Pitaco da rodada

Pitaco da rodada

A equipe do Torcedor Coral não tem bola de cristal, mas gosta de meter a colher, inclusive, em briga de marido e mulher. Por isso, mais uma vez, resolveu jogar dados e búzios para cima e dar um pitaco no placar do jogo do Santa Cruz no Campeonato Pernambucano de 2012. Confiram o placar do jogo na opinião dos editores e convidados e escrevam suas opiniões na seção de comentários: Dimas Lins Zé Teodoro viverá uma crise existencial: tem que botar o time para frente, mas prefere jogar na retranca. Assim, o time entrará com três zagueiros, quatro volantes, um meia e dois atacantes. Para resolver a equação, botará a defesa no ataque e o ataque na defesa.  Dênis Marques jogará no gol e ganharemos o jogo com um gol de mão de Thiago Cardoso aos quarenta e oito do segundo tempo, obviamente, depois de uma jogada confusa na área adversária. Placar: Santa Cruz 1 x 0 Salgueiro Artur Perrusi O jogo estava 2×0 para o Santa. Faltando 10 minutos, o desastre, falha do goleiro e do zagueiro (não preciso dizer os nomes). Pena. Placar: Santa Cruz 2 x 2 Salgueiro Paulo Aguiar O Santa jogará o futebol de sempre. Confuso, sem esquema tático, chutões da zaga para o ataque. O retrato da série D se repetirá. Mau futebol e um resultado milagroso. Em um lance fortuito, na metade do primeiro tempo, um jogador prata-de-casa fará o gol da vitória. Placar: Santa Cruz 1 x 0 Salgueiro Nó Cego A gente tem tudo para tomar na jaca: um técnico retranqueiro, uma defesa que é uma baba e um goleiro mão de lodo. Vamos ser desclassificados pelo Salgueiro e ainda ter que aturar Zé Teodoro na Série C. Placar: Santa Cruz 1 x 2 Salgueiro Ducaldo Pitaco de quem tentou adivinhar a escalação, entender o raciocínio teodoriano e não sabe absolutamente o que está escrevendo. Placar: Santa Cruz 3 x 1...

Leia Mais

Pelas ruas que andei

Pelas ruas que andei

Pobre Recife. Quem viu um dia suas ruas alegres e festeiras que se enfeitavam para uma partida de futebol, agora convive com a irracionalidade humana, que se sobrepõe aos valores supremos da vida. Tenho saudade de um tempo em que as torcidas se misturavam e viviam em harmonia dentro e fora dos estádios de futebol. A rivalidade ficava por conta das brincadeiras, da greia da rapaziada, dos sarros dos vencedores contra os vencidos.  E tudo permanecia assim, em tom de brincadeira, como deve ser. Não há como esquecer que na primeira vez que pisei no Arruda, ainda criança, fui levado pelas mãos de um rubro-negro no Clássico das Multidões. Torcidas misturadas, vibrava com os gols do meu time e ele e seu neto, com os do seu. No final do jogo, voltávamos para casa com a certeza de que chegaríamos bem. Nos tempos de menino, passei em paz pelas ruas que andei. Hoje, o Recife já não é mais o mesmo. Já não piso nas arquibancadas dos estádios de nossos rivais, nem vou a um clássico no Arruda com a camisa do meu time. As ruas antigas da cidade, palco dos nostálgicos carnavais, tornaram-se praça de guerra. A violência não nasce em um estádio de futebol. Ela é reflexo de um país escravocrata que ainda hoje não reparou os erros do passado. Não há oportunidade para pobres e negros e a miséria de uns representa a riqueza de outros. A violência, em seu estado mais bruto, nasce da falta de educação e de perspectiva. O futebol pernambucano é de morte. Dois torcedores morreram depois do clássico. Não importa seus clubes, nem suas cores. Importava suas vidas. O futebol não vale tanto. Estou amargurado e sem esperanças que um dia o nosso futebol volte a ser como...

Leia Mais

Do protesto à tietagem

Do protesto à tietagem

Estava metido numa importante reunião de trabalho nas primeiras horas da manhã, no instante em que o meu celular tocou. Rejeitei a ligação por três vezes, como Pedro a negar Cristo, mas o toque do aparelho ao som do hino tricolor atravessou a sala troando como um trovão e, inevitavelmente, paralisou o andamento das tratativas. Meu chefe, um intragável rubro-negro com cara de leão-marinho, por causa do tremendo bigodão e do corpo roliço, demonstrava severos sinais de irritabilidade e cobrava, com a gentileza do olhar de um castrador de touros, o fim de tamanho inconveniente. Espremido entre os colegas de trabalho e sem saber a localização exata do botão silencioso no celular, não me restou outra alternativa a não ser atender a ligação ali mesmo, para não ter que passar por debaixo de umas seis cadeiras que ficavam entre a porta e eu. — Um instantinho aí, chefia… Alô?! Fala, Perrusão! Artur Perrusi, renomado psiquiatra e conhecido pesquisador dos hábitos extravagantes das lendárias tartarugas marinhas de Intermares, dava notícias de seu paradeiro depois de outro longo período afastado da civilização. Aliás, foi Perrusi quem recentemente descobriu, através de seu ensaio Os ‘paraíbas’ não torcem pelos paraibanos, a relação entre os quelônios e os torcedores-parabólicas. — Doido… Nunca encaro com naturalidade o fato de um psiquiatra me chamar assim. Talvez isso queira dizer alguma coisa além de uma carinhosa demonstração de amizade. — …Segui a trilha das tartarugas até a praia de Boa Viagem e descobri que elas vieram assistir ao treino do Santa Cruz. Esses quelônios têm um bom gosto do carai! De fato, tinham. Além de tudo as tartarugas eram bem mais informadas do que eu, que leio jornais todos os dias, mas não sabia de nada. — Doido, vem te embora pra cá tomar uma cerveja! Disse, como se estivesse sozinho na sala, que entre uma cervejinha na praia e uma reunião com um rubro-negro com cara de leão marinho, preferia a primeira opção. Desliguei o celular e, enquanto todos me olhavam abismados, sem pestanejar botei as duas mãos no rosto e, lágrimas de crocodilo nos olhos, anunciei que precisava sair imediatamente por causa da morte do primo do irmão do faxineiro da minha escola nos tempos de infância. Disse ainda que eu ficaria bem e que finalizassem tão agradável reunião sem mim. Depois, passei por debaixo das cadeiras e, antes de sair, ainda disse com profunda...

