Torcedor Coral | 2008 julho

Torcedor Coral

Arquivo para 31 de julho de 2008

“O Santa Cruz não vai passar da primeira fase.”

Fernando Veloso, um dos candidatos da oposição, 3 meses atrás no programa Lance Final da Rede Globo, por hora, errando na previsão de mais um desastre da atual gestão.

O espelho e o futuro do Santinha

Constantemente, digo que o Santinha está entre o céu e o inferno. Digo isso pela manhã, naquela hora de encarar o espelho e o banho. Não é uma hora fácil, principalmente diante do meu reflexo. Acho que meu espelho é da Coisa, pois sempre ri da minha cara. Nunca é fácil encarar o dia, depois de receber uma gozação desse naipe, mas levo na esportiva. Algumas vezes, tenho mais tempo e sou mais paciente comigo mesmo; por isso, tento convencer o espelho de que ainda há esperança. Um dia, falei o seguinte: _espelho, espelho meu, vejo três alternativas, atualmente, para o Santinha. Meu reflexo parou, deu um risinho, fazendo algum suspense. Não dei bola e continuei com a argumentação.

“Primeira hipótese: o Santinha insiste nesse atual modelo de clube. Não acabará imediatamente, mas definhará de forma lenta. Será como aquele paciente com uma doença incurável que fenece, fenece, perdendo a vida, as cores, a alegria, até que, num dia chuvoso, o último tricolor decente (pois os canalhas e os tolinhos, como ratos, já terão pulado do barco) fechará seu caixão, retirando-se também para o esquecimento. O Santinha é uma crença e, como tal, depende da fé das pessoas. Os deuses antigos desapareceram, porque as pessoas que acreditavam neles sumiram da História. Com esse modelo de gestão, não há fé que remova montanhas, não tem crença, nem paixão que sustente o clube. O modelo é um câncer que acaba com o clube e só transmite sofrimento aos seus torcedores”.

Nesse momento, notei que meu reflexo estava cabisbaixo. Senti sua tristeza no outro lado do espelho. Mas queria continuar, até porque as outras duas hipóteses, embora improváveis, eram mais otimistas.

“Segunda hipótese: aparece um déspota esclarecido e toma o poder no Santa. É um cabra rico pra danar e, milagre!, tem uma mentalidade empresarial, embora extremamente autoritária. Do nada, surge o Berlusconi tricolor. O fascista que todos amam! Quem disse que modernização empresarial precisa de democracia? Quem disse que capitalismo é democrático? Empresa é empresa, contanto que dê lucro. E o Santinha na mão do capitalista iluminado daria lucro. E seria uma máquina de fazer e vender jogadores. Não haveria sócios, isto é, parceiros da construção do clube, e sim clientes. Sim, seríamos clientes de um espetáculo futebolístico”.

Minha imagem sorria. Todo reflexo guarda em si um pouco de fascismo. Por que não? Por que não sonhar com um Berlusconi no Santinha? Inclusive, daria menos trabalho. Venderia minha alma por um supersantinha, parecia dizer minha luz refletida. Com um Santinha superpotência, dominado por um déspota esclarecido, o Blog do Santinha e o Torcedor Coral continuariam na oposição? Meu reflexo já dava gargalhadas. Fiquei irritado e decidi falar da terceira hipótese, pois não me agüentava mais. E falei de uma forma mais pessoal:

