei para FBC, amigão do tempo do surf lá em Petrolina, e fui direto ao ponto:
_Fê, velho, o vestiário está com um cheiro estranho.
_Ah, é o incenso que comprei quando estava viajando pela Índia.
_Índia?!
_Sim, o governador quer construir uma Cidade do Futebol na Índia…
_Na Índia?
_Sim, por que não?! Se pode em São Lourenço, por que não na Índia?
_Claro, claro…
Estava explicado o mistério. Sabia a causa da loucura de China. Era o incenso da Índia. Numa tomografia quântica que fizera no nosso técnico, tinha detectado que o rapaz era alérgico a incenso. Tais resinas têm um dopaminóide que deixa China completamente lunático. O sintoma principal era a fixação por volantes. Assim, China não era doido. Era só retirar os incensos do vestiário, e ele voltaria ao normal, talvez até sem volantes.
Ufa!, menos um doido no mundo, pensei. Mas ainda tinha Josias de Paula, que continuava a berrar “o homem do meio, o homem do meio, porra”! O olho torto do dito-cujo dava voltas e mais voltas na sua órbita. Tive medo. Ciclopes me assustam. Não tem eletrochoque que ajeite. No final do jogo, porém, o poeta estava mais calmo, embora continuasse a resmungar. Quando saímos, ele se perdeu do grupo. Depois de muita procura, encontramos o moço no Tepan. A cena era surreal. Josias de Paula falava, aos berros, com Samarone, que dormia um sono ébrio, certamente sonhando com suas próximas crônicas. O poeta gritava ao escritor:
_Sou um resistente, sou um resistente! Fui brizolista, depois lulista, um dia PSOL, lulista novamente, virei stalinista, estudo o messianismo das esquerdas, o escambau! Sou da resistência tricolor!
Era estranho que Josias de Paula não percebesse que Samarone dormia profundamente; talvez, isso não importasse. Mas, mesmo assim, eu disse:
_Doido, o cabra está dormindo…
Josias de Paula olhou-me espantado, como se não acreditasse no que eu dissera, e começou a balançar Samarone, tentando acordá-lo. Berrava sobre a resistência cultural da torcida tricolor. O poeta acreditava piamente na redenção do povo. O escritor abriu o olho direito, mas o fechou, logo em seguida; abriu o esquerdo, e logo o fechou de forma definitiva — continuou a dormir. Josias de Paula desistiu de acordar Samarone e ficou calado, momentaneamente. Percebi um rasgo de lucidez no ciclope. Seu olho torto parou de girar, o que era um sinal de razão.
Despreocupei-me com o poeta e fiquei olhando para o escritor. Estava sem seus óculos de fundo de garrafa. Encontrei-os debaixo da mesa, fato este que poderia ter algum significado literário ou mesmo nenhum – o mundo é deveras relativo. Sim, óculos perdidos, muitas vezes, não trazem sentido algum. Mesmo dormindo, o cabra bebia a cerveja e conseguia comer os petiscos. Era incrível! Samarone tinha poderes mutantes. E não era sonambulismo etílico, era outra coisa. Séculos de bares tinham lhe dado uma capacidade sobre-humana. Dormir, sonhar, beber, comer, tudo ao mesmo tempo, eis o poder de um literato. O tempo passou, a dormida continuou e nada parecia incomodar seu sono mais do que justo. De repente, já no final da noite, abriu os dois olhos, pegou os óculos, não olhou ninguém, apenas o infinito, levantou-se de supetão e vociferou:
_Odeio Chico Buarque!
Não falou mais, não se despediu, apenas saiu da mesa e, definitivamente, do Tepan.
Dimas, como auditor compulsivo, ainda reparou que o escritor não pagara a conta.
_Os artistas dormem, comem, bebem, odeiam sem motivo e não pagam a conta. Faz parte — eu disse ao Editor-Mor.
Todos estavam calados, perplexos com a conduta e a afirmação retumbante do famoso cronista. Ficamos pensativos. Houve um longo intervalo.
Aproveitei o ensejo e comecei a contar a estória do incenso de Sérgio China.
E todos me ouviram atentamente até o fim, inclusive Josias de Paula…









Rapaz, nunca mais eu abro a boca pra reclamar que os escritos daqui, tanto artigos quanto posts, são sempre exageradamente técnicos, visse?
Agora, a parte que fala do poeta e do escritor está hilária por demais… Parece até que eu estava lá, me abrindo.
Coisa boa, nestes tempos tensos de pós trauma futebolístico.
O blog do Santinha está um caos de tão chato, com aquela arenga sobre a matéria escrota do Diário de Pernambuco.
Só stress.
É Artur, o Sergio não endoidou, quem enlouqueceu foi a massa
coral, que numa tarde de sábado lota o arruda para ver um
china made in Paraguai, fazer invencionice. Apesar de tudo
continuarei bradando: Vamos subir Santa!!!
Saudações corais.
