Uma questão de valor

Digo logo o assunto do texto: as divisões de base (DsB). Considero-as fundamentais para a reconstrução do Santinha. Repito, porque a repetição é a forma mais simples e didática de se passar uma mensagem: fun-da-men-tal! Mas quero abordar aqui essa questão a partir de um ângulo diferente. Não quero, por exemplo, defender a importância das DsB do ponto de vista econômico. Tal defesa, que já fiz num outro texto, é um tanto consensual, atualmente. É fácil admitir, convenhamos, que as DsB permitem a sobrevivência financeira dos clubes brasileiros, por causa de sua dependência do mercado internacional de jogadores. Acho, inclusive, que a admissão desse fato banal torna-se, muitas vezes, uma apologia da mercantilização das DsB. Sinceramente, não desejo que os pratas-da-casa do Santinha tornem-se cifrões de chuteiras. Tenho minhas desconfianças de uma certa concepção de jogador profissional, visto como um empreendedor de uma carreira, na qual o único valor que importa é o dinheiro. Nesse sentido, quero discutir sobre moral. Sim, moral – sobre valores, logo, sobre a educação e a formação dos nossos jogadores. Acho que devem ser educados e formados numa visão profissional bem mais ampla do que aquela, dominante no futebol brasileiro, que faz o jogador uma máquina de maximização de interesses. Jogador precisa de valores, de vocação, de honra esportiva e, vejam vocês, precisa ser um cidadão. E, se estou falando de valores, digo que o jogador do Santinha necessita saber o que representa o clube; não só isso, ele precisa personificar os seus valores. E, quando falo de personificação, falo da interiorização de toda uma história de 95 anos e da reprodução ou realização da significação dessa história. Não é para qualquer um; na verdade, somente é para o jogador do Santa Cruz. Ora, falo de valores, mas quero explicar melhor meu argumento. Levo muito a sério o fato de o Santinha ser um clube popular. Na realidade, ele é o clube do povo pernambucano. Condensa, assim, na sua história, quase como um reflexo, a história, logo, os valores do povo pernambucano.Tal fato é de suma importância, mais ainda num estado de tanto elitismo, de tanta demofobia, de tanta opressão contra o povo, num estado que já foi sinônimo de escravismo. Certo, o povo pernambucano tem lá seus defeitos, mas tem sobretudo suas virtudes. E a maior virtude desse povão, que se percebe no cotidiano, é a capacidade de se levantar. Sim, ele cai, leva porrada, é derrotado,...

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Maturidade

  Creio que os jogadores do Santinha não mostraram apenas garra e sentido tático na partida contra a Coisa; não, mostraram algo mais, que diz respeito, inclusive, à política de contratações. Eles mostraram maturidade… Explico-me — afinal, não se pode escrever “maturidade” de uma forma leviana. Bem, maturidade, basicamente, em dois sentidos: a) os jogadores exibiram um controle emocional bastante evidente – quando jogavam melhor, aos 36 minutos, acontecia o gol da Coisa. 36 minutos do segundo tempo, cá entre nós, é um tempo fatal num clássico. É cheiro de derrota certa. É um penar que dura até o fim do jogo. Porém, logo em seguida, o craque do time perde um pênalti. Confesso que fiquei desolado, por mim, pela torcida e por Marcelo Ramos. Sua solidão diante do azar incrível era trágica como uma peça shakespeariana. Estava rendido ao peso do poder de uma trave. Mas os cabras não baixaram a cabeça – faz muito tempo que não via essa determinação, essa luta contra o destino. Sandro, por exemplo, era um inconformado, um Prometeu gritando “odeio todos os deuses”, principalmente a falsa criatura da FPF. Eles foram pra cima e conseguiram o gol. Reverteram o fado e transformaram a tragédia em alegria. Pois é, pessoal, fiquei místico, porque esse jogo deve significar alguma coisa (Coisa?! Ora, vá tomar no cu, Coisa!) – depois do pênalti, estava a ponto de dizer (aliás, disse, sim): “porra, isso só acontece com a gente”. Não aconteceu. É um sinal. Dobramos na esquina certa, depois de milênios de bifurcações calamitosas. São homens de ferro, esses jogadores. (Homens de ferro que fazem chorar homens de manteiga. No Arruda, os brutos também amam e… choram. Há cronista do TC que não assume a beleza de ser um dia uma… mulherzinha – hehe. Não foi um choro na solidão de um pobre estado. Chorou por tudo e por todos — todos os tricolores. Foi qual humano na alvorada entoa / Do Santa Cruz aos longes céus um hino /  E na riqueza dessa paixão que evoca / Já sua sorte com a dos sóbrios não troca) Continuando: b) profissionalismo e respeito ao clube. Salvo engano, os jogadores parecem ter um senso de profissionalismo acentuado. Parecem pessoas maduras, sabendo o que querem na profissão. Tive a nítida impressão que compreenderam o valor do clube e, sobretudo, da torcida. A desolação de Marcelo Ramos, quando do pênalti perdido, é um...

