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Home » Artigos » A competição desigual

A competição desigual

Autor: Artur Perrusi | 18 de novembro de 2009 | 0:05h | Artigos | 18 comentários

boxe_luta_desigual

Existe competição no futebol brasileiro?

Sem maiores delongas, responderei à la Caetano: sim, não, mas sim, mas não… nem isso! Fiquei pensando nesse assunto, vendo a festa do Vasco, quando de sua subida à primeira divisão. Olhava a festa dos paraibanos com a vitória do clube de Eurico Miranda, esse fundador da Máfia dos 13. Olhava e pensava sobre a ironia da traição futebolística, essa deslealdade no campo dos valores e do orgulho regional, tão ostentada pelos nossos vizinhos: torcer por clubes cujos torcedores da gema são do estado da federação, e que têm a mania de xingar os nordestinos de… paraíba. É curioso, né?…

Voltando ao clube da colina: não nego o mérito de seu desempenho — mas foi justo? Ou, colocando de uma forma diferente: a competição esportiva, na segunda divisão, é justa, isto é, as oportunidades são iguais, ou ainda, o ponto de partida, no campeonato, é o mesmo para todos os participantes? Claro que não. O Vasco, afinal, é da Máfia dos 13, o cartel que domina o futebol brasileiro. Inclusive, podemos ampliar a pergunta: a competição esportiva é justa no futebol brasileiro? Claro que não, afinal, existem, além do truste referido acima, a CBF, a Rede Globo, as federações esportivas, os tribunais desportivos, a corrupção de árbitros, e por aí vai.

Mas, mesmo sem tais sacanagens, como supor uma competição esportiva justa, num espaço futebolístico regrado completamente pelo poder econômico? E, sendo negativa a resposta, ou seja, a competição não é justa, pode-se perguntar se há alguma competição no futebol brasileiro. Eu respondo que sim: há competição no nosso futebol. É uma muito bem conhecida por todo brasileiro, principalmente daqueles provenientes dos setores populares de nosso país. É uma competição baseada na desigualdade, no jeitinho e na manutenção do status quo. É um tipo de disputa alicerçada na chamada “ilusão meritocrática”: pensa-se que todos são iguais, que todos têm a mesma oportunidade, mas se descobre que, atrás do discurso igualitário, do discurso baseado no mérito, esconde-se uma abissal desigualdade. O futebol brasileiro, mutatis mutandis, parece o vestibular: quem é negro e pobre entra na competição de uma forma completamente desigual.

Pois bem, como existir uma competição justa num país campeão da desigualdade social? Ora, o futebol não é um espaço neutro e à parte da realidade social brasileira; na verdade, ele reproduz muito das mazelas da nossa histórica desigualdade. O que estou defendendo, assim, é que o futebol brasileiro reproduz o típico jeito de competir à la brasileira: está lá embaixo da hierarquia, pois fique no fim da fila! Vemos vários exemplos dessa situação. Querem um? É só pensar na dificuldade que foi em eliminar a virada de mesa, essa personificação do nosso jeitinho no futebol. A virada de mesa era um aviso bem claro: a competição tem limites: não se pode destronar a hierarquia existente entre grandes e pequenos clubes. Era uma forma de mostrar a ojeriza pela competição justa e idônea. Era uma forma de dizer que alguns são mais iguais do que outros.

A virada de mesa acabou — pelo menos, por enquanto.

Tal fato significou uma democratização da competição?

Nem tanto.

