Do nada para o nada, dando tudo em nada

Do nada para o nada, dando tudo em nada

Antigamente, perguntava-me se o futebol brasileiro tinha jeito. A resposta era imediatamente negativa. Era quase um reflexo incondicionado dizer “não”. Seria mais fácil o Cão da Menália parar de correr atrás da Lebre do que o futebol brasileiro tornar-se decente. Naquela época, tinha uma mania danada em perguntar. E, meio sem querer, aproveitei e perguntei do nada para o nada: e a prefeitura do Recife tem jeito? Acho que exagerei, pois até a Lebre parou e se arretou: _Carai, aí demais, né?! (traduzido do grego antigo). Sei que exagerei. Perguntaria até sobre a FIFA e o futebol mundial, mas tive pena do Cão e da Lebre. Afinal, sou politicamente correto e muito sensível a animais. Não consigo mais, por exemplo, comer galinha à cabidela. Penso naquele pescoço a sangrar e uma mão humana batendo o sangue numa tigela. Penso na ave a sofrer, esgotada, sem sangue e… tenho fome! Caramba, foi mal aí. Desculpe, ô Greenpeace, pelos meus apetites bárbaros. Voltemos à crônica esportiva e esqueçamos o sangue, o sofrimento das galinhas, a cabidela, aquele prato delicioso… (tlec, tlec,tlec, isso sou eu, teclando no teclado à procura de fantasias vegans. Procuro, na geladeira, um sorvete de manjericão. Huuum, é bom manjericão, não tem gosto de sangue, de galinha, de cabidela…) Bem… er… como dizia, o ideal, assim, é perguntar nada ou sobre nada. Pelo menos, não repetiria a mesma ladainha de sempre. No fundo, a repetição é a função da crítica esportiva no Brasil e no mundo: repetir, feito um moto-contínuo, as denúncias eternamente iguais contra a sempiterna corja de dirigentes. A culpa, na verdade, não é dos cronistas, e sim da realidade de nosso futebol. Se tudo se repete, a crítica necessariamente acompanha a repetição. A pobreza da crítica é a pobreza da realidade. Como escrever alguma coisa que preste sobre o futebol brasileiro, se o mesmo está passando por uma entressafra pobre e preocupante, se sua organização apodreceu de vez nas mãos dos nossos dirigentes malucos? O cronista coerente é o niilista inveterado que desconfia de todo otimismo e de qualquer crença positiva a respeito de qualquer ação decente dos atuais dirigentes do fut nacional. Ou seja: a coerência determina a rejeição de qualquer esperança de mudança positiva no futebol brasileiro. E o fim da Máfia dos 13, pergunta um cândido? É mais fácil o Cão da Menália, etc e tal, a Lebre, e por aí vai....

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A Greia

A Greia

Um rubro-negro disfarçado de boi emo   Adoeci, um tempo depois da memorável conquista. Não tenho mais idade para beber todo dia, suponho, assim de forma ininterrupta. Nem no carnaval, consigo mais tal proeza. O tempo não poupa nem os belos, dizia minha avó. Tenho saudade de meus tempos de menino. Agora, estou fraco com o álcool e peguei uma estupenda e extraordinária gripe. Sempre ficarei maravilhado e, ao mesmo tempo, temeroso com essa entidade chamada vírus, cuja natureza, se viva ou não, até hoje causa polêmica. Tão temeroso que, quando me perco na arrogância, lembro-me dos vírus, do poder imenso dos invisíveis, e retomo o caminho das sandálias japonesas (que foram até mais humildes, é verdade; no fundo, o mercado corrompe tudo). Trabalhei todos os dias de ressaca. Mente turva, mente feliz – o problema é a dor de cabeça, mas nada que um bom analgésico não dê conta do recado. Notei que meus queridos alunos paraibanos olharam, com certa curiosidade, seu professor, que estava com aquela cara de quem, naquela semana, tinha tomado todas e mais algumas, porque ninguém é de ferro. Mas intuíram imediatamente o motivo: o feito do Santinha saiu de Pernambuco para o mundo, inclusive para a Paraíba. Pela primeira vez, percebi uma intensa simpatia pelo Clube do Santo Nome. Normalmente, isso não acontece, pois os jovens paraibanos adotam, muitas vezes, a soberba dos times do sul maravilha, ainda mais insuflados pela arrogância da Globo. Confesso, assim, a minha agradável surpresa pela simpatia e até pelo entusiasmo com a vitória do Santinha. Os tempos estão mudando? Quem sabe, estejam seguindo o lema de um grande escritor brasileiro, Nelson Rodrigues: “Envelheçam, rápida e urgentemente!”. Para o nosso Eurípedes, o jovem tinha, além de todos os defeitos do ser humano, mais outro: a imaturidade. (Certo, por respeito à narrativa, atropelei a lógica, pois não há uma relação necessária entre a maturidade e ser um tricolor. Mesmo assim, continuo pedindo aos jovens, a todos os jovens, na verdade, que deixem de frescura e… envelheçam!) Na universidade, procurei todos os meus colegas rubro-negros e fui, um por um, meticulosamente, grear com suas caras. Fulano está dando aula em Educação – vou lá e tome gozação. Ah, sicrano fugiu e se escondeu em Física – não tem problema, o gracejo tem paciência e tem a força do átomo. _Ali, ali, no gramado, aquele boi não é um rubro-negro? Rapaz,...