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Pra que serve o Pernambucano?

Um bode rouco como uma buchada Uma buchada rouca como um bode Um rouco como um bode e uma buchada Um bode buchado como um rouco Um rouco buchado como um bode Eis o sonho democrático do futebol pernambucano! Respondo logo, na bucha: pra dar título à Coisa. Vejam, farei uma confissão: faz tempo que acho o Pernambucano um saco. Tem tradição? Claro, não nego, diria até que ainda tem tradição. Mas esta, a tal tradição, vem se tornando apenas antiguidade, uma memória quase remota, daquela que sobrevive somente nos anais; além do que,  já está sendo suplantada por outra, um tanto vexatória: a tradição da péssima arbitragem, da tabela surreal, da organização incompetente, dos jogos insignificantes, dos campos horríveis, da gerontocracia que domina a FPF e, enfim, das incríveis facilidades (uso um eufemismo) que oferecem à Coisa nos maiores e, sobretudo, nos mínimos detalhes. As facilidades brotam que nem cogumelos em dias de chuva! (TC informa: facilidade = tipo de bônus que recebe determinado clube na forma de unidades de sacanagem — moeda corrente do futebol pernambucano — contra os adversários). Se alguém juntasse todas as facilidades, numa fila indiana, dariam cinco voltas em torno da Terra (pelos meus cálculos, dariam 74.863.670 de voltas no Arruda; em suma, são voltas e facilidades pra dedéu!). Porém, como deixar de participar do Pernambucano ou, pelo menos, encontrar uma alternativa mais ou menos complementar? Por enquanto, é impossível, pois não há alternativa no horizonte. Ficamos, então, num impasse? Nem tanto, pois será a política que contornará esse nó que estrangula nosso clube. Volto, assim, a um tema já abordado aqui no TC: a política externa do Santinha (aqui). Fazendo isso, volto à pergunta: qual seria a alternativa ao Pernambucano? Respondo, novamente, na bucha: o campeonato norte/nordeste de futebol. Para a minha resposta ficar mais clara, serei esquemático: Entre um Santinha x Ypiranga e um Santinha x Remo, prefiro o último. Tenho certeza de que o jogo seria melhor. E a rivalidade nem se fala. O retorno financeiro de um campeonato ou de uma copa norte/nordeste é incomparavelmente superior ao de um estadual, ainda mais este nosso organizado pela FPF. Lembro que a antiga copa nordeste, com seu sucesso financeiro e esportivo, ressuscitou a Barbie e o Fortaleza. Por ser um sucesso financeiro, a copa ou campeonato norte/nordeste, direta e indiretamente, afeta o poder da máfia dos 13, que é dominado pelos clubes do eixo....

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É o esquecimento!… (O quê?!)

