30 jul 2008 3:00h
Constantemente, digo que o Santinha está entre o céu e o inferno. Digo isso pela manhã, naquela hora de encarar o espelho e o banho. Não é uma hora fácil, principalmente diante do meu reflexo. Acho que meu espelho é da Coisa, pois sempre ri da minha cara. Nunca é fácil encarar o dia, depois de receber uma gozação desse naipe, mas levo na esportiva. Algumas vezes, tenho mais tempo e sou mais paciente comigo mesmo; por isso, tento convencer o espelho de que ainda há esperança. Um dia, falei o seguinte: _espelho, espelho meu, vejo três alternativas, atualmente, para o Santinha. Meu reflexo parou, deu um risinho, fazendo algum suspense. Não dei bola e continuei com a argumentação.
“Primeira hipótese: o Santinha insiste nesse atual modelo de clube. Não acabará imediatamente, mas definhará de forma lenta. Será como aquele paciente com uma doença incurável que fenece, fenece, perdendo a vida, as cores, a alegria, até que, num dia chuvoso, o último tricolor decente (pois os canalhas e os tolinhos, como ratos, já terão pulado do barco) fechará seu caixão, retirando-se também para o esquecimento. O Santinha é uma crença e, como tal, depende da fé das pessoas. Os deuses antigos desapareceram, porque as pessoas que acreditavam neles sumiram da História. Com esse modelo de gestão, não há fé que remova montanhas, não tem crença, nem paixão que sustente o clube. O modelo é um câncer que acaba com o clube e só transmite sofrimento aos seus torcedores”.
Nesse momento, notei que meu reflexo estava cabisbaixo. Senti sua tristeza no outro lado do espelho. Mas queria continuar, até porque as outras duas hipóteses, embora improváveis, eram mais otimistas.
“Segunda hipótese: aparece um déspota esclarecido e toma o poder no Santa. É um cabra rico pra danar e, milagre!, tem uma mentalidade empresarial, embora extremamente autoritária. Do nada, surge o Berlusconi tricolor. O fascista que todos amam! Quem disse que modernização empresarial precisa de democracia? Quem disse que capitalismo é democrático? Empresa é empresa, contanto que dê lucro. E o Santinha na mão do capitalista iluminado daria lucro. E seria uma máquina de fazer e vender jogadores. Não haveria sócios, isto é, parceiros da construção do clube, e sim clientes. Sim, seríamos clientes de um espetáculo futebolístico”.
Minha imagem sorria. Todo reflexo guarda em si um pouco de fascismo. Por que não? Por que não sonhar com um Berlusconi no Santinha? Inclusive, daria menos trabalho. Venderia minha alma por um supersantinha, parecia dizer minha luz refletida. Com um Santinha superpotência, dominado por um déspota esclarecido, o Blog do Santinha e o Torcedor Coral continuariam na oposição? Meu reflexo já dava gargalhadas. Fiquei irritado e decidi falar da terceira hipótese, pois não me agüentava mais. E falei de uma forma mais pessoal:
“Terceira hipótese: na próxima eleição, acontece enfim uma verdadeira revolução democrática no clube. O Arruda vira finalmente uma República. Seríamos afinal uma nação restituída à graça dos deuses do futebol. A palavra-de-ordem seria modernização e o nosso brasão, “participação democrática”. Todo o esforço seria canalizado para resolver o seguinte problema: “como organizar a participação dos sócios nos processos decisórios do clube?”. E falo de participação qualitativa e não de assembleísmo, aquela mania de se fazer reunião por tudo, com muito blablablá e pouca eficácia administrativa. Sim, o clube mudaria muito, precisaria mudar muito. Mudaria seu estatuto, ainda autoritário. Acabaria essa divisão maluca entre clube e patrimônio. O conselho viraria nosso parlamento. O presidente, nosso primeiro-ministro. Os conselheiros, os verdadeiros representantes dos sócios – nossos deputados! Haveria representação de todas as posições políticas relevantes, inclusive das torcidas organizadas. Haveria eleição separada para o executivo e para o conselho deliberativo. Questão muito importante? Votação fundamental? Plebiscito! Todos os sócios votariam! E sócios pra danar, sócios pra dedéu! Uma multidão imensa! E o Santinha se reconciliaria com sua fundação e sua história, e voltaria aos braços do povo!”