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O maior título da Terra

O maior título da Terra

Há momentos na vida que você suspende tudo e pensa: rapaz, não é que vale a pena viver?! Posso até admitir que seja melhor sonhar do que viver – mas… e quando a vida coincide com o sonho? Já tentei até ser racional, perguntando-me por que diabos torço pelo Santinha. Pergunta cartesiana, absolutamente sem graça, retilínea pra dedéu. Ora, os caminhos até o Arruda são tortuosos, exceto a Beberibe, é claro. Foi assim que, um dia, olhei-me no espelho e perguntei na bucha: _Qual é a resposta, carai? O espelho me encarou, deu um sorriso matreiro e respondeu: _Qual é a pergunta, porra? Claro, não se pergunta em vão a um espelho. Não são os melhores interlocutores. Tudo ali é reflexo. Parece mais psiquiatra de saco cheio. Além do mais, diante do indizível, é melhor ficar calado. E, cá entre nós, eu sei qual é a resposta. Sempre soube. Até já respondi: torço pelo Santinha porque é um desses momentos raros no qual o sonho torna-se vida, e a vida, sonho. Sei, sei, é raro, muito raro. Mas, com a idade, adquiri a paciência e sei que vale a pena esperar – oh, sim, como vale! É preciso disciplina para se lidar com o que é raro e precioso, pois a esperança, nessas horas, é sacana. Aparece bonita e bem sedutora. E, com a sua amiguinha, a decepção, elas podem transformar a vida de um pobre torcedor num pesadelo – a série D, por exemplo. Por isso, tomo cuidado com essa vadia. Não quero morrer nobremente por uma causa, e sim viver humildemente por uma. Todavia, se tenho que morrer de forma sublime, que seja no Arruda, lugar de todas as causas impossíveis e inimagináveis. Torcedor é estádio. Tricolor é multidão. Quem for capaz de se entediar no Mundão lotado é um imbecil – repito e acrescento: imbecil e desprezível. Ali, o movimento da massa sacode o pensamento e as fibras; faz tremer a caixa de ossos. O tricolor, antes entorpecido e descrente, quando entra no Arruda, sente-se tomado pelo riso e pela mania nervosa ou pelo tormento amoroso ou pela alucinação da forma (tal fato acontecia muito quando tomava cerveja Frevo). Nesse momento, ele toma consciência de que está molhado de suor e com lágrimas nos olhos – tricolor chora e se emociona fácil, caros amigos. É uma manteiga derretida. Seria aqui, nesse exato instante, que descobre que...

