30 abr

Até poucos dias atrás, a discussão sobre o afastamento do atual presidente do Santa Cruz parecia ter sido deixada um pouco de lado. No meu último texto, eu chamava a atenção para o desconforto que o silêncio traz para quem aguarda ansiosamente os desenlaces da questão. E acrescento aqui que, em certas circunstâncias, nada incomoda mais do que esta aparente palidez e acomodação dos tricolores. Por isso, me propus a trazer o assunto de volta à ribalta. Ei-lo.
Comparo o processo de afastamento do presidente a um jogo de xadrez, onde vence quem conseguir antever e se antecipar às jogadas de seu adversário.
Até aqui o Sr. Édson Nogueira, o presidente diminutivo do Santa Cruz, a seu modo, jogava melhor. Primeiro, seduziu parte da oposição, acenando com as divisões de base. Depois, esvaziou o acordo, tão logo conseguiu o recuo de alguns opositores nas intenções de seu afastamento. Em seguida, sob nova ofensiva, deteve o avanço da oposição com uma de suas peças mais importantes: o presidente do Conselho Deliberativo.
Alexandre Ferrer, aliás, cumpriu muito bem o seu papel e moveu-se no tabuleiro como um verdadeiro cavalo. Com patadas cavalares, intimidou os conselheiros e aprovou a prestação de contas do Executivo, mesmo sem qualquer análise prévia dos presentes na última reunião e sem que um número sequer fosse apresentado. Fez mais. Durante todo o tempo em que se cogitou o impedimento do presidente, Ferrer deliberadamente deixou o órgão mais importante do clube alheio à discussão.
Mas, na última segunda-feira, a oposição lançou uma contra-ofensiva que certamente está fazendo o presidente coral sentir o golpe. E deu um passo significativo para garantir a realização da Assembléia Geral Extraordinária - AGE, marcada inicialmente para 12 de maio e transferida para o dia 13.
O contra-ataque veio na forma de um pedido junto ao Ministério Público de Pernambuco - MPPE para que acompanhe e garanta a realização da AGE, que tratará do afastamento do atual presidente.
O encontro no MPPE aconteceu nesta última segunda-feira e teve a participação de alguns integrantes da oposição, além de Aguinaldo Fenelon, Promotor de Justiça e responsável pela elaboração da cartilha do torcedor, e de Paulo Varejão, Procurador Geral de Justiça.
Segundo informações colhidas pelos nossos repórteres de plantão, o MPPE garantiu que se fará presente à assembléia com a participação de dois promotores de justiça. A presença dos promotores é importante, pois dificultará qualquer manobra que tente inviabilizar a realização da AGE. Caso o clube esteja fechado no dia da assembléia, por exemplo, provavelmente o MPPE marcará outra data e notificará o presidente do executivo para que mantenha as portas abertas no dia marcado.
Em encontros paralelos, a oposição também solicitou - e foi atendida - a participação de um representante da OAB, como observador, e encaminhou um pedido à Polícia Militar para garantir a segurança no dia e local da assembléia.
Mas a oposição não pensa apenas no afastamento do presidente e já se prepara para a segunda e terceira etapas do processo, que sejam o lançamento de candidatura própria e a elaboração de um planejamento para o clube.
Nos bastidores, surge com força o nome de Fred Arruda, para levar o atual mandato até o final, caso o presidente seja de fato afastado pelos sócios. Porém, até o momento, o Vice-Presidente não tem se pronunciado sobre a questão.
Entretanto, depois do fracasso do Ninho da Cobra, que teve participação decisiva na eleição do Sr. Édson Nogueira e abdicou - quando não podia - de se contrapor às aventuras do presidente, a oposição, de uma maneira geral, perdeu parte do crédito.
Para reconsquistá-lo, terá agora que provar, por exemplo, que é capaz de romper com as velhas oligarquias e profissionalizar a gestão do clube. E precisa, antes de tudo, recuperar a confiança do torcedor, não com palavras, mas através de ações concretas, construídas no dia-a-dia, pois a torcida já demonstrou que só fica ao lado de quem quer mudar verdadeiramente o Santa Cruz.
O que se espera e será cobrado do próximo presidente, seja ele eleito agora ou no fim do ano, é uma conduta reta e transparente, dentro dos princípios de legalidade, moralidade e impessoalidade no trato com o patrimônio do clube. Só assim, o Santa Cruz será verdadeiramente grande, como todos nós sonhamos.
