Sylvio Ferreira

Das últimas duas décadas para cá, estabeleceram-se duas linhas de força e ação política no Santa Cruz: aparentemente antagônicas entre si e procurando manter a máxima distância uma da outra, como se a peste houvesse acometido uma delas. Cada uma das linhas atribui à outra a razão de ser do débâcle do Clube após o Colegiado. O que tem feito com que as duas forças em jogo comumente se digladiem a céu aberto ou em qualquer recinto que se faça necessário.

Uma das referidas forças é remanescente direta da época do Colegiado - e é capitaneada por um dos seus membros e ex-presidente do Clube. A outra força, surgida após o fim do Colegiado, também é capitaneada por um ex-presidente e emergiu no vácuo político aberto quando o Colegiado chegou ao seu término. Em tendo bastado a si mesmo, o Colegiado entregou o Clube à sua própria sorte ou ao deus dará.

Por conta dos diversos títulos conquistados, o Colegiado ainda hoje consiste numa espécie de vaca sagrada dentro do Santa Cruz. Poucos são aqueles que a ele se referem sem deixar de exaltar o seu sucesso dentro dos gramados. E não é para menos! Da perspectiva futebolística, o Colegiado se constituiu na era de ouro do Santa Cruz. Contudo, sob o prisma político o Colegiado não passou de um sistema antidemocrático ao extremo.

A sua criação, por exemplo, se fez inteiramente condizente com a “época de chumbo” característica do regime militar que governou o país por mais de duas décadas. Em conseqüência, enquanto o Santa Cruz se revelava praticamente imbatível dentro dos gramados, o Colegiado, a revelia da grande massa coral, fazia da prática política no Clube um jogo de cartas marcadas; apenas e tão-somente jogado entre os seus membros. Do mesmo modo que assim acontecia na cúpula do regime militar.

Tal política antidemocrática posta em prática pelo Colegiado acabou alijando a massa coral da participação na vida política do Clube. E suas conseqüências ainda hoje se fazem sentir. Mas o Colegiado não obteve êxito apenas dentro dos gramados. O antigo “alçapão do Arruda”, como o estádio era conhecido, acabou sendo transformado num Colosso (graças ao “milagre econômico” que se deu à época do “Brasil - Ame-o ou deixe-o!”). Em grandessíssima parte, o Alçapão se transformou em Colosso devido aos cofres públicos.

Para os que não sabem, houve uma época em que o Santa Cruz e o regime militar andaram de mãos dadas. O modelo político do Santa Cruz condizia com o do regime militar. E o Clube das Multidões se prestava aos propósitos ou objetivos do referido regime. Como na antiga Roma, o lema continuava a ser pão e circo. Os sucessivos títulos conquistados e o espantoso crescimento do seu patrimônio faziam a massa coral delirar.

Em tendo fim o Colegiado, o Santa Cruz não soube estabelecer para si princípios democráticos e adentrar a democracia plena. Em conseqüência, de lá para cá, a instituição encontra-se à beira de um colapso. As duas linhas de força política que mencionei, e presentemente em ação, ainda não se deram conta de que o antagonismo entre elas é apenas aparente; já que os extremos se encontram num dado ponto em comum. E o ponto em comum, no caso, implica na falência da instituição coral.

Enquanto as duas forças citadas brincam de cabo-de-guerra, o Santa Cruz definha. Por sua vez, a política que praticam é miúda e rasteira; inversamente proporcional ao tamanho do ego dos envolvidos. Há algum tempo a massa coral clama por democracia no Arruda, mas os integrantes das duas linhas de força fazem ouvido de mercador. E assim agem como se o Santa Cruz fosse propriedade particular de uma das linhas de força em contenda. Daí a arrogância, o despotismo, o nepotismo e a tirania. A principal fragilidade do Santa Cruz reside no pavor à democracia. Graças ao colegiado!

Sylvio Ferreira é psicólogo e professor. Como tricolor, faz parte do grupo de oposição à gestão do Sr. Édson Nogueira.