
Um volante?
Os leitores vão me desculpar, mas estou nitidamente obsessivo com a questão dos volantes. É por causa de China, meu Deus do Céu… Ele adora volantes. Diz que pode ter duzentos volantes, mas o time pode continuar ofensivo. Como, meu rapaz? Como…
O cabra quer jogar justamente com os nossos volantes, que são caceteiros, inábeis, covardes no ataque e frágeis na defesa, e por aí vai. _Mas são jogadores funcionais e guardam várias posições, diz o nosso técnico. Pois é… eu só vejo uma posição ocupada, até agora, pelos nossos volantes: a mediocridade. Vai ver que sou sectário, sei lá.
O volante devia ser o que as definições no Aurélio exigem: “que voa ou pode voar; voante; flutuante, ondulante; que se pode mudar facilmente; móvel”. E sua função só apareceria durante o ataque do adversário, cumprindo um papel “passageiro, transitório e efêmero”. Uma ecologia radical do fut baniria o volante como agente poluidor do meio do campo, sendo tolerado apenas através de um rodízio: durante cada ataque do adversário, vários jogadores assumiriam a função de volante.
Nossos volantes são fixos. Não os vejo com muita mobilidade. E, convenhamos, volante “fixo’” é um atentado à sensibilidade da língua portuguesa. Fixa-se o que é móvel; faz-se permanente o passageiro. Na verdade, sua legitimidade baseia-se num pragmatismo ululante: como a defesa tricolor é um buraco, vamos acrescentar um quinto, um sexto e um sétimo defensor. Sim, um defensor, volante fixo é isso: mais um jogador na defesa. Ou vocês pensam que Alexandre está jogando no meio do campo? Ele é um defensor que sai com a bola, aventura-se no meio do campo e… passa mal a bola.
Ah, saudade de Givanildo, um verdadeiro volante tricolor: o anti-volante, por natureza. Os volantes eram jogadores habilidosos, antes de tudo, do meio do campo, que sabiam, durante o ataque inimigo, marcar e, aliviado o perigo, criar. Todo volante era um armador, antigamente.
Com a atual volantomania, fico pensando sobre quando surgiu todo esse problema. Como não tenho nada mesmo a escrever — além do mais, não quero tocar no assunto 13, pois dá azar – permitir-me-ei uns devaneios…
Certo, China tem razão em enfatizar a função, mas devia colocar no trono de suas argumentações o meio do campo. Deveria ter, por ele, uma obsessão – uma fixação patológica. Inclusive, foi a obsessão por essa parte do campo que surgiu o jogador multifuncional. Dou o exemplo: o “carrossel holandês” revelou ao mundo o futebol total, a importância de jogadores multifuncionais, jogadores marcando e atacando, etc. Afora todas essas questões, Rinus Mitchels, técnico do “carrossel”, provavelmente a partir do exemplo do Brasil de 70, compreendeu a importância fundamental do meio do campo no jogo moderno de futebol — assim como, o jogador de xadrez que sabe do papel estratégico da dominação do centro do tabuleiro. O meio do campo é o lugar por excelência da criação, e seria dali que saem as jogadas do ataque. Dominou esse pedaço do terreno, domina a partida e aumenta as chances de vitória.
Certo, a Holanda perdeu a copa… (a Alemanha é responsável, sem necessariamente ter culpa no cartório, pela fragilidade de duas grandes revoluções no mundo do fut: a Hungria de 54 e a Holanda de 74. Se a “laranja mecânica” tivesse ganho a copa, o mundo seria diferente….)
A revolução de 74, como toda novidade, virou banalidade, sendo absorvida, digerida, deglutida e interpretada de várias formas. Uma de suas variantes sobrevive na escola holandesa do…Barça, em que o meio do campo é peça constitutiva da criação de jogadas. Seria lá que a posse de bola seria administrada, até a ocasião propícia do gol. Os jogadores seriam, sim, multifuncionais; na verdade, sua função seria basicamente “ocupar todo o meio do campo”. As posições do meio do campo não seriam encarnadas no jogador (esse é meio-de-campo, esse outro é volante, etc) — não haveria uma identidade quase carnal entre posição e jogador — e sim entendidas como funções: o jogador deveria jogar e ocupar todas as posições do meio do campo, dependendo da situação tática da partida.
