Chorarei por ti, Argentina

Nota da redação:

Amanhã, o Torcedor Coral publica uma imperdível entrevista exclusiva com Rivaldo. O craque fala sobre seleção brasileira, Santa Cruz e muita mais. Rivaldo, provocado pelo TC, não descarta a possibilidade de fazer um jogo de despedida no Arruda (acorda, diretoria!) e nem mesmo de se tornar futuro presidente do Santa Cruz.

Faço parte de uma geração que viveu sob a hipnose de Maradona. Talvez, por isso, meu temor instintivo pela Argentina. Jogar contra os “lourinhos” sempre me causou calafrios de medo. Uma vitória contra nossos “hermanos” sempre foi uma espécie de redenção, algo para acalentar durante anos. Uma derrota, e meu paladar ficava com gosto de fel, a vida, um vazio, tendo a certeza de que Crom (o deus cruel e cínico dos cimérios) era o Deus do Futebol.

A geração de meu pai viveu sob os auspícios da Era Pelé. Uma geração orgulhosa e altaneira que olha com certo desdém o “fut moderno”. São brasileiros que viveram de 58 a 70 (12 anos) uma supremacia mundial inconteste (66 foi apenas um equívoco). Os “velhos” tinham um certo medo atávico do Uruguai, produto das conseqüências na alma futibeira da catástrofe de 50, mas nada que pudesse representar uma fobia. Nós herdamos dessa geração um certo ufanismo em relação ao nosso futebol: uma crença inabalável na superioridade do fut brasileiro. O futebol jogado era tão bom que se relevava os amadorismos de nossos dirigentes, tão ruins quanto os atuais, mas talvez menos gananciosos.

Minha consciência futebolística surgiu a partir da copa de 74, justamente quando perdemos nossa hegemonia e os europeus igualaram o jogo. Nessa copa, ganhamos da Argentina (2×1), e recebi tal vitória como um fato perfeitamente natural. Na minha “memória” de criança, os argentinos não tinham “tradição” e eram supostos fregueses do Brasil (a história dos confrontos mostra que o negócio não era bem assim). A culpa do fracasso em 74, pra mim, não tinha como causa a superioridade de uma Holanda, uma Alemanha ou mesmo uma Polônia, e sim um nome: Zagallo. Não entendia por que o time era tão defensivo e apresentava um jogo tão obscuro. Só podia ser o técnico – aliás, raramente se admite a superioridade de um time em relação ao Brasil, a culpa cai invariavelmente no técnico.

Em 78, com a vitória argentina, comecei a revisar as minhas convicções, embora acalentasse a desculpa de que a Argentina, por meio de sua ditadura, tinha comprado a equipe do Peru, em particular o seu goleiro, naquele inverossímil 6×0 contra os peruanos. Culpei, de novo, o técnico, dessa vez Cláudio Coutinho, e não acreditei de forma alguma na sua balela de “campeão moral”. No jogo contra a Argentina, estava na cara que eles estavam tremendo diante de nós, e não precisava tanta prudência, tanta cautela, tanto Chicão no meio do campo.

Em 82, senti um pouco o que meu pai sentira em 50: a sensação do completo absurdo; a impossibilidade se fazendo presente. Compreendi que o imponderável existia e que gostava de pregar peças de mau gosto. Voltei a considerar a Argentina como parte da nossa freguesia, depois do banho de bola que lhe demos (3×1). E olhe que eles tinham um timão! Maradona me pareceu um jogador cheio de fricote e não o gênio alardado pela crônica argentina. Vivia a Era Zico e não acreditava que pudesse existir um jogador melhor do que o “Galinho”.

Mas, depois do “desastre de Sarriá”, algo veio se quebrando, algo tinha se quebrado dentro de mim. A crença inabalável na superioridade da canarinha tinha se escafedido. Passei a ficar inseguro e deixei de acreditar na geração de Zico, Sócrates & Companhia. Sendo ateu, mas profundamente supersticioso em futebol, acreditei que essa geração de jogadores, a minha geração de jogadores, era amaldiçoada.

Em 86, assisti ao melhor jogo de futebol da minha vida: França x Brasil. Nos pênaltis, já sentia o imponderável novamente em ação; mas, não senti tanto a derrota, como em 82, pois estava conformado misticamente, bem como sabia que, diante da canarinha, estava um timaço. Por ironia, perdemos de uma geração também amaldiçoada: a geração Platini. Não exatamente uma maldição dos deuses, mas sim germânica (a França perdeu duas semifinais diante da Alemanha). Inclusive, os franceses, já complexados com tantas derrotas militares ante os alemães, passaram anos tendo pesadelos futebolísticos, caracterizados por forte impregnação emocional teutônica.

