O terceiro sinal

  Artur Perrusi Um filósofo, que não conhecia o ludopédio, já falava da existência de "dois excessos: excluir a razão e admitir apenas a razão". Pois bem, não podemos admitir apenas a razão para explicar o que está acontecendo ao Santinha. Digo logo: os blogueiros estão sendo excessivamente racionais nas suas explicações. São pertinentes e usam uma lógica profana para explicar as causas dos fenômenos que estão-se sucedendo na campanha de nosso time na série B. Acho insuficiente as explicações. Parece que a maioria dos torcedores não acredita em explicações transcendentais. Ora, somos torcedores de um time com um nome cristão e escatológico: Santa Cruz! Como podemos ser racionais e torcer, ao mesmo tempo, por um Clube do Santo Nome?! Ofereço meu próprio exemplo: um ateu descarado, um materialista vulgar, acreditando piamente que o pensamento é uma excreção do cérebro, assim como a bile é uma secreção do fígado, e que a espiritualidade é apenas uma adaptação evolutiva, cuja função já perdeu o sentido desde os tempos das cavernas. Pois é, apesar disso tudo, torço pelo Santinha de uma forma absolutamente mística, beirando o fundamentalismo religioso. Ora, o que está ocorrendo ao Clube do Santo Nome é uma coisa de nunca mais se ver, mesmo com o tanto de coisa passíveis de nunca mais serem vistas que têm lugar comumente no Arruda. A explicação só pode surgir do emprego da razão mística, de uma revelação, de uma catarse sublime. Eu pensava nisso, enquanto escutava a coprologia de Joãozinho, irmão de Dimas, quando do pênalti de Piauí a favor da Portuguesa. Há algo cabalístico acontecendo com o Santinha. Algo absolutamente fora dos padrões e além da racionalidade. ― Será que é o nome do clube?!  – virei-me e perguntei a Joãozinho. E ele não me deu atenção, continuando a vociferar bostas, merdas e todas as alcunhas de fezes que  conhecia. ― Será que mudando o nome do clube para Via-Crúcis essa fase não passa? – perguntei ao vizinho, que estava mudo e continuou calado, principalmente depois do segundo gol da Portuguesa. Desisti do diálogo, mas continuei a pensar. Quando se admite apenas a razão e não se explica nada, deve-se apelar; afinal, o que está acontecendo, porra? Que azar do caralho é esse? Indaguei de forma erudita, quase um parnaso. Até o maldito tempo conspira contra a gente. Não teve um jogo que não tivesse chuva e campo pesado. Como a gente pode...

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A miséria do resultado

Artur Perrusi Quando converso sobre futebol com meus alunos, normalmente sou acusado de antigo e nostálgico. Antigo, não sou, embora só tenha jovens no “Tricolor Coral”. Afinal, considero-me Jovem Guarda, morou?! Nostálgico? Talvez… Porque tenho uma saudade desgraçada de um futebol brasileiro decente e bonito? Sim, seria este o motivo da minha nostalgia. Curiosa situação: meus alunos criticam-me porque não vejo o futebol brasileiro como ele é e sim como deveria ser, sendo assim um mísero idealista, sintonizado com a fantasia e não com a realidade; afora, é claro, a minha ingenuidade em pensar que o futebol arte, atualmente, tenha alguma serventia. Olhando meus alunos, essa geração sub-25, cuja mentalidade vai dominar os espíritos no futuro, posso deduzir que eles têm razão — o futuro sempre terá razão — e eu estou completamente errado. Finalmente, entendi que o futebol de resultados venceu, pelo menos nos espíritos mais jovens. Vitória da subjetividade juvenil contra a minha obstinada nostalgia. Subjetividade objetiva, já que consenso da maioria dos pequerruchos. Enfim, caiu a ficha e peguei-a no chão — ficha feia e com a esfinge de Dunga. Faço, portanto, autocrítica. E, apesar da expiação crítica, ainda estou desorientado com o fato de a defesa do futebol arte ter-se transformado numa utopia. Mas quero reconciliar-me com o real. Quero entender. No fundo, subestimei o clima da época, pensando que as mentalidades continuavam as mesmas. Que nada! O pessoal quer mesmo é resultado; arte é frescura! Beleza, só beleza do feio! O antigo círculo… Como tudo isso aconteceu? Por que o estilo brasileiro de jogar futebol está sendo revisado e mesmo substituído? Faço aqui algumas hipóteses. A discussão sobre arte e resultado no futebol é antiga, mas, antigamente, não havia uma dicotomia quase absoluta entre os dois pólos. A discussão era mais nuançada, em que um dos lados era apenas enfatizado, isto é, ninguém negava a importância da arte ou do resultado, simplesmente alguns defendiam a prioridade de um em relação ao outro. A arte e o resultado, no futebol, eram pontos de um mesmo círculo: podia-se começar pelo resultado e terminar na arte ou o contrário: encetava-se pela arte e se chegava ao resultado. Assim, fomos tricampeões mundiais jogando um futebol eficiente, com resultados evidentes, e, ao mesmo tempo, belíssimo e baseado no espetáculo — do drible ao gol, arte e resultado eram duas faces da mesma moeda. Hoje, parece que o futebol tem que escolher entre...