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Jogo

Jogo

Fui ao jogo. Revi o Arruda, aquele colosso maltrapilho. Fui com Geo, por isso supus que o Santa perderia a partida. Estava conosco Ducaldo, um antídoto contra o azar. Rezamos antes da partida para garantir. Foi pela padroeira da Sagrada Tentação do Deserto. Reza difícil e cheia de mantra, a única forma de combater a alma de gato de Geo. Enchi a cara antes do jogo. Até hoje, lamento essa estupenda idiotice de proibir a bebida dentro do estádio. Bebe-se, de todo modo, nos arredores; bebe-se rápido, sem apreciação, de forma compulsiva. É uma baita hipocrisia beber antes e depois do jogo, mas nunca durante. A violência não está no álcool, está nas pessoas, nas torcidas organizadas. Enfim… Além disso, preciso beber, pois, quanto pior o time, maior a necessidade etílica. E, como o time é muito ruim, beber é preciso. E, convenhamos, entrar no estádio já meio tocado é uma vantagem, pois não se nota tanto a verdadeira bagunça que significa entrar no Arruda. Sempre tenho a impressão de que está lotado quando vejo a movimentação – ledo engano. Entra-se no sufoco para notar, lá dentro, que há ainda uma imensidão a ser preenchida. Mas, para não cometer injustiça, entramos facilmente na arquibancada. O negócio pegou feio foi nas sociais – sócio é uma categoria estranha no Arruda. Há uma relação de sadomasoquismo entre cartolas e sócios do clube. Caberia uma distribuição, na forma de brinde, de cilícios aos sócios, esses verdadeiros penitentes. Assistimos ao jogo de uma posição agradável. De quando em quando, alguns pingos de mijo, mas tudo numa boa. _Mijo, no fundo, é água – disse a Geo que reclamava horrores. _E estádio de futebol não é cinema, carai. Completava, defendendo esse colosso imundo, que é o Arruda. Sou sentimental e corporativo, nessas horas. Tentei ver o jogo. Era ruim pra danar, sem dúvida. Mesmo meio biritado, não adiantava negar que era uma pelada. O time está em formação, pensei. Ofereci a mim mesmo uma série de desculpas apaziguadoras. Por causa do Santinha, aprendi a ser Pollyanna, aquela menina debiloide capaz de ficar feliz até nos piores momentos da vida. Pois é… É preciso muita desgraça para, enfim, reconhecer que a desgraça existe. Pensei até em Laika, a cadela soviética, coitadinha, rodando lá em cima no espaço — que situação, muito pior do que a nossa, rodando aqui em baixo. Senti-me menos ansioso e, assim,...

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O Blog do Santinha morreu?! Viva o Blog do Santinha!

O Blog do Santinha morreu?! Viva o Blog do Santinha!

Entendo o motivo de seu fim. Blog de massa dá um trabalho imenso, principalmente quando é feito de forma voluntária — um dia, enche. Mas não foi apenas o saco que encheu. Blog cansa, mas vai-se levando, de alguma forma. Imagino outros motivos. Fico pensando, se escrevesse no BDS, o que me faria parar de escrever. Assim, ofereço minha opinião. Não é a do TC, nem do pessoal do BDS – não falei com ninguém do blog. Seria apenas minha avaliação da experiência do BDS. Faço-a porque, no fundo, as aventuras e as desventuras do blog foram também as de todo tricolor partidário de mudanças estruturais no clube. Inicialmente, era um blog de crônica. Sempre achei que isso fazia a sua força. As crônicas deram o tom inicial e permitiram seu sucesso. Colocar Samarone e Inácio juntos era, sem dúvida, garantia de qualidade. E o blog conseguiu de cara uma primeira geração de comentaristas de alta qualidade. Discutia-se o texto publicado, imaginem! Gente que entendia do clube, de futebol e que detestava o LEF. Na diferença, havia muita identidade entre o blog e seu público. O BDS conseguiu um fato raro no futebol: uma unidade na diversidade. Escrever crônica não é fácil. Precisa de transpiração e de inspiração. A inspiração precisa de um sopro divino. O Santinha é uma musa? Bem… er… é, sim. Seu passado, com certeza. Atualmente, o seu presente leva-nos aos caminhos tortuosos da tragédia. Em 2005, data da fundação do blog, era fácil escrever crônicas. O presente facilitava a inspiração. Foi aí que se abriu a grande janela da Utopia: de repente, parecia possível mudar o Santinha, democratizá-lo, profissionalizá-lo e outros babados. O blog entrou de sola e acreditou nessa Grande Possibilidade. A possibilidade, lembro a todos, não é a realidade, mas não deixa de ser uma, estando lá nas fronteiras da probabilidade, como esperança… Só precisa ser atualizada. Assim, a esperança passou a ser a nova musa da inspiração. A utopia foi virando distopia, e deu no que deu. O blog… na verdade, todos nós, fomos fragorosamente derrotados. Não paramos de dar murros em ponta de faca. Perdemos anéis e dedos. Não sobrou nada, apenas nossa dignidade. E dignidade não muda clube, nem mesmo sensibiliza torcedor. Depois da última e vergonhosa eleição, com a volta do LEF e de todos os tolinhos inimagináveis, o desalento tomou conta de vez do BDS. Mas o desalento...

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