Eu gritava. Estava apoteótico! Mas meu reflexo olhava-me de forma irônica. Não, não era ironia, era sarcasmo. Fiquei puto. Olhar-se sarcasticamente é o cúmulo da autocomiseração. Meu espelho desdenhava-me, simplesmente não acreditava no meu entusiasmo. No fundo, ele era um baita de um reaça. Calei-me, fiquei sério e me olhei olhos nos olhos. Fiquei intimidado com a severidade do meu olhar. Meu reflexo não agüentou e baixou a cabeça. Dei um tempo, e disse:
_Ei, cara…
Ele levantou a cabeça, olhou-me, tentou reagir, disse um palavrão, mas era tarde demais: eu mandava uma dedada a mim mesmo!
Ganhara a parada…
Escovei os dentes (a forma mais eficiente de se controlar o reflexo), penteei o cabelo e fui embora orgulhoso.
A próxima eleição será a mãe de todas as eleições.
Dedico a crônica à pequerrucha de Dimas e de Lena: Malu, a minha mais nova sobrinha tricolor.
"Todos admitem as melhoras, mas o negócio é 'o time'. Nem parece que há dois meses estávamos quase a ponto de fechar as portas."
Ducaldo, na sessão de comentários do artigo Crônica do amor demais, sobre os resmungos e críticas exageradas da torcida.




19 Comentários para "O espelho e o futuro do Santinha"
Artur,
Com todo esse clamor ANTI-DIMINUTIVO & CIA, essa 3ª hipótese só não se materializá desta feita se formos muito incompetentes mesmo. Acho que todos já cansaram dessa forma arbitrária de gestão e não se deixará este modelo se perpetuar.
Entretanto, cadê a LISTA DE SÓCIOS aptos a votar em dezembro ? O meu voto e o do meu filho não compactuará, com toda certeza, com as 2 primeiras hipóteses.
Mas, apesar de tudo, que DEUS, MAIS DO QUE NUNCA, NOS AJUDE nesse próximo pleito tricolor.
Bom dia, meu caro Artur Perrusi
Muito esclarecedor o seu texto. Assim como você, também acredito nessas três hipóteses para o futuro do Mais Querido, mas como disse o ilustre Torcedor Coral Próximo, Arnildo Ananias, compactuo com a terceira hipótese. Acredito que a maioria da Torcida Tricolor Coral Santacruzense também.
Todavia, cadê a LISTA DE SÓCIOS??!!
Com Honestidade e Transparência e um Projeto de Vida para o Bem do Santa Cruz Futebol Clube, acredito num quadro de sócios com não menos de 300.000 mil sócios em dia.
Acredite, não estou delirando!!!
É só darem uma chance para essa Nação Coral mostrar o quanto ela AMA esse clube.
Saudações Corais.
Torcedor Coral Distante, mas sempre presente.
A movimentação de inúmeros grupos de oposição, gente centrada convergindo para o discurso da efetiva democratização e da profissionalização da gestão, traz a possibilidade de uma tomada de poder e uma guinada histórica para o clube. Isso já é sentido por parte do “status quo” que certamente vai tentar uma composição: o clássico “perdem-se os anéis para não perder os dedos”. Ainda que haja concessões, acredito que não haverá como segurar o inexorável desenvolvimento da história, desde que os atores da mudança não se recolham para suas casas, antes ou depois da tomada do poder. Acho que o gigantesco Conselho previsto no Estatuto vai precisar de gente que tenha essa consciência de que vivemos um momento histórico, de que o Clube precisa da participação efetiva de muitos para mudar verdadeiramente, de outra forma o peso dos conservacionistas vai prevalecer. Não me iludo, ganhar a eleição vai ser muito mais fácil de que dar esse salto quântico na gestão do Santa Cruz.