“Terceira hipótese: na próxima eleição, acontece enfim uma verdadeira revolução democrática no clube. O Arruda vira finalmente uma República. Seríamos afinal uma nação restituída à graça dos deuses do futebol. A palavra-de-ordem seria modernização e o nosso brasão, “participação democrática”. Todo o esforço seria canalizado para resolver o seguinte problema: “como organizar a participação dos sócios nos processos decisórios do clube?”. E falo de participação qualitativa e não de assembleísmo, aquela mania de se fazer reunião por tudo, com muito blablablá e pouca eficácia administrativa. Sim, o clube mudaria muito, precisaria mudar muito. Mudaria seu estatuto, ainda autoritário. Acabaria essa divisão maluca entre clube e patrimônio. O conselho viraria nosso parlamento. O presidente, nosso primeiro-ministro. Os conselheiros, os verdadeiros representantes dos sócios – nossos deputados! Haveria representação de todas as posições políticas relevantes, inclusive das torcidas organizadas. Haveria eleição separada para o executivo e para o conselho deliberativo. Questão muito importante? Votação fundamental? Plebiscito! Todos os sócios votariam! E sócios pra danar, sócios pra dedéu! Uma multidão imensa! E o Santinha se reconciliaria com sua fundação e sua história, e voltaria aos braços do povo!”

Eu gritava. Estava apoteótico! Mas meu reflexo olhava-me de forma irônica. Não, não era ironia, era sarcasmo. Fiquei puto. Olhar-se sarcasticamente é o cúmulo da autocomiseração. Meu espelho desdenhava-me, simplesmente não acreditava no meu entusiasmo. No fundo, ele era um baita de um reaça. Calei-me, fiquei sério e me olhei olhos nos olhos. Fiquei intimidado com a severidade do meu olhar. Meu reflexo não agüentou e baixou a cabeça. Dei um tempo, e disse:

_Ei, cara…

Ele levantou a cabeça, olhou-me, tentou reagir, disse um palavrão, mas era tarde demais: eu mandava uma dedada a mim mesmo!

Ganhara a parada…

Escovei os dentes (a forma mais eficiente de se controlar o reflexo), penteei o cabelo e fui embora orgulhoso.

A próxima eleição será a mãe de todas as eleições.

Dedico a crônica à pequerrucha de Dimas e de Lena: Malu, a minha mais nova sobrinha tricolor.

  • 19 Comentários
  • Categoria: Artigo
  • Uma classificação sem sal

    Jogo decisivo, pedi licença a Maria Luíza, minha filhinha de 15 dias de nascida, e fui ao Arruda. Como Belchior, andava mais angustiado que o goleiro na hora do gol, por isso, fui praticamente forçado por mim mesmo a ir ao estádio. Fui bem ao estilo vai-e-volta, mas fui. Quando Malu estiver um pouquinho mais velha, entenderá as razões do pai.

    Ainda pela manhã, fui comprar o ingresso e, pela primeira vez, vi a camisa do time fabricada pela Champs. Achei um desrespeito o desenho do escudo. A Champs transformou o maior símbolo do clube em preto, cinza e vermelho. Além de horrível, a mudança fere o estatuto e descaracteriza o escudo do Santa Cruz. Talvez o cinza seja para combinar com essa gestão que só faz trapalhada. Não bastasse levar o Santa tão baixo, eles também mudaram nossas cores. Não compro essa camisa por nada nesse mundo. E sugiro um boicote até que consertem aquela coisa medonha.

    Já à tarde, na entrada das sociais, encontrei Maneca otimista, por causa do último jogo em Caruaru. As campanhas de 2006, 2007 e 2008 do Mais Querido são obstáculos para que eu mantenha a esperança em fogo alto. Mas a avaliação de Maneca não foi apenas o sinal de um desejo acima da razão. Ele esteve em Caruaru e viu um time brigador, apesar de suas limitações.

    Como combinado, encontrei Artur no estádio. Horas antes, por telefone, nosso nobre psiquiatra dava sinais de ansiedade em estado latente. Artur chegou a propor luto no blog, caso o Santa não se classificasse para a próxima fase e arrematou dizendo que não teria mais condições de escrever qualquer coisa sobre o Santinha, em circunstâncias tão tenebrosas. Sugeri que ele tomasse algum de seus preparos especiais, como Rivotril com coca-cola ou cana com gás.

