A necessidade da canalhice
Autor : Artur Perrusi | 20 de maio de 2009 | 0:10h | Sem categoria | 16 comentários

O grande Gerrá (re) lançou lá no Blog do Santinha a discussão sobre o estatuto. Acho essa discussão fundamental. Vejam, não me refiro apenas à democratização do clube; não, não só isso, na verdade, defendo que o estatuto seja um mecanismo anti-canalha. Sim, é meu sonho: com o estatuto, evitaremos a invasão contumaz dos pilantras no nosso clube. Mas, reparem, não defendo o canalhocídio - a purificação da canalhice no Clube do Santo Nome. Não sou como o Editor-Mor, esse Saint-Just da blogosfera pernambucana, que é mau feito um pica-pau. No fundo, defendo apenas a transformação do canalha em exemplo pedagógico para as criancinhas tricolores.
Explico: acho que, no Santinha, deveria existir um museu da canalhice. Seria um museu de cera, claro, ou de madeira, para os mais rigorosos, dada a quantidade exuberante de caras-de-pau no clube. Um grande museu — afinal, temos uma história rica em gatunices e sacanagens. Imagino o lado pedagógico dessa empreitada: os tricolores, levando seus filhinhos e filhinhas, num programa dominical, para verem os canalhas do Santinha! Diante daquela fileira de monstros morais e de aproveitadores da paixão futebolística, daquela galeria de safadeza oleosa, a criancinha teria medo, sem dúvida, mas sairia moralmente íntegra. Cochicharia no ouvido do pai tricolor:
_juro que não serei canalha, papai!
O pai ficaria hipnotizado, diante dessa pureza em três cores, e babaria uma baba bovina, uma baba elástica de orgulho. Vejam a diferença, senhoras e senhores, enquanto as criancinhas da Coisa educam-se pelo Manual da Máfia dos 13, esse compêndio de etiqueta sobre como passar a perna no outro, nós educaríamos as nossas pelo escracho de nossa canalhice.
Sim, não defendo o fim dos canalhas no nosso clube, e sim sua museologização, tão ligados?!
A importância educativa, repito, do canalha será fundamental para o futuro do Santinha. Será uma forma de preservar a integridade das gerações vindouras. Inclusive, sou da opinião que devemos ter uma cota minoritária de safados no Conselho Deliberativo — afirmação positiva dos tratantes. Eles teriam como função lembrar-nos que somos, afinal de contas, virtuosos. A canalhice como recordação da virtude, eis a questão. Por isso, é bom saber que ainda temos canalhas no nosso fórum maior. Esplêndidos canalhas, pode-se dizer, da cepa mais pura da canalhice tricolor – uma destilação do que se tem de mais infame no futebol pernambucano. Ora, sinceramente, não quero um bando de conselheiros tricolores cheios de virtudes. Não, meus amigos, a virtude pode ser bela, mas gera um tédio homicida. Um virtuoso é, antes de tudo, um sério, e a seriedade causa úlceras eternas. E minha idéia é simples e segura: transformaremos nossos atuais sacripantas em bufões, em beneméritos do nosso escárnio.
No entanto, um tricolor afeito em estórias rodriguesianas pode indagar:
_mas os canalhas escondem-se! É, praticamente, impossível descobri-los à luz do dia.
De fato, o tricolor tem razão. Como disse Nelson Rodrigues:
Até hoje, jamais apareceu alguém com bastante pureza interior para anunciar: “_Eu sou um canalha abjeto!” E que autorizasse: “_Cuspam-me na cara!” Vejam vocês — o homem é tão pusilânime que não quer ser cuspido nem por decreto. E já que nenhum canalha se apresenta como tal, é quase impossível caracterizá-lo.
Ah, que época aquela de nosso Eurípedes tupiniquim, o tempo dos canalhas escondidos. Ora, há um lugar no planeta onde a canalhice tem orgulho de si mesma, que bate no peito e diz bem alto, pra quem quiser ouvir, que é, sim senhor, um puto de um canalha! Este lugar ainda é o Santinha. Aqui, os canalhas só não pedem cusparadas, porque não são otários. Eles gostam mesmo é de dinheiro, de mufunfa fácil e bem servida, e sem muito esforço, porque a boa canalhice é preguiçosa.
