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Artur Perrusi (Publicado originalmente no Blog dos Perrusi)
Faço apologia do drible da foca de Kerlon. A atitude de Coelho é a imagem da degradação moral do jogador de futebol. A sua agressão não foi espontânea, fruto de um gesto impensado no calor do jogo; não, é produto de um concepção de futebol, de uma visão de esportividade. Coelho e quejandos (leiam as afirmações semelhantes de Luiz Alberto, do Fluminense — aqui) preferem mais uma cusparada, uma cotovelada, uma porrada do que um drible humilhante ou uma jogada de efeito. No discurso e na prática, defendem, com ênfase, um tipo de honra. Qual? Uma baseada na violência.
Especulo que, se não houvesse um árbitro numa partida, o jogo transformar-se-ia numa carnificina. Os jogadores dependem totalmente de um controle externo para manter a esportividade. Não acho isso óbvio. Caso seja, de fato, atrás da obviedade existe uma tragédia. Não há controle interno ou interiorização de uma deontologia do jogo na alma da maioria de nossos jogadores. O futebol brasileiro precisa de um processo civilizador.
A ética de Coelho e quejandos assemelha-se, na forma, à honra militar, com seu éthos guerreiro, incompatível até mesmo com o mínimo deboche. Ora, a honra militar é resultado de circunstâncias bastante específicas. Sua "situação" não implica jogo ou comportamento lúdico, muito pelo contrário! E é lógico que seja assim! O deslocamento da honra militar para outras esferas da vida não ocorre sem que não se pague um preço muito alto, inclusive a sua própria degradação enquanto código moral. A honra militar tenta controlar a violência explícita da função das armas; deslocada do ambiente da guerra e da caserna, a violência torna-se incontrolável e, também, o principal fundamento da ética.
Vide os códigos "militares" das torcidas organizadas. É um ambiente no qual o lúdico mistura-se à violência de maneira que a brincadeira subordina-se a atitudes coercitivas. E os interditos são claros: brincar? Apenas com os pares, pois só existem inimigos do outro lado. Meu amigo Gil sempre defendeu que o bom do futebol é a gozação com o amigo do time adversário. Atualmente, não há mais amigos, e sim inimigos — chega a ser intolerável, nessa situação, o uso de símbolos do outro clube: usar a camisa do inimigo é uma provocação, passível inclusive de morte.
Faço uma homologia entre o discurso de Coelho e quejandos sobre a deontologia do jogo de futebol e o discurso das torcidas organizadas sobre a ética de torcer. No mínimo, são parecidos num fato: têm uma incapacidade visceral em perceber a beleza – afora a falta completa de… humor!
Houve um tempo no qual se ia ao estádio apreciar os dribles (ah, Fumanchu; ah, Joãozinho!), entendidos como a epifania da beleza no futebol. Ficava-se de pé, diante do drible espetacular, e tome aplauso. Não causa surpresa que Garrincha fosse a "alegria do povo". Houve um tempo no qual tocava-se e cantava-se frevo e samba nas arquibancadas; hoje, são palavras de ordem sem graça e com muito palavrão.
Eu aplaudo de pé o drible de Kerlon.
Pobre do futebol que não concebe mais um drible diferente e provocativo.
Tempos difíceis. Momento de perigo, como dizia Benjamim. Cheiro de camisa parda.










Muito Bom, Artur. Concordo em quase tudo.
Gostaria somente ver o Kerlon apresentando seus dribles quando o time dele tivesse perdendo… Já para garrincha e outros craques os seus dribles eram inerentes a sua forma de jogar, seja o time perdendo ou ganhando. Quando se está ganhando, todo drible é bonito…
Um forte abraço a todos… Artur, Dimas, Ducaldo, Léo…
Grande Artur !!!
Não importa de da foca, do peixe, da lontra, do tatu, etc.
O que importa é que essas coisas é que nos fazem bater no peito e dizer que o Brasil ainda é e sempre será o país do Futebol. Um país pobre, corrupto, que perde seus craques antes de completarem 17 anos, que quase toda seleção Top do mundo possui um brasileiro naturalizado, porém, o País do Futebol.
