A torcida mais apaixonada do Brasil
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Psicografia de um fantasma

Hoje, depois de alguns dias, uma multidão tentou voltar à normalidade. Saímos de casa para trabalhar, cuidar dos estudos ou de nossas vidas, mas nos pusemos mesmo foi a perambular. Batendo pernas, olhei para a multidão e enxerguei em nós uma legião de desafortunados – para os que preferem abrandar o sentimento – ou desgraçados – para os que já não têm mais o pudor de expor as vísceras em praça pública.

Em seguida, me senti um homem de sorte. Tenho sorte de ser um velho ou um pouco mais velho do que fui ontem. Isso, ao menos, me deu a oportunidade de ver alguma glória, de assistir toda aquela geração de craques que passaram pelos nossos gramados. Por isso, tenho pena dos mais jovens. Esses sim pertencem a uma geração de frustrados. Não viram nada de bom. Apenas sofreram. Não foram forjados tão-somente na dor, mas na falta de esperança.[i]

A derrota da última quarta foi apenas mais uma derrota. E seria mais uma derrota, se ela não viesse acompanhada da desesperação, do estado de consciência e desânimo de quem se julga numa situação sem saída. Talvez, por isso, a derrota já não gere mais revolta. Longe disso. O coração já não se encontra mais insatisfeito, condição indispensável para botar o mundo em ebulição. Já não cobramos resultados, nem exigimos mais isso ou aquilo. De tão insaciados, nos saciamos com o vazio. Bebemos o vazio, como se bebe água, só que sem a saciedade que a água traz. Agora, saímos às ruas calados. Nos pomos a perambular, andar por andar, sem graça, amedrontados com o possível desfecho que nos espera lá na frente, incapazes que somos de mudar o nosso próprio caminho. Não parecemos mais torcedores. Mais parecemos mortos-vivos vagando numa cidade fantasma. Talvez seja isso mesmo: todos nós tricolores nos tornamos fantasmas.

Reconheço em FBC a virtude da novidade. Também reconheço nele a melhor oportunidade que tivemos nos últimos tempos para sair do chão. Reconheço ainda mais a sua tentativa, cada vez mais solitária, de levantar o clube e a capacidade que poucos têm de captar recursos. Mas reconheço, mais que tudo, que até aqui FBC tem fracassado. Embora necessário e importante, não foi o bastante reformar o estádio ou trazer a seleção brasileira para jogar no Arruda. Talvez, ele não tenha compreendido o mundo da bola e tenha trazido, cá pra dentro do clube, a lógica da política partidária, cujo empreendedorismo se dá bem mais na execução de obras, possivelmente pela visibilidade que as obras dão. Talvez ele não tenha compreendido que, como presidente de um clube de futebol, administre paixões. E mesmo fincando-se o pé na questão do empreendedorismo, por certo, esqueceu do básico – não necessariamente fácil, mas ainda assim básico – de manter uma escrituração contábil, de botar nas ruas uma campanha de sócios, de buscar a modernização administrativa do Santa Cruz, de prepará-lo para o futuro.

Também ao tenta acomodar quem não podia ser acomodado em sua mesa, achando, por certo, que agradava à torcida, FBC trouxe parte dela contra si, amargou as primeiras oposições dentro do Conselho Deliberativo e condenou o nosso futebol ao continuísmo. Misturou quem não se mistura e deu ouvidos a quem não tem mais o que dizer. Submeteu-se ao passado, ciente do fracasso do seu primeiro ano de gestão no futebol, ao invés de tentar buscar o novo de novo.

FBC caiu na mesmice de contratar técnicos absurdamente inexperientes ou absolutamente ultrapassados. Também se assemelhou aos nossos infelizes ex-dirigentes ao persistir no erro, como na inexplicável manutenção de Lori Sandri, que cultiva o péssimo hábito, tão comum aos afeitos à mediocridade, de expor publicamente o clube que lhe paga o salário, apenas para justificar o injustificável.