Mas, atualmente, pelo menos até agora, e enquanto mantivermos a pressão, os canalhas são minoria — nossos diletos bufões. Podemos, assim, contemplar sem medo “a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista”. É um belo espetáculo. É lírico e, ao mesmo tempo, dramático. Faz-nos seres morais. Porque, para sermos honestos, precisamos dessa figura rica de contradições, que nos inflige tapas de luva na nossa face, antes insuspeita de pecado e luxúria. Precisamos ser, durante um instante, patifes para evitar a possibilidade da patifaria. Ao olharmos nossos velhacos, aos relembrarmos que a nossa venerável história produziu seres tão disformes, seremos mais prudentes e modestos. Teremos medo de repetir essa história, essa eterna farsa da canalhice.
Assim, devemos preservar nossos canalhas. Achincalhá-los e eliminar seu poder, mas preservá-los como produtos atávicos da evolução do Santinha.
_Porra, fomos assim?! Como pudemos?! — dirão os tricolores do futuro.
Sim, defendo um museu de cera da canalhice.
Sim, tenho um sonho: um estatuto anti-canalha.
E juro que, na próxima coluna, discuto esse assunto de uma maneira mais séria. Pois é, fui meio canalha na discussão…
Querem uma descrição genial e cínica dos canalhas no futebol? Leiam, então, três crônicas de Nelson Rodrigues a respeito do instigante assunto: “O juiz ladrão”, “Perfil do miserável” e “O canalha No 2″ no livro “O berro impresso das manchetes: crônicas completas da Manchete Esportiva 55-59″ — esse tema aparece várias vezes na obra de Rodrigues. Não causa surpresa, pois, para apreender a natureza moral do brasileiro, somente um cínico genial.
Nota da redação:
Por alguma razão, até o momento desconhecida, todos os comentários estão caindo na moderação. Estamos investigando o assunto, mas há indícios de que o blog foi invadido por algum canalha contrário ao museu da canalhice.
16 comentários
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Artur ataca mais uma vez com a sua caneta eletrônica mordaz. Ele é, por assim dizer, um canalha da literatura.
Mas acredito que os nossos canalhas são mais canalhas que os canalhas dos outros, pois estes, apesar de tudo, sabem que é preciso manter seu clube vivo para perdurar a canalhice.
Já os nossos são verdadeiros predadores e arracam uma por uma as penas da galinha dos ovos de ouro. Por isso, em nosso caso, não sobra pedra sobre pedra. Não há sequer a máxima malufista “rouba, mas faz!”. Não faz. Mesmo que isso custe a sua própria sobrevivência.
Assim, não posso deixar de associar os nossos canalhas à fábula do escorpião, que mesmo sabendo da morte iminente resolve dar uma ferroada no sapo, que o carregava nas costas para atravessar um rio, por causa de sua natureza. Nossos canalhas morrerão afogados em sua própria canalhice.
O instinto dos nossos canalhas, ao que parece, é maior do que a sua astúcia.
Saudações corais,
Dimas Lins
E nós, aqui, OS IDIOTAS DA OBJETIVIDADE, por causa desses canalhas vamos pagando o maior mico do Mundo numa série “D” (da qual, me acordo TODO DIA COM MÊDO, da incerteza se vamos sair dela) pois, como diria o OUVIDOR da CBF, só temos uma saída: É VENCER OU VENCER.
QUE DEUS NOS AJUDE MAIS DO QUE NUNCA!
Caros amigos,
Só temo que, em logrando êxito a idéia do museu dos canalhas corais, nosso clube reproduza o modelo distorcido da nossa sociedade brasileira, ou seja, o canalha, sentindo-se enaltecido, sinta-se orgulhoso de sua obra e faça escola, estimulando o surgimento de novos canalhas. Acho que a idéia de um museu é ótima. Mas, devemos construir réplicas de cera dos nosso heróis e abnegados tricolores. Aos canalhas devemos reservar seus lugares na história escrita, contada e repetida sempre, em lugar adequado neste museu, como a humanidade fez com o horror nazista e o holocauto, para que jamais tais episódios da nossa hitória caiam no esquecimento e corramos o risco de repetilos.
