“A forma de compor os nomes antes do projeto e sem o amplo conhecimento de todos nós é, no mínimo, um começo com métodos não muito diferente dos atuais, e os quais não concordamos.”
Adriano Lucena, sobre a chapa da oposição, na seção de comentários do artigo Política, fúria, amor e ódio.
30 jun
Numa semana que eu nunca pensei que viveria em termos de futebol, senti que o Santa Cruz é a cruz que carrego. Não é o fato da coisa ter ganho a Copa do Brasil, claro que isso me deixou puto, mas é o fato do porquê essas coisas não acontecem conosco. Passei dois dias refletindo sobre isso e, infelizmente, fiquei mais apavorado ainda.
Gente, não é inveja, mas, é impossível não comparar. O que a coisa tem que nós não temos? Nossa torcida é maior e mais apaixonada que a deles. Nosso estádio é maior e melhor que o penico deles. E, porque estamos assim e eles não? Simples de responder amigos. O futebol de hoje em dia só é feito se existir uma premissa básica: profissionalismo. Claro, estamos falando de futebol e fatores como torcida, sorte e juiz, por exemplo, interferem diretamente, mas, no fundo, nenhum desses fatores dura para sempre, e, apenas o profissionalismo pode conduzir um clube de futebol por bons e sólidos caminhos.
A coisa está na libertadores. Podemos usar isso como desculpa para nos curvarmos e desde já pensarmos e agirmos como se eles já fossem campeões pernambucanos nos próximos 10 anos? Claro que não! O que dizer de Santo André, Paulista, Payssandu, Paraná, Juventude e São Caetano. Todos ganharam fortunas na libertadores e hoje onde estão? Quantos deles foram campeões estaduais nos últimos 5 anos? Quantos estão na primeira divisão? Ou seja, meus amigos, ter dinheiro não é garantia de vencer, ser competente sim é ter grande chance de vencer, porém, ser competente e ter dinheiro, é a certeza de vencer.
Falando em dinheiro, por que nós não temos? Porque somos tidos como uma instituição falida? Gente, somos falidos financeiramente como conseqüência das nossas falências administrativas e de nossa falência de credibilidade. Alguém de nosso blog investiria novamente em uma nova empresa de criação de avestruzes, mesmo que a nova empresa fizesse forte campanha publicitária? Alguém investiria num clube que não honra compromissos nem contratos e desfaz uma ordem como se estivesse jogando um saco de lixo para fora?
Eu leio dia após dia em blogues idéias de como arrecadar dinheiro para nosso Santa. São idéias muito boas e boladas com amor, carinho e principalmente, com o espírito de ajudar nosso Santa. Porém, cada vez que vejo uma idéia dessas, eu fico lembrando das festinhas de adolescente que eu organizava em minha rua, onde cada um levava um pratinho e uma coca. Gente, nós somos um time de futebol profissional. Não podemos estar vivendo na base de almoço de adesão (cada um da R$ 100,00 para ajudar a contratar Zumbi), na base da ajuda de governo (Todos com a nota), na base de colocar urna nas entradas dos jogos para tricolores doarem o que podem, enfim, o futebol deve gerar receitas para se manter.
Imaginem que exista uma fábrica de camisas, por exemplo, onde a cada sexta feira, se fizesse uma cota entre os sócios e se passasse um chapéu entre os funcionários da produção para arrecadar dinheiro para comprar o tecido que produzirá as camisas da semana seguinte. Existe chance dessa empresa ir para a frente? Bom, futebol é o nossa camisa, jogadores são nosso tecido, os funcionários e sócios da empresa somos nós, que perdemos o sono e tiramos dinheiro de nosso bolso, mesmo sem tê-lo, muitas vezes, para ajudar.
Sendo o Governo do Estado e as doações (incluo em doações a CELPE, jantares de adesão, vendas de chaveiros, urnas em porta de estádio, saco de cimento para reforma da concentração de juniores, telão coral, quinta santa, etc) nossas principais fontes de renda, chega a hora de perguntar a vocês a mesma pergunta que me tira o sono nesses últimos dias: O que acontecerá se o Governo mudar e acabarem o Todos Com a Nota? O que acontecerá se cansarmos ou desistirmos de doar tanto? Todos nós conhecemos tricolores que não faltavam a um jogo sequer e desde o rebaixamento no ano passado não pisam mais no Arruda. Esses já pararam de doar. E quando vários outros também pararem?
