Psicografia de um fantasma
- 5 de fevereiro de 2010 | 10:50h
- Opinião
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Hoje, depois de alguns dias, uma multidão tentou voltar à normalidade. Saímos de casa para trabalhar, cuidar dos estudos ou de nossas vidas, mas nos pusemos mesmo foi a perambular. Batendo pernas, olhei para a multidão e enxerguei em nós uma legião de desafortunados – para os que preferem abrandar o sentimento – ou desgraçados – para os que já não têm mais o pudor de expor as vísceras em praça pública.
Em seguida, me senti um homem de sorte. Tenho sorte de ser um velho ou um pouco mais velho do que fui ontem. Isso, ao menos, me deu a oportunidade de ver alguma glória, de assistir toda aquela geração de craques que passaram pelos nossos gramados. Por isso, tenho pena dos mais jovens. Esses sim pertencem a uma geração de frustrados. Não viram nada de bom. Apenas sofreram. Não foram forjados tão-somente na dor, mas na falta de esperança.[i]
A derrota da última quarta foi apenas mais uma derrota. E seria mais uma derrota, se ela não viesse acompanhada da desesperação, do estado de consciência e desânimo de quem se julga numa situação sem saída. Talvez, por isso, a derrota já não gere mais revolta. Longe disso. O coração já não se encontra mais insatisfeito, condição indispensável para botar o mundo em ebulição. Já não cobramos resultados, nem exigimos mais isso ou aquilo. De tão insaciados, nos saciamos com o vazio. Bebemos o vazio, como se bebe água, só que sem a saciedade que a água traz. Agora, saímos às ruas calados. Nos pomos a perambular, andar por andar, sem graça, amedrontados com o possível desfecho que nos espera lá na frente, incapazes que somos de mudar o nosso próprio caminho. Não parecemos mais torcedores. Mais parecemos mortos-vivos vagando numa cidade fantasma. Talvez seja isso mesmo: todos nós tricolores nos tornamos fantasmas.
Reconheço em FBC a virtude da novidade. Também reconheço nele a melhor oportunidade que tivemos nos últimos tempos para sair do chão. Reconheço ainda mais a sua tentativa, cada vez mais solitária, de levantar o clube e a capacidade que poucos têm de captar recursos. Mas reconheço, mais que tudo, que até aqui FBC tem fracassado. Embora necessário e importante, não foi o bastante reformar o estádio ou trazer a seleção brasileira para jogar no Arruda. Talvez, ele não tenha compreendido o mundo da bola e tenha trazido, cá pra dentro do clube, a lógica da política partidária, cujo empreendedorismo se dá bem mais na execução de obras, possivelmente pela visibilidade que as obras dão. Talvez ele não tenha compreendido que, como presidente de um clube de futebol, administre paixões. E mesmo fincando-se o pé na questão do empreendedorismo, por certo, esqueceu do básico – não necessariamente fácil, mas ainda assim básico – de manter uma escrituração contábil, de botar nas ruas uma campanha de sócios, de buscar a modernização administrativa do Santa Cruz, de prepará-lo para o futuro.
Também ao tenta acomodar quem não podia ser acomodado em sua mesa, achando, por certo, que agradava à torcida, FBC trouxe parte dela contra si, amargou as primeiras oposições dentro do Conselho Deliberativo e condenou o nosso futebol ao continuísmo. Misturou quem não se mistura e deu ouvidos a quem não tem mais o que dizer. Submeteu-se ao passado, ciente do fracasso do seu primeiro ano de gestão no futebol, ao invés de tentar buscar o novo de novo.
FBC caiu na mesmice de contratar técnicos absurdamente inexperientes ou absolutamente ultrapassados. Também se assemelhou aos nossos infelizes ex-dirigentes ao persistir no erro, como na inexplicável manutenção de Lori Sandri, que cultiva o péssimo hábito, tão comum aos afeitos à mediocridade, de expor publicamente o clube que lhe paga o salário, apenas para justificar o injustificável.
Apesar de tantos baques, nosso apego ainda muito vivo a FBC vem de uma única razão: não há ninguém à vista que possa nos dar alguma esperança. Temos essa mania de procurar um messias, por mais que a neguemos por três vezes. Sonhamos com um Xeque árabe que sustente nosso clube. Mas, não é de hoje, a esperança nos deixou na mão. FBC tinha e – prefiro acreditar, em nome da minha sanidade mental, ainda tem – potencial para levantar o Santa Cruz. Mas passados mais da metade de sua gestão, o potencial se solidifica, dia-a-dia, como frustração.
Se terminar assim seu mandato, sem acrescentar nada ao nosso futebol, FBC também será como um de nós e perambulará pelas ruas da cidade feito um fantasma, ainda que no terceiro dia ressuscite pelas mãos da política partidária. Nós, ao contrário, continuaremos vagando por aí sem mesmo saber que já estamos mortos.
[i] Inspirado numa conversa com Artur Perrusi.