Contudo, existe outra variante de jogo, talvez anti-holandesa, que reconhece a importância do meio do campo, mas de uma maneira diferente: a orientação seria principalmente para o papel fundamental da destruição da jogada inimiga. Destrói-se a jogada do adversário, obtém-se a bola e, para evitar a perda da mesma, visto que o adversário pretende obtê-la de volta, sai-se rapidamente em contra-ataque. Defende-se para atacar. Acho que é essa a tática de Dunga, por exemplo. A criação fica subordinada à lógica da marcação. A multifuncionalidade do jogador moderno fica restrita às múltiplas funções da marcação. A criação, dessa forma, não seria responsabilidade coletiva do meio do campo e sim de um ou dois jogadores, normalmente excepcionais na técnica. Tal esquema de jogo tem como característica a extrema eficiência, o realismo e a ênfase no resultado. Ele seria dominante na atual conjuntura do futebol moderno e já teve como representante maior Parreira. É, no sentido “político” da palavra, uma interpretação “conservadora” do fut moderno.
Ao mesmo tempo, independentemente das variantes, o fut moderno “inchou” o meio do campo e opacificou as suas posições tradicionais. Os laterais viraram alas ou mesmo meio-campistas; meias ofensivos, atacantes, nublando o antigo papel do ponta-de-lança; atacantes, meias ofensivos (caso de Rivaldo, por exemplo) ou podendo jogar como meias. Por isso, a numerologia do fut (essa mania de saber se um time joga num 4-4-2 ou 4-5-1, por exemplo) tem dificuldade de ilustrar o esquema de jogo, pois se baseia numa idéia defasada, a saber: posições fixas no futebol. Dois times podem jogar num 4-4-2 e serem completamente diferentes em termos de jogo.
No Brasil, após o fracasso retumbante da copa de 74 (fracasso não propriamente pelo quarto lugar e sim pelo mau futebol), decidiu-se abandonar uma “modernidade” que já se vinha desenhando a partir da seleção de 70 (acho que a “revolução de 74″ não deixa de ter uma continuidade lógica com 70); assim, pregou-se a imitação pura e simples do fut europeu. Contudo, ao invés de se imitar, por exemplo, o “carrossel holandês”, reproduziu-se uma cópia “conservadora”: a ênfase recaiu na força física do jogador, na disciplina tática (desse ponto de vista, não existiu jogador mais “indisciplinado” do que Cruyff) e na marcação.
Arrisco a dizer que o grande protagonista dessa “modernização conservadora” foi Minelli e o Inter de 74. Essa equipe exuberante jogada praticamente com três volantes: Caçapava, Batista e Falcão. Evidentemente, tais jogadores são bem melhores do que os atuais volantes, mas na sua exuberância já se esboçava o definhamento da mobilidade da função; em suma, a partir de Minelli, o volante se tornou uma peça fundamental do fut brasileiro. Felipão, por exemplo, é uma continuidade lógica de Minelli.
Tal “modernização conservadora” teve suas derrotas: o Fla de 81 e o quadrado mágico de Telê (Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico), embora este último tenha sido, na forma, mais conservador do que o primeiro. Na atualidade, quem tenta sair das garras desse imperativo tático é a Espanha e o Barça.
Ora, armar um time como o Barça exige talento, ou seja, a contração de craques e dinheiro pra danar. Com a sangria do fut brasileiro (hemorragia de talentos ocasionada pela venda dos nossos craques ao exterior), os técnicos de futebol não têm outra escolha: diante da mediocridade, adere-se pragmaticamente à “modernização conservadora”, porque armar um time ofensivo com cabeças-de-bagres é um suicídio. Por isso, é muito mais fácil aderir à volantomania do que a um modelo de fut mais ofensivo. A “modernização conservadora”, apesar da produção, muitas vezes, de excelentes times (vide os times italianos), tem uma cumplicidade maior com a mediocridade.
O Santinha não pode ser o Barça, claro; talvez, o Barça da série D, quem sabe. Mas eu só queria que China priorizasse o meio do campo e não uma formação de volantes. Queria um espaço de criação com alguns armadores. Só alguns, rapaz. É possível? Não sei. As contratações visaram outro objetivo. Pelo menos, que China adiante a marcação, para recuperar a bola e servi-la logo ao meia ou aos atacantes. Se fizer isso, ficarei satisfeito. Não será um meio do campo multifuncional, com copiadora e scanner, mas um com certa eficiência. Sim, encontrei a fórmula: meio de campo na série D só precisa ser eficiente, o resto é conseqüência.
E aviso: jogar na retranca, nessa série D, será um fracasso. Eu avisei…