O novo manual

O novo manual

Um amigo me ligou, em tom de cobrança, para dizer que perdi um jogão de bola. De fato, o Santinha estava tão em baixa no meu conceito que troquei o Arruda por um shopping center, programa que os mais chegados sabem que só vou na emergência ou amarrado a uma camisa de força. A verdade é que, depois da derrota incontestável para o Sport, preferiria qualquer coisa a futebol. — Arruda ou Kiev? — Toca para Kiev! — diria sem pestanejar, ao imaginar a economia que faria com as promoções dos programas de milhagem e com os descontos escandalosos nos hotéis da capital ucraniana, ao invés de assistir passivamente a preguiça contagiante de Raul. — Futebol ou Curling? — Vassourinhas disparado! — pensaria, ao considerar seriamente a possibilidade de dançar um frevinho rasgado com a Sidorova em contraponto a me enfartar com as falhas individuais e coletivas do nosso sistema defensivo. — Rapaz, mas o jogo é contra o Salgueiro! — Nem que a escola fosse a campeã do carnaval! — fugiria desse samba de uma nota só que se tornou o nosso pouco criativo meio de campo. Os sete a zero amenizaram a dor, mas não me permitiram perdoar prontamente o grande revés na Ilha. Nessas coisas sou ortodoxo: lá se fez, lá se paga. O perdão virá quando o Santa Cruz jogar com alma, alma grande, contra a coisa. O resultado seria consequência de uma nova atitude e selaria a paz mundial. — Coisa?! Não leu o novo manual de redação do Blog do Santinha? Li. Agora, alvirrubros são alvirrubros e rubro-negros, rubro-negros. Nunca levo tão a sério um manual de redação. Amanhã o mundo gira e tudo muda novamente. Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar. Não fosse assim, a ideia seria simpática, mas chata pra caralho. Geralmente, a linha do politicamente correto me dá nos nervos. É consideravelmente à direita dos meus pensamentos, um modus operandi que engessa, coloca amarras. Há coisas realmente intoleráveis, que devem ser combatidas, como o preconceito, a homofobia e o racismo, por exemplo, mas há também uma tonelada de pura bobagem. O bom senso, a cortesia e uma boa dose de educação e cultura ainda são o melhor norte. Foi Gerrá quem me tranquilizou. A ideia é inversa ao que parece. É tirar as amarras, como se faz há um bom tempo no Torcedor Coral....

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Futebol cara de bunda

Futebol cara de bunda

Imagine a cena: você está num elevador lotado e seu filho de cinco anos grita aos quatro ventos que você tem uma catota enorme no nariz. Você tentará disfarçar, dirá que ele se enganou, mas ele apontará renitente para a sua cara deslavada e rebaterá categoricamente sua tola e esfarrapada desculpa: “olha ela aí, bem grande!”. A esta altura, todos os olhares estarão voltados para você que, profundamente constrangido, não saberá se irá tirar a catota na frente das pessoas ou deixará a bichinha no lugar persistindo assim na negação do óbvio. Meu conselho é que resolva isso logo, porque a criança não vai deixá-lo em paz até ver o seu nariz inteiramente limpo. Seja qual for a sua escolha, você reconhecerá inequivocamente que a atitude de seu filho baseou-se em seus ensinamentos de pai que consistem, entre outros, no princípio da honestidade. Não se ensina a mentira social para uma criança, porque o conceito de social existe vagamente em sua cabeça, restando apenas a mensagem original. E criança quando aprende a mentir não para mais. Qualquer pai sabe disso. Sinto falta de uma honestidade quase infantil em nosso meio, principalmente no futebol. Ontem, por exemplo, Luciano Sorriso, contrariando sua simpatia pueril e bom mocismo, justificou o péssimo futebol apresentado contra o Guarany/CE com algo parecido com a máxima de que é melhor jogar feio e vencer a bater um bolão e tomar na chincha. Há uma confusão, por vezes intencional, nem acho que é o caso, de tentar justificar o injustificável, que costuma misturar futebol feio com falta de qualidade, pegada e eficiência na aplicação da estratégia de jogo escolhida pelo treinador. Não se trata de jogar feio ou bonito. Para o torcedor de arquibancada, tudo é muito simples. O que importa é se o futebol apresentado pelo time passa confiança para alcançar os objetivos da temporada ou não. Comparativamente, o Santa Cruz do ano de seu centenário é inferior ao de 2013. Não sei ao certo, mas talvez tenha sido a saída de Dedé, as contusões de André Dias e de Thiago Costa e as contratações fracas, fraquíssimas, que não foram capazes de reforçar o elenco como deveriam. Concretamente, sei apenas que na temporada passada, sob o comando do mesmo Vica, o time não tinha medo de jogar fora de casa. Agora, joga praticamente os noventa minutos com a bunda na parede. Em outras palavras, Vica dá...

