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A perda do Carisma

Autor: Artur Perrusi | 13 de julho de 2007 | 19:27h | Artigos | 11 comentários

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Artur Perrusi

A seleção brasileira está jogando a Copa América. Olhei alguns jogos como se assistisse ao Faustão, em suma, sem nenhum tesão. Olhava as partidas de uma forma impessoal, sem açucar e sem afeto.  Por que isso? O que aconteceu? Tenho algumas considerações e várias hipóteses.

Bem, um dos maiores sintomas da sempiterna crise que passa o nosso futebol é a perda do prestígio da canarinha. Não falo apenas do seu prestígio futebolístico, isto é, do fato de a seleção não assustar mais nenhum adversário – isso é normal e pode acontecer, fazendo parte da vida no futebol; na verdade, refiro-me a uma situação bem pior: a perda do prestígio da canarinha entre os torcedores.

Toda aquela liturgia em torno de nossa seleção parece que está perdendo a razão de ser. Algo se quebrou, algo está se quebrando. E tenho a nítida impressão de que isso, a perda de carisma da canarinha, é um fato muito mais grave do que o de nossa seleção estar jogando, atualmente, um futebol pra lá de medíocre.

Por que diabos está acontecendo essa falta de interesse do torcedor? O que significa essa perda de carisma? Será que é duradoura?

Falarei por mim. Acredito que meu apego à seleção, entre outros motivos, é baseado no seu carisma. A história espetacular das derrotas e vitórias da canarinha tem uma qualidade extraordinária e indefinível que lhe conferiu algo de misterioso e de mágico. Tal aura, reconhecida no mundo todo, legitima a devoção que o torcedor tem pela seleção e a crença de que seus jogadores possuem qualidades esportivas acima dos meros mortais de chuteira.

A canarinha possui um poder de atração que não tem uma base racional. Torço pela seleção por paixão e não por causa de um raciocínio baseado na seguinte premissa: "torço, porque é a melhor seleção". Não me importa o conteúdo concreto de suas realizações, tipo quantas vitórias, quantas derrotas, mas sim a maneira pela qual joga a seleção. Torço por causa de seu estilo, formatado durante suas conquistas e tragédias – um caráter construído no tempo de sua história.

Acredito que a seleção sempre teve uma missão civilizadora no mundo: mostrar aos ingleses, italianos e alemães, os franceses, os espanhóis, os africanos e os asiáticos que o fundamental no futebol não é a disciplina tática, a força, a correria, o resultado, e sim a beleza – a estética de um estilo que transformou o futebol numa… arte. Sem essa mensagem, o futebol brasileiro é igual a todos os outros!

O torcedor brasileiro, como um fiel, segue e acredita nesse estilo. Seria sua crença. É o estilo que legitima, aos olhos do torcedor, a seleção. Parodiando Lutero, a canarinha "não pode nem pensar, nem fazer e nem jogar diferente"! É o nosso dogma fundador. Totem e Tabu.

Assim, o defensor do futebol de resultado não atina que está ferindo mortalmente o que tem de mais precioso na canarinha: a sua maneira de jogar. Ele está conspurcando uma tradição e insultando toda uma "comunidade emocional" de torcedores – fiéis seguidores da missão carismática da seleção. Ele está entrando numa missa e soltando um peido.

Prefiro mil vez os grandes prazeres de 82 do que os pequenos de 94. Mil vezes o sofrimento de Sarriá do que o desgosto dos pênaltis. Tenho saudade daquela tragédia espanhola e tenho prazer em rememorá-la (juro que não sou masoquista!). Ali, fiquei deprimido e completamente… sóbrio (corria na veia vodka… depois daquele último escanteio e da defesa de Dino Zoff, nunca estive mais tão lúcido na minha vida). Em 98, apenas senti raiva; em 2006, indiferença… Prefiro uma tragédia a uma pantomima. Por isso, gostaria de voltar ao tempo e estar no Maracanã em 50, pois tal tragédia faz parte da construção de nosso estilo.