Apesar de tantos baques, nosso apego ainda muito vivo a FBC vem de uma única razão: não há ninguém à vista que possa nos dar alguma esperança. Temos essa mania de procurar um messias, por mais que a neguemos por três vezes. Sonhamos com um Xeque árabe que sustente nosso clube. Mas, não é de hoje, a esperança nos deixou na mão. FBC tinha e – prefiro acreditar, em nome da minha sanidade mental, ainda tem – potencial para levantar o Santa Cruz. Mas passados mais da metade de sua gestão, o potencial se solidifica, dia-a-dia, como frustração.

Se terminar assim seu mandato, sem acrescentar nada ao nosso futebol, FBC também será como um de nós e perambulará pelas ruas da cidade feito um fantasma, ainda que no terceiro dia ressuscite pelas mãos da política partidária. Nós, ao contrário, continuaremos vagando por aí sem mesmo saber que já estamos mortos.


[i] Inspirado numa conversa com Artur Perrusi.

Quando a água faz falta

João Lins

Para torcer pelo Santa Cruz, precisamos possuir uma série de atributos, tais como: amor incondicional, perseverança, paciência, excelente memória para recordar o passado, acreditar que é possível mudar o presente, apesar dos fatos mostrarem o contrário. O conjunto desses atributos são componentes que fazem da torcida tricolor algo inexplicável perante os simples mortais, ou seja, a torcida mais apaixonada do Brasil. Não existe explicação para tanto amor e fidelidade a um time que nos últimos anos só tem sido motivo de decepção. Somos uma espécie em extinção, do tipo que ainda acredita, apesar de tudo.

Porém, o fato do torcedor ser tolerante e paciente não implica que ele seja um desconhecedor do futebol e que aceite passivamente tantos erros cometidos ao longo dos anos, na administração do departamento de futebol do Santa Cruz, com contratações de jogadores que, em sua maioria, seriam reservas em qualquer time de pelada da nossa cidade. Sabemos e entendemos a falta de recursos para contratações de alto nível, porém, com os recursos existentes, daria pelo menos para formar um time de melhor qualidade. O que se constata é um time formado por um bando de peladeiros (de baixo nível), um treinador superado, que não faz treinamento específico e um diretor de futebol que chegou falando muito e tem feito pouquíssimo para formar um time capaz de sair da série D. Se continuar dessa forma, corremos o risco de não disputar a série D, pela péssima classificação no Pernambucano.

Não obstante todos esses problemas, temos ainda que escutar nosso superado treinador dando entrevistas desastradas, como falta de chuteiras adequada ao estado do gramado e que os jogadores tiveram que tomar banho com água da piscina, pois não havia água nos chuveiros do vestiário. Independente do que tenha ocorrido, não podemos aceitar esses acontecimentos e, principalmente, a divulgação pelo treinador, o que deixa bem claro seu despreparo e falta de respeito com o clube.

Somos uma torcida paciente e compreensiva, mas tudo na vida tem um limite e acredito que esse limite chegou. Querer desviar as atenções do péssimo rendimento do time para falta de água, além do desrespeito com o clube e sua torcida, demonstra que o Santa Cruz está sem comando.

Se não tiver outra alternativa, vamos processar a Compesa!

Nota da redação:

Pierre Lucena, Doutor em Finanças, publicou no blog Acerto de Contas um texto bastante duro sobre FBC. Independente de nossa concordância ou não com a opinião do autor, o artigo vale a pena ser lido. Segue abaixo o link.

Quem nasce para vereador não chega a senador

Meu Eterno Amor

A vida, por si só, já é feita de desafios. Quando vivemos possuídos pelo sentimento da paixão, ela se torna ainda mais instigante.

Os apaixonados sofrem em proporções maiores as tristezas de uma derrota, martirizando-se ao extremo nos momentos de dor. O mesmo ocorre nos períodos de felicidade, onde todo o deslumbre da vitória contida é extravasado. Isto porque quase tudo na vida que é valoroso tem dois lados. Afinal, é o risco do sofrimento que faz os apaixonados lutar, de forma incontrolável e inexplicável, por sua paixão.