Não estou com isso querendo dizer que coloquem o escorpião no bolso e deixem de pagar ao clube. Mas, como “apenas” torcedores (ou alguém daqui é diretor ou exerce algum cargo no clube?) podemos ajudar o clube, mas, nunca podemos ser o arrimo financeiro do clube. Gente, apenas jogando futebol, a coisa por causa de um campeonato bem disputado, vai para a libertadores e vai botar mais de 10 milhões no bolso até lá, apenas por isso. O que tem que manter o Santa Cruz é o futebol e as receitas por ele gerado ( tipo sócios, já que não temos sede nem vida social no clube, o cara que se associa é para assistir aos jogos mesmo), não a filantropia.
Estamos esperando outro James Thorp que injetará milhões aqui, salvará tudo e fará a Arena Coral? Isso não existe mais no futebol. E, mesmo que existisse, para que dinheiro sem o mínimo de profissionalismo, organização e métodos para geri-lo? Não se esqueçam que James Thorp colocou dinheiro, mas, a base do nosso time penta-campeão foram nossos juniores reforçados de grandes jogadores. Gestão, mesmo com dinheiro para derramar. Como perdemos a Parmalat? A Parmalat deu títulos ao Palmeiras depois de mais de 10 anos de jejum. Ao juventude? Deu inéditos títulos gaúchos e até Copa do Brasil. E, esses campeonatos renderam frutos ao ponto de manter um time sem torcida durante mais de 10 anos na primeira divisão. E para nós? A Parmalat não trouxe nada nem deu nada. Sabem por quê? Porque ninguém investe seu dinheiro para ser mal gerido. Gerar receita é fácil, para quem é bem administrado.
Para encerrar, estarei junto com alguns grandes amigos em Campina Grande, de onde trarei um relato completo sobre a excursão e sobre o jogo.
Já ia esquecendo, esse Patrick que foi contratado joga bola, desde que Bob Esponja venha junto!!
25 jun
Sylvio Ferreira
Desde o momento da queda do Santa Cruz para a Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro, o atual presidente do Clube se tornou objeto de verdadeiro ódio por parte da torcida coral. De lá para cá, outra coisa ele não tem feito a não ser aumentar contra si o referido sentimento. Há um imenso barril de pólvora prestes a explodir nas Repúblicas Independentes do Arruda. É só uma questão de tempo. Não é preciso ser vidente para prever os acontecimentos.
Para tanto, será decisivo o desempenho do Santa Cruz na Série C. Em obtendo êxito, o barril de pólvora explodirá em dezembro. Caso contrário, a explosão ocorrerá tão logo o Clube seja alijado da próxima competição. Nos dois casos, muito certamente a explosão se dará de diferentes formas. Oxalá que a mesma aconteça pelo poder e a força das urnas, daqui a seis meses. Assim acontecendo a democracia se edificará em solo apropriado.
Contudo, nada assegura que assim acontecerá. Em termos políticos, o Santa Cruz virou um campo minado de altíssimo risco. E as minas plantadas no Clube (frutos da arrogância, prepotência, descalabro administrativo, desrespeito as normas estatutárias e à instituição coral) não explodirão no colo da torcida; afetando-o ainda mais do que já a afetou.
No momento oportuno, o feitiço haverá de voltar-se contra o feiticeiro, na forma de uma revolta jamais vista na história do Clube. Para quem não sabe, o ódio é um sentimento que não basta a si mesmo. Nesse sentido, ele é menos um fim e mais um meio para expressão de algo maior do que ele próprio e que somente se realiza mediante o exercício da fúria.
Por sua vez, a fúria explode quando o poder da força se sobrepõe ao poder do sentido. Essa é a derradeira tentativa, movida pelo desespero, de chamar o feito à ordem; por parte de quem se sente vilipendiado nos seus direitos de torcedor ou associado, ultrajado nas suas prerrogativas estatutárias e frustrado nos seus sonhos e esperanças quanto ao objeto que se constitui no maior orgulho e na razão de ser de milhões de vidas: o Santa Cruz.
Mas o ódio dirigido ao atual Presidente do Executivo, embora seja por demais compreensível, traz no seu bojo uma faceta perversa para a formação de uma consciência política que é preciso ser banida do Santa Cruz - refiro-me à má consciência que acaba por privilegiar mais os atores políticos em cena do que colocar sob rigoroso exame e criteriosa análise o modelo político e de gestão presentes na vida do Clube, para além dos atores específicos responsáveis pela atual crise que o Clube atravessa.