Sama não dormia enquanto conversávamos, quando vocês chegaram. Discutíamos sobre o último livro de Chico Buarque. Aliás, na verdade não discutíamos. Apenas falei que o livro era bom, mas parecia uma cópia de Beckett. Ele, que estava numa embriaguez pior que a sua e a de Diminhas juntas, repetia com a resignação dos condenados: “Eu odeio Chico Buaruqe! Eu odeio Chico Buarque!”.
Confesso que esbravejei com o time no primeiro gol, porém ao menos não gritava troantemente, “Givanildo! Givanildo!”
O que há de ficção e realidade, no texto de Perrusi?
Sei lá… bom, vou voltar a ler Chico Buarque.
Conversa! Lembro-me de vc gritando com Sama, que roncava profundamente: “o homem do meio era Beckett, porra”! Sama deve ter juntado tudo inconscientemente e pensado que o homem do meio era, na verdade, Chico Buarque, daí seu “odeio Chico Buarque”!
Quanto a Givanildo, foi tudo um mal-entendido: na verdade, gritávamos “Ivanildo, Ivanildo”, que era o homem do guaraná com uísque. Uma comunicação paradoxal, em suma.
Perursi, o finado conterrâneo Nelson Rodrigues, “ñ amarra tua chuteira”. Tb ñ sei como os “idiotas da objetividade” pretendem tirar o Giva do América (time dos “riquinhos” das MG, quer queiram quer ñ) e com o pé, praticamente, na 2ª Divisão.
Não entro no mérito se se trata de um técnico “superado ou não”. Particularmente, não “morro de amores” pelo mesmo. Mas, temos de reconhecer: é um “batedor de records de acessos” (afora aqueles anos que ñ subiu por um triz, como o ano-passado, com o popularíssimo Vila Nova de GO).
E QUE DEUS NOS AJUDE
abram o olho que a turma da oposiçao tao botando as unhas de fora.
Ainda estou sob “custódia” – médica, vou logo avisando para evitar confusão.
Mas, tinha que passar por aqui para arejar o juízo com o texto de Artur e os comentários postados.
Afinal, não é sempre que se pode ver juntos Samarone, Chico, Becket, Geó e um técnico do Santinha na mesma panela.
Vamos subir!
PS: fodinha é ver o Salgueiro,de tradições e glórias mil, que apanhou legal da gente no Pernambucano, prestes a subir para a segundona.
Cabeção FDP cabeção FDPcabeção FDPcabeção FDPcabeção FDPcabeção FDPcabeção FDPcabeção FDPcabeção FDP!
E no meio disso tudo, mando um abraço sincero para o Dimas, o poeta Josias e o autor desse excelente artigo, digno de ser assinado por Nelson Rodrigues.
Ps – E pra não dizer que não falei… VIVA CHICO BUARQUE!
Boa criatividade, nem se eu tivesse tomado um chá de cogumelo estragado conseguiria essa ficção digna de filmes de Bollywood.hehehe abraço
hehehe. Genial Artur!
Kkkkkkkkkkkkkkkk
Muito bom!!
(From IPod Touch)
Grande Artur, eu estava meio embreagado no jogo, mas, até hoje escuto esse “olha o homem do meio”. Escutei também o “Volta Givanildo”, e escutei até um “Kaká, toca a bola para Reinaldo !”
Texto maravilhoso, com certeza não foi escrito por um volante.
Fico impressionado como ninguém fala da manutenção ou da utilidade de Alexandre Oliveira como capitão e “cérebro” do time. Temos Neto Maranhão com mais vigor, vontade e qualidade técnica no banco. Além de ser um exímio cobrador de faltas.
O primeiro gol, por sinal, começou com um passe errado do mesmo.
Vai entender Sérgio China…
Grande ‘Artur’,
Acredito que o “China” deva estar aprendendo com os próprios erros e certamente não vai cometer mais ‘insanidades’ no time Coral … dia de doido todo mundo já teve um dia, agora se o cara permanece no erro, a melhor saída é a internação mesmo !!!!
“Ducaldo” meu amigo, melhoras pra vc !!!!
Abraços a Todos,
>>>> VIVA SANTINHA !!!!
Texto realmente genial.
Geó conversava com Sama dormindo. Entre uma baba e outra Sama repetia “eu odeio Chico Buarque”. A partir daí, passeia odiar Sama, só por isso. Ninguém odeia Chico Buarque e sai impunimente.
Saudações corais,
Dimas Lins
Nem copiadora, nem canivete suiço.
Tem que ensinar a boa parte do elenco tricolor que multifuncional é um Arruda lotado.
Eu pensei que China sabia…
Nunca vi ninguém dormindo em pé, andando e falando baixinho.
minto: a primeira vez foi sábado no Arruda, mais precisamente na saída das arquibacadas do lado da rua canal.
Confesso a vcs que ouvi com meus próprios olhos Samarone dizer: odeio o Santa Cruz, odeio o Santa Cruz, odeio o Santa Cruz!
mas não vão contar isso a ele hein!kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Ótimo texto Artur Perrusi!!!
Tudo que Artur escreveu é verdade. Eu estava lá.
Estou aqui ouvindo o jogo do Santa e dando muita risada com este texto maravilhoso, humor inteligente é mesmo de admirar!
Estou vendendo duas cadeiras cativas no Arruda. Excelente localização!
Carla