28 abr

Continuo a minha série de artigos, observando o que acontece mundo afora no planeta bola e tentando aprender e enxergar como as idéias e atitudes poderiam se aplicar ao nosso Santa Cruz. Posso estar perdendo meu tempo, já que os que estão no poder não costumam aceitar sugestões de meros torcedores. A maioria deles se acha auto-suficiente no quesito administração do futebol. Deve ser por isso que chegamos ao estado atual…
Nessa série de Artigos, já tive a oportunidade de pegar um exemplo da Espanha e outro da França. Quem tiver interesse, basta clicar nos links contidos neste parágrafo e ler.
Dessa vez, o exemplo a ser observado é o do outrora poderoso Ajax. É, Outrora. O Time vem acumulando fracassos há dez anos. Não vence o campeonato holandês há quatro. Fora os vexames que tem dado nas copas européias. Alguma atitude precisava ser tomada. E eles não ficaram esperando aparecer um salvador da pátria.
Foi convocado um comitê, composto por nove pessoas (todas com credibilidade, competência e conhecimento do clube) que ficou responsável por estudar o funcionamento interno do Ajax por 3 meses, avaliando documentos e entrevistando pessoas ligadas ao clube. Esse trabalho gerou um estudo com avaliações e recomendações, que mostraram que a estrutura do Ajax estava com problemas, e isso se refletia nos resultados dentro de campo. O Relatório apontou falhas no organograma e sugeriu a necessidade de uma separação mais clara entre a direção do clube e o comando do futebol. A estrutura recomendada foi de ter um “Homem do Futebol” como diretor seguindo plenamente a linha de raciocínio do técnico escolhido. Trabalhando juntos.
O Estudo reconheceu a já famosa e exaltada qualidade nos trabalhos de base do Ajax na revelação de novos talentos e sugere que a estrutura seja mantida. Porém, faz uma observação. Considerou alguns técnicos da base incompetentes. Não adianta ter jovens promissores se não há quem os façam progredir e evoluir. É uma barreira ao invés de uma ajuda.
O Relatório alerta para o fato de jogadores medianos, vindos de outros clubes, tirarem espaço das revelações do Ajax. E fez uma observação que eu transcrevo literalmente aqui: “A maioria dos jogadores do elenco profissional tem de ter passado pelas categorias de base. O Ajax só deveria comprar jogadores que sejam jovens e promissores ou que tenham qualidade a ponto de elevar o nível do time”.
O Relatório também cobra do Ájax uma postura mais responsável no relacionamento com a torcida, considerada parte fundamental (grifo meu) para o funcionamento da engrenagem. “Os torcedores merecem uma comunicação clara. Sim é sim, não é não, e as promessas devem ser cumpridas - ou então que não sejam feitas”.
Isso foi feito no Ajax. Um clube com um passado glorioso, mas que passa um momento de crise. A questão monetária não é um problema para eles, tanto que nem foi mencionada. O que é preciso, é uma mudança de atitude. Uma nova postura. Uma organização visando resultados práticos. Melhoria nos processos e respeito à torcida. Valorização das revelações da casa. Para isso não precisa dinheiro. Basta vontade.
26 abr

Mea máxima culpa.
Tenho uma confissão a fazer. Vocês já devem ter notado os recentes lapsos de tempo entre uma publicação e outra no Torcedor Coral. Mesmo depois de passado tanto tempo da ação causal, há uma explicação plausível. E embora não pareça, garanto que ela é verossímil.
Desde o momento em que o time coral teve a sua queda confirmada para a Série C do Campeonato Brasileiro de Futebol, ficou mais difícil escrever alguma coisa sobre o Santa Cruz. Infelizmente, este foi um marco perverso resultante desta má administração. Respirar nosso clube vinte e quatro horas por dia tornou-se fatal, por causa dos ares poluídos que vem das bandas do Arruda. Com tanta fumaça no céu tricolor, qualquer possibilidade de inspiração morria prematuramente por asfixia. E convenhamos, não há nada menos estimulante do que falar sempre dos mesmos problemas.
Em dias assim tão amargos, caminhos diferentes se apresentaram para cada um dos integrantes do Torcedor Coral.
