Conversa no zapzap

Conversa no zapzap

Era uma vez uma conversa. Tudo começou assim… _Assiste ao jogo aonde? _Estou em casa. Artur pensava que Dimas estivesse por aí, nalgum desvario, mas não, estava em casa. _É melancólico. Dois velhos em casa. De fato, era triste. Cada um na sua casa, e o mundo pegando fogo lá fora. _Tá com medo do fascismo? _Quero sair de vermelho. _Tu num tá doido não, rapaz! _Ou de Satanás. _Aí lascou geral. Artur pensou num mundo melhor, cheio de transexuais, com coxinhas podendo sair do armário, sem culpa e sem timidez. _Tá louco?! Cunha te mata. Mas Artur não tinha falado nada; só pensado. Pensar é pecado? Claro, Deus sabe de tudo. Mesmo no banheiro, Ele te vê. Silêncio. Como narrador, forço minha criação, justamente esta narrativa, caros leitores, ao silêncio. Pois tenho medo de pronunciar seu Nome em vão. O medo terrível de que, uma vez pronunciado, as contingências sem limites do jogo linguístico (metáforas, retóricas, etc. e tal) destruam niilisticamente o mistério da transcendência. _Será que Deus dá a opção de não acreditar Nele? Quem disse isso? Eu sou o narrador. Quem disse isso? Silêncio. Tudo bem, esqueçamos a querela agnóstica; mas, como Dimas tinha adivinhado o pensamento de Artur? O cabra pensa em transexuais, coxinhas, Felicianos, Malafaias (vai procurar!), e Dimas sabe de tudo. Como? Um mutante? Um X-Men? Como telepata, será que o Editor-Mor teria um caso com Jean Grey, a espetacular Fênix? Deve ser incrível! Uma paixão que incinera literalmente o coração. Mas… e Wolverine, e Ciclope? Dimas era páreo para esses dois? Sei não, pensou Artur. _Você acha que a cura gay melhoraria o Santa? Impossível, disse o narrador dessa crônica. _Oxe, se sou o narrador, quem narrou agora? Havia, de fato, confusão na autoria da narrativa. Tempos sombrios, pensou o teclado. Retomemos a conversa. _Botei umas cervejas pra gelar, mas ainda não tive coragem de abrir. _Isso é grave. Pior, sou eu, pois nem cerveja comprei. _Só abro uma, se o time me animar. Gastar cerveja à toa não dá… Assistir a time ruim, só bêbado ou drogado, suspirou Dimas. Artur imaginou-se logo no Uruguai, terra do bom e do melhor. Ou em Amsterdam! Sim, na Holanda! No Quartier Rouge! _Ao invés de uma dona da Tailândia, onze pernas de pau! Como Dimas adivinhava o pensamento de Artur? Talvez, porque Artur fosse sumamente previsível. E Dimas tem esse defeito: só diz a verdade....

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