Leia Mais

Em busca da verdade

Em busca da verdade

Desde o final da Série D, parte da torcida coral se polarizou em torno de Zé Teodoro. De um lado, a defesa de um técnico que ganhou um Campeonato Pernambucano e classificou a equipe para a Série C, depois de um longo e tenebroso inverno de maus resultados. Do outro, embora se reconheça os resultados alcançados, também se desconfia da capacidade de seu estilo de jogo ultra-defensivo em levar o Santa Cruz aonde a torcida deseja e, por isso, crê que sua permanência no Arruda tem prazo de validade. Há outras razões para gostar ou desgostar do trabalho de Zé Teodoro, mas a proposição deste artigo não exige este nível de abordagem, mesmo porque o técnico não é o pivô da minha dissertação. As diferenças de pontos de vista são apenas contrapontos de ideias e, sobre essa ótica, salutares e necessárias. O problema reside quando há demonstração de dificuldades de convívio com a opinião contrária e o debate toma o caminho da intransigência. Neste aspecto, deixa-se de lado a defesa de um ponto de vista para assumir a defesa da verdade, entendida aqui como aquilo que é ou existe iniludivelmente. Assim, ocorre o fenômeno da intolerância, onde quem não compartilha da mesma ideia está sujeito ao patrulhamento e à discriminação. De um lado, evoca-se a burrice e o desconhecimento do futebol; do outro, as vozes dissonantes são taxadas de corneteiras e, no cúmulo da intolerância, é posto em dúvida o sentimento de amor ao Santa Cruz. Nos dois casos está implícito o desejo de se apossar da verdade como se dela dono fosse e, não raramente, a força impositiva desta vontade se esconde na precariedade dos argumentos e na busca da desqualificação do debatedor. Não é de hoje que se busca a verdade, também é de longe que vem a intolerância. Na Antiguidade, por exemplo, a verdade prevalecia na crença de deuses mitológicos. O filósofo Sócrates, ao cunhar a célebre frase eu só sei que nada sei, onde reconhecia a sua própria ignorância e partia dela para iniciar a verdadeira busca do saber, provocou, com seus métodos contrários à verdade de seu tempo, o poder constituído e foi levado a julgamento sob a acusação de não crer nos deuses da cidade e de corromper a mocidade. Por essa razão, foi condenado à morte. Na Idade Média, após a queda do Império Romano e com a chegada dos nobres e...

Leia Mais

A vitória da covardia

A vitória da covardia

Meu vizinho de garagem veio me mostrar, todo orgulhoso, um gigantesco adesivo magnético com o escudo do Santa Cruz. O adorno se destaca em seu não menos gigantesco carro preto e chama a atenção de quem cruza o seu caminho. Disse que havia comprado por uma pechincha e sugeriu que eu fizesse o mesmo, mas embora tudo que tenha as cores do Santa Cruz me hipnotize, recusei a sua gentil oferta. A culpa, respondi, está na violência gratuita que inviabiliza demonstrações amáveis de preferências esportivas nas ruas da cidade. Ontem, por exemplo, fui ao jogo sem a camisa d’O Mais Querido, com receio de alguma confusão depois da partida. Não deu outra, uma briga se formou nos arredores da Avenida Norte e só não sei dizer se foi um encontro de torcidas ou se envolveu apenas torcedores de um dos clubes. Contudo, volto à conversa com o meu vizinho. Dias antes do clássico, perguntei-lhe se estava confiante na vitória. Apesar de toda a empolgação com os símbolos corais e a fase atual, respondeu que qualquer placar era possível, mesmo com o time dos Aflitos descendo a ladeira. Em primeiro lugar, disse ele, por razões óbvias: clássico é clássico, seja lá em que circunstâncias os dois times se encontrem. Em segundo, porque, a despeito do melhor momento do Santa Cruz, tudo dependeria da formação e da postura que o time de Zé Teodoro iria adotar diante do Náutico em sua própria casa. Meu vizinho tinha razão. Ontem, assisti à vitória da covardia. Vi, em campo, um time que se propôs, desde o primeiro segundo de jogo, a ficar no zero a zero e, por sorte, achou um gol. Até compreendo a opção tática de jogar nos contra-ataques, já que, na teoria, o Náutico, na Série A do campeonato brasileiro e com mais dinheiro, portanto, teria uma elenco mais forte do que o nosso. Entretanto, não foi isso o que vi. Assisti ao meu time basicamente abdicar de jogar. Não me recordo do meio-campo ganhar um rebote sequer ou de uma jogada trabalhada ou ainda nada que se parecesse minimamente com futebol. Não sei quanto tempo o adversário ficou com a bola nos pés, sei que não perdemos o jogo pela inegável eficiência do sistema defensivo – desconsiderando, é claro, o risco de um gol iminente, através do jogo aéreo em nossa área – e também pela total incapacidade ofensiva do...

Leia Mais
20 de 146...10...192021...3040...