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Abobrinhas e mercado

Autor: Artur Perrusi | 15 de abril de 2009 | 0:47h | Artigos, Delírios | 13 comentários

cerveja

Tô sem assunto. É estranho isso. Telefonei até para a matraca atômica, ops!, nosso Editor-Mor, procurando uma novidade, como quem procura um prato de comida, e nada!, o cabra não atendia o chamado de um desesperado.  Pois é, sem assunto e solitário… O pior enredo imaginável. Ainda tentei conversar comigo mesmo, mas foi um desastre completo. Eu, simplesmente, não me aguento. Por isso, jamais me olho no espelho pela manhã, já que o espetáculo pode acabar com meu dia.

_O que fazer? Pergunta Lênin — ou será Géo? Não sei mais…

Bem, tentarei colher frutos verdes da aboboreira, tão apreciado na alimentação do homem. Sim, falarei abobrinhas para puxar assunto. Bora lá.

Um dia desse, estava num bar, e um colega de cerveja disse-me de forma enfática:

_o mercado salvará o futebol!
_Da Boa Vista? indaguei, meio ébrio e sem entender.
_Não, não, o mercado mercado.
_E a crise? eu disse, incrédulo.
_Que crise?! Olha meu Civic novo, ali.
_Aaah…

Vejam, é um colega de cerveja e, como tal, pode falar qualquer troço que surgir na sua mente, porque ela, a cerveja, é o passaporte para as abobrinhas e todo tipo de papo irrelevante. Sim, quando um copo segue o outro, a seriedade é um crime capital. Quem toma cerveja e fala de assunto importante merece o castigo dos castigos: não pisar num bar! Pelo menos, evite a minha mesa, por favor. Na verdade, o único tema sério que respeito numa mesa de bar é a dor de cotovelo — o nosso cotovelo, vale dizer, pois o alheio é, convenhamos, tudo menos um assunto importante.

Voltando ao meu colega de cerveja, reparem que a frase não foi dita no condicional, como uma hipótese a ser discutida ou como uma esperança a ser acalentada. Foi dita porque as coisas são como são, como cogumelos brotando em dias de chuva. Nada mais natural, portanto. Chove, e crescem os cogumelos. Se alguém os come, Woodstock !, fica-se vendo mercado por todos os lados.

Mas o mercado não é uma alucinação, dizem. Ele é tão visível quanto os outros fetiches desse  milênio: o Dinheiro, Dantas, Luana Piovani…  Mesmo com a crise,  continua a apologia do mercado,  inclusive no jornalismo esportivo. Talvez, por desespero; afinal, haveria tanta safadeza, tanta sacanagem no fut brasileiro, que o mercado poderia funcionar como um detergente, limpando a sujeira e indecência de nosso futebol; desespero que impede um mínimo de ceticismo em relação aos seus supostos poderes miraculosos. Parece que o mercado tem o peso de uma Lei, embora tenha a moralidade de uma coisa (C*?! Or, v tmr no c*, C*!).

Sim, o mercado pode ser a solução para o futebol brasileiro, mas vamos com calma, por favor. Os problemas do futebol não podem ser reduzidos a uma questão de mercado. Certo, precisa-se de dinheiro, mas não vamos vender a FPF, ops!, digo, a alma por causa disso. Penso que o ponto principal a ser resolvido seria menos um problema de finanças do que uma questão de poder: o poder dos Teixeiras, dos Bodes, do LEF e de um sistema nababesco que permite a dominação dos ditos-cujos.

Mas o mercado estaria acima de tudo; na verdade, poderia até resolver essa questão miúda de poder. Meu colega imagina o seguinte: o patrocínio de clubes por empresas privadas salvará o fut brasileiro. Os patrocinadores bateriam na mesa e diriam: “quero lucro, mas para isso quero competência”. Convenhamos, isso seria possível? O mercado tem esse toque de Midas, que a tudo que toca vira Bill Gates?