“Canalha da literatura” — gostei!
Luiz, o museu de cera poderia ser um museu de horrores — poderíamos colocar na entrada o dizer judaico: “perdoar, sim; esquecer, jamais” ou o dizer do cínico: “perdoar, nunca; escrachar, sempre”. Para as criancinhas, poderíamos distribuir bonecos dos canalhas, tipo os de Judas, para deleite e violência dos pequerruchos. Seria uma forma de “gastar” a agressividade dos pequenos.
Olaa Dimas esse site é cada vez melhor.É o lugar das cabeças pensantes do lado do Arruda!!
Ese Perrusi é pra varr sempre arrebentando no pots!!
Mas o post antrior de autoria do do Paulo Aguiar, inclusive, tomei a iniciativa de postar ele na coluna do Decio Lopes no globoeporte.com com o devido crédito a voces é óbvio!!!
Caro Artur
Interessante idéia, sugiro a localização do museu um museu a nas ante-salas de reuniões, onde, como disse Dimas, os nossos canalhas peparam suas ferroadas e discursos cretinos. Entre os visitantes deste museu também estarão os cretinos fundamentais, a erva daninha da mediocridade, que estarão a suspirar e apontar. ” Este era tricolor de verdade” , ” Este era madeira de dar em doido”, “Este era um abnegado”. “Aquele lutava pelo Santa Cruz, tinha um bocão”. Nossos canalhas podem até ser diferentes dos dos outros, mas nossos cretinos fundamentais são feitos do mesmo material.
sds tricolores
Dia desses o canalha mor tricolor estava naquele programa sofrível da globo que passa ás 2:00 da madrugada de segunda feira, apesar da emissora insistir em dizer que o programa é dominical. Esse merece uma estátua do tamanho do Holiday com uma placa: ” O maior canalha tricolor de todos os tempos, conhecido por toda torcida coral, também, como sugador e manipulador do povão. Jamais nos esqueceremos!!”
Perrusi,
Excelente o seu artigo! Faltou mencionar o Palhares, eterno canalha do universo rodrigueano, aquele que dava em cima da própria cunhada e tinha crises existenciais incríveis, kkkkkkk.
Abraços e parabéns.
HOJE TEM QUINTA SANTA!!!!!!!!!!!!
Falei com Dani que me garantiu que a Quinta Santa voltou pra ficar. Todas as quintas a partir das 18h no bar da piscina.
EU VOU, E VOCÊ?
Eita, claro, claro, esqueci-me completamente de Palhares. Valeu pela lembrança!
Outra diferença de época: um canalha pós-moderno não sente culpa. Come a cunhada e dá gritos de cachorro atropelado (hehe)
Nunes tocou num ponto importantísimo. Não podemos esquecer dos cretinos fundamentais, parcialmente responsáveis pela condução dos canalhas ao poder.
Esse museu tarja-preta seria muito útil.
Estamos entrando em consenso… Proponho um museu de cera com três alas: os canalhas, os cretinos fundamentais e os tolinhos (acho importante homenagear as bestas que ajudaram os canalhas e os cretinos).
E podemos até mostrar o diagrama da evolução das espécies: os tolinhos, os cretinos e os canalhas.
Agora, trabalho mesmo será catologar todos essas espécimes que passarão pelo Arruda. Um trabalho científico que levará, no mínimo, uma década.
Ah, depois de visitar o museu, os torcedores ainda podiam, se dessem sorte (ou azar) esbarrar com algum canalha pelos corredores. Aí já não seria visita, mas expedição.
Saudações corais,
Dimas Lins
Amigos corais, vocês podem até me enquadrarem como canalha,
mas sou contra a criação deste museu, no meu ponto de vista
isto é masoquismo e ao mesmo tempo estaríamos prestando uma
homenagem a canalhice.
Saudações corais.
Ou safari.
Quem sabe, um parque temático com brinquedos do tipo “tiro ao canalha”.
Haja cera para esculpir todo esse panteão macabro!