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Breve perspectiva do centenário

Breve perspectiva do centenário

Finalmente, o ano do centenário começou para o Santa Cruz. Cem anos de história, de muitas histórias para contar. Casos pitorescos, como o primeiro adversário, o Rio Negro, que impôs a condição inusitada de barrar o atacante coral Silvio Machado, autor de cinco dos sete a zero marcados no jogo de ida, que de nada adiantou, já que o seu substituto, Carlindo, marcou seis dos nove a zero na revanche. Infelizmente, são poucas as perspectivas que esses cem anos sejam revividos e celebrados do jeito que o clube merece. Tenho a impressão que as comemorações do nosso centenário não serão pintadas em cores vivas, pois se me permitem uma avaliação pessoal, as festividades organizadas pela diretoria coral não estão à altura de nossa história. O momento atual de dificuldades financeiras, que perdura, aliás, por várias décadas, explica, apesar das ótimas campanhas nas últimas temporadas, o acanhamento na programação do clube. Jogos dos amigos de um contra os amigos de outro aconteceram de rodo nas férias de fim de ano por todo o país e, olhando para o nosso próprio umbigo, nunca atraiu o torcedor. Como tricolor, estou mais interessado e aguardo, sem grandes esperanças, notícias mais estruturadoras, como o início das obras do Centro de Treinamento e a prometida reforma do Arruda que até agora não saiu do papel. Além do mais, embora o contrato com a Penalty vigore até o final do ano, pela insatisfação de alguns diretores e especulações em torno de outros fornecedores de materiais esportivos, esperava uma mudança para uma marca ainda mais forte por conta do centenário. O silêncio, exceto se imposto por cláusulas de confidencialidade, indica que não há nada de novo no front e na retaguarda também. O marketing do Santa Cruz não passa de uma piada de mau gosto e sua profissionalização reside apenas nos sonhos da torcida. Também nos sonhos do torcedor residem as mudanças modernizadoras na administração do clube. Se no futebol, conquistamos três campeonatos e dois acessos nos últimos anos, administrativamente, o Santa é o mesmo de trinta ou quarenta anos atrás. Os dirigentes corais não perceberam, e sabe-se lá se algum dia perceberão, que sem modernização na forma de fazer futebol, não há perspectivas para o futuro. O Santa Cruz, no contexto atual, ganhará um título sazonal e jamais encostará nos grandes clubes do país e, por que não dizer, do mundo. No campo de jogo, fiquei...

