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Digo logo: este é um texto utópico. Fora do lugar, embora o público seja concreto. Escrevo para uma instituição absolutamente abstrata, que só existe no nosso coração, e não para aquelas ruínas da avenida Beberibe - não escrevo de forma alguma para os destruidores do meu clube. Como escrever um texto, que discute o departamento de futebol e que faz algumas propostas, para os atuais dirigentes do Santinha?

A Revolução do Arruda pariu um rato, um bem pequeno, um ratinho, um diminutivo. Geralmente, as revoluções devoram seus filhos. São gloriosas e trágicas, ávidas de heróis e mártires. Nunca dão certo, apenas anunciam o futuro, através de um presente ensangüentado. Nossa revolução não teve sangue - cadê a auditoria? Nem anuncia futuro algum, apenas o velho, enfadado e eterno presente dos mesmos, dos mesmos, dos mesmos… E os filhos da Revolução do Arruda? Bem, não são nem dignos de serem devorados, exceto por uma Esfinge banguela. São, na verdade, filhos de Cândido e conseguiram fazer a proeza de desarrumar um grupo que se anunciava interessante: a Confraria Coral. Amigos, os cabras foram seduzidos pelo diminutivo?! É preciso ser muito carente para cair numa tal sedução - nem tomando Pitu!

Bem, destilei meu ressentimento (é bom e só faz bem) e passo, agora, a discutir algumas propostas para um departamento de futebol, com o enfoque dirigido às divisões de base. Inspiro-me de alguns artigos do Lorde Leo, principalmente daquele no qual ele fala sobre o Sevilha. Serei apenas esquemático, formulando pontos para a discussão e o aprofundamento da questão:

- sou contra a figura do técnico-manager, isto é, de um profissional que assuma, ao mesmo tempo, a direção do time e do departamento de futebol. Não temos um Alex Ferguson do Manchester United no Brasil, que junta as duas funções, muito menos no Nordeste. O técnico seria apenas um funcionário do departamento de futebol, que tem autonomia na gestão do time, é verdade, mas que segue as determinações do DF, inclusive na formação da equipe;

- o gestor do DF é o coordenador de uma equipe de profissionais, com um projeto definido de gestão esportiva. É um gestor que entende de futebol, e não um intermediário de jogadores como Ricardo Rocha.

- a prioridade do DF é a divisão de bases. Por diversos motivos, alguns óbvios - ofereço dois:

  1. os pratas da casa são o principal recurso financeiro, enquanto o Santinha, claro, não entrar na bolsa de valores;
  2. os pratas da casa fazem a mediação entre o clube e a torcida. São os orgulhos da torcida. Criam sentimentos de pertença nos torcedores, principalmente entre os mais jovens.

- o elenco deve ser composto de, no mínimo, 50% de jogadores oriundos das divisões de base.

- deve ser instituída a noção de carreira entre os jogadores da base. O jogador segue uma trajetória no clube, que vai do amadorismo ao profissionalismo. Sou a favor de, para cada estágio, um teto salarial. O Santinha é uma “escola” e um “trabalho”. No clube, os jogadores aprendem sua profissão, inclusive a sua deontologia, e a amar seu clube (sua camisa, sua história, seu presente e futuro…). Não só isso: no clube, os jogadores aprendem a ser cidadãos brasileiros. A divisão de base forma jogador e caráter. O Santinha é uma Paidéia

- o clube dará cursos de “empreendedorismo esportivo” para os pais ou os responsáveis dos jogadores, evitando os abutres, os famosos “empresários de jogadores”.

- haverá uma filosofia de jogo comum a todas as divisões de base. Não falo de jogar do mesmo modo, mas de respeitar as tradições futebolística do Santinha: jogo bonito, de muita raça e ofensivo. Quando o jogador chegar ao time titular, saberá como se portar em campo e, assim, não haverá a necessidade de adaptação, pois o time profissional jogará também de forma semelhante aos times de base. É o que fazia o Ajax da Holanda, sob o reinado de Cruyff.

- haverá um investimento considerável na formação de uma rede de olheiros com a atuação no Norte-Nordeste. O Santinha é o terror do Nordeste pelo fato óbvio de ser um clube nordestino que abriga jogadores da região.

- haverá um considerável esforço para a implementação de parcerias de todo tipo (prefeitura, ongs, clubes estrangeiros, etc e tal) para as divisões de base. O Santinha é o clube do povo de Pernambuco. Devem-se estimular todos os vínculos possíveis com a massa, principalmente com os setores mais pobres da população. O clube deve ter um trabalho social através de suas escolinhas de futebol.

O Santinha é um clube poderoso, e todo grande poder envolve uma grande responsabilidade, como já alertou o Homem-Aranha (hehe).