É sabido que a atual crise tem nome e sobrenome (em realidade, ela possui mais de um nome e sobrenome; já que envolve tutores e tutelados), mas ater-se aos mesmos em nada adiantará para a construção de um Novo Santa Cruz. Para que tal construção seja possível, a efervescência dos sentimentos precisa ceder lugar à análise fria da problemática política em questão. E o grande desafio político do Santa Cruz, volto a insistir, é de caráter político-institucional.
Da perspectiva política, o Santa Cruz ainda se encontra à época da República Velha, anteriormente à Revolução de 30. Por exemplo, os núcleos de força política dentro do Clube lutam pela afirmação e supremacia de si mesmos e não da instituição coral. Em busca do exercício do poder pelo poder, eles confrontam a torcida e o quadro de sócios; promovem eleições viciadas e fraudulentas; transformam o processo sucessório num exercício de pantomima política; estabelecem relações de amizade, parentesco, prestígio, poder, dinheiro e compadrio, como condição para a escolha do presidente do Clube (sem mencionar outras condições de caráter escuso a que recorrem). Num jogo político dessa ordem, não é difícil a democracia ser subjugada pela tirania.
É sobre esse modelo político retrógrado que devemos convergir nossas atenções e juntar todas as nossas forças para derrotá-lo e destruí-lo; banindo-o, de uma vez para sempre, da vida do Clube. O desafio que nos aguarda - e que já se encontra em curso - é de uma ordem de grandeza tamanha que reduzi-lo à dimensão de um sentimento de ódio em nada removerá o Clube do buraco negro institucional em que se encontra. Em dezembro, o Santa Cruz precisará dar um salto político de mais de sete décadas. O que representará o fim das oligarquias, dos desmandos políticos, e, em especial, da República Velha no Arruda.
Não obstante o fato de que o referido ódio personificado possa ser compreendido ou se justifique, não creio que uma ação política de caráter eficaz deva ser balizada pelos sentimentos: já que tão ruim quanto odiar excessivamente alguém é vir a amar quem quer que seja em demasia. A rejeição e o ódio poderão ceder lugar, num outro momento, ao amor e ao endeusamento. Estará aberto, então, o caminho para a entrada em cena de mais um salvador da pátria ou messias de meia tigela. E assim a tragédia política não chegará ao seu termo.
Tanto num caso quanto no outro, quer seja no amor incondicional ou no ódio desmedido, estaremos apenas dando evasão tão apenas aos nossos sentimentos. Tal prática, que é de natureza muito mais psicológica do que de caráter propriamente político, jamais conseguirá instituir no Clube a política institucional que o Santa Cruz tanto necessita; de natureza e caráter impessoal. Para além dos atores políticos e específicos em cena. E para além do amor e do ódio que tende a nos dominar em situações de crise. No embate político presentemente travado, substituir a frieza de análise que a razão política exige pelo puro jorro da emoção incontida é legitimar o triunfo do fracasso.
23 jun
Já era de conhecimento público que um processo cívil corria na justiça de Pernambuco, movido pelo Sr. José Cavalcanti Neves Filho, ex-presidente do Santa Cruz e ex-vereador da cidade do Recife, contra Samarone Lima e Inácio França, fundadores do Blog do Santinha.
Semana passada, surgiu a notícia de um novo processo. A ação é movida pelo mesmo autor e a causa parece ser a mesma: os artigos publicados no blog tricolor mais acessado de Pernambuco. Mas, desta vez, há algumas dessemelhanças com o caso anterior. Na primeira delas, Samarone é réu solitário e, na segunda, o processo é criminal. Nos autos, Zé Neves acusa o jornalista de calúnia e, caso a ação seja julgada procedente, pede o seu encaminhamento ao presídio Aníbal Bruno - como se isso coubesse ao querelante.
O processo movido por Zé Neves parece ser daqueles casos de banalização da justiça, vitimada por montanhas de ações que, por falência de argumentos plausíveis, nunca chegam a lugar nenhum. Num país onde os juízes estão afundados em um mar de processos sem fim, essas ações contribuem apenas para o aumento da morosidade judiciária e nada mais.
Também virou lugar comum que os homens públicos - tão zelosos de suas imagens polidas a custa de muito trabalho em prol da comunidade que representam - confundam críticas sobre o seu trabalho como representantes dessas mesmas comunidades com o cometimento de infrações às normas legais.
Distantes que ficaram dos interesses que representam, muito desses homens públicos se esqueceram que, pelas funções que ocupam ou ocuparam, todos eles estão sujeitos à avaliação e críticas da sociedade, como um todo. Isto faz parte do processo democrático.