A virada de mesa foi substituída pelo que chamo de “falso rebaixamento”. O poder que a impunha foi substituído por um poder bem maior: o poder econômico. Antigamente, havia virada, mas existia uma tradição no futebol brasileiro. Mesmo existindo uma hierarquia, havia um respeito pelos diversos clubes grandes de todo o Brasil. O poder econômico (ou a forma como vem se estruturando o mercado capitalista no futebol brasileiro, para ser mais claro) vem eliminando não só a tradição, mas, consequentemente, todos os clubes grandes que estavam inscritos de forma subalterna na hierarquia do futebol nacional. Tudo que era sólido tomou na jaca! Com esse pega-pra-capar econômico na competição esportiva, estamos assistindo à extinção acelerada do futebol nordestino. Não temos mais tradição, apenas passado. Nossa memória é um mero consolo  para a nossa esperança. Inclusive, estamos num ponto que ninguém irá lamentar nossa extinção, dado o surgimento maciço dos chamados torcedores de televisão, fanáticos pelos clubes do sudeste. Não só isso: serão lamentos ignorados pela grande mídia, completamente “nacionalizada”. A Rede Globo é um exemplo – é um exemplo de uma “integração nacional” que reproduz a desigualdade regional, através de um discurso midiático que oculta, justamente, o que a faz todo-poderosa: a desigualdade no mercado da mídia. Tal situação é visível na mídia esportiva: jornalismo “local” é a narrativa do cotidiano dos clubes do sudeste.

Não causa surpresa, assim, que os “clubes grandes” tenham transformado a série B num spa, num descanso, numa temporada para regenerar as forças. Menos surpresa, ainda, é perceber o desespero dos clubes subalternos e subservientes da Máfia dos 13, tipo a Coisa e o Bahia, que se iludem pensando que resolverão seus problemas esportivos adotando condutas “mafiosas”. Ledo engano. Patético. A hierarquia do futebol brasileiro está pouco se lixando do destino de seus vassalos. Os “clubes grandes” seguem uma regra bem conhecida na história brasileira: os inferiores podem ser substituídos a qualquer momento – sempre! O “exército de reserva” de nosso futebol é inesgotável.

Por isso, acho uma pena que um político como FBC seja tão despolitizado em relação ao futebol nacional. Não mexe um pauzinho para combater a desigualdade no nosso futebol; nem localmente, sendo extremamente passivo diante dos desmandos da FPF, muito menos, nacionalmente. O que custa, politicamente falando, fazer articulações políticas e esportivas com os clubes nordestinos e do norte, principalmente com os moribundos? Sim, o que custa? Por que não fazer o óbvio e o mais fácil?

Se queremos sobreviver, precisamos urgentemente da união dos ex-clubes grandes em atividade. Precisamos acabar com os desmandos locais. Precisamos enfrentar as sacanagens nacionais. Precisamos de uma Liga Nordestina — de um nordestão! Tal necessidade não é de ver para crer, tá na cara!

Pessoalmente, acho essa tarefa urgente, urgentíssima! Chegamos ao fundo do poço. Perdemos anéis, dedos, corpo, dignidade, alma, o escambau. Estamos entre a vida e a extinção. Simples assim.

Em suma, podemos parodiar um vellho manifesto:

Clubes de todo o norte-nordeste, uni-vos! Não temos nada a perder, a não ser os nossos grilhões!

DimasLins

18 comentários

  1. Francis Costa
    18/11/2009 | 9:42h
    1

    Lá vou eu ficar deprimido novamente..!!! Perrusi, pô..!!!
    Tava conseguindo me alienar novamente, tudo certinho…!!!…
    Bom, mas vamos lá, se realmente alguem conseguir levar com seriedade a frente um projeto envolvendo os excluidos do senário futebolistico mafioso dos 13 + rede globo + bandeirantes, acho que uma rede record, poderia ser uma parceira…pois acredito que o ibope de um campeonato nordestino + norte + excluidos seria fantastico..etc..e.tc..etc….

    ´Saudações tricolores do arruda…!

    Responder
  2. Artur
    18/11/2009 | 9:58h
    2

    Francis, um tricolor nunca desiste. Fica deprimido, mas toma logo uma cerveja. O problema é que a situação está tão braba que todo tricolor tem um pouco de álcool no coração.

    Confesso que a cerveja está saindo pelas minhas orelhas.