Mas, foi na copa de 86 que presenciei, deslumbrado, a exibição do maior jogador que já vira na minha vida: Maradona! Tinha visto Pelé jogar umas duas vezes (contra o Santa Cruz e o Náutico, em 73 e 74, respectivamente), mas era muito pequeno pra me impressionar com o negão. Tinha visto Zico jogar várias vezes, sem dúvida um cracaço, mas Maradona ultrapassava o próprio conceito de craque, ia bem além disso. Passei a acreditar que Deus, decididamente, era… argentino.

Em 90, sabendo que íamos jogar contra os argentinos de Maradona, dei-me os pêsames de antemão e comecei a trabalhar emocionalmente a perda de mais um mundial. Tomei como um fato da Natureza o gol da Argentina: Maradona passar por Dunga e driblar todo o nosso sistema defensivo me pareceu uma coisa tão natural como o amanhecer ou o anoitecer. Maradona disse depois que foi um milagre ganhar, naquela ocasião, do Brasil. Foi uma profunda ironia do portenho: o milagre era ele mesmo…

Em 94, respirei aliviado — mas, meio envergonhado, já que, como brasileiro, amo odiar os argentinos (já os “lourinhos” odeiam amar os brasileiros) — pela eliminação do, até então, melhor time da copa: os argentinos de Maradona. Não tinha parreirismo que contivesse uma Argentina com Maradona; Dunga seria driblado novamente e inevitavelmente — é uma Lei Cósmica. E ganhamos a copa, nós brasileiros de Romário…

Hoje, a Argentina não tem mais Maradona – este vinha desaparecendo como pessoa, somente restando o mito. Confesso que não tenho tanto receio assim dos argentinos. Mas algum medo ainda subsiste, uma espécie de fatalismo que carcome meu estômago toda vez que jogamos contra a Argentina. Quase uma década de Maradona deixa qualquer um complexado. Contudo, com a idade e assistindo à padronização da mediocridade futebolística em escala planetária, tornei-me um futebófilo, mutatis mutandis, uma espécie de enófilo (apreciador do vinho), degustando o futebol bem jogado e que apresente algum espetáculo. Isso significa que o antigo medo foi sublimado em admiração por um estilo de futebol que tenta, ao contrário do nosso, respeitar uma tradição. Maradona não é genial como técnico, muito pelo contrário, mas tenta, dignamente, manter o estilo tradicional da Argentina. Não causa surpresa que tenha convocado 6 atacantes e, no meio-campo, volantes que são armadores e meias habilidosos, como Jonás Gutiérrez (Newcastle, da Inglaterra), Ángel Di María (Benfica, de Portugal), Javier Pastore (Palermo, da Itália), Mario Bolatti (Fiorentina, da Itália) e Maxi Rodríguez (Liverpool, da Inglaterra).

E tem Messi, é claro.

Enquanto isso, Dunga convocou 7 volantes e 4 atacantes — sem Ganso, evidentemente. Dá uma tristeza no coração…

O Clarín, jornal de Buenos Aires, anunciou ao mundo: “la Selección recuperó su estilo”!

E eu não estou mais morrendo de medo por isso…

8 Comentários

  1. Arnildo Ananias de Oliveira
    1

    PERRUSI,

    Pra te ser sincero, hoje em dia, o meu paladar só fica com gosto de fel e a vida torna-se um vazio, quando o meu Santinha perde pra Coisa Maldita do Mangue do Inferno. Não sei tb ATÉ QUANDO isso irá perdurar pois, quem sabe, venha um dia a me alienar, de vez, do futebol.

    Sempre costumo dizer que não gosto de futebol. Gosto do SCFC.

    Não quero dizer com isto que não vá torcer pela Canarinha. Mas, até por culpa da situação atual do próprio SC, não sei nem quem são esses jogadores (apesar de ser, há muito tempo, assinante SKY):Jonás Gutiérrez (Newcastle, da Inglaterra), Ángel Di María (Benfica, de Portugal), Javier Pastore (Palermo, da Itália), Mario Bolatti (Fiorentina, da Itália) e Maxi Rodríguez (Liverpool, da Inglaterra). Sequer, ainda não entrei no “clima da Copa” que já está batendo aí à porta.

    Mas, NEM EU NEM O MEU SC SEMPRE FORAM ASSIM: comecei acompanhando a “Canarinha” na época do “endiabrado” Garrincha e do fenomenal e INIGUALÁVEL Pelé. Alias, diga-se de passagem que, com essa dupla em campo, NUNCA fomos derrotados (nem mesmo em amistosos).

    Acho o Maradona um jogador num patamar um pouco acima do Zico e, talvez, do Rivelino. Agora compará-lo ao Pelé é brincadeira!

    É o que concluo do que vi desde a Copa de 58 pra cá. Quanto a Zizinho, Ademir, o “Diamante Negro”, Puskas, Di Stefano e outros “monstros sagrados”, não os vi jogar.

    É o que penso.

    SAUDASANTA.

    PS-Sem querer ser chato e já sendo, e a reunião do C13 2ª f, NADA?