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Hamlet embriagado

Hamlet embriagado

Foi depois de mais uma indecifrável partida de Siloé, que eu assumi um ar compenetrado, como Hamlet na famosa peça de Shakespeare. Atravessei o olhar no amarelo-ouro de meu copo, como se em minhas mãos estivesse o crânio desnudo de Yorick, e refleti, tanto quanto pode refletir um homem em estágio avançado de turbação passageira das faculdades. Se estivesse menos sob o efeito etílico, talvez ensaiasse um profundo embate filosófico sobre a ressurreição coral e sua perspectiva para o ano do centenário, mas nesse estado para lá de Bagdá, me concentrei, reparem bem, em matéria mais prosaica. Por isso, olhando o borbulhar de minha cerveja, disparei sem pestanejar: — Siloé ou Dênis Marques sem treinar? A pergunta era capciosa, porque não se discutia apenas quem era melhor jogador, mas, principalmente, penetrava-se no cerne da questão ética que envolve o atacante coral. Escolher Dênis Marques seria o mesmo que aceitar sua indisciplina autorizada pelo alto escalão do clube e consentir privilégios não oferecidos aos seus colegas de time e de profissão. Seria descredenciar a autoridade do treinador, que, em tese, tenta fazer o que é certo. As respostas dos companheiros de mesa não vieram de pronto. Os goles de cerveja se seguiam como se assim fosse possível desembaraçar o pensamento. Ao contrário, a cada gole os cérebros ficavam mais nublados e os raciocínios mais turvos. O fato é que há um istmo entre o certo e o errado,  quando os feitos incontáveis de um jogador estão no meio da discussão. Principalmente quando o desejo de perdoar vem de uma necessidade urgente, no jogo decisivo, antes que o ano acabe. O perdão condicionado, é forçoso reconhecer, não é sincero e não perdura por tempo mais alongado. Bastarão alguns meses para que, por três vezes, como na bíblia, se negue a defesa do indefensável. Afinal, a questão central permanece inatacada: é algum jogador maior que o clube? — Dênis Marques! – enfim, responderam todos em uníssono. Tomei mais um gole e tentei por fogo na discussão buscando comparações extremas. — Siloé ou Dênis Marques depois de comer uma feijoada? O silêncio reflexivo foi mais breve e logo veio a resposta a confirmar a tendência inicial. — Dênis Marques! – Dispararam todos mais uma vez em uma só voz. — Siloé ou Dênis Marques depois de tomar um Lexotan? — Dênis Marques! A partir daí o que se viu foi uma repetição embriagada...

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Caça-Rato e a consciência negra

O dia 20 de novembro, no Brasil, é dedicado à “Consciência Negra”, movimento surgido na década de 70 para referenciar Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares (que durou 100 anos), morto na trincheira de luta pela liberdade de um povo nobre que, arrastado violentamente de suas nações na África, foi trazido para solo brasileiro a fim de servir aos brancos invasores, tanto nas casas grandes quanto na lavoura. A resistência histórica e heroica daqueles seres humanos diante dos maus tratos, humilhações e discriminações aqui sofridas não cessou com a falsa libertação “concedida” pela Princesa Isabel pelas lutas de base e por pressão política. Os negros continuaram excluídos, jogados à própria sorte e muitas vezes tendo que se marginalizar para continuar vivos. De alma sensível, força física inquebrantável e musicalidade acurada, o negro constituiu e construiu parcela significativa de toda riqueza desta nação, em todos os sentidos. Não obstante a rica herança cultural que o povo africano nos legou, na pele de seus descendentes brasileiros, esta massa gigante de pessoas permaneceu sob a égide do preconceito, ora aberto, ora velado e como diz Edson Gomes: jogados nas cozinhas e senhores das favelas. Nesta condição, poucas chances tiveram de mobilidade social. Os que ousassem contrariar esta lógica elitista eram logo dissuadidos de prosseguir sua escalada. Contudo, o sangue guerreiro que corre nas veias dos negros não lhes permitiu debandar da caminhada. O dia da Consciência Negra celebra justamente isto, a busca por direitos e por um lugar ao sol, o empoderamento de uma raça. Depois deste longo preâmbulo vocês já devem estar se perguntando: o que isto tem a ver com Caça-Rato?  Respondo: tudo. Aliás, é a primeira vez que me dirijo ao Flávio Recife, aqui no blog, pelo seu codinome, porque considero o nome um dos mais fortes elementos da identidade pessoal. É a marca registrada de cada um, enquanto o apelido muitas vezes pejorativo, em alguns casos, tem o propósito de diminuir e humilhar. Lembro o quanto os torcedores xingavam o menino-rapaz, hoje homem, por suas corridas destrambelhadas, seus dribles impensáveis e os gols perdidos. Perdidos agora só na lembrança, pois Caça-Rato passou a representar a parcela mais vívida e mais aguerrida da imensa torcida coral. Como esquecer o gol do tri campeonato 2013 e o gol do acesso à série B, recentemente. Por tudo isto, ele já escreveu, com letras maiúsculas, seu nome na história do clube...

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