Alguns entraram em colapso nervoso e foram internados às pressas em diversas clínicas de recuperação espalhadas entre Recife e João Pessoa. E, por causa dos eletrochoques, muitos não conseguiram escrever um linha sequer durante todo esse tempo.
Outros mergulharam numa depressão profunda e recorreram a ansiolíticos poderosíssimos. Rivotril com coca-cola, mesmo depois da fase aguda, passou a ser muito apreciado por essa galera.
E mais outros de nós, como válvula de escape, resolveram se engajar em movimentos políticos ou ambientais. Parte foi mostrar ao mundo a necessidade de proteger as tartarugas de Intermares, enquanto dois ou três abraçaram a luta pela independência do Tibete, pois consideraram mais fácil libertar o país do Dalai do domínio chinês do que tirar o Mais Querido da lama.
Mas torcer é preciso e escrever também é preciso, mesmo com o céu esfumaçado. E a necessidade é ainda maior quando paira no céu cinzento nuvens carregadas de intenções para afastar o presidente. Mas o mais estranho de tudo é o silêncio mórbido sobre a questão, mesmo com chuvas tão intensas. Talvez seja a calmaria que antecede à tempestade. Mas não há calmaria, já que este inverno glacial não passa nunca. E se ninguém mais fala nisso, então falaremos nós. Mas não agora que a hora é de acertar de contas.
Era preciso sacudir toda a equipe do blog e tentar reencontrar a inspiração perdida.
Para tanto, realizamos o 1º Encontro dos Cronistas do Torcedor Coral. O congresso tricolor, que aconteceu no dia 12 de abril no Mercado da Boa Vista, foi regado a muita cerveja, cachaça mineira - trazida pela nossa querida Ana Cláudia - e comida de boteco.
Na ocasião, decidimos muitas coisas. Entre elas, a freqüência adequada para publicação de textos neste espaço. E anuncio que todos os cronistas, apesar do rigoroso inverno, estão voltando à ativa em busca da velha forma.
Alguém poderia perguntar se o encontro foi realizado no dia 12 de abril, por que então o blog continuou desatualizado por tanto tempo. Eu respondo.
Como editor, fiquei responsável pelo pontapé inicial. Só que, desde a nossa decisão coletiva, eu não tive tempo disponível para publicar o primeiro texto desta nova fase do Torcedor Coral. É que estava em dívida com Samarone Lima e tentava finalizar a completa reformulação do Estuário, seu blog pessoal de crônicas. O novo Estuário foi concluído e entrou no ar na última quinta-feira. Mesmo assim, passei o dia de ontem envolvido em assuntos pessoais inadiáveis. Por isso, escrevo agora enquanto adentra a madrugada.
Mas finalmente estou livre e pronto para tornar a discutir as coisas do Santa Cruz. E prometo - utilizando as palavras de Roberto - que daqui pra frente tudo vai ser diferente. E assinam comigo todos os integrantes do Torcedor Coral.
Já era mesmo hora de alguém aqui abrir a boca novamente.
19 abr
Foto: Arruda

Há um ano atrás, pelas mãos de Lulinha, nascia a Quinta Santa. Lulinha, ex-diretor social do clube, tinha como objetivo fazer com que os tricolores voltassem a freqüentar a sede do Santa Cruz. E conseguiu.
O encontro, na verdade, começou às sextas-feiras, mas teve o seu dia alterado para a quinta. É que era muito difícil explicar para as esposas e namoradas que o tricolor, ao invés de estar com elas, curtindo a balada ou roncando no sofá, tinha um encontro cívico com o seu clube do coração. Além do mais, o bafo de cerveja, caldinho de feijão e vinagrete do arrumadinho do bar da piscina levavam a conclusões precipitadas.
Na última quinta, a festa foi animada. Vieram novos e antigos freqüentadores do encontro e até mesmo a lendária Sanfona Coral deu o ar de sua graça para delírio da torcida. Teve sorteio de brindes e um bolo com um escudo do Mais Querido para comemorar o aniversário de um ano. E, como não podia deixar de ser, também não faltaram conversas sobre o Santa Cruz. Mas nada de tristeza, que o dia era de alegria.
Falar em tristeza, a nota triste ficou - como sempre - por conta da diretoria do clube que desligou o gerador às 19:30h e deixou todo mundo no escuro. Os organizadores do encontro propuseram custear as despesas com o óleo diesel do gerador, mas a proposta não foi aceita. Pena, pois os gestores do clube não perdem a mania de contrariar a torcida.
