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Quando a gente sai na rua com a camisa do Santa Cruz, várias vezes nos deparamos com algum tricolor fazendo comentários sobre o nosso time. Gente que nunca vimos na vida. Mas, pelo simples fato de vestir uma camisa comum, vira colega em um minuto de conversa. Pena que, atualmente, as conversas são apenas saudosistas e de lamentações…

Foi assim com Josival.

Em uma dessas ¨andanças¨ com o uniforme coral, em pleno centro de João Pessoa - PB, conheci o colega Josival. Pela camisa que ele estava usando (bastante desbotada, mas que dava para ver as três cores sagradas), percebi logo que era um tricolor, pessoa simples, do povão. Realmente, a camisa de Josival chamava atenção: apesar de antiga, ainda brilhava, e tinha um escudo diferente.

Josival estava na parada de ônibus, que ficava em frente ao bar em que eu estava tomando uma caninha 51. Ao me ver, Josival veio puxar conversa, ou melhor, veio desabafar.

¨…Que camisa linda! Que escudo lindo! Saudades do time campeão de 1995! Aquele, sim, deveria ter sido o ano da nossa refundação! Tivemos uma boa parceria, trouxemos um bom treinador e formamos um bom time! - disse Josival.

Enquanto Josival falava, eu ficava me lembrando daquele time (Amarildo, Zé do Carmo, Luis Carlos e Cia). Realmente o time era bom. Era o nosso terceiro título na década, competíamos em pé de igualdade com os outros times do Estado. Parecia que estávamos voltando a ser o papa-taças de antes.

¨… Mas, não aproveitamos o momento… Veja o resultado: fomos rebaixados e hoje estamos falidos! Hoje jogamos com atletas amadores… O nosso estádio está acabado! - completou Josival.

Vendo a angústia de Josival eu tentava amenizar a conversa, mostrando que, mesmo rebaixados e com ¨metade do estádio¨, podemos voltar aos bons tempos, basta união e, claro, competência. Afinal, apesar de falidos do ponto de vista financeiro, com a torcida que possuímos, temos amplas condições de subir novamente. Basta formar um grupo forte, com novas idéias, que esteja disposto a assumir o clube (aquela história toda que todo tricolor já sabe decorado).

Josival, então, ficou com mais raiva ainda e complementou:

¨… Tu és doido! Do que adianta ter a torcida de uma cidade inteira, se não temos um presidente que olhe para a torcida! Não temos um presidente competente! Esse presidente vai sair e quem vem depois? Será outro incompetente!. Ficará tudo na mesma! Já faz mais de dez anos que é assim…¨

Interrompi Josival e resolvi ponderar. Mostrei a ele que chegamos a uma situação tal que, agora, temos que nos mobilizar por questão de sobrevivência! Hoje temos uma turma jovem, com outro pensamento, que esta disposta a dar sua contribuição. Mostrei a ele que, infelizmente, não existe uma liderança; mas que, talvez, não precisamos de um líder, e sim um grupo! Já fomos fortes assim um dia, sendo que, agora, o grupo tem que ser outro, tem que ter uma nova mentalidade, ser de uma nova geração.

¨…Nova geração? Ôxe, isso é balela. O prefeito que tomou posse é novo. Foi convidado e assumiu o futebol do Clube. Ele até tem vontade de ajudar, mas, quem manda mesmo é o presidente do Clube, que ele aprendeu a defender ferozmente. … Não acredito mais em ninguém… A minha cidade ficará sem futebol … O Santa Cruz hoje é um grande time de várzea… ¨

Levantei-me irritado com o rumo daquela conversa: odeio gente pessimista! Fui ao banheiro tirar a água do joelho, e deixei Josival falando sozinho. Mas, no trajeto, não parava de pensar nas besteiras que Josival estava falando. Como pode o Santa Cruz se acabar? Como pode não acreditar numa nova geração? Como pode alguém não acreditar na força de uma torcida? Ora, tudo bem que nós não temos um líder, mas podemos ter um grupo forte e coeso!

Quando voltei à mesa do bar, Josival estava saindo.  Aos gritos falou:

¨… Vou embora, meu ônibus chegou… Vou pra minha querida Santa Rita … Vou passar do lado do estádio do meu querido e saudoso Santa Cruz…¨

Eu respondi:

¨… Até mais, Josival, mas não perca a esperança. O Santa Cruz nasceu e vai viver eternamente.¨

Nessa hora, caiu a ficha.

Josival é de Santa Rita, uma cidade da Região Metropolitana de João Pessoa, e lá tem um time chamado Santa Cruz. Tive vontade de ir atrás dele e comentar sobre a nossa tremenda confusão. Depois pensei que não valeria a pena, afinal, estávamos falando sobre a mesma coisa: futebol, paixão, saudosismo, mudança e … Santa Cruz.

A nossa única diferença era geográfica. Ele da Paraíba, eu de Pernambuco.

O Santa Cruz de Santa Rita, fundado em 1939, foi campeão paraibano em 1995 e 1996. Sobre a origem do clube, basta observar seu escudo (acima). Seu mascote: cobra coral.