A baba verde já caía da minha boca. Tinha tomado, momentos antes, uma dose cavalar de Olvidex 576 mg. Queria esquecer. Apagar tudo. Se de tudo fica um pouco, não queria ficar com nada. Pensava no prazer supremo do vazio. Que a memória se lascasse, imaginava extasiado. Pra que lembrar? Dizia e borbulhava um riso louco. Digo logo que dá barato essa medicação. Não gera metamorfoses, mas é bom e tem gosto de tutti frutti. Há a baba verde, é certo, mas é um efeito colateral irrelevante. Mesmo se doesse, valia a pena, pois o objetivo é o esquecimento. Além do mais, sou de escorpião, logo, sou aditivo. Sou capaz de ficar doidão até com papa de aveia (não, não coloco aspartame. Quem faz isso é Josias). E esquecer a desgraça do mundo dá prazer, podem crer, vão por mim, tão ligado?! Tomando Olvidex, você esquece tudo, até da mãe. _Oi, mamãe! _Não sou tua mãe, não, porra! _Ah, desculpe, eu me confundi… _Tua mãe tem bigode, carai?! Pois é, medicação boa e eficiente. Sem nada na cabeça, sem mesmo um resquício de lembrança,  meio como um reflexo, telefonei pra Dimas. _ E aí, como foi o jogo? _Que jogo? _Não teve jogo, ontem, não?! _Que ontem?! Incrível, Dimas esquecera tudo, até do dia imediatamente anterior ao de hoje. Suspeitei, por isso, que o Editor-Mor tivesse tomado Olvidex Plus, uma forma farmacêutica sólida, cônica ou cilíndrica, que se introduz pelo ânus e que, ao derreter-se, libera medicamento(s) a ser(em) absorvido(s) pelo reto. É uma bomba, cá entre nós. Esquece da mãe, do pai, do Espírito Santo, amém. Naquele momento, Dimas era um reles pé-de-alface; no mínimo, seu cérebro estava verde! Era compreensível, afinal, ele não tinha ido ao… Aonde?! Desliguei o telefone. Notara que Dimas já tinha esquecido a capacidade da fala. Estava feliz, o rapaz. Certamente, abriria os braços em busca da luz solar e, alucinado de alegria, riria todo empanturrado de fotossíntese. Tive uma certa inveja. Eu tinha esquecido, mas me lembrava que tinha esquecido alguma coisa. Coisa, que coisa? Ora, vá tomar no cu, Coisa! Não, não era do troço maldito — era do quê? Pensei em tomar Olvidex Plus, pois queria virar uma planta que nem Dimas. Mas só os corajosos tomam o Plus, e ainda não me esquecera do sambinha do Velho Morengueira “aqui só tem saída, entrada neca, never”! Fiquei cantando um pouco...

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É a paciência, estúpidos!

Calma, que chegaremos lá! _Paciência é uma virtude. Disse-me um velhinho, justamente  no momento que eu dava chutes numa máquina automática de refrigerantes. Colocara duas moedas na sacana, e nada, necas de pitibiriba do refrigerante. _Paciência, uma ova! E meu dinheiro?… Quando dizia “dinheiro”, o refrigerante caiu da máquina. Olhei o velhinho e ofereci meu melhor sorriso. E o velhinho me recitou: “Aprendi a respeitar as idéias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar. E já que estou em veia de confidências, faço uma ainda, talvez supérflua: detesto os fanáticos com toda a alma” (frase de Bobbio – TC é mais do que Cultura. É en-tre-te-ni-men-to!). _Beleza… _E digo mais – disse o velhinho perigosamente empolgado, pois empolgação de velhinho acaba com os ouvidos – sabe qual é o defeito dos fanáticos?! _Não… (porra, será que pensa que sou um fanático?!) _A pressa! Depois dessa invectiva, o velhinho olhou-me de cima a baixo, com algum desprezo, devo dizer, e se mandou. Ainda bem, pois não aguentaria muito tempo escutando sabedoria. Diante da ponderação e do bom senso, geralmente me deprimo. Além do mais… não era que o velhinho tinha razão!? Sou sim um fanático. Pelo Santinha, claro, o único fanatismo pacífico que encontrei até agora. Mas… e a paciência?! Será que tenho paciência no futebol? Com os cartolas, por exemplo? Há alguns lugares onde a baixeza própria à sociedade brasileira se acumula e se condensa. O futebol, certamente, é um desses locais de alta condensação de sacanagem. São lugares que nos levam a experimentar o caráter absurdo da enrascada na qual nos metemos. Quando olho o futebol pernambucano, tenho o sentimento de impotência e perplexidade. Bem, até acho isso tudo uma experiência crucial, que poderia inclusive ser didática, se existisse alguma oposição que fosse digna desse nome ou pessoas menos acomodadas com o poder. O mundinho de nosso futebol é tão pesado e intolerável que, dificilmente, alguém se anima a investigar o alcance de seus desmandos ou a especificar as bandalheiras reinantes com a paciência e a determinação necessárias. Não custa nada repetir que esse mundinho patrocina uma tolerância e uma simpatia no jornalismo esportivo, a ponto de desanimar qualquer espírito minimamente crítico. Acho que o velhinho iria gostar do parágrafo acima; afinal, ele não parecia de forma alguma um fanático, embora fosse contundente. Mas, e a...

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