Que dribles como esses possam desfilar cada vez mais em nossos gramados, principalmente no gramado do mais querido, do nosso Mundão do Arruda.
Temos no Arruda, um jogador com o mesmo perfil de Kerlon e que poderia fazer as mesmas jogadas, para abrilhantar as partidas. Trata-se de Crendence ! Rápido, habilidoso e atrevido, Credence poderia ser incentivado à tentar os tais dribles da foca. No seu caso, os dribles da girafa !
Mas grande Paulo, mesmo na vitória, um drible não merece ser parado na porrada… Veja, posso parar um drible na falta diante do perigo de gol. No caso de Kerlon, Coelho parou o drible por ideologia (hehe…).
Drible, pra mim, vale ganhando, perdendo ou empatando. Tá achando ruim, jogue bola. Ou então vá jogar futebol americano. Futebol é arte e criatividade.
Viva Kerlon!!! E viva Credence com o drible da girafa! KKKK
Paulo, eu já vi o Kerlon fazer essa jogada na seleção sub-17 (3 vezes), pelo cruzeiro (outras três vezes), e em nenhuma delas houve a intenção de debochar de ninguém. Essa jogada foi (é) exaustivamente treinada pelo cruzeirense e faz parte do seu repertório tanto quanto as pedaladas de Robinho fazem parte do dele.
Ele sempre pega a bola, coloca na cabeça e parte em direção à grande área. Não é uma firula.Porém, mesmo que ele ficasse com a redonda no cucuruto dando voltas no campo, não justificaria a atitude e os comentários dos cavalos que militam em nossos “sistemas defensivos”.
Não sou particularmente chagado a “firuleiros”, até por que meu padrão de jogador é Pelé que, embora eu desconfie, tivesse capacidade para fazer embaixadinhas até com a cabeça de baixo, não as fazia. Suas obsessões eram o gol e a vitória. Se fosse necessário driblava todo o time adversário. Se não, bastava um toque, um passe,e tudo se resolvia do mesmo jeito. Nunca vi nada gratuito em seu futebol, por isso foi o maior de todos.
Voltando à vaca fria…….
Segundo o código de guerra equídeo, utilizado por uma boa parte da torcida, técnicos e pelos próprios quadrúpedes de chuteiras, a habilidade, seja qual for o uso, é ofensiva e provocativa.
Driblar não pode, mas fazer faltas desleais e, muitas vezes acabar com a carreira dos colegas, é permitido. Eu não lembro de nenhuma confusão, pelo menos nos últimos tempos, causada por faltas violentas. Agora, elas é que são parte do jogo.
O dito “código” foi instituído a partir dos incidentes ocorridos naquele PalmeirasxCorinthians, no qual Edilson parou no meio do campo, junto à linha lateral e ficou fazendo embaixadinhas e colocando a bola nas costas, aí sim, com a clara intenção de provocar a equipe adversária.
Mesmo assim, achei desmedida a reação dos palmeirenses, que estavam preparando uma comemoração paralela, pois haviam eliminado o corinthians da libertadores, e queriam melar a festa corintiana pela conquista do Estadual.
Antes desse marco inicial, houve um palmeirasXCorinthians decidindo o Paulistão (ou o Brasileiro, não lembro direito), no qual, com o placar de 3×1 para o Palmeiras, Edmundo ficou chamando os jogadores adversários para serem driblados. Viola tomou-lhe a bola, fez falta, mas sem violência, virou as costas e o jogo prosseguiu. Não houve incidente nenhum.
A partir da repercussão dada ao lance de Edilson, que aconteceu bem depois, virou um inferno. Jabá, jogador do Coritiba, tomou cartão amarelo por ter driblado demais, o que o sr. Leonardo Gaciba entendeu como atitude anti-desportiva. Em entrevista depois do jogo, o atleta disse que apenas tentava segurar a bola no ataque.