Guardarei esse texto para reler em dezembro.
Todas as hipóteses são possíveis. Mas não vamos ficar parados à frente do espelho esperando ver o que vai acontecer.
Vamos à luta!
Hasta la victoria, siempre!!!!!!
Por sinal, o último cara que disse a frase acima se arrombou, mas concosco vai ser diferente, afinal, somos torcedores do Santa Cruz e não desistimos nunca.
Verdadeiramente inspirador! É com base na terceira hipotese que se formará o exército de tricolores contra os déspotas e coronéis arcaicos em busca de um Santa Cruz livre, forte e moderno.
Viva a Revolução Coral!
Bravo, bravo, bravissímo!
belo texto, mas peço permissão para externar o que penso, embora eu mesmo discorde do que penso.
Ora, mais que merda de pensamento!
Não acredito na 3ª hipótese, porém sonhe com ela todos os dias e noites, não ficaria nada triste com a 2ª hipótese e por fim infelizmente acho, prefiro usar a palavra ACHO, que a 1ª hipótese continuará tranquila sem ninguém para incomodar.
não podia ser hipócrita como a atual corja de diretores e negar meus pensamentos, mesmo não sendo os melhores.
Artur é doido, mas um doido visionário.
Não acredito na segunda hipótese, a não ser que o Santa jogasse na Europa.
A terceira é o sonho de qualquer tricolor. Uma mudança de pensamento, de atitude e situação. Se um grupo assim, com idéias modernas chegasse ao poder, o clube sofreria uma revolução.
A primeira hipótese, ao contrário da terceira, é o pesadelo de qualquer tricolor. Não há nada que nos deixe mais de cabelo em pé do que a manutenção do status quo. Só de pensar que o clube continuará dando guarida para canalhas e tolinhos, sinto vontade de subir na marquise do Arruda. Seria insuportável passar por mais dois anos de destruição do Santa Cruz.
Mas o fio de esperança vem das palavras de Milton Santos. O homem sabe o que diz, por isso, me apego às suas palavras como a única forma de me impedir de pular da marquise do Arruda.
Sauções corais,
Dimas Lins
Olhei para o meu espelho esta manhã. Nao Precisei perguntar nada. Apenas o olhei fixamente. Meu espelho sabe o que quero. De repente, meu espelho solta o veredicto, provavelmente inspirado em Drummond: “quer ir para a marquise, marquise nao há mais”
Nao quis entender os versos.
Não gosto de me olhar no espelho, seja por desprezo pela auto-imagem, seja por uma espécie de claustrofobia reversa. Faço previsões com borra de café.
Qual futuro me chega? Eleições fraudadas, conovência da imprensa, revolta por parte de alguns tricolores, omissão impotente de outros, e um “deixa pra lá” ansioso e esperançoso por parte dos demais; “deixa pra lá” embebido de auto-ajuda, aliviado com a ascenção do Santa para a série B.
É isso.
Grande texto.
Mas, infelizmente ainda não vejo a luz em dezembro, só a sombra e a escuridão de Mordor.
olha, realmente eu nunca tinha parado pra conversar comigo no espelho, eu adoro me olhar no espelho também e acho também que a eleição no santa cruz devia ser em dois turnos, pra gente poder analisar melhor.
Querido “Artur” ,
Atrás do espelho tem muito mais mistério do que pensamos.
Também acredito muito na possibilidade de acontecimento das três hipóteses, porém, a última seria mais gratificante para TODA TORCIDA E AMANTES DO SANTA CRUZ! A grande certeza que temos é que DA FORMA COMO O SANTA ESTÁ E VEM SENDO ADMINISTRADO É QUE NÃO PODE CONTINUAR!
Abraços meu amigo e saudações corais a todos !!!
