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Home » Artigos » A eternidade do craque

A eternidade do craque

Autor: Artur Perrusi | 23 de setembro de 2009 | 0:10h | Artigos | 18 comentários

70_selecao_tempos

Em pé: Carlos Alberto, Nilton Santos, Bellini, Gilmar, Falcão e Domingos da Guia
Agachados: Didi, Garrincha, Romário, Pelé e Zizinho

Tlec, tlec, tlec…

Esse barulho sou eu no teclado, buscando inspiração para escrever. Eita que tá difícil! A conjuntura tricolor está uma desgraça. E um escrevinhador sobrevive de pompas e circunstâncias, muita circunstância. Talvez, escrevesse sobre a já famosa Querela da Pelada, esse acontecimento histórico que reverberou nos quatro cantos do Arruda. Mas o Editor-Mor já botou o bedelho, dizendo que a Querela era uma Futilidade. É um veto! Entendam bem, recebo Merreca do Chefe, pessoal, e meus filhos precisam de leite; portanto, não contrariarei o Dito-Cujo — sou louco, mas não sou burro.

Sim, faria toda uma análise política do imbróglio, mostrando suas contradições de classe. Lênin já dizia que a pelada é um espaço público socialista, por excelência. Boa parte dos bolcheviques adquiriu sua consciência revolucionária jogando o ludopédio, segundo o estudioso Josias de Paula (Paula, Josias — A bola é comunista! — Moscou: AlfaÔmega, 1953).

_Não há burguês numa pelada! — disse Lênin.
_E o burguês joga aonde? perguntou Stalin, enquanto devorava com seu olho torto a minissaia de Krupskaia (a mulher do líder comunista tinha essa mania de andar com uma saia curta pelos sovietes).
_Do ponto de vista do materialismo dialético, capitalista joga somente no soçaite. E pare de olhar minha mulher, tavaristch! — disse puto, Lênin, num russo de baixo calão.

Pois é, a pelada mudaria definitivamente a correlação de forças no Arruda.  Contudo, a direção do clube, nitidamente composta por trânsfugas, decretou que o campo de pelada virará um de soçaite, em detrimento da missão histórica do proletariado. Acabaram, assim, com o nascente kibutz tricolor. O que importou foi o vil metal, o lucro, a acumulação primitiva e, quiçá, ampliada do Capital — o Clube do Povo será arrendado para os burgueses, esta é a verdade! E logo o arrendamento, forma perversa de operação mercantil do modo de produção capitalista.

Porém, o Editor-Mor, sempre ele, não encarou dessa forma e disse que a futilidade não pode tornar-se uma questão política. Em tese, todo auditor deveria ser comunista, mas não é o caso…

Por isso, escreverei sobre um tema esotérico. Escreverei sobre futebol! :lol:

Bem… er… lá vai:

Na briga entre o passado e o presente, podem existir duas posições: a primeira diz que o presente é único e singular, ou seja, entre o passado e o presente haveria uma ruptura e um fosso intransponível; a segunda faz uma apologia do passado, transformando-o numa idade do ouro: o presente seria um presente degradado, apenas uma pálida imagem de outrora. O comum dessas duas posições seria o seguinte: é impossível comparar o presente com o passado.

Mas… será que não podemos mesmo comparar? Por exemplo: será que não posso comparar os craques do passado com os do presente? A primeira posição vai dizer que não, pois as condições atuais do futebol são completamente diferentes das de outrora. Ocorreu uma mudança tão grande no jogo de bola, que é uma bobagem a comparação. A segunda posição vai afirmar que o futebol do passado era tão superior ao atual, que a comparação é tolice: o passado sempre vai levar a melhor.

Tentarei defender, não custa tentar!, que podemos comparar o presente com o passado, e que, portanto, podemos comparar um craque de outrora com um atual.

Admito e aceito que a primeira posição tem razão quando diz que o futebol mudou muito. Mas mudou tanto ao ponto de criar um fosso intransponível com o passado, isto é, um craque de outrora não teria chance alguma de jogar na atualidade, porque estaria completamente superado? Mas, afinal, que mudanças foram essas que aconteceram no futebol?

Ora, sem dúvida, o futebol vem passando por grandes mudanças econômicas, administrativas e políticas, mas a bola continua redonda… ou não? O que mudou concretamente na forma de jogar? Sinceramente, ocorreram mudanças táticas que, por princípio, não impedem ser humano algum de jogar futebol. O que mudou mesmo foi a preparação física. Os jogadores são “tecnicamente” atletas e, para poderem jogar profissionalmente, precisam de uma preparação que o mestre Tostão chama, não sem razão, de “científica”.