    Responder
  3. Claudemir Pereira
    18/11/2009 | 10:39h
    3

    Caro Artur,

    Ainda ontem, ao fim da falsa reunião do conselho deliberativo, me pus a pensar num norte e nordeste, mas me perguntei. Quem terá a coragem de abrir mão da competição nacional (viciada) por um N/NE? Que apoio político terá uma ação dessas? Como viabilizá-la financeiramente? Respondi eu mesmo essas perguntas. Só quando os presidentes da maioria dos clubes enxergarem, sem miopia, o andar do projeto do clube dos 13. Então, faz-se imperioso que uma nova geração de dirigentes, sem vícios, assuma os clubes. Lamentavelmente, FBC, apesar de nunca antes ter participado, não tem o menor perfil de quem queira romper com o atual modelo.

    Saudações Corais

    Responder
  4. Francis Costa
    18/11/2009 | 10:40h
    4

    cenário…..!!!..kkkkk

    Pois é arthur…tem que ser na cerveja…e na esperteza tricolor, pois, neste fundo do poço ainda temos força pra zonar com os coisa e as barbies…!!

    Grande abraço,
    Fui.

    Responder
  5. Dimas Lins
    18/11/2009 | 11:25h
    5

    É. Temos nossa culpa, mas também há a culpa dos outros. Todos os clubes do Brasil tem seus maus gestores, mas a TV banca a esculhambação. Nós, não. Não temos esse direito. Não bastasse os maus gestores ainda temos que extrair leite de pedra. E quando extraimos o leite é para outro mamar.

    Saudações corais,

    Dimas Lins

    Responder
  6. josias geó de paula jr
    18/11/2009 | 12:35h
    6

    Fora do assunto, apenas para estourar a bomba: nosso novo treinador é Lori Sandri.
    Seremos campeões pernambucanos – e isso é importante. No mais, é ano que vem jogar a série C junto a coisa e barbies…

    Responder
  7. insatisfeito
    18/11/2009 | 13:36h
    7

    se a bomba for essa, é um bom treinador, experiente, penso que no nível de Givanildo, um patamar abaixo de Geninho. E um grande professor para Dado Cavalcanti. Temos chances sim de título pernambucano com ele. Carpegiani é superior, mas os petrodólares o chamaram e qualquer um daqui não seria doido de não ir com uma proposta daquelas dos camelos…
    Saudações Santacruzenses.
    No pavilhão da Bienal estava a Arena Coral.
    Devemos fazer como o Palmeiras que está construindo sua Arena independente de Copa do Mundo!

    Responder
  8. Ed Morte
    18/11/2009 | 18:58h
    8

    Lori Sandy & Junior, tem o mesmo defeito de Ciro Bambi, e Clodovil. Mija acocorado.
    Tinha três nomes na mesa apresentados pelo Lef e o seu super amigo Raimirinda Nevesjatobá. Eram Lori Sandy, Evair e Zé Teodoro.
    O Voto de minerva e decisivo foi o de Sideney Magal, motivo: Era o mais barato.
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    Fica Dado Dollabella.

    Responder
  9. insatisfeito
    19/11/2009 | 10:00h
    9

    Interessante que o jcoisa tá dando em primeira página a arena do Nauticu

    Responder
  10. J. Antonio
    19/11/2009 | 10:28h
    10

    Insatisfeito, também vi essa noticia não estou entendendo mais nada por acaso não era o nautico que ia administrar o elefante.
    O govenador não estava sabendo disso? e agora gastar uma fortuna para apenas 6 jogos, e depois da copa quem vai jogar no elefante.

    Responder
  11. Washington L. Vaz
    19/11/2009 | 10:30h
    11

    Saiu o novo técnico tricolor… Lori Sandri. O camarada estava no Maritmo de Portugal, deixando o clube portugues na quinta colocação no campeonato nacional. Se o campeonato portugues terminasse hoje o Maritimo estaria classificado para a Liga da UEFA.

    Acessem:
    http://blogdomequinha.blogspot.com
    O Blog do América do Recife.
    Postei a maior virada do futebol brasileiro, realizada pelo Santra Cruz contra o América.

    Abraço e força Santa… teu lugar é na Primeira!

    Responder
  12. insatisfeito
    19/11/2009 | 11:56h
    12

    Adivinha pra quem fica a administração do Elefante? Cajá cajá cajá caju, a turma do ixporti….