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Sofrer é ter saudade

Imagem original: Rede Globo Artur Perrusi Artigo publicado no Blog dos Perrusi, em 15/06/2007 25 anos atrás… Bem, estava tetanizado diante da televisão. Queria chorar, mas não conseguia. Ante uma catástrofe dessa magnitude, geralmente fico esvaziado, em completo mutismo. Nada; não saía nada, a não ser silêncio. Tinha tomado todas — cego de tanta vodka; mas, agora, estava absolutamente sóbrio, careta feito uma porta. A televisão era o infinito, e eu  a olhava, hipnotizado. Ainda evitei uma briga entre dois amigos e, até hoje, não sei bem o motivo do imbróglio. Só sei que um queria pular na jugular do outro, e tive que impedir. Depois disso, todos ficaram na mesma situação, em silêncio, calados e vendo o tempo passar. Enfim, resolvemos ir embora. No caminho, vimos pessoas desesperadas, abraçadas e chorando, rasgando bandeiras, sentadas no meio-fio, perambulando pelas ruas feito zumbis. Recife estava trabalhando com muita dificuldade seu luto. O clima era fúnebre. No banco de trás, um dos amigos começou a chorar amiúde. O outro amigo pediu desculpa pela agressão passada, mas todos sabiam que não era por causa disso o choramingo. Era pela catástrofe. Foi a segunda maior tragédia do futebol brasileiro. Para a minha geração, foi a catástrofe; na história, ficou conhecida como o Desastre de Sarriá. Meu Deus, como eu amava aquele time! Como jogava bonito! Era arte, pura arte. Telê foi, antes de tudo, um esteta. Aquela derrota contra a Itália não teve apenas conseqüências nacionais; não, foi uma hecatombe de proporções cósmicas. Depois daquilo, o futebol mudou, enfeou e, com o tempo, virou business e puro resultado. Sinceramente, o que estava em jogo no Sarriá era o futuro do futebol. Quem ganhasse determinaria a evolução futura do esporte. Mas quem ganhou foi o catenacio, essa excrescência inventada pelos italianos. Vá lá, meus descendentes são italianos, mas como os detesto no futebol. Que jogo feio, que crime foi esse que cometeram? Como posso respeitar um futebol que acha 1×0 uma goleada? Os italianos jogam de forma fascista, ainda influenciados pelo longo perído mussoliniano. Não, não, mil vezes não! Mas não adianta lamentar: a arte, naquele momento, sucumbiu, virou uma mera resistência de românticos. O futebol brasileiro acabou ali. Um modo de jogar futebol foi-se, escafedeu-se, virou fóssil. Hoje, somos todos europeus —  a década de 90 e o último título mundial sacramentaram nossa europeização. 94, 2002? Certo, certo, tudo bem, mas não significam tanto para mim. Prefiro sinceramente 82, mesmo na derrota, mesmo perdendo. É uma questão...