Nesse sentido, o jogo ficou muito mais rápido, e os jogadores podem implementar um ritmo constante durante os 90 minutos de jogo. Eles não “cansam”. Para um técnico defensista, a preparação física permitiu uma marcação implacável durante todo o transcorrer da partida. Para os adeptos do fut ofensivo, os jogadores têm condições físicas de atacar o tempo todo. A posse de bola é menos garantida individualmente (somente os superdotados como Maradona podem fazer isso) do que coletivamente (justamente, a grande lição do carrossel holandês de 74). Em suma, acredito que o futebol tenha ficado mais difícil de se jogar, exigindo maiores reflexos devido à velocidade do jogo, mas é, quem sabe, mais espetacular do que antigamente (pelo menos quando os técnicos, essa raça reaça do fut, desejam tal estilo).

Faço agora a seguinte experiência mental: como seria a performance do Santos de Pelé no atual campeonato brasileiro? Talvez, na primeira temporada, o Santos fosse esmagado, a ponto de apenas lutar pela sua manutenção na primeira divisão. A equipe, inclusive, espantar-se-ia com os jogadores atuais, que se esqueceram da velha capacidade brasileira de fazer correr a bola e os adversários: eu não corro, quem corre é você atrás da pelota. Na segunda temporada, o Santos, por pressão de Pelé, iria exigir um preparador físico decente, ficando entre as 10 melhores equipes do país. Na terceira temporada, lutaria pelo título. Tal experimento mental não é factível?

Pegue Zizinho da década de 50 e lhe dê as condições físicas de um atleta (exceto se postularmos que Zizinho não tinha saúde para tanto ou que sua mentalidade era incompatível com o esforço físico; neste caso, a experiência não faz sentido); vocês não acham que, além de jogar melhor, ele se adaptaria rapidamente ao futebol moderno?

O passado, no caso, tornar-se-ia presente.

Acho que, diante do craque, passado e presente se reconciliam, pois no fundo o craque condensa toda a história do futebol brasileiro nas suas chuteiras – é a encarnação de todos os grandes jogadores que passaram pelos nossos gramados.

Ficaria muito feliz se ensinassem essa lição moral e esportiva às categorias de base do Santinha…

PS: até agora, independentemente das acusações contra nosso diretor de futebol, o seu discurso está sendo muito interessante. Bate com muita opinião professada nesse blog. Além do mais, tem uma cara bonachona, que entende do babado e do jeitinho do fut brasileiro. E o jeitinho, convenhamos, faz parte de nosso caráter nacional… Confesso e não preciso de tortura: eu me rendo ao desespero! 8-O

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18 comentários

  1. Arnildo Ananias de Oliveira
    23/09/2009 | 9:38h
    1

    O Pelé foi o único jogador do mundo a tabelar com o ADVERSÁRIO: enfiava a bola nas canelas dos mesmos e a recebia, de volta, “limpa”, lá na frente. Também não foi eleito simplesmente o “jogador de futebol do século” (passado) mas o ATLETA DO SÉCULO. Bem diferente de um conhecido toxicômano falador.

    Tenho certeza que se o mesmo ainda jogasse, nos dias de hoje, o placar eletrônico teria que ser programado pra fazer incrementos de 2 em 2, que nem no basquete.

    Quem o viu jogar viu. Meus parabéns. Quem ñ o viu, meus pêsares!

    Responder
  2. Fred Dias
    23/09/2009 | 9:59h
    2

    Artur, eu ja disse e repito: eu sou teu fã.

    Abraços!

    Responder
  3. J. Antonio
    23/09/2009 | 10:45h
    3

    Arnildo, concordo totalmente com voce, e ainda tem a questão do cartão hoje basta um jogador colocar a mão no ombro do adversário para receber cartão já pensaram Pelé e Garrincha jogando no futebol de hoje as equipes adversárias terminariam os jogos completos, não esqueçam que a midia fabrica muitos craques no futebol atual.
    Falando do Santa Cruz no passado revelou vários jogadores
    que voces já conhecem e hoje faz totalmente o inverso revela pernas de pau nunca vi um clube descobrir tanto jogador ruim e ainda por cima gostar de conservá-lo é o caso de Gonçalves que já rebaixou o Santa Cruz duas vezes e continua no time.

    Responder
  4. Artur
    23/09/2009 | 13:42h
    4

    Pessoal, só pra apimentar a conversa:

    Pelé x Maradona?

    Pois, entre Pelé e Maradona, existirá sempre a distância de um Garrincha.

    Mas, Maradona, foi o maior jogador que vi jogar. Só vi Pelé uma vez e era ainda muito menino.

    Meu pai caprichou no primeiro jogo da minha vida. Ele queria que eu amasse o futebol e o Santinha; assim, levou-me a um magnífico Santa x Santos no Arruda (3×2), com Pelé e tudo. Vendo Pelé jogar, aprendi a apreciar o futebol; vendo a vitória do Santinha, veio a eterna paixão. Pedagogia perfeita.

    Responder
  5. Hélio Mattos
    23/09/2009 | 14:55h
    5

    Sobre os craques midiáticos de hoje em dia eu só tenho a lamentar com o barriga de tanquinho arrogante perna de pau chamado Cristiano Ronaldo.

