O Santa Cruz não paga. Os jogadores não jogam

O Santa Cruz não paga. Os jogadores não jogam

Em 2001, o mais novo poeta do cenário futebolístico nacional, Vampeta, saiu com uma frase mais ou menos igual a do título desta crônica: “O Flamengo finge que me paga, e eu finjo que jogo”. Em certas proporções, esse é o Santa Cruz de hoje. O clube tem imensas dificuldades de pagar os salários dos jogadores e funcionários. Frases do tipo “O Santa Cruz vai pagar salários de 15 em 15 dias”, “O CT será construído em seis meses”, “As certidões negativas irão sair em 15 dias”, “Vamos requalificar o Arruda para 75 mil torcedores”, “Iremos contratar jogadores de série A”, “Já estamos praticamente fechados com o patrocinador” … não encontraram tanto respaldo entre os torcedores, mas serviram para criar – até agora – apenas sonhos e expectativas de um novo Santa Cruz. Agora, torcedor, imagine-se no lugar do jogador que está há praticamente 3 meses com salários atrasados ouvir, nos dias atuais, os gestores do clube falarem: “devemos aumentar a nossa folha de orçamento no futebol em 20%”, “já estamos com um patrocinador praticamente acertado”, “esperamos em junho colocar os salários totalmente em dia”. Eu, na condição de torcedor, fico aborrecido quando vejo muita conversa e pouco resultado. Nem imagino na condição de um funcionário do clube. Educadamente, o treinador Ricardinho deixou claro na entrevista após a derrota para o ABC que o atraso salarial é um problema sério no Santa Cruz. Eu acredito que seja, afinal, nas mesas de bar, dizíamos que com o mesmo time do Pernambucano nem subiríamos nem cairíamos, mas hoje o que se vê é o Santa Cruz, praticamente com o mesmo time, na Zona de Rebaixamento. Ou seja, se tudo permanecer como está voltaremos à série C. Ainda, o salário atrasado atinge tanto jogadores quanto o próprio treinador que passou a inventar moda e a ressurgir um esquema da década de 50 (4-2-4), reduzindo nosso melhor e mais criativo jogador a um “simples” cabeça-de-área. Falta muita coisa. Com pouco dinheiro e sem capacidade de atrair recursos financeiros, o time limita-se a ser apenas razoável, isso quando os atletas se sobressaem em campo. O cenário não é nada animar, caso sejam mantidas as condições atuais. Neste contexto, a minha teoria é simples: Pode pagar os salários em dia? _Não. Pode contratar jogador bom? _Não. Então, que se utilize os jogadores da casa! E que não se fale mais de um futuro distante sem sequer ter olhos para...

Leia Mais

Na marca do pênalti

Na marca do pênalti

Deixo de orbitar em torno do nosso umbigo para tratar do assunto mais importante do mundo esportivo nos últimos tempos: o futebol está coberto de lama na marca do pênalti. Sete dirigentes ligados à FIFA, Conmebol e Concacaf foram presos pela polícia suiça, a pedido da justiça americana, acusados de corrupção. Ainda recaem sobre dez dirigentes da FIFA suspeitas de recebimento de propina para escolha das sedes das copas do mundo de 2018 e 2022. Segundo as autoridades americanas, a investigação teve início nos Estados Unidos, porque o sistema bancário do país foi utilizado para a prática da corrupção no futebol. Entre os presos, José Maria Marín, atual vice-Presidente da CBF e ex-presidente da entidade no período de 2012 a 2015, Organizador da Copa do Mundo no Brasil, da Copa das Confederações, do Mundial de Clubes e do Torneio de Futebol Olímpico, é acusado de receber propina. As prisões revelam dados interessantes. A primeira delas trata da esculhambação que se tornou o envolvimento de empresas de marketing esportivos na aquisição e intermediação dos direitos de transmissão de TV. Nesta situação, a Traffic, empresa de José Hawilla, que já manteve com o Santa Cruz relações comerciais em torno do projeto sócio-torcedor, é ré confessa nessa mutretagem. A empresa já devolveu parte dos U$ 151 milhões obtidos através de rapinagem e, em breve, deverá devolver o restante. O segundo, o envolvimento do patrocinador esportivo oficial da CBF, não citado formalmente pelos investigadores americanos, mas que, segundo os sites esportivos do país, trata-se da Nike, em razão do período de assinatura do contrato citado no relatório de investigação. Terceiro, o envolvimento até o pescoço de dirigentes do futebol brasileiro em toda essa mamata, inclusive com recebimento de propina na transmissão da Copa do Brasil, é oportunidade única para passar a limpo o principal esporte do país e realizar uma faxina sem precedentes na CBF e Federações Estaduais, inclusive, com a reformulação do sistema de transmissão, distribuição de cotas de TV e privilégios de uns em detrimento de outros. Quarto, as autoridades americanas investigaram os envolvidos por 20 (vinte) anos, em absoluto sigilo, para, então, depois de colher as provas e evidências necessárias, realizar a prisão dos acusados. No Brasil, primeiro as autoridades prendem e divulgam informações sigilosas para então investigar. Quinto, como sonhador, me forço a imaginar uma investigação que passaria a limpo a história do Santa Cruz. Seria interessante tornar público a...