>>> VIVA SANTINHA !!!!
Tendo em vista que o nosso apelo pela publicação da lista de sócios aptos a votar em dezembro não tem dado resultado, acho que devemos mudar o alvo.
Cobremos da imprensa!
Esse também o dever deles, cobrar explicações do que não vem sendo cumprido. Eu não vejo ninguém da imprensa fazendo um comentário sobre o assunto.
Vamos encher a caixa de email deles sugerindo a pauta e, quem sabe, abrindo o bocão em seus microfones.
Estou com Geó e Bosquímano.
A primeira hipótese está mais próxima do que deveria, a segunda não é factível e a terceira…..Bom, sonhar não paga imposto, mas costuma dar uma ressaca danada.
Um dia a casa cai? Talvez. Mas tenho cá minhas dúvidas se isso aconterá no próximo mês de dezembro.
Interessante o texto, porém a realidade é bem diferente disso tudo. As tres hipóteses são pouco provaveis que aconteçam.
Um clube como o Santa sempre passará por altos e baixos no percurso de sua história. O momento atual é dificil, porém vai passar e depois retornará. Logo a primeira hipótese é a mais dificil de acontecer. Um clube com a torcida que o Santa tem nunca vai sucumbir, pode no máximo adormecer para depois acordar em momentos melhores.
A segunda hipótese já aconteceu, mas é dificil ressurgir. Como já disseram aqui no blog, só se estivessemos disputando o campeonato Europeu.
A terceira é a hipótese que todos gostariamos, mas também infelizmente é muito pouco provável que aconteça. Nós somos muito bons no discurso, temos grandes ideias, temos blogs muito bem frequentados e comentados, mas infelizmente não temos o principal: poder de agir. Nunca temos ações que nos façam sair do lugar comum, tanto de quem está a frente do poder como também da opisição, se é que ela existe.
Na geração atual não há pessoas capazes de fazer realizar a terceira hipótese. Precisamos de individuos com grande capacidade administrativa. Não há ninguem com essas qualidades no Santa. Ou se há por favor apareça para nos tirar dessa paralisia eterna. Caso contrário viveremos sempre desses espamos ilusionarios de alegria que certos Jatobas nos proporcionam, para depois,retomarmos a nossa cruel realidade.
Somos um clube subdesenvolvido, com uma torcida de amor enorme mas que não move montanhas.
Santa Cruz eu te amo.
Sexta-feira passada, não sei por qual razão, vesti uma camisa do Santa e fui almoçar. Uns cruzeirenses (estou em MG) me abordaram perguntando de que time era aquela camisa. “Santa Cruz”, respondi. Um dos cruzeirenses se lembrou do time e fez o terrível comentário: “De Pernambuco, não é? Vocês se lembram? Era um time forte de Pernambuco. ‘Se acabou’ igual ao Juventus”.
- Não, o Santa não acabou não. Taí, tá jogando.
- Ah é? É que nunca mais ouvi falar… Tá em qual divisão?
Nem respondi. Fechei a cara e tentei me lembrar da camisa do Juventus. Não teve jeito, mas talvez seja porque minha memória é ruim.
Tá difícil, gente. Eu tô quase me conformando com a teoria de que somos todos masoquistas.
Ana, em 2006, ganhamos de 4×1 do Cruzeiro. Como as raposetes esqueceram dessa sova? Isso é papo. Desse jeito, dou-me o direito de esquecer que estamos na série C.
Cláudia,
Apesar da campanha rídicula do Santa na primeira divisão em 2006, os cruzeirenses não tem uma boa lembrança do Mais Querido.
Na primeira partida entre os dois naquele ano, o Santa perdia por 3 a 1 no Mineirão, quando empatou a partida.
No jogo da volta, no Arruda, com o nosso time já rebaixado e o deles lutando para ir a Libertadores, nós enviamos uma lapada de 4 a 1.
Certamente eles não se esquecerão do Santa tão cedo.
Saudações corais,
Dimas Lins
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