Mesmo assim, o encontro seguiu à base de velas e candeeiros improvisados e foi um sucesso absoluto (veja no álbum de Diego Galdino todas as fotos da festa).
Parabéns aos organizadores da Quinta Santa e a Lulinha pela idéia do encontro semanal. Graças a eles e a torcida coral, ainda há vida no clube, apesar dos pesares.
15 abr

Josias de Paula Jr.
A articulação de Édson Nogueira em torno de um grupo de pessoas, a fim de compor uma nova direção para o restante de sua gestão, parece-me dizer muita coisa. A principal delas: ele, de fato, não está só. E esse fato será de fundamental importância para a sua permanência. E aqui, agora, exponho logo minha opinião: não tenho esperanças de um afastamento de Nogueira.
A rede de apoio a Nogueira se forma por motivos variados. Mas a principal delas é a busca desesperada por reaver dinheiro investido no clube. Alexandre Ferrer - a maior decepção dessa má gestão atual - é o maior exemplo nesse sentido. Porém, há outros. Senão, como explicar o comportamento de algumas pessoas? Exemplo de Constantino Barbosa. Constantino, porventura bastante inconstante, o qual é chamado por alguns de Tininho, foi visto várias vezes desancando o atual presidente. Foi visto, por exemplo, numa manifestação de torcedores no aeroporto da cidade a esbravejar contra todos, com os pulmões quase a saltar pela boca, sua sorte sendo os bons caninos que possui. Pois é, hoje Constantino vai às rádios e acusa a oposição de irresponsável e de ser formada por aventureiros.
Há casos mais complexos, nos quais as reais motivações para uma aliança com Édson Nogueira brotam de uma concepção similar de clube. Por isso o retorno de Romerito Jatobá, da família Neves. E mais: a aproximação de figuras como Antônio Luiz Neto e Tonico Oliveira. Com esses dois últimos freqüentei, recentemente, reuniões onde se buscava articular um grupo coerente de oposição, calcado em projeto moderno e, portanto diametralmente contrário ao atual presidente. Ao que parece, as reuniões para esses senhores e a construção de um novo projeto foram nonadas.
O conjunto dos últimos acontecimentos me fez refletir e concluir que há muita chance de ser urdido um grande pacto no clube. Pacto consignado pelos velhos cardeais, os donos do clube. Se há uma coisa que essa atual gestão comprovou é: o clube nunca foi, e até agora não é, da torcida, da massa, dos sócios. Sempre foi um comitê de “beneméritos”, “abnegados”, “baluartes”. Sua história política é um sinal fortíssimo disso, com a quase ausência de renovação de quadros, a perpetuação das mesmas famílias, eleições marcadas pela suspeição e falta de transparência, etc. Tal elite às vezes teve competência. Às vezes, a distância de nosso maior rival para nós em número de títulos fala por si só…
Assim a dramática situação do clube parece estar de novo nas mãos deles. Pouco importa para tal grupo a vontade da imensa torcida (caso valesse alguma coisa tal vontade, no mínimo as eleições seriam limpas), pouco importa o desejo de milhares. O Santa seguirá sendo do neto de fulano, do filho de sicrano, do sobrinho… e dos velhos “cardeais”. Como disse, às vezes eles ganham alguma coisa. Nos últimos vinte anos, quase nada - quatro títulos apenas. É rezar e torcer.
Continuar lutando, claro! Participar da vida do clube, mobilizar, discutir, criar redes. Meu objetivo nesse momento é alertar àqueles que sonham com um Santa forte, de massa, aberto e moderno, sobre quem é quem. Não me proponho a fazer listas, embora tenha citado alguns nomes. Minha questão não é pessoal: não conheço pessoalmente a quase totalidade das pessoas que já estiveram à frente do clube; e alguns a quem conheço nutro por eles amizade. A questão não é pessoal, é política.
E nessa política é força saber, sempre, quem será contra nós?
"A forma de compor os nomes antes do projeto e sem o amplo conhecimento de todos nós é, no mínimo, um começo com métodos não muito diferente dos atuais, e os quais não concordamos."
Adriano Lucena, sobre a chapa da oposição, na seção de comentários do artigo Política, fúria, amor e ódio.