  2. samuel maceió
    2

    Caro perrussi, na copa de 90 a brasil meteu 4 bolas na trave, perdeu vários gols e em um contra ataque a genialidade de maradona definiu tudo!
    Mas aqueloe time era muito ruim e mal treinado por um arremedo de técnico (lazaroni)!
    O futebol mais bonito que eu já vi jogar foi o da seleção brasileira de 82, um meio de campo com cerezzo , falcão, zico e sócrates era de uma arte sem igual, infelizmente careca se machucou e telê teimou em levar serginho chulapa, e deu no que deu. Além de confiar cegamente em waldir peres quando paulo sérgio pegava até pensamento.
    o título de 94 valeu mais pela longa espera de quê pelo futebolZINHO mequetrefe e extremamente truncado!
    já em 2002 vimos rivaldo ser preterido como melhor jogador da copa, por um goleiro soberbo e que levou um frango na final! Também vimos ronaldo fenômeno jogar sua melhor copa!

  3. Copa do mundo, Seleção Brasileira.. é bom e tal… mas o que me emociona mesmo é o Santa Cruz, não tem jeito!

  4. EU SEMPRE DIFERENCIO O MOMENTO DA COPA DO MUNDO E A CANARINHA, DO SEMPRE PRESENTE SANTA CRUZ.

    COPA É DE QUAtRO EM QUATRO ANOS. SANTA CRUZ É TODO DIA, FEITO MÃE, ALMOÇO E PROBLEMA DE CASAL.

    Agora, quanto aos ídolos, gosto muito de validá-los pela personalidade: pra mim, temos o Garrincha, o Rivelino, o Zico, o Sócrates, o Bebeto, símbolos da dignidade de homens e atletas de respeito.

    Bandidos como o Maradona (que se sagrou numa campanha em que fez gol com a mão e tiveram que comprar um time pra chegar lá)e Romário (cafajeste, mal caráter, que não merece o respeito dos brasileiros) não merecem ter tanta referência no futebol mundial.

    Não esqueço o Pelé, mas ele é tão comercial, que me dói.

    Muitos jogadores dignos, como o Raí, o Rivaldo, o Lúcio, o Kaká (garoto digno, craque e humilde, apesar das origens bem abastadas), o menino-moleque Cafú e o grosso, mas digno JOGADOR Dunga, também devem ser lembrados.

    Mas não me venham com Maradona e Romário. São a vergonha do futebol.

    Quanto à Argetina….bem: Brasil X Argentina é como um clássico Santa Cruz X “Do Recife”; sempre me dá uma ansiedade danada, mas eu sei que os adversários estão com mais medo do que nós.

    E quando o resultado é a nossa vitória, é feito bom orgasmo feminino.

    Dizem os sexólogos que uma mulher quando tem um bom orgasmo, fica cerca de seis dias em estado de graça.

    É como eu me sinto, na vitória do Santinha contra o “do Recife” e do Brasil contra a Argentina.

  5. Geraldo Mesquita
    5

    A copa de 86 foi a última que torci e me emocionei com a seleção brasileira. Aquele jogo contra a França, realmente um dos melhores de todas as copas, me deixou sem fôlego. Depois daí perdi o encanto pela seleção do Brasil. Torço mas não consigo mais ter a emoção de outrora. O que gosto mesmo é da copa, da festa, dos jogos, dos gols e das surpresas que invariavelmente vêem das seleções africanas.

    Só pra relembrar, eis alguns dos mais belos gols das copas. Podemos não concordar com a classificação, mas realmente foram de bater palmas:

  6. Bem até o momento aserie B está muito boa com a Coisa tomando no lugar certo . Bahia 2 x 0 leoa . para ficar ótima as bonecas tem que sair dos 4 melhoares e se fuder com a coisa entre os 4 rebaixados.

  7. A copa que me interessa é a que o Santa jogará – a Copa do Nordeste.

    Da outra eu verei muito pouco, por causa dos horários e por estar sem assinatura de televisão desde o dia 18 de março. E não pretendo fazer nenhuma.

    Maradona e Romário jogavam muito e isso está fora de discussão. É fato.

    Quanto ao outro lado de suas vidas, de perto ninguém é normal. Jogador de futebol então…..

    Dunga é capacho, puxa-saco, ressentido, recalcado e grosseiro. Merece voltar com uma vuvuzela atolada na saída de serviço.

  8. Também já vibrei mais com a Copa do Mundo. Hoje, não tenho mais tanto romantismo. Na de 2002, só comecei a assistir no jogo Brasil X Inglaterra (depois do jogo contra a Argentina, é o que eu mais gosto), e disse, sem muita originalidade: o vencedor daí será o campeão.

    Como vencemos a Inglaterra, achei que mereceríamos o troféu. E torci e vibrei muito na final.

    Agora, independente dos jogos, é gostoso e até nostálgico, ver a mobilização nacional em dias de Copa do Mundo.

    Há quem ache isso piegas, alienação, mas a energia que se tem numa copa do mundo ou num estádio de futebol lotado são imperdíveis, e têm um sabor especial.

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