A liberdade de opinião parece convenientemente esquecida pelas bandas do hemisfério sul. E isto me parece mesmo compreensível. É que, por vezes, alguns de nós se esquecem que vivemos num país livre e democrático e há mesmo quem entenda que o estado de direito seria chato demais se extensivo a todos os cidadãos.
Ao que tudo indica, os cidadãos comuns aprenderam a lhe dar com a democracia de uma maneira bem mais serena que os homens públicos.
A Samarone, nosso apoio incondicional.
A Diego Galdino, nossas reverências pela mão amiga.
Dimas Lins
Samarone Lima (artigo publicado originalmente no Estuário)
Eu sabia, por meio de amigos do meio jurídico, que corria uma ação cível contra mim e meu amigo Inácio França, também jornalista, por “difamação”. Ou seja, desacreditei publicamente de alguém, em algum dos meus muitos escritos. Fiquei quieto, aguardando o desenrolar dos fatos.
O “Mandado de Intimação” chegou na semana passada. A ação era bem mais grave: a de “calúnia”, na Oitava Vara Criminal da Capital. Neste caso, uma ação específica contra mim. Teria eu, em algum momento, jogado uma falsa imputação a alguém de fato definido como crime. Sou agora um “querelado” do Poder Judiciário.
Meu “querelante” se chama José Cavalcanti Neves Filho, ex-vereador da Cidade do Recife por quatro mandatos consecutivos e ex-presidente do Santa Cruz Futebol Clube, meu clube de coração.
Nesta quinta-feira, cheguei ao Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, que todo mundo conhece como o “Fórum da Joana Bezerra”. Usei pela quarta vez um terno bonito e calorentíssimo, comprado numa das pulgas de Paris, por três dólares. Rapidamente encontrei a Oitava Vara, que fica no final do corredor do primeiro andar. Sentei e fiquei à espera do meu advogado, o também tricolor Diego Galdino, amigo de comemorações cada vez mais raras nas arquibancadas do Arruda, nosso estádio. Então, inicio minhas anotações. As anotações de um querelado.
Sento em uma das cadeiras. São 13h30. Os advogados passam, com seus ternos pretos, alguns com pastas 007. Ao meu lado, três mulheres negras, possivelmente duas irmãs e a mãe. Todas as varas deste corredor são criminais. Elas conversam, desanimadas. “Está demorando, né?”. Uma sai, a outra vai atrás. A que fica, liga para alguém. “Oi, amor, botasse crédito no meu celular?”. Silêncio. “Não acredito. Pois vou tomar o dinheiro todinho de cachaça”. Escuto em silêncio e tomo notas.
Um advogado, bem moço, alto, limpíssimo, organizado, com um terno claro impecável, passa para a Oitava Vara. Tudo nele é polido. Ele volta, espera por algo, até sua paciência é polida. A rádio do corredor toca uma música norte-americana dos anos 80, uma daquelas românticas que dancei em alguma festa no Monte Castelo, em Fortaleza. Falava das coisas de sempre: “loving”, “hand”, “alone”, “anymore”. Faltou o “you”, mas deve ter sido distração minha. Toda canção de amor tem o “me and you”.
Olho novamente o mandado de intimação. Percebo que o nome do meu querelante saiu errado. A palavra “Neves” está escrita duas vezes. “José Neve Neves Filho”. Algum escrivão, escutando essas músicas românticas, repetiu o nome do querelante, dando-lhe uma certa redundância. Olho meu nome: Samarone Lima. Faltou o “de Oliveira”, que é meu nome completo. Sinto que comecei com uma leve desvantagem de palavras. Meu querelante tem um nome a mais, e toda a minha linhagem paterna, os “Oliveiras” foi subitamente excluída. Tudo bem, é só o começo.
As duas mulheres voltam. Falam de crédito do celular, alguma fatura para pagar do “Comprebem”. Passa uma moça excessivamente bonita, alta, com o nariz avermelhado. Está chorando, um choro contido, sem alarde, sem soluço, escondendo as lágrimas entre os dedos finos, para ocultar alguma dor. Será uma querelada? Ela entra na Nona Vara, mas deixemos a moça em paz.
Aguardo olhando, escutando. Ao meu lado, os diálogos continuam. “Alô, Diz. Nada? Ôx, vamos sair daqui cinco horas da tarde? É de que horas isso? Ôx!”. Minhas amigas estão indignadas. “O Cabra disse que vai ser lá para três e meia”.
Olho para o relógio. São 13h43.
Olho para o mandado novamente.
“Audiência de tentativa de reconciliação, nos termos do art. 520, do CPP”.
Descubro que preciso de um Código de Processo Penal. Aceito doações.