Leia Mais

Adivinhem quem escreverá essa crônica miserável…

Adivinhem quem escreverá essa crônica miserável…

Sentava-me no sofá quando aconteceu o primeiro gol. Achei estranho, até culpei o sofá. Foi então que calhou o segundo gol. Pedi desculpa ao sofá, nitidamente inocente na história, e fui à cozinha comer alguma coisa. Santana, a psicóloga de todos os tricolores, comentara comigo que banana combate a frustração. _ A banana, Artur, a banana, Freud comia banana, dissera Santana. Precisava de potássio, pois era o responsável para escrever a crônica do jogo e publicá-la no TC. Só potássio na veia podia me inspirar. Maldade de Dimas, claro; maldição do cabra, provavelmente. Ele é mau feito um pica-pau. Certamente, imaginara que o jogo fosse uma desgraça e deu a tarefa ingrata ao pobre coitado aqui . E foi, justamente, quando comia a banana, que aconteceu o terceiro gol. Foi inevitável, nesse momento, filosofar sobre o sentido da vida. Talvez, sacrificando tudo à volúpia, o pobre escriba, justamente aquele que vos escreve, jogado a contragosto neste triste universo, conseguirá semear algumas rosas sobre os espinhos da vida. Pensei em Scarlett, toda viúva negra nos Vingadores, e a volúpia se alumiou. Aproveitei e comi uma bolacha cream craker, aquela da Marilan, especial e bem tostada. Crunch, crunch, crunch… (para quem não sabe, esse sou eu comendo bolacha cream craker) E bebi um copo d’água e me senti empachado. _Cuidado com a mistura entre cream craker e água. É pior do que manga com leite. _Santana? Maldição, só faltava isso, escutava vozes, com nítido sotaque de clorofila. Sofria os efeitos delirantes de uma goleada no Santinha. Mas, de fato, estava empachado. Soltei um pum. Ri comigo mesmo. Para um time merda, nada como soltar um peido. E ainda é uma terapia eficiente contra o empachamento. E nem precisei tomar luftal. Aí que ia peidar mesmo. Voltei à filosofia e pensei em quanto os seres humanos são nojentos, com suas secreções e seus gases. Especulando os recônditos da metafísica, comecei a voltar ao Real e me aproximei, bem devagarinho, da TV. Passo a passo, para evitar um novo gol. Vai ver que dava azar. Se antes delirava, agora estava místico, uma condição logicamente posterior ao delírio. Não houve gol. Abri um sorriso de esperança. Porra, sou tricolor, torcida do carai, bradei aos quatro ventos e soltei outro pum. Recitei um mantra: “talvez, muito pior seria se pior fosse”. Gosto dele. Mistura poliana com rivotril. Olhei enfim o jogo. Era uma coisa de nunca mais se ver,...