Atualmente, olho em volta e só vejo desilusão. Virei um saudosista. A perda do carisma da canarinha está se transformando num fato consumado. Não foi a década de 90, essa década do futebol de resultado; não foi a campanha patética de 2006; não foi a ideologia parreirista, na qual o gol é um mero detalhe e a bola é seqüestrada pela Tática e pelos… técnicos de futebol. Foi a vitória de um estilo que, infelizmente, e daí a gravidade, faz parte, atualmente, da mentalidade de nossos jogadores. Não foi apenas a vitória de um estilo, mas também da expansão do coadjuvante do futebol de resultado: o mercantilismo esportivo. Começou com a venda da CBF e, conseqüentemente, da seleção brasileira à Nike. Continua com o êxodo de nossos craques ao estrangeiro; perpetua-se com o falso milagre dos patrocinadores; finca a bandeira com o mercenarismo de nossos jogadores.

Foi e é tudo isso, e mais alguma coisa. Espero que não seja para sempre. Se for, tenho pena dos rapazes da geração Coca-Cola, pois tomaram consciência da vida, isto é, do futebol, apenas na década de 90. O jeito é assistir a alguns raros teipes ou perguntar aos mais velhos sobre os velhos tempos. Nós contaremos…

Eu compreendo, agora, a Rede Globo. Ela tem razão. Sempre tem razão. Ela é especializada em construir e perceber as falências de nosso país. A seleção brasileira, atualmente, vale menos do que uma… novela.

blogdosperrusi

11 comentários

  1. ducaldo
    13/07/2007 | 21:59h
    1

    Eu também perdi o tesão de assistir jogos da seleção canalhinha.

    Ela virou uma companhia circense patrocinada pela Nike que, juntamente com aqueles que pagam mais pelo show mambembe, determina datas e locais de exibição.

    Se não estou enganado, todos os amistosos da segunda era dunga se relizaram fora do país. O torcedor, que já não vê seus melhores jogadores jogando pelos seus clubes de coração, agora também não os vê atuando pelo escrete canarinho no Brasil.

    Cá entre nós, mesmo com os melhores em campo não tem a menor graça. Salvo raras exceções, são estrelas enfastiadas que parecem estar fazendo o favor de de exibir suas preciosas canelas a um bando de idiotas do lado de cá do atlântico.

    Torcida e seleção não mais se identificam. São entidades estranhas uma à outra e, praticamente, têm como único vínculo apenas a nacionalidade. O pessoal mais jovem não torce pela seleção da maneira a que estamos acostumados. Admiram menos o futebol do que o sucesso pessoal, a imagem e os milhões de Kaká, Robinho, R. Gaúcho & Cia.

    Somando-se a isso tudo a arrogância, os recalques e as limitações do anão perdido da Branca de Neve, o espetáculo fica intragável. Não é que ele, mais uma vez, destilou o seu ódio invejoso do time que todos os brasileiros adoram (o de 82, é claro)? Se ele é um vencedor, ganhou copa do mundo & tal, por que insiste em bater naquele “bando de perdedores”? Assunto pra você, Artur.

    Pela primeira vez em minha vida vou torcer contra a seleção, ainda que não me sinta bem com isso. Uma derrota para os nossos maiores rivais pode significar, assim espero, o fim precoce da segunda era Dunga.

    Responder
  2. Torcedor Coral
    13/07/2007 | 22:08h
    2

    Fiquei numa dúvida terrível: quem foi mais certeiro, Perrusi ou Ducaldo? Acho que houve um empate técnico.

    Quanto ao texto, digo o seguinte: ainda bem que mudamos um pouco de assunto. Nos últimos meses, está tão insuportável falar do Santa que é melhor falar de outra coisa. Ainda que esta coisa seja a seleção insuportável de Dunga, que mais parece, em algumas entrevistas o anão Zangado.

    No mais, só discordo uma coisa de Ducaldo. Não torço contra. Do jeito que está, nem torço. Reflexo da perda do carisma.

    Saudações corais,

    Dimas Lins

    Responder
  3. milton pereira
    14/07/2007 | 0:15h
    3

    A Diretoria do Santa não deve esquecer de fazer os consertos que prometeu ao Ministerio Público. Pois se vacilar, é o que nossos adversários esperam para para nos prejudicar mais ainda! CUIDADO!