“… ficando ciente que o não comparecimento do querelante importará em extinção da punibilidade por perempção (art. 107, inc.IV, do CP e art 60. inc III, do CPP) e a ausência injustificada do querelado será interpretada como recusa em conciliar”.
“Ele disse que era de meio dia. Vai levar um baile”, diz uma das mulheres, a dona do celular, a mais exaltada, interrompendo minha leitura jurídica.
De repente, o fluxo da memória abre um clarão. Lembro de maio de 2004, quando fui acusado de “Resistência” (artigo 329 do CPB) por um sargento da Polícia Militar. Meu crime foi avisar ao chefe da guarnição policial, que os torcedores não deviam ser agredidos gratuitamente por policiais, ao final de um jogo no Arruda. Minutos depois, eu estava dentro de um camburão.
Foram três audiências no Juizado Especial Criminal do Recife, mas o sargento nunca compareceu, e a ação foi extinta.
Descubro que meu clube de coração tem me causado problemas, mas não é propriamente o clube, é uma cultura de violência, de confronto. Até a última audiência, esperei encontrar o sargento. Queria saber se ele já estava mais tranqüilo, se ele tinha revisto sua atitude profissional, dizer que aquilo tudo poderia ser de outra forma, e que no fundo, poderíamos ser amigos, tomar uma cerveja e apertar as mãos. Nunca mais o vi, mas lembro sua expressão de ódio, quando me recusei a retirar a ocorrência na delegacia. O ódio, especialmente o gratuito, sempre me deixa assombrado.
Meu advogado chega. Somos informados que o querelante não compareceu, mas justificou a ausência (caso contrário, haveria a extinção da punibilidade por perempção). A delicada atendente, Rosana, remarcou a audiência para 6 de agosto. Recebi uma cópia da queixa-crime ou “as iniciais”, como bem me avisou uma amiga advogada. São 15 páginas, redigidas e assinadas por quatro advogados. Ao final, requerem que eu seja interrogado, que sejam solicitados meus antecedentes criminais, e que terei violado os artigos 138, 139 e 140 do CPB.
O último parágrafo:
“Ao final, REQUER-SE se seja a ação julgada procedente, condenando-se o QUERELADO nas penas previstas no art. 138, 139 e 140, do CBP, designando-se o Presídio Aníbal Bruno para o cumprimento da pena”. As palavras estão escritas assim mesmo, com letra maiúsculas, o que me parece um grito.
Era uma coisa que eu nem sabia, que o querelante pode até escolher onde o querelado vai cumprir a pena.
Dali, saímos para outra Vara Criminal, onde tramita a ação contra a dupla Inácio e Samarone. É um processo gigantesco, com cinco volumes. Uma despachada funcionária traz os volumes, para nossa apreciação. Fiquei imaginando o quanto isso custa ao País. Há inúmeros Sedex com meu endereço antigo, com intimações, centenas, talvez milhares de páginas escritas,fotocópias de textos, alegações, despachos de funcionários do Poder Judiciário, carimbos, novas intimações.
Do quarto andar daquele imenso prédio, vi o Coque, e lembrei imediatamente do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), criado pelos jovens da comunidade, que lutam contra a violência e pela cultura no bairro. Na minha cabeça, passou o filme dos encontros na Biblioteca Popular do Coque, que funciona a 500 metros dali, mantida pela raça e resistência da comunidade. Me veio o sentimento de que o Brasil é um país onde mundos não dialogam, e por isso, tanta violência, tanta dor, tanto sofrimento, tanta raiva e tanto rancor. Tantos querelantes e querelados.
Descemos, tiramos cópia de tudo. Fui conversando com meu advogado, o Diego Galdino, uma pessoa de uma extrema gentileza e educação, um homem afável, de gestos tranqüilos e voz serena. Desconfio que ganhei um novo amigo.
Lá pelas tantas, com nossas cópias todas em mãos, já saindo do fórum, falamos do dia 6 de julho, quando o Santinha estréia na Série C, em Campina Grande, contra o Campinense. Descobrimos que estamos no mesmo ônibus, um dos 15, que vai levar a torcida ao jogo.
Meu espírito quimérico entendeu que atravessarei com serenidade mais uma querela. Aguardemos, meus amigos, aguardemos.
Para o Diego Galdino, tornado amigo.
"A minha primeira paixão é o Santa Cruz, mas a minha primeira obrigação é com o Tribunal de Justiça."
Bartolomeu Bueno, em pronunciamento de renúncia ao cargo de presidente do Conselho Deliberativo, após consulta ao Conselho Nacional de Justiça - CNJ.