E o mercado negocia com quem? Com novos dirigentes? Ora, a Nike, por exemplo, quando assinou  o contrato com a CBF, não estava interessada em saber se o dirigente era velho ou novo, nem mesmo se era competente, muito menos se fulano tinha problemas com a alfândega. Ela queria era lucro. E pra se ter dinheiro, pode-se exigir competência, mas não há necessidade alguma de idoneidade moral. E se fulano não é competente, não tem problema: compra-se a “competência”. “Competência” é como banana numa república bananeira.

O mercado sopraria um vendaval de competências. Nossos velhos dirigentes seriam transformados pela “mão invisível” em neo-dirigentes competentes; ou, então, como acredita meu colega de cerveja: os grandes patrocinadores, aos poucos, tomarão o lugar da velha cartolagem. Será? O que estamos vendo seria, justamente, a aliança progressiva da velha cartolagem com os grandes patrocinadores; porque não existe nenhuma contradição antagônica entre os cartolas e os grandes patrocinadores; porque fazem parte da mesma rede de interesses, cruzam-se nos mesmos círculos empresariais e financeiros, têm os mesmos gostos, os mesmos sinais de distinção. Em suma, fazem parte, no futebol, do que antigamente era chamado de “classe dominante” (desculpem o palavrão, mas tive que apelar).

O argumento é precioso: os patrocinadores querem ter lucros, mas  precisam para isso de pessoas competentes; como os cartolas são incompetentes, os patrocinadores forçarão o surgimento de uma nova safra de cartolas, estes sim competentes. A velha cartolagem não passará pelo vestibular do mercado! O problema do futebol brasileiro seria uma questão de… burrice. Chamem o presidente da CBF de incompetente, e ele dará uma gaitada (dando uma piscadela discreta para o seu patrocinador) como resposta: “meu Deus, como são ingênuos!”

Competência virou uma palavra mágica, de mil e uma utilidades, como Bombril. Seria um termo completamente neutro, ligado à aplicação técnica das capacidades de julgamento de um indivíduo a um determinado contexto. Clean como Omo Total — a pureza da competência. Mas quando se faz a seguinte pergunta “quais são os interesses da dita competência?”, ela volta a se sujar novamente, e a gente escuta, ao longe, a gargalhada de deboche de Eurico Miranda.

No Brasil, propor alternativas ao mercado soaria dinossáurico, bem como qualquer proposta de regulá-lo socialmente seria vista como ingênua ou intervencionista. Prefere-se confundir mercado com darwinismo social (os fortes eliminando os fracos como lei natural). Com essa lei da selva, mercado e elitismo andarão, provavelmente, de mãos dadas no fut brasileiro. A corporação “Clube dos 13″ já é uma consequência: um mercado fechado que pretende eliminar todo clube que não faça parte de seus efetivos. Como ser competitivo, se o mercado é fechado?

_Ora, abra o mercado… — diz meu colega, depois de um belo de um arroto. Mas, de fato, existe mercado “aberto” ou seria apenas simulação de computador de economista da PUC? E qual competição precisa-se priorizar? A esportiva ou a econômica? _Ora, a esportiva… — escuto mais um arroto. Mas, priorizando a competição esportiva, não haveria a necessidade de controlar o mercado, justamente para evitar abusos de poder econômico?

Noto que estou esbravejando e já subindo na mesa. Aprendi a discutir assim com Géo.  Mas o poeta do Torcedor Coral tem uma vantagem: um olho esquisito que roda e hipnotiza o interlocutor.  Como não sou ciclope, grito meus cinco pontos no ouvido do colega, minhas cinco conclusões — peço calma aos leitores. Tais conclusões são resultado de muitas cervejas. Sugiro vocês tomarem uma carraspana para entendê-las; caso estejam com pressa, tomem absinto para acelerar o raciocínio:

1) O caos é a base da ordem (de poder) que governa o fut brasileiro. Portanto, quanto mais imoralidade, sacanagem, corrupção, palhaçada e incompetência, melhor para a manutenção do poder. O caos não vai acabar com o fut brasileiro; na verdade, ele vai manter as coisas como estão — aliás, como sempre foram. O caos não precisa de público para sobreviver — ele já não tem patrocinadores, inclusive as televisões? Pra que mais?