Depois, em um Vasco e Flamengo, com o campo totalmente encharcado (eu assisti ao jogo inteiro), Pedrinho levantou a bola e conduziu-a na perna esquerda, na tentativa de evitar uma poça d’água. Sofreu falta violenta, o flamengo ficou com um a menos, e depois do jogo choveram ameaças de quebrar as suas pernas e encerrar precocemente sua carreira. O Técnico Abel, em uma atitude idiota, pediu desculpas ao time adversário, como se Pedrinho tivesse cometido um crime.
Robinho também teve suas pernas ameaçadas por causa das pedaladas e foi defendido por E. Leoa, seu técnico na época. O mesmo que agora comanda o Atlético edefendeu a atitude do Coelho botinudo.
A lista é imensa e vou mencionar apenas mais um incidente, bem mais interessante paa nós: No jogo do descabaçamento, Jairo não fez embaixadinhas, não botou a bola na cabeça, toquinhos de calcanhar ou qualquer outro malabarismo. Procurou segurar a bola no ataque, driblou quem apareceu para lhe tomar a bola (claro porra! o que ele deveria fazer? dar a bola de presente?), as leoas ficaram revoltadas e partiram pra cima, alegando desrespeito.
Desrespeito era o que eles, liderados por Carlinhos Traque, pretendiam fazer: fincar o papel higiênico burronegro no meio do nosso campo. Nesse caso, a polícia tomou as providências cabíveis.
Tem mais um detalhe. Se o jogador dribla pra lá e pra cá é deboche, mas se toca a bola e ela vai passando de pé-em-pé, também vira ofensa. É olé. A gente vai terminar assistindo futebol americano.
Em tempo, o futebol Europeu tem a reputação de ser violento, mas nunca soube de ninguém ameaçando quebrar as pernas ou “arregaçar” Robinho, Ronaldinho Gaúcho, Alex, Messi, Maradona….
Para resumir, como se não fosse suficiente ter que aguentar o baixo nível do futebol brasileiro, temos que conviver com esse “código de gangues” que se apossou do nosso futebol.
Acabou, definitivamente, o humor no futebol. Não existem mais adversários, e sim inimigos a serem abatidos dentro e fora do campo. Nada de diversão, pois agora predominam as carrancas.
É por isso que, cada vez mais, meu interesse por futebol é como torcedor do Santinha. Cada vez menos me atrai assistir competições das quais meu time não participa. Ainda dou uma olhadinha nos campeonatos europeus,pois os melhores estão lá, mas sem muito entusiasmo.
No Brasil, este ano, só a série B.
Caraí! Errei nas medidas.
Perdão blogueiros.
E errei na palavra. É “carai”, tapado.
Depois do comentário de Ducaldo, nem tenho muito o que dizer pra completar o excelente artigo de Perrusi. Eu ia falar de Rosembrick, mas deixa pra lá…
Ducaldo, perdoe a intimidade, mas quero saber até quando você vai ficar com tua FRESCURA – manda texto pro Torcedor Coral e pro Blog do Santinha, carai!
Comentar o que?
Parabens ao Artur e ao Ducaldo,excelentes explanações em defesa do
futebol arte. Voltando a série B, por enquanto meu chutometro está
calibrado, estamos em 11º lugar como prognostiquei na terça- feira(
errei o resultado do Gama, achava que empataria). No próximo saba
do estarei em Itu para ver a 1ª vitória coral fora do arruda. Até lá da
rei mais um chute sobre que posição ficaremos na tabela.
Saudações Corais.
Anízio, mago da informática e da cibernética, o plano é o seguinte: sequestramos Ducaldo e o colocamos junto do mastro, quero dizer, da obsessão fálica da coisa: _ou você escreve ou a gente te amarra aqui!
Quero ver se o cabra não escreve!
Eu gostaria de ver ele fazendo isso com o cruzeiro perdendo. Fazer isso faltando 2 minutosa para acabar o jogo e o time dele ganhando é facil…… Discordo da atitude dele. quem tem personalidade nçao espera o fim do jogo pra demonstrar talento. Abraçlos a todos que fazem esse blog….
Eu já o vi usar esse drible em mais de um jogo e muito antes do fim, e em pelo menos dois deles, pela seleção sub-17, as partidas estavam empatadas e disputadíssimas.