É difícil saber como e quando uma paixão nasce. Pois, ela pode nascer e morrer pouco tempo depois, sem nem sequer ser compreendida. Foi o que quase aconteceu em 1914, quando, após nascer, por dificuldades financeiras, a morte foi vista de perto. Entretanto, o bom da paixão é que, quando verdadeira, ela tem o poder de renascer nos momentos mais difíceis; como ocorreu após dezesseis anos de raros momentos de felicidade, mais precisamente em 1931, quando a emoção pode ser extravasada, e, finalmente, foi erguido o Pavilhão da Paixão no lugar mais alto de Pernambuco. Três anos depois, em 1934, Pernambuco ficou pequeno, e o Brasil teve que se curvar ao representante deste sentimento incontido, mas já identificado em corações pernambucanos.

Desde então, perdeu-se a vergonha de demonstrar o que se sente, seja branco ou preto, mulher ou homem, rico ou pobre. Neste momento único, na euforia ou na angústia, não existe diferença, todos são iguais e compartilham da mesma compaixão.

Porque a vida não é feita só de vitórias, nem a paixão é alimentada apenas da felicidade. Paixão também é sofrimento, recolhimento e despedida. Foi este o sentimento da excursão suicida de 1943, foi isto o que restou do sonho de 1974 e é esta a sensação que insisti em nos possuir desde 2006. Porque a paixão é assim, sofrida e sentida, mas poucas vezes entendida.

Incontrolável, porém, a mesma paixão que é enterrada nos momentos de angústia, é capaz de ressuscitar nos impulsos da felicidade.

Porque o desafio da paixão é esse, manter-se viva nos momentos em que ela é dada como morta.

Basta recordar o arremate de Tará, o chute de Lanzoninho, a defesa de Luís Neto, a cabeçada de Ramón, o pulo salvador de Birigui ou a bomba rasante de Célio, para que ela volte a pulsar em uma prova de que existe vida após a morte.

Porque metade da paixão é a certeza da ressurreição. Por isso, cada questionamento sobre esta paixão tem-se como resposta a afirmação de que ela jamais será enterrada quando se tem o amor combustível. Pois a paixão faz parte da vida daqueles que costumam a desafiar a razão. E a vida é valorosa porque de um lado vive-se com o sentimento da emoção.

É essa emoção incontrolável que alimenta a nossa paixão, e que a faz sobreviver nos corações geneticamente miscigenados pelo preto de Teófilo Batista de Carvalho, pelo branco de Lourenço da Fonseca Barbosa, e pelo vermelho que corre nas veias de todo apaixonado coral.

Pois, o difícil não é amar um clube, mas sim ressuscitar uma mesma paixão ao longo de 96 anos.

A este sentimento eterno costuma-se chamar de amor. Neste caso específico, atende pelo nome de Santa Cruz Futebol Clube.

Ambos, porém, são sinônimos da nossa vida.

Nota do autor:

Um vídeo foi postado no Youtube em homenagem ao aniversário do Santa Cruz. O texto é de minha autoria e foi escrito no ano passado. Não sei quem postou, mas ficou bonito.

Vale a pena conferir:

Imagem de Amostra do You Tube

Ignorância

Efeito cartoon: Dimas Lins

Estive fora de Recife. Involuntariamente, deixo claro. Esclareço logo, antes que condenem um pobre tricolor por não ter acompanhado o Santa Cruz nesse início de campeonato pernambucano, que fui seqüestrado por uma tribo de hábitos estranhos e levado para o sul. Lá, no cativeiro, não tinha direito à água. Era forçado a tomar vinho e cerveja artesanal. A comida também era formada por iguarias estranhas. Fui obrigado, por exemplo, a comer avestruz – sem conotações sexuais, por favor – ao molho de amoras acompanhado de Linguine Al Pesto. Também comi joelho de porco. Talvez eu tenha passado por algum ritual macabro da Mancha Verde, aquela torcida organizada do Palmeiras. No final, paguei o resgate com cartão de crédito. Parcelei em três vezes sem juros.