    Quando o jogo começou, achei o Santa voluntarioso, mas apenas isso. Perdemos uma enormidade de gols no primeiro tempo embaixo da barra e também passamos de levar alguns quase nas mesmas condições. Acredito que a nossa defesa é a pior de toda a terceirona. Mesmo assim, o placar moral do primeiro tempo seria 15 a 10. Mas bola que não entra não vale nada. Nesse contexto, vi que nosso time continua uma grande bosta. O Campinense também me pareceu outra bosta, mas era uma bosta mais organizada do que a nossa. Série C é assim mesmo, tudo é uma bosta só.

    O segundo tempo continuou ruim e, por um momento, o resultado de Mossoró nos deixou preocupados. Como bem disseram Artur e Geó, o Central é mesmo uma filial da coisa. Só dá raiva. Custava perder só de um a zero? Não. Tinha que ser de uma forma que nos deixasse com a pulga atrás da orelha. A patativa já vai tarde. No final, deixamos de ganhar por dois pênaltis não marcados pelo Juiz: um no primeiro tempo, em cima de Patrick, e outro no segundo, em cima de Edmundo. Os juízes da Série C também são outras bostas. A terceira divisão definitivamente não cheira bem.

    Quando a partida terminou, não me senti aliviado pela classificação. Fiquei com a velha sensação que só temos a torcida e nada mais. Artur também não me pareceu aliviado. Ficou de escrever uma ode ao palavrão, narrando seus sentimentos durante a partida. Disse ele que começaria o texto mais ou menos assim (em expressão mais direta, evidentemente): “tiramos uma das extensões finais, móvel e articulada da mão do orifício da extremidade inferior do intestino grosso, por onde são expelidos os excrementos”. Tomara que ele escreva. Às vezes, só soltando os bichos para agüentar o Santinha na terceirona. Além do mais, este não é um blog de freiras, nem de barbies ou suzies.

    Voltei para casa dizendo a minha filhinha que vencemos por cinco a zero. Desde que ela nasceu, qualquer gol será do Santa e venceremos todas as partidas, seja quais forem os resultados. Será assim até que o seu amor pelo clube se torne incondicional. Como o meu por ela.

    “É O Mais Querido que, só de não causar tristeza, já traz alegria!”

    Paulo Aguiar, na seção de comentários do artigo Alguém sabe explicar o amor?, sobre o jogo contra o Central, em Caruaru.

    Alguém sabe explicar o amor?

    Certa vez, fui ao casamento de um primo meu e o padre perguntou ao noivo o que ele sentiu quando viu a noiva pela primeira vez. De pronto, meu primo respondeu: “alguém aqui sabe explicar o amor?”. Nunca me esqueci dessa frase, principalmente porque na primeira vez que ele a viu, tenho certeza que não a amava, queria apenas ficar com ela e ponto final.

    Ontem, nas arquibancadas do Luiz Lacerda, veio-me novamente essa frase na mente. Se qualquer filósofo, psicólogo, psiquiatra quiser explicar o amor, tem obrigação de começar pelo amor de nossa torcida pelo nosso Santa. Minha gente, a cada dia me surpreendo mais conosco. Que coisa linda, que festa linda! Isso sim é amor de verdade. Como falar de amor sem falar do amor pelo nosso Santa? Às vezes me pego pensando como estaríamos, se nosso time fosse tão grande e comprometido como nós somos. Como estaríamos com uma diretoria profissional. Amigos, não sei se vocês repararam, mas o Central, com medo de ser roubado por um juiz pernambucano, exigiu um juiz de fora e foi atendido. A diretoria do Central é muito mais eficiente, dinâmica e comprometida que a nossa. Aliás, a diretoria do clube de sinuca do Sítio do Pica Pau é melhor que a nossa.

    Mas deixando isso um pouco de lado, vamos falar de nossa saga até a terra de Vitalino. Fui mais uma vez na excursão organizada pela amiga Dani, ela mesma, a famosa e já sócia da RCR locações, Dani Tricolor. Pense numa cachaça empurrada que nós tomamos. Eu estava torando o aço com o jogo, mas todos que estavam no ônibus eram categóricos: “hoje, ganharemos!”. Duas paradas para pit stop alcoólico e um bacolejo da polícia depois, chegamos a Caruaru.

