Praga de mulher

Marina não agüentava mais aquela rotina dos finais de semana. Enquanto os outros casais – os normais, como ela chamava – aproveitavam para pegar uma praia, fazer uma viagenzinha, um programinha divertido com os amigos, Ronaldo a deixava em casa e ia ao Arruda religiosamente. Aliás, mais que religiosamente, já que Ronaldo não pisava em igreja há muitos anos. Nem isso fazia. A insatisfação era ainda maior porque Marina não ousava ficar chateando o marido com essa queixa. Tinha receio, não admitido conscientemente, de ser colocada no escanteio caso caísse na esparrela de desafiar o amor do marido pelo Santa, colocando-o na marca do pênalti. Sabia que essa partida já estava perdida antes mesmo do adversário sair do vestiário. E de goleada. “Se o amor dele fosse por outra mulher, eu ainda tinha uma chance de resolver”, analisava com razão. Ela nunca gostou de futebol, nunca torceu por time algum. Pra ser bem sincera, tudo o que sabia sobre futebol era de ouvir o marido conversando com os amigos, todos torcedores do Santa Cruz. Quando se interessou por Ronaldo, até que tentou se informar sobre o esporte e suas regas básicas, sobre a história do Santa Cruz, nome de jogadores, dirigentes. Desistiu de entender as regras por causa do impedimento. Nunca conseguiu entender a razão pela qual se marca impedimento. “Se o jogador faz gol, é gol. Que papo é esse de gol impedido? Isso é roubalheira de juiz”, indignou-se, fingindo propriedade sobre o tema, na primeira vez que assistiu a um jogo com o então namorado. O detalhe é que a marcação beneficiou o Santinha. Este foi o motivo da primeira briga do casal. Os amigos de Ronaldo foram se afastando do casal aos poucos. Não suportavam a namorada do Ronaldo. Isso aconteceu depois de uma farrinha, quando os amigos levaram suas namoradas para que elas acabassem com aquela cisma semanal com os jogos. Marina quis mostrar-se entrosada e questionou a autoridade do bandeirinha que havia feito com que um gol do Santa fosse anulado, na partida anterior ao encontro. “Se nem o juiz viu nada, porque é que deu ouvidos àquele cara que segura a bandeira e que na verdade só está ali para apanhar a bola quando sai do campo?”. Com muito abuso, Leonardo explicou que ela estava confundindo bandeirinha com gandula. Ela morreu de vergonha e decidiu não falar mais nada. Apesar da visível incompatibilidade...

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Sacode a poeira

 Dizem que o bom de se chegar ao fundo do poço é que não há mais como cair, só é possível ir para cima ou estancar no buraco. Em 2007, essa foi a grande ilusão que sustentou a torcida tricolor, uma das 15 maiores torcidas do país que idolatra o futebol. Infelizmente, ao final do ano descobrimos que nosso time descobriu uma brechinha no buraco e cavou, cavou, até que todos – jogadores e torcedores – pudessem cair um pouco mais. Era verdade, nós tínhamos chegado ao fundo do poço em 2007, vendo nossos principais rivais na Série A do Campeonato Brasileiro, posição que era nossa em 2006. Agüentar as piadas e as transmissões invadindo porta a dentro nossa casa foi de lascar, mas acreditávamos ser algo passageiro. “Ano que vem eles vão ver”, dizíamos com uma esperança pouco convicta, se conseguíssemos olhar com racionalidade o mau desempenho do time, a evidente falta de garra dos jogadores e a cartolagem indigna de qualquer comentário decente. E agora estamos onde estamos. Queremos pelo menos acreditar que dessa vez o ditado será infalível. Pelo menos isso. A situação está péssima. No entanto, não é a primeira vez que o Santinha dá uma de faquir. O jejum da década de 90, por exemplo, comprova isso. Nós, torcedores, temos duas opções: sentar e chorar ou brigar. Creio que não precisamos de desespero agora, e sim de uma atuação contínua e planejada para sanar e fortalecer o Clube. A começar pela diretoria. Todos os torcedores do Santa que conheço estão pedindo a cabeça do atual presidente: que ela nos seja entregue, então. Se não em nome da democracia (governo de e para o povo), ao menos em honra à história de luta que começou com o amor de 11 meninos no Pátio de São Pedro, nos idos de 1914. Um time pode sobreviver sem presidente, mas não sem torcida. Ainda mais quando se trata da 15ª maior torcida brasileira. Com uma direção séria e comprometida com o Clube, fica mais fácil administrar os recursos que, mesmo parcos, servirão para contratar jogadores que tenham garra e realmente estejam a fim de defender a camisa. Aos peladeiros descomprometidos (e não digo que são todos na equipe atual), “a saída é a serventia da casa”. Os escavadores de poços que procurem a sua turma. A gente quer mais é levantar, sacodir a poeira e dar a volta...