    Responder
  13. Carlos Sampaio
    19/11/2009 | 15:15h
    13

    O campeonato do Nordeste seria a redenção para os nossos clubes, será que é tão difícil enxergar isso?
    Seríamos campeões de público, mesmo comparando com o campeonato da quadrilha dos 13, o problema é justamente esse: seria um sucesso e o status quo seria detonado, mas é precisamente isso que os cães não querem.

    Brilhante artigo Perrusi, apesar da obviedade e notoriedade das soluções propostas.

    Responder
  14. Artur
    19/11/2009 | 18:37h
    14

    É isso mesmo Carlos, a solução é óbvia. Quando o óbvio vira uma impossibilidade, algo de pobre existe no reino da Dinamarca. Fazer uma revolução no Santinha é o cúmulo da obviedade. Nossos dirigentes detestam o óbvio, o truísmo, a banalidade, o prosaico, o simples, o evidente…

    Responder
  15. Milton Santos Jr.
    19/11/2009 | 18:56h
    15

    Realmente inexplicável a não efetivação do Nordestão no calendário. enquanto isso o SPORTV transmite os jogos do América na segunda divisão do RJ. e o São Caetano tem patrocínio de R$800mil/mês da Cônsul. qual será o retorno comercial disso?

    Responder
  16. Café
    20/11/2009 | 20:03h
    16

    O texto só não é completamente perfeito por conta do desnecessário tema do primeiro parágrafo, a velha ladainha do “torcer pra time de fora em vez de valorizar o que é seu”. No mais, perfeito.

    A questão, hoje, é econômica. Igualdade nunca vai haver, mas a atual disparidade financeira é absurda. Em vez de reclamar de juíz ladrão nos microfones das rádios, os mandatários dos clubes e federações nordestinos deveriam sim se unir, tentar reverter esse quadro.

    No mínimo exigindo uma revisão na divisão das cotas de TV e no máximo propondo um campeonato “nacional” do Nordeste. Fico imaginando, uma vaga na pré-Libertadores para um possível campeão de Nordestão seria mais que qualquer clube nordestino alcançou nos últimos 15 anos ou alcançará nos próximos 15.

    Porém, infelizmente, com o material humano que temos à frente da organização do nosso futebol, fica impossível pensar em algo do tipo. Imagina o Bode Rouco tratando de tais assuntos, com toda a sua lucidez? Lastimável.

    Responder
  17. Hélio Mattos
    22/11/2009 | 23:28h
    17

    Parabéns Artur, pelo vigoroso e bem acabado texto/desabafo.

    É de lascar mesmo toda esta pantomima midiática que se diz justa e, no fundo (no raso tbém), é só e somente só uma grande lavagem cerebral em defesa de seus interesses.

    A grande máquina sugadora de mentes, o jogo sujo das pequenas trapaças que, no todo acabam por decidir tudo e, finalmente, o discurso hipócrito legalista. Pois é, temos que fazer um sistema forte, só para continuar com a bandalheira…

    Tem umas horas que isso cansa demais.

    Responder
  18. Felipe Pontes
    26/11/2009 | 10:26h
    18

    Sem duvida um dos melhores textos esportivios que já li. Parabéns! Mas é bem certo que do jeito que a coisa anda, amigo, nada vai mudar. Acompanhar campeonato GLOBO brasileiro é dificil hoje em dia, o que eles querem é ganhar dinheiro cada vez mais, vendem flamengo e corinthias aqui pro NE e somos obrigados a assitir isso. Com a violencia nos estadios fica dificil lervamos nossos filhos pro grande jogos no mundão, então eles ficam em casa assistindo a rede BOBO e o que acontece? Começam a torcer pelos “imbativeis” times do sul/sudeste. Acho que a ideia do NORDESTÃO é otima, mas pouco provavel, pois não venderia tanto quanto times do sul. É uma pena que estamos perdendo nossa identidade. Mais uma vez, parabéns pelo texto.

    “COM O SANTA, ONDE O SANTA ESTIVER! O MEU AMOR POR TI NÃO TEM DIVISÃO E SIM MUTIPLICAÇÃO”

    Responder

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