Leia Mais

Pitaco da rodada

Pitaco da rodada

A equipe do Torcedor Coral não tem bola de cristal, mas gosta de meter a colher, inclusive, em briga de marido e mulher. Por isso, mais uma vez, resolveu jogar dados e búzios para cima e dar um pitaco no placar dos jogos do Santa Cruz na Série B. Nosso índice é de quase 100% de… erro. Mesmo assim, a gente não desiste. Confiram o placar do jogo na opinião dos editores e cronistas e escrevam suas opiniões na seção de comentários: Dimas Lins Estou perdido na mata e de repente vejo um clarão. Na minha direção, uma samambaia corre com as mãos para cima. Não sei se é o sol a pino ou se botaram alguma coisa na minha clorofila. A samambaia se aproxima, mas não é uma samambaia, apenas um torcedor do América/MG vestido com o uniforme do clube e correndo com a mão na cabeça para não perder o juízo. Sim, tive uma visão. Placar: América/MG 1 x 2 Santa Cruz Paulo Aguiar Mais lúcido em campo, o craque do pernambucano, João Paulo, evita a derrota coral. Placar: América/MG 1 x 1 Santa Cruz Artur Perrusi Ricardinho escala um cachorro, pensando que era um cavalo e ganha o jogo. Placar: América/MG 0 x 2 Santa Cruz Nó Cego Isso é um lote de frouxos! Vão se cagar todinho jogando fora de casa! Bando de fuleiros! Placar: América/MG 2 x 0 Santa Cruz Manoel Valença, o Manequinha Imagino o Arruda gritando ensandecido: “Ão, ão, ão, meu atacante é cachorrão!”. A dupla Cachorrino (Cachorrão e Anderson Aquino) deslancha orquestrada por João Paulo. O Santa vence depois de tomar um gol besta e perder uns quatro gols de cego. Placar: América/MG 1 x 2 Santa Cruz Santana Moura O Santa é uma constelação: brilha mais que uma estrela! Placar: América/MG 1 x 2 Santa...

Leia Mais

Com a corda toda

Com a corda toda

Os editores e cronistas do Torcedor Coral, por vontade própria — todos sabem — exilaram-se. Foram tantos anos pisando e repisando as coisas do Santa Cruz, que se criou um oco mental e se instalou uma enorme preguiça nas mãos. Poucos têm essa capacidade de deixar a mente vazia, reconhecemos. Eis nossa melhor virtude. Primeiro, veio a desaceleração, depois, enfim, a parada total. Por um bom tempo respiramos por aparelhos. O resultado dessa paralisia reflete-se agora no tempo em que escrevo: falta ritmo, os dedos entrevaram e, no cérebro, só teias de aranha. Fisioterapia e voltar ao Arruda ajudaram a reacender a velha chama. Escrever, como tudo na vida, requer exercício. A prática vem da repetição; as ideias, de usar a cabeça em coisas úteis, ou inúteis, como no nosso caso. Estalo os dedos, enquanto espremo uma gota de pensamento e uma voz sussurra que ainda há muito o que dizer do Santa Cruz. Imagino fantasmas do passado cobrando a conta da vadiação, mas logo soube que não podíamos escapar da verdade, que crescemos venerando essas cores numa mistura secular entre o profano e o sagrado, entre a farra e a devoção. Não há como, então, desvencilharmo-nos daquilo que nos impregna. Por isso, a ociosidade termina agora. O TC hoje retorna ao universo virtual para fazer o que sabe: falar do Santa Cruz. O retorno, que amadurecia aos poucos, foi praticamente selado no final do campeonato pernambucano. Se não cansamos do Santa Cruz nos piores momentos de sua história, por que cargas d’água cansaríamos agora que voltamos a ganhar competições? É melhor ser alegre que ser triste, já dizia o poeta. Há muito o que fazer nas Repúblicas Independentes do Arruda e o TC quer meter a colher. É preciso provocar, reformular, modernizar. É preciso confundir para então esclarecer. Nosso papel está na primeira parte desta oração subordinada. Também é preciso brincar. Por isso, o nosso retorno aconteceu num encontro etílico de editores, cronistas e amigos no Paraíso Tricolor, jardim da nossa querida Santana Moura e de Toy, o casal mais acolhedor do universo, como bem disse Perrusi já com a língua engrolada. Os encontros anuais, é justo dizer, aconteciam próximo ao 06 de dezembro, data do aniversário do TC, mas, em 2014, passou batido, sintoma de que algo estava mesmo fora de ordem. Em dado momento, foi Artur, confundindo uma samambaia com Santana, reflexo das mudanças químicas na corrente sanguínea, quem filosofou...

Leia Mais