    Responder
  4. Valter Azevedo
    14/07/2007 | 10:36h
    4

    Vou torcer pra Argentina meter uns quatro.

    Parece que Mauro Fernandes vem aí. Pelo menos é treinador.

    Saudações Corais

    Responder
  5. Torcedor Coral
    14/07/2007 | 11:57h
    5

    O nosso membro da nobreza britânica e repórter nas horas vagas, Lord Léo, nos informou em primeira mão, direto das Repúblicas Independentes do Arruda, que Mauro Fernandes é o novo técnico do Santa Cruz. Notícia esta prontamente divulgada no quadro Últimas Notícias, na barra lateral do blog.

    Muniz ficará à frente da equipe diante do Gama, enquanto o novo técnico assiste ao jogo da arquibancada.

    Saudações corais,

    Dimas Lins

    Responder
  6. Chaves
    14/07/2007 | 12:48h
    6

    É hoje que sai a primeira vitória da selesanta fora de casa!!! Portanto, vamo simbora todo mundo pro TELÃO CORAL!!!

    TELÃO CORAL, 14/07, 16:00hs, gama X SANTA CRUZ, SEDE SOCIAL DO CLUBE

    Responder
  7. Geraldo
    14/07/2007 | 12:56h
    7

    Lembro do tempo em que ficava esperando a convocação da seleção, torcendo para ver pelo menos um do meu time ser chamado. Nunes, Givanildo dentre outros, conseguiram brilhar com a camisa canarinho e encher de orgulho a torcida tricolor. E assim era por todo o Brasil.
    Os convocados jogavam aqui, disputavam os campeonatos daqui, brilhavam aqui. Essa é também uma das razões da perda de identidade. Vemos convocação de jogador que nunca ouvimos falar. Na verdade, essa não é a seleção brasileira. É a seleção de um outro país qualquer, ou melhor, das multinacionais.
    Como reflexo, acontece comigo também. Assisto aos jogos por gostar de futebol. A seleção não me emociona mais.
    Emoção mesmo é com o Santa Cruz.

    Responder
  8. Marco - de Natal/RN
    14/07/2007 | 17:23h
    8

    Sinceramente espero que a Argentina ganhe essa Copa América. Eles formaram um grupo forte e praticaram o melhor futebol. Não é um catadão como o Brasil. E de mais a mais, um time com esse Doni no gol não merece nem ganhar campeonato de cuspe à distância.

    Responder
  9. Marco - de Natal/RN
    14/07/2007 | 18:25h
    9

    Olha só o que o Sr. Edson Nogueira disse agora na rádio jornal: “Os corneteiros de plantão tem que entender que é preciso manter a tranquilidade no Santa Cruz. Vamos para a primeira divisão”.

    Das duas uma: ou eu estou em outro mundo ou é ele quem está. Até quando vai continuar esse discurso, Santo Cristo?? O time está LASCADO!!! LASCADO³!

    Meu Deus do céu, vamos parar com esse papinho! Sejamos realistas! É lutar para não cair porra.

    Esse tipo de coisa só fortalece aqueles sebosos que saíram em dezembro. Realmente há que se constatar que parece não ter havido mudança significativa… :-\

    Sou sócio em dia, entristecido, irritado e desapontado.

    Responder
  10. Milton Santos Jr.
    14/07/2007 | 22:28h
    10

    Meu desapontamento com esse negócio, em sentido estrito, também, de seleção brasileira remonta a copa da França. Digo, com toda sinceridade, que vibrei com o Penta, apenas porque tinha Rivaldo e porque calou a boca dos “babões buenos” da vida. Lembro que no jogo contra Turquia assisiti ao gol de pênalti de Rivaldo no aeroporto de Guarulhos e pulei mais do que todo mundo. porque era Rivaldo, menino pobre de Paulista. e ainda porque sabia que ali corria nas veias o sangue tricolor coral do Arruda

    Responder
  11. Bosquimano
    15/07/2007 | 16:03h
    11

    Em nome do meu patriotismo, da defesa da maneira brasileira, torcerei pela argentina. e estamos conversados.

    Responder

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