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A mente de Charles

Artur Perrusi — Você vai fazer um texto decifrando a mente de Charles — disse o Editor-Mor, logo após o jogo contra o São Caetano.  — Eu?!… — Sim, você! — Mas… — Como “mas”? Você não é o maior defensor de Charles? — Fui o maior defensor de Charles… — Não importa. Você vai fazer mesmo assim, senão corto pela metade teu salário. — Você já cortou… — Então, corto a outra metade! Não tinha opção. O leite das crianças é sagrado. Meus três rebentos, Rivaldinho, Fumanchu e Nunes não podiam ficar sem o seu sustento. Assim, concentrei-me, repeti um mantra — volúpia, volúpia, volúpia — e tentei entrar na mente de Charles XVI. E… PUMBA! Isso foi o barulho da minha queda. Ao entrar na mente de Charles, bati num muro e caí da cadeira. Passei um tempo desacordado. Acordei, lentamente, e com uma baita dor de cabeça. Fui ao banheiro e notei, ao olhar para o espelho, um fio de sangue escorrendo do meu nariz. Credo, vai ser difícil entrar na mente de Charles. Como fazer tal coisa? Como ultrapassar aquele muro mental? Enquanto pensava sobre tais problemas, veio-me uma idéia fabulosa: preciso delirar! Sim, delirando, talvez possa entrar na mente do nosso técnico. O cabra não está nos deixando loucos?! Assim, quem sabe, a loucura revele os desígnios misteriosos de Charles. Mas, para tal, precisava de um potente alucinógeno. Ora, pensei, por que não tomar doses cavalares de Frevo? Afinal, além de vermicida, a Frevo alucina o cérebro. Na partida contra o São Caetano, por exemplo, tomei várias e, tenho certeza, tive uma espécie de surto psicótico: olhava o time e não via volantes. Teve uma hora que estava tão doido que vi Thiago Almeida jogando como volante!? Virei-me para Dimas e disse: — Carai, tô doido demais, tô vendo coisas: Thiago de volante! Foi então que notei a cara transtornada de Dimas. Seus olhos estavam rútilos de doidice. Nas suas mãos trêmulas, estava uma latinha de Frevo. Ele babava e repetia, baixinho: — não há volantes, não há volantes… Sim, era o efeito da Frevo. Peyote é fichinha na frente de nosso patrocinador. Era sem dúvida a solução. Tomando Frevo, poderia entrar na mente de Charles. Portanto, comecei a tomar. Depois da décima, o delírio tomou conta de mim. O Escudo do Santinha apareceu, sentou-se na mesa e disse, meio cochichando: — porra, não agüento mais...

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Um dia de Telão

Caricatura: Baptistão Charles XVI Artur Perrusi Eu defendi Charles XVI. Digo logo, assim, dessa forma e sem expiação. Gosto de chocar. Provocação é meu nome. Fui o defensor do nosso técnico, a ponto de ser condenado ao ostracismo pelos tricolores; passei horas no bar da piscina e fui ignorado por todos — falava: – Charles é o técnico! E todos mudavam de assunto, olhando para o lado, evitando meu olhar, constrangidos. Inclusive, defendi tanto o cabra, forcei tanto a barra, que vi meu salário ser diminuído pela metade pelo Editor-Mor do blog.   Confesso que é difícil defender essa estranha criatura. Talvez, pelo fato de ser psiquiatra, goste tanto de seres esquisitos. Charles XVI é um cabra moderado, calmo e prudente, mas não tem carisma algum. Parece aquele padre de confessionário que, ao aconselhar o penitente, faz o coitado dormir, roncar, sonhar, tudo, menos se arrepender. Quando fala, é impossível não bocejar. Possui uma voz monocórdica e monótona. Podia ganhar fortunas combatendo insônia, mas, não, preferiu ajudar o Santinha.   Minha hipótese é que Charles falou demais com o time, e isso deu sono. Assim, o time entrou sonolento, sem gana, quase parando. No intervalo, mais falação, e tome bocejo, gente dormindo em pé, usando a chuteira como travesseiro. Charles possui um poder mutante e não sabe. Devia falar com o outro time. Temos que dar um jeito de acontecer essa situação — leva-se Charles, sorrateiramente, para o vestiário do adversário, e tome falação, e será a pasmaceira geral.   Mas eu gosto de Charles XVI. Ainda acho que nos levará ao Céu. Certo, atualmente, a diferença entre o Céu e o Inferno é sutil. É uma questão de ponto de vista; afinal, tudo é relativo, embora o irmão bad de Charles, o Bento Alemão, tenha tentado demarcar novamente as fronteiras entre o Bem e o Mal. Não conseguiu, é verdade. E, em se tratando do Santinha, muito tempo ainda rolará até que saibamos a diferença, também porque, convenhamos, Charles capricha na confusão.   E até que caprichou na escalação inicial contra o MAC. Eu venho tão desesperado que pedia pouco, muito pouco: só queria que não escalasse Adauto. Pedido de pobre, evidentemente. E, quando soube que Charles XVI tinha escalado Cláudio, virei um pinto na merda, feliz da silva e dava gargalhadas sem motivo – borbulhava um riso louco. Meu raciocínio era simples e lógico: jogamos bem contra o...

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