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Tem mulher na área

 Calma, não precisam parar de xingar o juiz nem a torcida adversária. Fiu-fius são bem aceitos, sem frescura – só não vem com mão boba, porque aí é desaforo. Agora tem mulher também no campo do Torcedor Coral. E fiquem tranqüilos, porque já aprendi as principais regras do jogo: quando um juiz marca falta a nosso favor, qualquer desculpa serve e ponho a mão no fogo pela honestidade da decisão; quando é contra, o juiz é incondicionalmente um ladrão safado. Não é isso garotos? Recebi o convite de Dimas para escrever de vez em quando por aqui. Primeiro pensei que ele tinha surtado, mas depois, pensando direitinho… Achei interessante o desafio. Assim como Maria Luiza, sou tricolor desde o útero materno. A tricoloridade paterna veio no sangue e nas sugestões diárias. Desde pequenininha odeio a “coisa” – desculpem, mas só falo o nome desse troço quando ele perde e eu posso zoar com os torcedores. Até hoje quando me acusam de ser uma “cobra”, mesmo aqui em Minas Gerais, eu agradeço. Sei que estão se referindo ao meu óbvio amor pelo Santa Cruz, nada a ver com uma língua peçonhenta. Não poderei comentar aqui detalhes do jogo, porque… Bem… eh… não transmitem jogos da terc… (vocês sabem do que eu estou falando, não precisa completar). Isso eu deixo para os meninos. Por outro lado, também não darei dicas de culinárias, já que não há receita decente que use carne de leoa ou de timbu. Pretendo escrever sobre o sentimento dos/as torcedores/as – e prometo que esta foi a primeira e última vez que usei esse tal de /as – e narrar algumas histórias que me vierem à lembrança ou à imaginação referentes ao nosso Santinha. Por fim, (imitando jogador novo em entrevista) queria dizer que estou muito feliz com a oportunidade que o professor Dimas me deu, me trazendo aqui para o timaço do Torcedor Coral, prometo que vou me esforçar para não decepcionar a equipe nem os torcedores. E é isso...

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Espera

 Este ano serei pai. Recebi uma graça e com ela uma grande responsabilidade. E embora ainda não me sinta preparado para a nova incumbência – acho que nunca estamos – buscarei, como tudo na vida, fazer o meu melhor. Tenho usado o Estradar, por ser um blog literário, para falar de tudo o que envolve a expectativa de ser pai. Lá, por duas vezes, já tratei do assunto, através das crônicas O filho que eu quero ter e Quem vem lá. Há tempos queria escrever aqui no Torcedor Coral algo sobre essa satisfação – e porque não dizer também, ansiedade.  Até porque, sendo pai, estarei contribuindo para o aumento dessa grande massa coral. Entretanto, o astral de um clube envolto em sua própria tragédia nunca me deu o ânimo necessário para escrever uma crônica. Um pouco antes do carnaval, soube que eu e minha esposa estávamos esperando uma menina: Maria Luiza. E ontem veio uma felicidade adicional. Recebi uma carinhosa homenagem de Ana Cláudia, uma amiga tricolor que imigrou para Minas Gerais. Ao escrever, ela ainda não sabia que se tratava de uma garotinha. Em seu blog Ninho da’Ninha, Cláudia, habilidosa jornalista e poetisa, fez um poema que me comoveu e, por isso, compartilho aqui com vocês. Aproveito e deixo o convite para que ela, tricolor como é, venha de vez em quando escrever sobre o Santa Cruz por essas bandas. Obrigado Cláudia e aquele abraço, Dimas  Ana Cláudia Nogueira (Para os meus amigos Dimas e Lenira) Mal vejo a hora de ouvir teu primeiro sinal nesse mundo A tua resposta à agonia da incompreensão Dos toques estranhos do tato, Da liberdade súbita do corpo Do arrancar violento do ninho que te protegeu por nove meses Resposta à luz, aos sons, à vida. Conto os dias que faltam para que te possa ninar Te levar no colo, te acalmar as dores, Admirar teu primeiro sorriso Reconhecer os sinais de tua fome Reconhecer o eu que há em ti E o quanto da pessoa amada tu herdastes. Vou te olhar até cansar, e nunca cansarei. Pelo teu rosto, teu porte, Irei imaginar mil e um futuros E em todos serás saudável, feliz, apaixonante Pois é isto que desejo para ti, Em gratidão por seres filho meu. Te amarei sempre, sempre, Com tal intensidade e dedicação Que jamais terás razão em duvidar deste amor. Mal vejo a hora de olhar teu corpinho...

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