Mas isso não importa. O que importa mesmo é que durante todo esse tempo fiquei sem acesso à internet e também sem notícias do Santa Cruz. No máximo, me deixavam ligar para casa para pedir o resgate. Era quando aproveitava para perguntar sobre o resultado dos jogos. Vivi, durante todos esses dias, na mais pura ignorância futebolística.

Esta, aliás, foi a primeira vez que deixei de acompanhar o Santinha numa competição oficial. Também não acompanhei a Copa Pernambuco, mas essa não conta, pois não falo, obviamente, de campeonatos de brincadeirinha. Por isso, à vera mesmo, foi a primeira vez.

O mais interessante disso tudo foi perceber o quanto a ignorância pode fazer bem. É incrível como uma cabeça oca pode tornar-se absurdamente saudável. Depois do clássico, por exemplo, não senti nenhuma sensação desagradável de que o mundo iria acabar no dia seguinte, apesar dos sinais advindos das enchentes em São Paulo e do terremoto no Haiti. A única coisa menos aprazível na ignorância é o de apresentar um aspecto um tanto apalermado diante de um tricolor mais bem informado.

― Marcos Mendes é ruim que dói.

― O cantor?

― Não, o cantor é Fernando Mendes. Falo do volante.

― E ele dirige o quê?

― Ele não dirige nada. Também não joga nada, assim como Robinho. Não sei como o Santa contrata um jogador dessa qualidade.

― O Santa contratou Robinho?! Com que dinheiro?! Já vi que FBC vai aumentar nossa dívida trabalhista!

― Estou falando do lateral esquerdo. O homem é uma avenida.

― Avenida?! Já ouvi falar que pra jogador bom o clube manda fazer estátua, mas essa de dar nome de avenida pra jogador ruim é novidade.

― Senta aí que vai começar o jogo.

― Ôxe! Estou vendo dois times em campo, mas não vejo o Santa.

― O Santa é aquele lá todo de branco.

― E é?! Pensei que fosse o Santos. Estava achando estranho mesmo o time paulista jogando no Arruda pelo campeonato pernambucano. Que danado foi aquilo no uniforme?

― Foi uma tal de jogada de marketing.

Marketing? E isso é de comer?

― Acho que não, pois muita gente não está digerindo muito bem.

― Mas vamos ver a bola rolar, que hoje a gente vai dar de goleada.

― Haja ignorância!

A ignorância é mesmo fantástica, pois ela evita o sofrimento. E pode até parecer estranho, mas, às vezes, só mesmo a ignorância para nos encher de esperança.

A Nossa História

Depois de 9 meses sem ganhar um jogo no arruda, conseguimos.

Mas, bastou uma rodada. Agora, já são três anos sem ganhar um clássico sequer.

São 14 anos com 1 título apenas, de Campeão Pernambucano.

Talvez a culpa seja do juiz, como chegaram a insinuar em 2007 quando fomos rebaixados à Série C.

Não adianta mais encontrar o(s) culpado(s). Adianta, sim, ter competência para mudar a situação atual.

Enquanto ela não vem, é melhor ficar com o que temos de melhor.

A nossa história, os nossos “hinos”. Porque, atualmente, vivemos dela.

 Capiba

HINO OFICIAL DO SANTA CRUZ FUTEBOL CLUBE

Nos anais, nos calendários

Fiquem sempre por lembrança

Teus lauréis extraordinários

De bravura e de pujança

Nos esportes tua história

É orgulho a que faz jus

Este símbolo de glória

Que é teu nome Santa Cruz

Uma voz proclama e canta

É a voz das multidões

Santa Cruz, querido Santa!

Campeão dos campeões

Esta multidão tamanha

Gente pobre que te aclama

Lembra o ouro que se apanha

Nos cascalhos e na lama

Esse ouro é sangue, é vida

É delírio, raça, e amor

A bandeira tão querida

A bandeira tricolor.

 Capiba

O MAIS QUERIDO

Santa Cruz! Santa Cruz!

Junta mais esta vitória

Santa Cruz! Santa Cruz!

Ao teu passado de glória.

És o querido do povo

O terror do Nordeste no gramado

Tuas vitórias de hoje

Nos lembram vitórias do passado

Clube querido da multidão

Tu és o Supercampeão !