2) O mundo privado do fut faz parte do caos: dirigentes, federações e patrocinadores. O Estado brasileiro, aliado do mundo privado do fut, é o Caos-Mor. Não existe solução a médio prazo para o fut brasileiro. Jamais um cartola proclamar-se-á vilão. Parodiando um escritor de espionagem, eles dizem que amam a hipocrisia porque é o mais próximo que chegarão da virtude. Acho inverossímil um presidente de federação chegar na frente de uma câmera da Globo e anunciar retumbante — como deseja, no fundo, todo leitor de Nélson Rodrigues: _senhoras e senhores, eu sou um canalha!

Talvez um tribunal maoísta de camponeses revolucionários desse um jeito ou, então, um Comitê de Salvação Pública (do tipo da Revolução Francesa) guilhotinando os dirigentes — imagino William Bonner descrevendo a apoteose das cabeças dos cartolas e perguntando aos telespectadores: _degola ou não degola?

(…)

(Pausa, diante da delicada imagem evocada.
Os pequenos esquilos passeiam pela grama e era briluz.
As lesmolivas touvas roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
e os momirratos davam grilvos
)

(…)

3) Os clubes são a fração dominada do bloco de poder que domina o fut brasileiro. Eles não querem mudar a organização, mas sim ampliar o círculo mais íntimo do poder. Eles querem ser uma enorme CBF.

4) A tendência maior do fut brasileiro é o aprofundamento da sua elitização. Na prática, não existe rebaixamento  no futebol brasileiro — para um clube dos 13, a série B parece um spa. As divisões do fut brasileiro parecem mais castas indianas, nas quais a mobilidade esportiva é quase nula.

5) A decência no futebol brasileiro começa da boca do túnel em diante. Mas os jogadores são extremamente desorganizados e tolhidos politicamente. Os jogadores famosos não se interessam pela organização da profissão e, geralmente, são cooptados pelo estilo de vida das “estrelas”, que estimula o individualismo e uma personalidade egoísta.

Entusiasmado, já estava chegando à sexta conclusão quando, de repente, escuto um enorme e tonitruante arroto. Acho que meu colega queria encerrar a discussão.

Assim,  calei-me e me calo por aqui.

Sim, o mercado salvará o futebol brasileiro, e o Clube dos 13 completará as suas tarefas, mudando tudo, mas deixando todos no mesmo lugar. Os dirigentes do fut brasileiro parecem encarnar a idéia do eterno retorno, uma coisa cíclica, dinâmica e contínua, mas que não vai a lugar algum, como proclamava o pregador do Eclesiastes :

“Todos os rios vão dar ao mar; e mesmo assim o mar não está cheio; ao lugar donde vêm os rios, é lá que eles retornam (I:7). O que já foi, isso será; o que já se fez, isso se fará; e não há nada de novo debaixo do Sol (I:9)”.

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13 comentários

  1. Anizio Silva
    15/04/2009 | 8:19h
    1

    Danou-se…

    Rapaz, o texto é “meio” extenso mas vale a pena. Agora dá licença, que vou ali no Mercado da Boa Vista filosofar sobre a relação entre a FPF, o FBI e a Cosa Nostra.

    Responder
  2. Anizio Silva
    15/04/2009 | 8:21h
    2

    http://quadra747.blogspot.com/2005/10/e-um-certo-dia-me-perguntaram-no.html

    JAGUADARTE de Lewis Carroll:

    “Era briluz. As lesmolivas touvas
    Roldavam e relviam nos gramilvos.
    Estavam mimsicais as pintalouvas,
    E os momirratos davam grilvos.

    Foge do Jaguadarte, o que não morre!
    Garra que agarra, bocarra que urra!
    Foge da ave Felfel, meu filho, e corre
    Do frumioso Babassurra!”

    E por aí vai…

    Responder
  3. Artur
    15/04/2009 | 8:29h
    3

    Hehe… Grande Anízio, foi direto no Jaguadarte, hein?! O que faz o mercado da Boa Vista! Acho imoral esse poema… Tricolores pudicos, cuidado, evitem esse poema!