    Não dizem que um exemplo vale por mil palavras?

    Responder
  6. insatisfeito
    23/09/2009 | 15:02h
    6

    ói que Zico seria o melhor do mundo diversas vezes hoje!!!
    Craque, como os do passado, ultimamente, só vi um: Zinedine Zidane!!!!!

    Responder
  7. Artur
    23/09/2009 | 16:53h
    7

    Antes da era Maradona, Zico era, pra mim, o craque.

    Mas reconheço alguns craques brasileiros de um período recente: Romário, Ronaldo e Rivaldo.

    Bem lembrado Insatisfeito: Zinedine rivaliza, inclusive, com Falcão na elegância do jogo. Eu estava na França quando o bicho iniciou a carreira no Bordeaux. Fazia miséria como ponta-de-lança. Com o tempo, tornou-se um armador.

    Responder
  8. insatisfeito
    23/09/2009 | 17:17h
    8

    Acho Zico até mais completo que Maradona. Maradona é mais espetacular….

    Responder
  9. Dimas Lins
    23/09/2009 | 17:20h
    9

    Concordo com Insatisfeito, o maior craque atual que dá para comparar com aqueles do passado é Zidane.

    O futebol perdeu a classe. Os craques perderam o compromisso. Bastar pensar em Ronaldinho, por exemplo. Chegou a jogar muita bola no Barcelona, achei inclusive que ele seria o jogador moderno mais próximo de Maradona, mas me enganei.

    Ronaldinho se perdeu no futebol como só essa nova geração é capaz de se perder. Garrincha, mesmo antes de se perder, foi um dos melhores do mundo e, sozinho, deu uma copa para o Brasil.

    Quanto ao embate Pelé x Maradona, não dá para falar. São dois craques, mas como Pelé não há.

    Saudações corais,

    Dimas Lins

    Responder
  10. insatisfeito
    23/09/2009 | 17:57h
    10

    pra começo de conversa, Pelé tinha um chute de cabeça e batia com as duas, marcava bem, passava bem, driblava bem, armava bem, finalizava bem e, quando ia para o gol, era um bom goleiro. Sabia todos os fundamentos do futebol. A bicicleta dele é estudada até hoje como modelo de perfeição.
    Será que dá pra comparar?

    Responder
  11. insatisfeito
    23/09/2009 | 17:57h
    11

    E Maradona ainda tem de ser o melhor da Argentina, era ele ou Di Stefano? Façam suas apostas!!!!

    Responder
  12. Bosquímano
    23/09/2009 | 18:11h
    12

    Acho que o jogador moderno que mais se aproxima de Maradona é… Gobato!

    CR joga muita bola, mas na hora do “vamo vê” ele se esconde. Prefiro o Messi, que pode até não jogar bem uma vez perdida, mas sempre procura o jogo.

    Ver Zidane, aquele desgraçado que só fez dois gols de cabeça na vida, jogar era um prazer. Tá no meu top 5.

    Responder
  13. Henriksson
    23/09/2009 | 23:52h
    13

    Bolado o texto. Fale mais sobre futebol, fera. Futebol e política são homogêneos. O Santa Cruz é heterogêneo. Infelizemente.

    Volta, Marcelo Ramos! Trás Giva contigo!

    Ser Tricolor é mais que vencer ou perder

    \o

    Responder
  14. insatisfeito
    24/09/2009 | 11:31h
    14

    Pois é, trÊs cabeçadas de Zidane decidiram o destino da França em finais de Copa do Mundo…

    Responder
  15. Cláudio Guimarães
    24/09/2009 | 23:42h
    15

    Zidane merece ser comparado aos grandes craques. É dos poucos que jogariam ao lado de Gena, Gilberto, Paulo Ricardo, Erb, Antonino e Botinha; Valmir, Fernando Santana, Ramon, Luciano e Givanildo…

    Responder
  16. Aline Moura
    25/09/2009 | 14:31h
    16

    Perruci, antes tarde do que nunca, passei por aqui e vi essa pérola. Muito legal seu texto. É um daqueles que dá uma sensação esquesita no peito, algo que nunca ninguém vai poder descrever exatamente. Dizem que é como borboletas voando no estômago, chamam de frio na barriga, mas eu não chamo de nada, porque essa coisa esquisita não pode ser descrita.

    Aline Moura

    Responder
  17. Artur
    25/09/2009 | 15:21h
    17

    Aline, valeu pelo elogio!

    Mas… “sensação esquisita no peito”… “borboleta voando no estômago”… “frio na barriga”… “não pode ser descrita” — isso significa que meu texto foi mais uma espécie de estória de terror? :)

    Responder
  18. Aline Moura
    25/09/2009 | 21:03h
    18

    kkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Adorei o tlec, tlec, tlec… Um dia vou ter que plagiar isso. kkkkkkkkkk

    Responder

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