Contra a Colômbia havia um cavalo de plantão, que fez uma falta desleal e foi expulso. Contra o Uruguai o garoto partiu pelo meio e estava passando entre três adversários, próximo à grande área, mas sofreu obstrução, sem violência alguma e sem nenhuma confusão. Aliás, ele foi o melhor jogador e artilheiro do campeonato sul-americano.
Talento ele tem demonstrado sempre, o bode é o tal drible, que apenas ele consegue fazer,para inveja e desespero dos adversários. Se é no começo, o meio ou no fim da partida, que diferença faz? É um direito que ele tem e um prazer, pelo menos para mim, que gosto de ver habilidade em campo.
O que eu não gosto é de assistir a perna-de-pau batendo na bola de canela e de bico nas canelas de quem sabe jogar. O que está na berlinda é mais do que o ‘drible da foca’, é o fundamento, a natureza, a própria essência do futebol brasileiro,como nós e o mundo fomos acostumados a ver.
Eu discordo, e muito, é da violência generalizada dos defensores, contra Kerlon e os outros poucos jogadores talentosos que ainda atuam no Brasil. Violência esta, que é praticada no início, no meio, no fim, faltando um minuto, faltando 30 minutos,40, 50, ou qualquer que seja o tempo de jogo. Contra isso eu nunca vi ninguém protestando ou discordando da atitude.
Essa é parte que me preocupa. A tolerância com a violência dentro e fora dos gramados, a aceitação dela como coisa normal e integrante do nosso cotidiano, ao mesmo em que se repudia a arte de quem se dedicou desde criança a treinar exaustivamente para fazer algo único e que não faz mal nenhum.
Eu desconheço que uma jogada de habilidade, mesmo gratuita, que não é o caso do Kerlon, tenha causado algum mal, destroçado joelhos, tornozelos ou colunas, para que tanta gente fique revoltada contra sua execução nos gramados.
Deve ser o sinal do fim dos tempos, ao menos no futebol nacional, que fica cada vez mais distante daquilo que o fez ser louvado em prosa e verso pelo mundo afora, tirando espaço dos artistas e cedendo-o para pernas-de-pau recalcados.
Assino em baixo, Ducaldo!!!!!!
embaixo, quiz dizer.
quis dizer. Eita que eu tô um jumentinho…
A publicação deste artigo gerou uma discussão na redação do Torcedor Coral. Afinal, qual a relação entre Kerlon e seu drible da foca com o Santa Cruz? Respondo. A essência do futebol. E o Santa tem tudo a ver com a essência do futebol.
Não é de hoje que o Torcedor Coral publica artigos que aparentemente vão além das Repúblicas Independentes do Arruda. Às vezes, pensar no Santa significa pensar além dele.
A violência utilizada por Coelho para matar a jogada de Kerlon não merece defesa. Sob nenhum aspecto. Pouco importa se o time está vencendo ou perdendo. O drible, em qualquer circunstância, só afronta jogadores pernas-de-pau que não tem outro recurso para tomar a bola, a não ser a porrada. Sentir-se ofendido pelo drible é uma ofensa ao futebol. Se um jogador entende o drible como uma ofensa, está na profissão errada.
Vou assistir a uma partida de futebol em primeiro lugar, para ver meu time jogar e torcer para que ele ganhe. Em segundo lugar, para assistir a um espetáculo de beleza e técnica. E posso lhes garantir que a violência não tem nada a ver com isso.
Viva Kerlon e viva o futebol.
Saudações corais,
Dimas Lins
Que tal os Srs. arbitrários punirem com cartão vermelho as faltas dignas disso e não “amaciar” com o amarelo?
Quem está estragando o “espetáculo” é o idiota que fez a falta criminosa.
Três atitudes dessas seguidas e vamos ver se não vamos ter essa horda de criminosos de chuteiras mais calminha.
Saudações santacruzenses.
Tricolor até a cachorra de peruca é.
Ah, eu queria Kerlon era no meio-campo do Santa Cruz, o cara é um craque!