    Responder
  4. Fabiano Pinheiro
    15/04/2009 | 8:47h
    4

    Esse Anízio é muito safadinho, hein?

    Responder
  5. Fabiano Pinheiro
    15/04/2009 | 9:06h
    5

    Artur, já tava todo animadinho depois de ler o texto visionário de Inácio e aí resolvo ler o teu texto. Pra quê? Agora só uma onda verde pode me trazer de volta o ânimo, ou uma cerveja gelada tomada no mercado!

    Responder
  6. Artur
    15/04/2009 | 9:44h
    6

    Rapaz, texto muito bom, o de Inácio. Relevando o cinismo, digamos que o meu texto é complementar: a história começa em 2017. Até lá, como diria Géo, o Vermelho, a luta continua.

    Grande Fabiano, não sei se me sinto honrado ou com sentimento de culpa por ter te deixado pessimista. Não é qualquer um que consegue essa proeza (hehe). O abuso da adjetivação ululante no texto gerou efeitos colaterais.

    Bem, encontre-se com Anízio no mercado, tome umas cervas, leiam em voz alta (com falsetes é mais adequado) o Jaguadarte, dê um arroto e veja tudo na forma de alegorias. A vida, assim, começará a serenar, e 2017 estará mais perto.

    Responder
  7. josias geó de paula jr
    15/04/2009 | 11:17h
    7

    A solução terá de vir por partes O primeiro passo é derrubar essa gente da FPF. Não concebo o porquê de Santa Cruz e Náutico, tendo como aliados a prefeitura do Recife e o Governo do Estado, não partirem para cima do Bode rouco. Se houver uma articulação de fato, com vontade, cutucam a pústula até ela cair.

    Responder
  8. André Tricolor Virtual
    15/04/2009 | 12:01h
    8

    Eita “Artur Perrusi”

    E o que faço eu, que não bebo mais, nem nos mercadinhos, nem na beira da praia, nem em casa! Será que existe uma ‘mineCorrupção’ invadindo meu ser também … E pior, me sinto sozinho na maior parte do dia, e ‘conversar comigo’ é um exercício complicado, pois não me entendo e não chego a um consenso entre eu e eu mesmo!

    E logo Futebol, que tem sido minha única diversão, o que faço para esquecer essas ‘sacanagenzinhas’ … Será que devo construir uma nave espacial e me mandar pro espaço ??!!

    Abraços a Todos !!!!

    >>> VIVA SANTINHA !!!!

    Responder
  9. cláudio guimarães
    15/04/2009 | 13:51h
    9

    Artur,

    Hoje de manhã, tive o dissabor, o desprazer, enfim, o azar de ver o Judas do Arruda (Edinho)… Perdi o meu dia… Estou com náuseas. É sério mesmo. Então, eu que não sou fã da internet (mas gosto muito dos seus textos e dos textos do Dimas) resolvi entrar e para completar, fiquei mais pessimista. Mas seu texto é bom, e você, em minha opinião, maneja bem a nossa castigada língua portuguesa.
    MAS VIVA O SANTINHA, HOJE E PARA SEMPRE!!!

    Responder
  10. Bosquímano
    16/04/2009 | 6:56h
    10

    Um delírio que o Dr. House assinaria embaixo. ORRRRRRRRRR!!!!!! glup!

    Responder
  11. ducaldo
    16/04/2009 | 8:17h
    11

    Artur é um sádico.
    Atraiu Fabiano com a conversa sobre abobrinhas e derrubou-lhe um caminhão de melancias na cabeça.

    A salvação do futebol brasileiro é um presídio de alta segurança. E sem direito ao futebol nos domingos, ou eles começam tudo de novo.

    Responder
  12. Fabiano Pinheiro
    16/04/2009 | 13:26h
    12

    Adoro melancia!

    Responder
  13. Fábio Belmino
    16/04/2009 | 23:39h
    13

    Artur

    Que porra foi essa que tu bebeu para escrever esse texto? isso não foi cerveja nem a pau. Seja o que for me arruma 1 litro.

    Responder

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