    Entrando no estádio, assisti a um Santa Cruz diferente. Era notório o dedo do treinador no time. Ontem vi esquema, vi armação, vi sobra de bola, cobertura, enfim, vi futebol profissionalmente jogado. Em minha opinião, ontem fizemos a melhor partida da série C. Porém, mesmo estando bem postado e bem montado, as falhas individuais ainda comprometem muito. Foi assim na expulsão do zagueiro e no pênalti infantil. Esse é o problema de sempre jogar no limite. Com o time limitado tecnicamente, os jogadores sempre jogam o máximo que podem (que por muitas vezes ainda é pouco) e estão muito mais sujeitos ao erro, e, quando os erros acontecem, são quase sempre fatais.

    Conseguimos um bom empate. Tivemos postura. O goleiro cada vez transmite mais segurança à equipe e ao torcedor. Alexandre cada dia joga mais e mostra mais que é o dono do time, dizem até que ele chegou para Marco Antônio na hora do pênalti e prometeu um xampu para cabelos loiros se ele perdesse a penalidade. Juninho jogou muito até onde o pulmão agüentou. Edmundo perigoso como sempre. Patrick ficou meio isolado sem o Bob Esponja, mas, resumindo, fomos muito melhor do que eu esperava.

    Tivemos uma dose de azar de ter uma expulsão justamente um minuto depois que Bagé mexeu no time, tirando um volante e colocando um atacante ainda no primeiro tempo. Aliás, esse Bagé deve ser analista mesmo, pois, ele enxergou certinho, não tinha necessidade de três volantes, já que o Central não chegava. Por outro lado, a defesa do Central estava um buraco e fazer um gol era questão de tempo. Na substituição, vi que ganharíamos o jogo e que esse Cléo é bom jogador. O ataque tem que ser Cléo e Edmundo. Mas, não deu um minuto de esperança e o zagueiro faz uma merda daquelas e destrói tudo.

    Tivemos sorte pelo Central deixar Marco Antônio bater o pênalti. Jogamos bem, com inteligência e compensamos a falta de qualidade com muita aplicação e garra. Jogando como jogamos ontem, não imagino esse time perdendo de Icasa e Salgueiro. Aliás, aquele 3×0 contra o Potiguar foi, em minha opinião, motim para derrubar o treinador.

    Acabado o jogo, a volta para Recife era só felicidade. Aliás, é impressionante como um ônibus consegue só feder a peido e cachaça na volta. E ronco? Acho até que Bagé podia usa isso nas preleções: “se perder, volta de ônibus com a torcida!”.

    Que venha domingo. Nossos 25 mil apaixonados que conseguirem ingressos estarão ansiosos e acho que, em termos de campeonato, o pior já passou. O mais difícil foi superado. Sorte de um time que tem uma torcida como a nossa. Nós estamos dando ao grupo o direito de se ajustar na competição. Se não fosse nossa força, tenho certeza que já estaríamos desclassificados. Mas é isso mesmo! Santa Cruz é isso mesmo: amor, alma, coração e força.

    Um grande abraço e até domingo.

    Cobra venenosa

      "A minha primeira paixão é o Santa Cruz, mas a minha primeira obrigação é com o Tribunal de Justiça."

      Bartolomeu Bueno, em pronunciamento de renúncia ao cargo de presidente do Conselho Deliberativo, após consulta ao Conselho Nacional de Justiça - CNJ.

    Comentários Recentes

    Arquivos

    Superlinks

    Fotos

    dsc01227.jpg dsc01232.jpg dsc01231.jpg dsc01238.jpg

    Nem todos com a nota

      NEM TODOS COM A NOTA - Transparência e democracia no futebol pernambucano

      Copie o código abaixo e divulgue a campanha em seu blog/site:


     

    julho 2008
    D S T Q Q S S
    « jun   ago »
     12345
    6789101112
    13141516171819
    20212223242526
    2728293031  

    Usuários online