9 abr

Marina não agüentava mais aquela rotina dos finais de semana. Enquanto os outros casais - os normais, como ela chamava - aproveitavam para pegar uma praia, fazer uma viagenzinha, um programinha divertido com os amigos, Ronaldo a deixava em casa e ia ao Arruda religiosamente. Aliás, mais que religiosamente, já que Ronaldo não pisava em igreja há muitos anos. Nem isso fazia.
A insatisfação era ainda maior porque Marina não ousava ficar chateando o marido com essa queixa. Tinha receio, não admitido conscientemente, de ser colocada no escanteio caso caísse na esparrela de desafiar o amor do marido pelo Santa, colocando-o na marca do pênalti. Sabia que essa partida já estava perdida antes mesmo do adversário sair do vestiário. E de goleada. “Se o amor dele fosse por outra mulher, eu ainda tinha uma chance de resolver”, analisava com razão.
Ela nunca gostou de futebol, nunca torceu por time algum. Pra ser bem sincera, tudo o que sabia sobre futebol era de ouvir o marido conversando com os amigos, todos torcedores do Santa Cruz. Quando se interessou por Ronaldo, até que tentou se informar sobre o esporte e suas regas básicas, sobre a história do Santa Cruz, nome de jogadores, dirigentes. Desistiu de entender as regras por causa do impedimento. Nunca conseguiu entender a razão pela qual se marca impedimento. “Se o jogador faz gol, é gol. Que papo é esse de gol impedido? Isso é roubalheira de juiz”, indignou-se, fingindo propriedade sobre o tema, na primeira vez que assistiu a um jogo com o então namorado. O detalhe é que a marcação beneficiou o Santinha. Este foi o motivo da primeira briga do casal.
Os amigos de Ronaldo foram se afastando do casal aos poucos. Não suportavam a namorada do Ronaldo. Isso aconteceu depois de uma farrinha, quando os amigos levaram suas namoradas para que elas acabassem com aquela cisma semanal com os jogos. Marina quis mostrar-se entrosada e questionou a autoridade do bandeirinha que havia feito com que um gol do Santa fosse anulado, na partida anterior ao encontro. “Se nem o juiz viu nada, porque é que deu ouvidos àquele cara que segura a bandeira e que na verdade só está ali para apanhar a bola quando sai do campo?”. Com muito abuso, Leonardo explicou que ela estava confundindo bandeirinha com gandula. Ela morreu de vergonha e decidiu não falar mais nada.
Apesar da visível incompatibilidade de amores, Ronaldo e Marina se casaram. Os amigos dele torceram o nariz, mas depois tentaram se adaptar à situação. Chegaram a assistir a alguns jogos do brasileirão na casa de Ronaldo, mas isso acabou no dia em que Júlio quase agrediu Marina. O Santa jogava contra o São Paulo. Para agradar ao marido, Marina gritou exageradamente quando o tricolor fez um gol humilhante no adversário. O problema é que o gol foi do tricolor paulista… “E eu ia saber lá que esse time de São Paulo imitava as cores do Santa?”, tentou justificar-se.
Depois dessa, Marina desistiu. Não assistia, e muito menos comentava as partidas. Amava Ronaldo, mas não se conformava com essa história de ela ser a segunda na vida dele. O terceiro aniversário de casamento quase era o último. Isso porque caiu num domingo, dia de jogo. Marina implicou: “escuta, você casou comigo ou com essa cobra venenosa de uma figa?”. Ronaldo nem se deu ao trabalho de responder. Pegou a bandeira, vestiu a camisa e saiu, como todos os domingos.
E ali estava ela agora, novamente sozinha em casa num domingo à tarde. Quatro anos, já. Chorava ao pensar no seu destino, quando ouviu gritos enlouquecidos do vizinho: o Santinha fez um gol na partida. “Chega. É isso que eu tenho que fazer: vou-me embora”. E foi. Arrumou suas roupas, escreveu um bilhete, e saiu para nunca mais voltar àquela casa. Ronaldo chegou bêbado em casa e só percebeu a carta e a ausência da mulher no dia seguinte, em meio à ressaca. Abriu a carta e ficou lívido:
“Ronaldo, fui. Não agüentei mais. E como prova de que minha decisão é irreversível, de que não guardo nenhuma boa lembrança desses quatro anos de sofrimento, te abandono junto a uma praga. Teu time será presidido por um ladrão, um incompetente que não dá a mínima para o torcedor. Um vendido. Teu time vai para a terceira divisão do Brasileirão. Se brincar, vai chegar na segunda do Pernambucano. Você vai ver. A desgraça vai ser tão grande que um dia até os torcedores mais fiéis - você incluído - serão barrados no Arruda por decisão da diretoria. Por fim, para terminar a praga, fique atento: essa merda toda vai acontecer sob as vistas e com o silêncio da maior torcida organizada do time. Amém!”.
Ronaldo leu tudo aquilo admirado com a insanidade da mulher. “Louca. Isso nunca vai acontecer. Louca! Ainda bem que foi embora. Louca!”. Tomou café e foi trabalhar normalmente.
Dois anos depois, já conhecia todos os terreiros de macumba de Recife e Olinda. Já tinha ido até a Salvador. Mas não teve oferenda a santo capaz de remover a força daquela praga impossível. E para completar sua tristeza, não podia comentar nada disso com ninguém. Carregava aquela culpa sozinho, e já pensava em suicídio. “A culpa é minha. O santinha tá nessa situação por minha causa. Mas eu mato aquela mulher!”.
"A minha primeira paixão é o Santa Cruz, mas a minha primeira obrigação é com o Tribunal de Justiça."
Bartolomeu Bueno, em pronunciamento de renúncia ao cargo de presidente do Conselho Deliberativo, após consulta ao Conselho Nacional de Justiça - CNJ.



