Constantemente, digo que o Santinha está entre o céu e o inferno. Digo isso pela manhã, naquela hora de encarar o espelho e o banho. Não é uma hora fácil, principalmente diante do meu reflexo. Acho que meu espelho é da Coisa, pois sempre ri da minha cara. Nunca é fácil encarar o dia, depois de receber uma gozação desse naipe, mas levo na esportiva. Algumas vezes, tenho mais tempo e sou mais paciente comigo mesmo; por isso, tento convencer o espelho de que ainda há esperança. Um dia, falei o seguinte: _espelho, espelho meu, vejo três alternativas, atualmente, para o Santinha. Meu reflexo parou, deu um risinho, fazendo algum suspense. Não dei bola e continuei com a argumentação.

“Primeira hipótese: o Santinha insiste nesse atual modelo de clube. Não acabará imediatamente, mas definhará de forma lenta. Será como aquele paciente com uma doença incurável que fenece, fenece, perdendo a vida, as cores, a alegria, até que, num dia chuvoso, o último tricolor decente (pois os canalhas e os tolinhos, como ratos, já terão pulado do barco) fechará seu caixão, retirando-se também para o esquecimento. O Santinha é uma crença e, como tal, depende da fé das pessoas. Os deuses antigos desapareceram, porque as pessoas que acreditavam neles sumiram da História. Com esse modelo de gestão, não há fé que remova montanhas, não tem crença, nem paixão que sustente o clube. O modelo é um câncer que acaba com o clube e só transmite sofrimento aos seus torcedores”.

Nesse momento, notei que meu reflexo estava cabisbaixo. Senti sua tristeza no outro lado do espelho. Mas queria continuar, até porque as outras duas hipóteses, embora improváveis, eram mais otimistas.

“Segunda hipótese: aparece um déspota esclarecido e toma o poder no Santa. É um cabra rico pra danar e, milagre!, tem uma mentalidade empresarial, embora extremamente autoritária. Do nada, surge o Berlusconi tricolor. O fascista que todos amam! Quem disse que modernização empresarial precisa de democracia? Quem disse que capitalismo é democrático? Empresa é empresa, contanto que dê lucro. E o Santinha na mão do capitalista iluminado daria lucro. E seria uma máquina de fazer e vender jogadores. Não haveria sócios, isto é, parceiros da construção do clube, e sim clientes. Sim, seríamos clientes de um espetáculo futebolístico”.

Minha imagem sorria. Todo reflexo guarda em si um pouco de fascismo. Por que não? Por que não sonhar com um Berlusconi no Santinha? Inclusive, daria menos trabalho. Venderia minha alma por um supersantinha, parecia dizer minha luz refletida. Com um Santinha superpotência, dominado por um déspota esclarecido, o Blog do Santinha e o Torcedor Coral continuariam na oposição? Meu reflexo já dava gargalhadas. Fiquei irritado e decidi falar da terceira hipótese, pois não me agüentava mais. E falei de uma forma mais pessoal:

“Terceira hipótese: na próxima eleição, acontece enfim uma verdadeira revolução democrática no clube. O Arruda vira finalmente uma República. Seríamos afinal uma nação restituída à graça dos deuses do futebol. A palavra-de-ordem seria modernização e o nosso brasão, “participação democrática”. Todo o esforço seria canalizado para resolver o seguinte problema: “como organizar a participação dos sócios nos processos decisórios do clube?”. E falo de participação qualitativa e não de assembleísmo, aquela mania de se fazer reunião por tudo, com muito blablablá e pouca eficácia administrativa. Sim, o clube mudaria muito, precisaria mudar muito. Mudaria seu estatuto, ainda autoritário. Acabaria essa divisão maluca entre clube e patrimônio. O conselho viraria nosso parlamento. O presidente, nosso primeiro-ministro. Os conselheiros, os verdadeiros representantes dos sócios – nossos deputados! Haveria representação de todas as posições políticas relevantes, inclusive das torcidas organizadas. Haveria eleição separada para o executivo e para o conselho deliberativo. Questão muito importante? Votação fundamental? Plebiscito! Todos os sócios votariam! E sócios pra danar, sócios pra dedéu! Uma multidão imensa! E o Santinha se reconciliaria com sua fundação e sua história, e voltaria aos braços do povo!”

Eu gritava. Estava apoteótico! Mas meu reflexo olhava-me de forma irônica. Não, não era ironia, era sarcasmo. Fiquei puto. Olhar-se sarcasticamente é o cúmulo da autocomiseração. Meu espelho desdenhava-me, simplesmente não acreditava no meu entusiasmo. No fundo, ele era um baita de um reaça. Calei-me, fiquei sério e me olhei olhos nos olhos. Fiquei intimidado com a severidade do meu olhar. Meu reflexo não agüentou e baixou a cabeça. Dei um tempo, e disse:

_Ei, cara…

Ele levantou a cabeça, olhou-me, tentou reagir, disse um palavrão, mas era tarde demais: eu mandava uma dedada a mim mesmo!

Ganhara a parada…

Escovei os dentes (a forma mais eficiente de se controlar o reflexo), penteei o cabelo e fui embora orgulhoso.

A próxima eleição será a mãe de todas as eleições.

Dedico a crônica à pequerrucha de Dimas e de Lena: Malu, a minha mais nova sobrinha tricolor.